Apoio:

Ouça-me, irmão.
Ouçam-me todos vós que sofreis. Ouçam-me os de espírito
conturbado, os que não sabem o caminho, que se perdem nas encruzilhadas
da vida. Eu preciso escrever, preciso falar-vos, antes que o sol escureça,
antes que as estrelas percam seu brilho, antes que as flores murchem e
percam seu perfume. Antes que eu já não seja, preciso falar-vos.
Palmilhei todas
as estradas, sorvi todas as dores, chorei todos os caminhos, até
me sentir corpo, até me sentir alma, até me sentir corpo
e alma, fragmentado por inteiro. Ví feiura na beleza e também
ví que muitas vezes era belo o feio. Ví que muitas vezes
os que olhavam não enxergavam e cegos podiam ver, através
da sensibilidade. Constatei que os olhos do coração eram
infantis e bons, e os olhos da razão, cruéis.
Meus ossos e minha carne sentiam a vida dura, mas meu coração
a via bela, pois ele queria ver assim. Mas não existe beleza aonde
não tem amor.
Ouçam-me
todos vós , e tremei diante do coração e chorai diante
da razão. Um não cede ao outro, sendo ambos implacáveis.
Guiando-nos pela razão, temos que olvidar a sensibilidade; e guiando-nos
pelo coração, temos de aceitar as possibilidades de muitos
e muitos erros. Não posso perdoar a razão e não posso
arrazoar o coração...
Mas a vida
só tem esses dois caminhos, pensava eu. Andar por um é deixar
que te façam sofrer sem razão. E andar por outro é
achar razão para que os outros sofram. O caminho da razão,
se visto pelo coração, pode te parecer mau, embora se te
faça justo; e o caminho do coração se te fará
bom, mas ser-te-á injusto. O sábio diz: Não sejas
nem muito justo e nem muito injusto. Porque te destruirias a te mesmo?
Procura teu
equilíbrio, parece dizer. Anda pela estrada da razão, sem
afastar-te da do coração. Mas, mesmo assim, a estrada da
razão te parece injusta, e a do coração te faz sofrer.
E você já não sabe mais qual das duas trilhar. Não
sabemos qual é o momento exato de trilhar uma ou outra. E tudo se
confunde em nosso espírito. Quando meu pé deverá
tocar a estrada do coração? Quando meu coração
deverá caminhar na estrada da razão? Responda-me, se tu o
sabes. Ensina-me, se tu já conseguiste tal equilíbrio.
Aliás,
se trilhastes as duas estradas, sem errar teus passos, és um semi-deus.
Estás acima da maldade, da mentira, do egoísmo, das incertezas
e dos erros humanos. És um semi-deus, realmente. Pois achar o equilíbrio
para os pés do teu espírito caminhar essas duas estradas,
implica não em ser você por você mesmo. Implica não
em arrazoar o teu coração ou em dar sensibilidade à
tua razão, mas em conviver com a razão e o coração
dos outros. E a razão do outro irá ferir teu coração
e desarrazoarte; o coração do outro poderá fortalecer
ou enfraquecer tua razão. E não saberás qual caminho
o outro pisa, e não saberás, por essa razão, o caminho
que tu mesmo pisa.
Não
sabendo qual caminho trilhar, pois não sabes qual caminho o outro
está trilhando, acabarás estraçalhando teu coração
no caminho da razão e perderás tua razão no caminho
do coração. Chorarás desarrazoado, pois ninguém
dará razão ao teu choro. Mas, se teu coração
por acaso encontrar razão para o riso, mesmo dolorido, também
ninguém dará razão à tua falsa alegria.
Ouça-me
tu, antes que o sol se ponha e as obras cessem e a escuridão
e o silêncio total finalmente caiam sobre teu horizonte, não
importando por quais veredas andou. Cada um de nós tem um coração,
e este tem a sua razão. Como ninguém pode trilhar o caminho
cósmico de outro alguém, não podeis deixar vosso coração
ser dominado pela razão do outro e tampouco podereis permitir o
coração de outro tirar a tua razão.
Ouça
teu coração, pondera tua razão. Não coloque
teu coração no caminho da razão, e nem esta no caminho
do coração. Porém, não pise o caminho do coração
sem ouvir antes a razão, e não trilhes sem coração
o caminho da razão. Busca tu, se possível, o teu equilíbrio,
e sê um semi-deus. Eu que vos escrevo tudo isso, já me perdi
pelas minhas veredas. Não consegui encontrar meu equilíbrio
e magoei meu coração e perdi minha razão.
Tentei ser pai, sem nem
sequer saber se tinha sido filho; tentei ser marido, sem nem sequer saber
se era homem; e tentei amar, sem saber ao certo o que era amor.
Tentei ver na minha cegueira, tentei andar na minha paralisia, tentei amar
com meu desamor, tentei ser justo na minha injustiça, tentei ser
sábio na minha estupidez, tentei ser são na minha loucura,
e ví que tudo era ruim antes, e ví que tudo seria pior depois.
Resolvi andar
somente na estrada da razão, e percebi que não havia razão
para o amor. Não havia razão para ser infeliz e nem tampouco
para ser feliz. Depois caminhei somente a estrada do coração,
e daí ví a razão da felicidade e da infelicidade,
e cheguei à conclusão de que o amor não tinha razão...
Quem só anda pelo caminho da razão, não pode amar.
E quem só anda pelo caminho do coração, perde a razão.
Assim, sem
nada entender, porém, mais calmo, parei com os pés calcando
os dois caminhos e olhei para trás. As veredas já haviam
se emaranhado e eu não mais poderia discernir qual caminho era qual;
olhei para a frente e senti meu espírito trêmulo. Os caminhos
estavam lá, nítidos, e eu teria de caminhar por eles, buscando
ainda o equilíbrio que até então não encontrara.
Olhei para
o alto, buscando respostas, mas no alto ví apenas a indefinição
das brancas nuvens e o azul silencioso do céu. E eu continuei sem
entender porque razão estava caminhando, mas meu coração
sabia quando começara a caminhar, mas nem ele e nem a razão
sabiam de onde eu estava vindo. Eu sabia, no entanto, aonde o caminho iria
terminar, mas não sabia que outro caminho - ou caminhos, ainda iria
trilhar.
Então,
cada vez mais perdido, olhei para o chão, desanimado. Foi quando
vi um terceiro caminho e fiquei apavorado! E mesmo titubeando, procurei
de todas as formas manter meus pés, ora no caminho da razão,
ora no caminho do coração, pois paralelo aos dois caminhos,
existia um terceiro caminho. E ele era o caminho da loucura. E eu sabia
que antes que os caminhos da minha estrada se fundissem na única
e final vereda da morte, eu corria o risco de me perder entre o caminho
da razão e do coração e então iria trilhar
tão somente o caminho da loucura, no qual eu não poderia
mais ver os outros dois caminhos. E não haveria mais escolha...
Assim, mesmo
a contragosto, continuei a caminhar, ponderando com a razão e o
coração, que nas veredas da vida, só os loucos podem
ser felizes. Afinal, o coração deles não encontra
razão para não sê-lo. Nenhuma razão... |
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
|

ESPECIAIS
GRANDES
MATÉRIAS
MUNDO
SERTANEJO
NOSSOS
HERÓIS
OS
REVOLUCIONÁRIOS
ARTIGOS
E CRÔNICAS
CLIPES
E MÚSICAS
CONTOS
HOME
PAGE
|