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Os
3 Caminhos

Ouça-me, irmão. Ouçam-me
todos vós que sofreis. Ouçam-me os de espírito conturbado,
os que não sabem o caminho, que se perdem nas encruzilhadas da vida.
Eu preciso escrever, preciso falar-vos, antes que o sol escureça,
antes que as estrelas percam seu brilho, antes que as flores murchem e
percam seu perfume. Antes que eu já não seja, preciso falar-vos.
Palmilhei todas as estradas,
sorvi todas as dores, chorei todos os caminhos, até me sentir corpo,
até me sentir alma, até me sentir corpo e alma, fragmentado
por inteiro. Ví feiura na beleza e também ví que muitas
vezes era belo o feio. Ví que muitas vezes os que olhavam não
enxergavam e cegos podiam ver, através da sensibilidade. Constatei
que os olhos do coração eram infantis e bons, e os olhos
da razão, cruéis. Meus ossos e minha carne sentiam
a vida dura, mas meu coração a via bela, pois ele queria
ver assim. Mas não existe beleza aonde não tem amor.
Ouçam-me todos vós
, e tremei diante do coração e chorai diante da razão.
Um não cede ao outro, sendo ambos implacáveis. Guiando-nos
pela razão, temos que olvidar a sensibilidade; e guiando-nos pelo
coração, temos de aceitar as possibilidades de muitos e muitos
erros. Não posso perdoar a razão e não posso arrazoar
o coração...
Mas a vida só tem
esses dois caminhos, pensava eu. Andar por um é deixar que te façam
sofrer sem razão. E andar por outro é achar razão
para que os outros sofram. O caminho da razão, se visto pelo coração,
pode te parecer mau, embora se te faça justo; e o caminho do coração
se te fará bom, mas ser-te-á injusto. O sábio diz:
Não sejas nem muito justo e nem muito injusto. Porque te destruirias
a te mesmo?
Procura teu equilíbrio,
parece dizer. Anda pela estrada da razão, sem afastar-te da do coração.
Mas, mesmo assim, a estrada da razão te parece injusta, e a do coração
te faz sofrer. E você já não sabe mais qual das duas
trilhar. Não sabemos qual é o momento exato de trilhar uma
ou outra. E tudo se confunde em nosso espírito. Quando meu
pé deverá tocar a estrada do coração? Quando
meu coração deverá caminhar na estrada da razão?
Responda-me, se tu o sabes. Ensina-me, se tu já conseguiste tal
equilíbrio.
Aliás, se trilhastes
as duas estradas, sem errar teus passos, és um semi-deus. Estás
acima da maldade, da mentira, do egoísmo, das incertezas e dos erros
humanos. És um semi-deus, realmente. Pois achar o equilíbrio
para os pés do teu espírito caminhar essas duas estradas,
implica não em ser você por você mesmo. Implica não
em arrazoar o teu coração ou em dar sensibilidade à
tua razão, mas em conviver com a razão e o coração
dos outros. E a razão do outro irá ferir teu coração
e desarrazoarte; o coração do outro poderá fortalecer
ou enfraquecer tua razão. E não saberás qual caminho
o outro pisa, e não saberás, por essa razão, o caminho
que tu mesmo pisa.
Não sabendo qual caminho
trilhar, pois não sabes qual caminho o outro está trilhando,
acabarás estraçalhando teu coração no caminho
da razão e perderás tua razão no caminho do coração.
Chorarás desarrazoado, pois ninguém dará razão
ao teu choro. Mas, se teu coração por acaso encontrar razão
para o riso, mesmo dolorido, também ninguém dará razão
à tua falsa alegria.
Ouça-me tu, antes
que o sol se ponha e as obras cessem e a escuridão e o silêncio
total finalmente caiam sobre teu horizonte, não importando por quais
veredas andou. Cada um de nós tem um coração, e este
tem a sua razão. Como ninguém pode trilhar o caminho cósmico
de outro alguém, não podeis deixar vosso coração
ser dominado pela razão do outro e tampouco podereis permitir o
coração de outro tirar a tua razão.
Ouça teu coração,
pondera tua razão. Não coloque teu coração
no caminho da razão, e nem esta no caminho do coração.
Porém, não pise o caminho do coração sem ouvir
antes a razão, e não trilhes sem coração o
caminho da razão. Busca tu, se possível, o teu equilíbrio,
e sê um semi-deus. Eu que vos escrevo tudo isso, já me perdi
pelas minhas veredas. Não consegui encontrar meu equilíbrio
e magoei meu coração e perdi minha razão.
Tentei ser pai, sem nem sequer saber se
tinha sido filho; tentei ser marido, sem nem sequer saber se era homem;
e tentei amar, sem saber ao certo o que era amor. Tentei ver
na minha cegueira, tentei andar na minha paralisia, tentei amar com meu
desamor, tentei ser justo na minha injustiça, tentei ser sábio
na minha estupidez, tentei ser são na minha loucura, e ví
que tudo era ruim antes, e ví que tudo seria pior depois.
Resolvi andar somente na
estrada da razão, e percebi que não havia razão para
o amor. Não havia razão para ser infeliz e nem tampouco para
ser feliz. Depois caminhei somente a estrada do coração,
e daí ví a razão da felicidade e da infelicidade,
e cheguei à conclusão de que o amor não tinha razão...
Quem só anda pelo caminho da razão, não pode amar.
E quem só anda pelo caminho do coração, perde a razão.
Assim, sem nada entender,
porém, mais calmo, parei com os pés calcando os dois caminhos
e olhei para trás. As veredas já haviam se emaranhado e eu
não mais poderia discernir qual caminho era qual; olhei para a frente
e senti meu espírito trêmulo. Os caminhos estavam lá,
nítidos, e eu teria de caminhar por eles, buscando ainda o equilíbrio
que até então não encontrara.
Olhei para o alto, buscando
respostas, mas no alto ví apenas a indefinição das
brancas nuvens e o azul silencioso do céu. E eu continuei sem entender
porque razão estava caminhando, mas meu coração sabia
quando começara a caminhar, mas nem ele e nem a razão sabiam
de onde eu estava vindo. Eu sabia, no entanto, aonde o caminho iria terminar,
mas não sabia que outro caminho - ou caminhos, ainda iria trilhar.
Então, cada vez mais
perdido, olhei para o chão, desanimado. Foi quando vi um terceiro
caminho e fiquei apavorado! E mesmo titubeando, procurei de todas as formas
manter meus pés, ora no caminho da razão, ora no caminho
do coração, pois paralelo aos dois caminhos, existia um terceiro
caminho. E ele era o caminho da loucura. E eu sabia que antes que os caminhos
da minha estrada se fundissem na única e final vereda da morte,
eu corria o risco de me perder entre o caminho da razão e do coração
e então iria trilhar tão somente o caminho da loucura, no
qual eu não poderia mais ver os outros dois caminhos. E não
haveria mais escolha...
Assim, mesmo a contragosto,
continuei a caminhar, ponderando com a razão e o coração,
que nas veredas da vida, só os loucos podem ser felizes. Afinal,
o coração deles não encontra razão para não
sê-lo. Nenhuma razão...
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