No ano passado foi comemorado em
todo país o centenário de nascimento do caucasiano de olhos
verdes maior compositor de samba que o Brasil jamais teve: Adoniran Barbosa.
Ele tinha a mesma cara dos italianos imigrantes que ele perpetuaria em
suas músicas e sua fala arrastada, misturada de sotaque português
e macarrônico, jamais demonstrariam que ele foi o maior sambista
de São Paulo e levaria para a história da música,
ao seu lado, o bairro da Mooca (o Bexiga), o local que permeava com sua
gente as notas dos sambas de Adoniran.
Seu nome era João Rubinato.
Sétimo e último rebento - como ele mesmo dizia - de um casal
de imigrantes italianos do Vêneto. Nasceu em Valinhos (SP), então
distrito de Campinas, no dia 6 de agosto de 1910, conforme consta na certidão
de nascimento e na carteira de identidade.
A data centenária foi comemorada
principalmente nos bairros da cidade de São Paulo imortalizados
em seus mais de cem sambas, ainda que não seja isenta de controvérsias,
como outros aspectos de sua vida: para alguns ele teria sido "envelhecido"
dois anos de forma a poder colaborar no sustento da família, já
ao tempo da escola primária, ajudando o pai a carregar e descarregar
vagões da São Paulo Railway em Jundiaí, uma das pontas
da estrada de ferro construída pelos ingleses para ligar o interior
paulista ao porto de Santos.
Nascido e criado numa época
em que as ferrovias eram predominantes, Adoniran eternizaria esse meio
de transporte em seu maior sucesso, Trem das Onze, reservando profeticamente
para o automóvel o papel de vilão, como nas músicas
Iracema (atropelada ao atravessar na contramão a Avenida São
João) e Tiro ao Árvaro ("Teu olhar mata mais que atropelamento
de automóver").
Sempre reservado a respeito da própria
intimidade, Adoniran cortava as especulações sobre seu nascimento
com uma de suas frases típicas: "Não nasci, porque pobre
não nasce. Aparece..." A pobreza, de fato, marcou a vida do menino
rebelde expulso do grupo escolar, no terceiro ano, apenas com os rudimentos
das letras e dos números.
A partir daí ele trabalharia
sucessivamente como entregador de marmitas e varredor, ainda em Jundiaí,
e depois em Santo André, no ABC paulista, como tecelão, pintor
de paredes, encanador, serralheiro, metalúrgico e garçom.
"Tanta coisa que eu fui e só
deu pra fazer samba. Fazia samba no caminho, andando. Vivia batucando,
mandavam logo embora. Eu só queria fazer samba", confessaria Adoniran
em 1972 no programa "MPB Especial", da TV Cultura de São Paulo,
criado por Fernando Faro, autor também de "Ensaio", na mesma emissora.
Ambas as séries resultaram na monumental coleção de
CDs e livros intitulada A Música Brasileira deste Século
por Seus Autores e Intérpretes, editada no ano 2000 pelo Sesc -
SP em parceria com a Fundação Padre Anchieta, cujo volume
1 é encabeçado precisamente por Adoniran Barbosa.
Em 1932 João Rubinato chega
à cidade em que viveria pelos 50 anos seguintes, até sua
morte, em 1982. Com cerca de 1 milhão de habitantes, a São
Paulo da década de 1930, com seus primeiros arranha-céus,
simbolizava o país que deixava de ser agrário e rural para
se urbanizar e industrializar. Na multidão apinhada nos bondes ou
que andava apressada pelas ruas Direita e São Bento destacavam-se
tanto o português macarrônico dos imigrantes italianos, satirizado
pelo humor de Juó Bananére (de quem já falamos no
GNT), como a fala estropiada dos interioranos recém-chegados, os
caipiras retratados por Cornélio Pires.
Dessas vertentes nasceriam obras-primas
como Samba Italiano -no idioma de Dante, que ouvia quando criança
- e Samba do Arnesto, em cuja casa "nóis fumo e não encontremos
ninguém", emblemático da arte de falar errado (como ele definia),
que se tornaria a marca registrada do compositor.
Fazer samba, porém, ainda
era um horizonte distante para o jovem que passou a ganhar a vida entregando
"pras madamas" os tecidos de uma loja da Rua 25 de Março, enquanto
acalentava o sonho de ser artista.
Ayrton Mugnaini Jr., conta no livro
Adoniran (Editora 34): "Ao saber que João Rubinato queimava o cérebro
em busca de um nome artístico incomum e marcante, um colega de boemia,
Adoniran Alves, lhe propõe: Por que você não adota
meu nome, João? A sugestão de usar o nome biblico
foi aceita e completada com o sobrenome emprestado de um sambista carioca
famoso na época, morto precocemente, Luiz Barbosa (1910-1938).
O ano de 1934 assinala o nascimento
do compositor Adoniran Barbosa, com a marchinha Dona Boa, feita em parceria
com o carioca J. Aimberê. Gravada por Raul Torres (1906-1970), um
dos pioneiros da música caipira feita na cidade grande. A música
foi a vencedora do concurso de carnaval da prefeitura de São Paulo,
embora estivesse a anos-luz de distância das composições
maduras que Adoniran faria 20 anos mais tarde.
Classificada por ele mesmo como
"uma porcaria', rendeu-lhe a quantia significativa na época de 300
mil-réis, que torrou bebendo com os amigos em uma única noite.
Garantiu-lhe, também, um programa exclusivo na Rádio São
Paulo, a mesma que abrigava em seu cast a dupla Alvarenga e Ranchinho,
a mais popular e ousada da época, por suas sátiras de caráter
político.
O sucesso encoraja Adoniran a pedir
a mão de Olga Krum, bela e jovem descendente de alemães.
O casamento dura menos de um ano, mas deixa como fruto a filha Maria Helena
Rubinato, que seria criada no Rio de Janeiro por uma irmã de Adoniran.
Hoje é sua única descendente direta, já que não
houve filhos na união com Mathilde de Luttis, sua companheira por
40 anos, desde 1942, para quem compôs Prova de Carinho, comovente
oferta de uma aliança feita com a corda de um cavaquinho.
Adoniran
e os Demônios da Garoa
A
simbiose do samba

Assim como para o Brasil - que veria
a construção de Brasília, o aparecimento da Bossa
Nova e da indústria automobilística e a conquista do primeiro
campeonato mundial de futebol, a década de 1950 foi decisiva para
Adoniran Barbosa, que se transformaria em um dos ícones da cultura
paulista.
Deixando de lado o estilo de Noel
Rosa, que até então imitava, e colocando nas frases e melodias
o ambiente das ruas e das malocas que ele próprio ecoava nos programas
de rádio, entre 1951 e 1953 Adoniran compõe, entre outros,
dois de seus sambas imortais, Saudosa Maloca e Samba do Arnesto, que se
tornam sucessos imediatos nas interpretações dos Demônios
da Garoa, marcadas pelos característicos quais-quais-quais e cariguduns.
Reconhecidos pelo Guinness Book of Records como o grupo vocal-instrumental
de música popular de mais longa carreira ininterrupta (desde 1943),
os Demônios plasmam sua imagem na de Adoniran e vice-versa, numa
simbiose compositor-intérprete tão perfeita quanto havia
sido a de Noel e Aracy de Almeida ou seria a de Lupicínio Rodrigues
e Jamelão.
A dobradinha Adoniran-Demônios
da Garoa explodiria novamente em 1965 com a gravação de Trem
das Onze, que apesar de escolhida pelo público como a música
que mais tinha a "cara" de São Paulo, em votação realizada
pela Rede Globo no ano 2000 (desbancando Sampa, de Caetano Veloso), fez
sucesso inicialmente como campeã do carnaval carioca, justamente
no ano do 4° Centenário do Rio de Janeiro.
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