32 anos após esta
matéria, o terrorismo árabe, sob o comando de Osama Bin Laden,
provou aos americanos, de
maneira cruel, que jamais poderá ser subestimado.
Este grupo pode ser
a centelha de uma nova explosão no Oriente Médio (profecia?
- NE). Com sua ações cada vez mais violentas, seus integrantes
podem precipitar a eclosão de outro conflito entre árabes
e israelenses. O que são eles ? Criminosos, diz Israel. Patriotas,
afirmam alguns países árabes. Revolucionários, sustenta
a China. Ameaça à paz mundial, adverte a União Soviética.
Uma incógnita, dizem os Estados Unidos. O repórter Milton
Coelho percorreu a área conflagrada e demonstra aqui que a verdade
tem muitas faces quando Al Fatah ataca...
Eles
começam muito cedo no ofício de matar
Uma base do Al Fatah,
Jordânia, 11 horas da noite. Assisto à partida de um comando.
São nove homens, apenas o líder tem mais de 25 anos. Dois
são religiosos, eu os vi fazendo orações à
tarde, voltados para Meca. Não há demonstração
visível de nervosismo, mas posso sentir a tensão da espera,
especialmente nos três mais jovens, que vão para o seu batismo
de fogo. O objetivo, segundo me explicam, é uma pequena guarnição
militar israelense a 8 quilômetros apenas de onde estamos.
Outro grupo, chamado de
unidade de proteção, ficará nas margens do Jordão,
aguardando o retorno dos companheiros. Se tudo correr bem, voltarão
antes do sol nascer. Mas talvez não dê tempo e eles terão
de se ocultar até a noite de amanhã. A unidade de proteção
tem metralhadoras pesadas; sua missão é cobrir a travessia
do rio, caso os outros sejam perseguidos por soldados de Israel.
Pouco antes da partida,
o guia e o responsável pela operação repassam no mapa,
o caminho a percorrer, de onde as minas colocadas pelos israelenses foram
anteriormente retiradas.
Chega o minuto da verdade.
O comandante sai à frente e todos os outros se esgueiram, um a um,
entre a vegetação que circunda a base. Vou no final da coluna,
acompanhado de perto por um dos elementos da unidade de proteção.
Aproximamo-nos do rio Jordão, posso ver a rampa do lado oposto,
apesar da fraca lua de quarto minguante.
Meu acompanhante segura-me
o braço: daqui em diante não posso continuar. As sombras
à minha frente desaparecem, vai começar a longa espera. Sou
levado de volta à base.
Abu Kamal, o chefe do grupo,
explica-me como é feito o trabalho preliminar de limpeza do terreno.
Todos os dias, homens especializados atravessam o rio e vão verificar
se há novos campos minados. As minas anti-homem são enterradas
de forma que o detonador fique apenas 1 ou 2 centímetros do solo.
Elas são pequenas, não mais que 13 ou 15 centímetros
de diâmetro; uma pressão de 3 quilos basta para detoná-las.
É preciso cutucar o terreno levemente com uma faca. Quando a mina
é localizada, abre-se um buraco em torno dela, para ver se há
algo embaixo. Os israelenses usam muito este truque: embaixo da mina amarram
uma granada: se alguém a retira por cima, o pino de segurança
sai e ela explode.
- no princípio –
diz Abu Kamal -, muitos dos nossos morreram, perderam o braço
ou ficaram cegos por não conhecerem essa armadilha. Agora, isso
só acontece quando eles não seguem os conselhos que lhes
são incessantemente repetidos.
Os guias das operações
são cuidadosamente escolhidos, pois sua importância é
igual ou até maior que a dos chefes. Poucos dias antes, contam-me,
catorze homens caíram numa emboscada porque o guia não conhecia
bastante bem o terreno. Saldo do erro: cinco mortes e nove prisioneiros.
Vou dormir. Acordo às
5 horas da manhã com o estrondo de canhões. A artilharia
jordaniana, instalada nas montanhas às nossas costas, duela com
a israelense, como ocorre quase diariamente. Mas isso nada tem a ver com
a operação. E os rapazes não voltaram ainda.
- Nem voltarão mais
hoje – diz Abul Kamal. – Estão escondidos em alguma de nossas bases
do lado de lá. Ou houve alguma coisa e logo saberemos.
Três dias depois,
descobrirei que algo realmente aconteceu. No tiroteio com a guarnição
israelense, um dos novatos morreu e dois outros homens voltaram feridos.
Entre os israelenses, pelo menos dois mortos e vários feridos, diz
um comunicado distribuído ao jornais jordanianos.
É a rotina desta
guerra.
Onde
os meninos são armas secretas
Mohamed Azakir, do Reuters,
premiado pela foto que mostra o desespero causado
por uma guerra insana -
aliás, como a maioria das guerras o são.
Foi no 14º dia
da minha viagem que consegui ver um comando do Al Fatah no fogo do combate.
Era mais uma etapa de uma longa perseguição por Agel, Beirute
e Damasco. Em cada uma dessas cidades assinei papéis, entreguei
fotografias, recebi cartas de apresentação. Em Amã,
finalmente, preenchi a última ficha, informei meu endereço
no Brasil.
- Pode lhe acontecer alguma
coisa, precisamos saber a quem avisar.
Agora, o jipe Land Rover
sobe penosamente a estrada difícil. As cortinas estão baixadas,
não sei o rumo em que vou: sei apenas que saí de Amã,
capital da Jordânia, há mais de hora e meia. O jipe estremece
e pára. A cortina traseira se levanta, a cara sorridente do motorista
aparece.
- Chegamos, pode descer.
Estamos num campo de treinamento
do Al Fatah, a maior das organizações palestinas que pregam
a destruição de Israel pela guerra de guerrilhas. A 5 metros
de distância, um menino – treze anos, no máximo – olha-me
fixamente, um olhar tão inesperado e desconcertante pra sua idade
como o fuzil-metralhadora que carrega a tiracolo. Além do menino
sentinela, as nascentes de um rio abrem uma imagem paradisíaca na
paisagem áspera das montanhas. Lugar ideal para um piquenique, com
um pequeno bosque ladeando as águas, que correm limpas e rápidas
sobre um leito de pedras. Mas aqui não se fazem piqueniques. Aqui
se preparam os homens que, protegidos pela noite, atravessam o rio
Jordão e vão atacar os kibutzin, quartéis, oleodutos,
escolas, supermercados, pontes, usinas – tudo enfim que marca a existência
de Israel na Palestina.
Abu El-Abd tem trinta anos.
A vida de combates, desde 1957, deu-lhe a aparência de quarentão.
Executou mais de cinqüenta missões nos territórios ocupados
por Israel, e agora é comandante de um campo de treinamento. Ele
recebe-me em sua tenda, ladeado por seus dois auxiliares imediatos, e dispõe-se
a responder minhas indagações. Explica que, em cada trimestre,
175 novos recrutas aprendem com ele a viver no deserto, comendo sapos e
cobras, crus, se necessário; a manejar todo tipo de armas, da pistola
ao foguete russo Katyucha; a matar a sede colocando uma pedra sob a língua;
a nadar, rastejar, atravessar desfiladeiros pendurados em cordas, a montar
a desmontar minas, fabricar e usar explosivos, destruir tanques.
A demonstração
que me fazem dura cinco horas e tem toques cinematográficos: os
alunos atravessam um riacho, cruzam cercas de arame farpado e pulam sobre
fogueiras, enquanto Abu El-Abd dispara rajadas de tiro real a centímetros
de suas cabeças e pés.
Ele diz que apenas
70 por cento dos homens são aproveitados. Admite que as perdas do
Fatah eram grandes a princípio. Agora, entretanto – ele afirma -,
seus homens são “melhor preparados do que os soldados israelenses”.
Lembro que estes servem durante três anos e que Israel aperfeiçoa
cada vez mais seu dispositivo de segurança. Ao longo de todas as
fronteiras e especialmente nos 100 quilômetros do vale do rio Jordão,
existem campos de minas, dispositivos eletrônicos moderníssimos,
pequenas patrulhas a cada 500 metros, luzes infravermelhas que permitem
identificar um inimigo mesmo na mais completa escuridão, helicópteros
sempre prontos a decolar. Argumento, ainda, que o terreno dificulta a infiltração:
não há florestas, os fedayin (nome dado a esses combatentes
árabes) tem de atravessar o vale praticamente a descoberto.
Abu El-Abd balança
a cabeça. Diz que poderia levar-me agora mesmo, à luz do
dia, a qualquer ponto dos territórios ocupados por Israel. Somente
em junho passado – afirma -, o Al Fatah realizou mais de 120 operações;
o total desde janeiro de 1965 é superior a 1300. (Esses números
são muito exagerados, segundo pude constatar posteriormente em Israel.)
Converso com Fayez. Com
dezesseis anos de idade, já esteve seis vezes em território
ocupado. Uma vez foi gravemente ferido no abdomem e passou quatro meses
no hospital. E ainda tem ataduras numa perna, lembrança de um tiro
recente.
- Você não
acha, Fayez, que seria mais útil a seu povo se estivesse estudando
?
- Mais tarde terei tempo
de estudar. Agora é tempo de lutar.
Pergunto a Abul El-Abd por
que há tantos meninos de doze a dezesseis anos entre seus soldados.
- Há certas coisas
que só os meninos podem fazer – diz ele. E encerra o assunto.
O equipamento básico
dos fedayin inclui um fuzil Kalashnikov, que pesa pouco mais de 4 quilos
e dá uma rajada de trinta tiros em menos de quatro segundos. Conforme
a missão a realizar, cada grupo leva também uma metralhadora
pesada Dieterinov, que pode servir, como antiaérea, uma bazuca ou
um lança-foguetes. Ou, às vezes, apenas minas e explosivos.
Quase ao pôr do sol,
sou convidado para um almoço, servido no chão sobre cobertores.
Muita verdura e sardinha em lata apagam o gosto dos pedaços de cobra
assada e sapo cru que tive de provar. Os homens reúnem-se sob as
árvores e dançam ritmos folclóricos ao som de uma
flauta e uma lata de banha. Fazem questão de frisar: são
músicas palestinas, não apenas árabes.
Aqueles
que devem morrer

Fedayin em árabe
significa “os redentores” ou “aqueles que se sacrificam”. A guerra de 1948,
desencadeada pelos países árabes contra o recém-nascido
Estado de Israel, foi uma jddah, uma guerra santa inspirada pelo fanatismo
muçulmano, que, acima de tudo, visava a eliminar os “intrusos infiéis”,
segundo o modelo das guerras conduzidas por Maomé.
Da derrota nasceram os fedayins.
Eram recrutados entre os refugiados e preparados para missões-suicidas
contra Israel. A grande maioria, no início, constituía-se
de fanáticos religiosos ou simples marginais, que não raramente
vendiam as armas recebidas e fugiam. O recrutamento era feito então
principalmente pelos Irmãos Muçulmanos, uma organização
de extrema direita religiosa. Depois, com o apoio dos governos árabes,
criou-se a Organização de Libertação
da Palestina, liderada por Ahmed Chukeiry. A OLP organizou um éxercito
de tipo convencional, cujas unidades eram integradas nos outros exércitos
árabes, especialmente do Egito.
Muitos outros grupos, entretanto,
começaram a ser criados, especialmente entre estudantes no exílio.
Curioso paradoxo: embora mais da metade dos quase 3 milhões de palestinos
estejam confinados em campos de refugiados, eles são os árabes
de maior nível educacional. As crianças não têm
o que fazer senão ir à escola, e uma bolsa de estudos no
Exterior é a única fuga possível. Por isso, há
menos de 20 por cento de analfabetos entre eles, e mais de 50 mil universitários
espalhados pelo mundo.
A partir da guerra de 1956,
esses grupos se foram fortalecendo, na medida em que o desespero crescia
nos campos dos refugiados. A guerra dos Seis Dias, em 1967, foi a gota
final. Mais uma derrota fácil dos exércitos árabes
esgotou o resto de confiança que ainda mereciam das facções
mais radicais. Oficiais palestinos que serviam nos exércitos sírio
e egípcio abandonam as fileiras e vão juntar-se às
organizações que pregam a guerrilha, feita pelos próprios
palestinos. Com dinheiro de origem até hoje não bem explicada,
essas organizações compram dos beduínos as armas
arrecadadas no deserto, após a Guerra dos Seis Dias. Depois passam
a obter armamento soviético através da China.
Uma
luta só, muitas idéias

O ano de 1968 registra
uma lenta porém constante escalada desses grupos, especialmente
do Al Fatah, que significa “reconquista” e é formado pelas iniciais
de Harakat al-Tahrir al-Watani Philistini (Movimento Nacional de Libertação
da Palestina). Al Fatah nasceu dentro da União de Estudantes Palestinos,
de 15 mil membros, da qual seu líder, Yasser Arafat, foi presidente.
Arafat, cujo nome de guerra é Abu Amar (todos os membros da Al Fatah
tem um nome de guerra precedido pela palavra Abu, que significa “pai de”,
mesmo aqueles que não tem filhos), sente-se bastante forte em fins
de 1968, para um golpe político de largo alcance. Funda o Conselho
Nacional da Palestina com a participação de todas as organizações,
inclusive a OLP. Ahmed Chukeiry compreende que, com isso, Arafat passara
a manejar o aparelho burocrático que ele construíra durante
vinte anos e as verbas fornecidas oficialmente à OLP pelos
países árabes. Dos 105 lugares do Conselho Nacional, Arafat
e o Al Fatah ficam com mais de dois terços, Chukeiry e seus amigos
com menos de quinze.
Os novos recursos permitem
a compra de mais armas, os jovens afluem em quantidade crescente aos campos
de treinamento. Os palestinos saem da obscuridade de 21 anos, passam a
ser um novo elemento a complicar o jogo de interesses no Oriente Médio.
Naji Alush é um intelectual
que, há cinco anos, escreveu um livro em que criticava a pregação
do Al Fatah. Dizia:
“Por que devemos supor que
o exército israelense ficará com as mãos amarradas
diante dos ataques dos fedayin ? O exército de Israel destruirá
cidades e povoados árabes, e pode mesmo dar um passo decisivo, ocupando,
por exemplo, toda a margem ocidental do Jordão (o que ocorreria
posteriormente em 1967). O Al Fatah considera que, nas presentes circunstâncias,
os exércitos árabes são incapazes de varrer Israel,
enquanto uma entidade palestina é capaz de atingir esse milagre.
Como? Com a ajuda dos Estados Árabes e dos não árabes?
Vemos por isso a Estrada Revolucionária preconizada pelo Al Fatah
como um caminho que não oferece garantias. Os ataques dos fedayin
não podem esmagar Israel, por causa do preparo e das armas de que
este dispõe”.
No QG do Al Fatah em Amã,
a pessoa que me recebe se chama Naji Alush. Agora, ele fala outra linguagem:
- Nosso objetivo é
a criação de uma Palestina onde judeus e árabes possam
viver juntos sob o princípio “um homem, um voto”. Não somos
anti-semitas, porque nós mesmos somos semitas. Também não
somos anti-judeus sem problemas. Mas somos radicalmente anti-sionistas
e anti-imperialistas. Israel é produto do sionismo e instrumento
dos imperialismos ocidentais no Oriente Médio. Não poderá
haver paz enquanto Israel não for destruído!
As idéias de Naji
Alush representam apenas a esquerda do Al Fatah. Mais tarde descobrirei
que todos querem o fim de Israel, mas há profundas divergências
quanto aos outros objetivos. O espectro político do Al Fatah inclui
extremistas de direita.
O Al Fatah tem em suas fileiras
70 a 80 por cento dos combatentes palestinos. Por ser a maior organização,
é também heterogênea. Yasser Arafat, seu líder,
a quem encontro casualmente no QG de Amã, diz claramente:
- Este não é
o momento de termos divergências políticas ou ideológicas.
Nossa luta é comum, temos de nos unir contra Israel e o sionismo.
Depois discutiremos o resto.
Nem todos entretanto querem
discutir o resto depois. O Front Popular de Libertação
da Palestina – Jebbah Shabbya – não aceitou participar do Conselho
Nacional Palestino, organizado por Yasser Arafat. O Front Popular não
aceitou a divisão dos postos. Para consumo externo, costuma afirmar
que não quer receber dinheiro dos governos árabes. Na verdade,
entretanto, seus membros recusam qualquer discussão política.
Preconizam uma linha militar dura, implacável. O Front Popular foi
o autor dos ataques aos aviões da El-Al em Zurique e Atenas e, por
isso, é condenado pelas outras organizações, especialmente
pelas esquerdistas, a Frente Democrática (Jebbah Democratie) e Al
Saika (O Raio).
Fadel, um dos líderes
mais importantes do Front Popular, fala incisivamente:
- A revolução
não pode ser entregue a políticos. Somos uma organização
militar. Temos de ser bons combatentes e não ter conversa bonita.
A noite das bombas em Jerusalém
e as explosões no Hotel Ambassador e no bar do Hotel St. George
estão entre as muitas façanhas que o Front aponta como vitórias.
O líder da Frente
Democrática, Naif Hawartman, tem outra opinião a respeito.
Denuncia a ação do Front Popular como terrorismo vulgar,
que apenas serve para denegrir a imagem da luta palestina em todo o mundo.
- De que serve atacar aviões
civis ? Nossa principal tarefa é organizar a população
nos territórios ocupados e atacar apenas objetivos que representam
a dominação militar, econômica e cultural de Israel.
Naif proclama-se marxista-leninista,
simpatizante da China. Afirma categoricamente que não recebe um
só níquel de qualquer governo árabe e não
hesita em dizer:
- Nós nos sentimos
muito mais próximos dos progressistas de Israel do que dos reacionários
árabes.
Nesta
guerra suja, para os fedayin vale tudo
Leon Uris, em seu livro
Exodus (volumes 1 e 2), mostra toda a realidade
da luta entre israelitas
e árabes, desde a fundação do Estado de Israel, em
1948. Na foto,
Leon em Israel na década
de 50, já coletando material para seu best-seller.
O Front Popular, segundo
Naif, é apoiado pelos palestinos milionários e continua recebendo
contribuições do Iraque e do Egito. A Frente Democrática
não vê a menor possibilidade de vir a se ligar ao Fatah.
- Estamos convencidos –
diz Naif – de que não devemos nos diluir em outra organização.
Nossa luta deve ter um caráter revolucionário puro desde
já, para que as massas palestinas tenham clareza dos rumos a seguir.
A Al-Saika pensa diferente.
Ela é o braço armado da seção palestina do
Baas, um partido socialista pan-árabe que está no poder na
Síria e no Iraque. Mas é um partido dividido: o governo iraquiano
representa a direita do Bass e o sírio, a esquerda.
Uma
guerra imunda, sem quartel
Visitei bases de todas
as organizações. Nelas não se sente o menor vestígio
das divergências políticas. Todos vestem com maior ou menor
descaso os mesmos uniformes verdes ou de tecido camuflado (semelhante ao
de nossos pára-quedistas). Todos tem o mesmo armamento: fuzis Kalashnikov
e Semyonov, metralhadoras pesadas Dieterionov, minas aparentemente americanas.
A maior parte das armas, embora de modelos soviéticos, é
fabricada pela China.
O Front Popular leva-me
a seu QG, perto de Irbed, no Norte da Jordânia: uma caverna na rocha,
sobre a qual colocaram um reforço de concreto de 1 metro de largura.
Pergunto por que não tem receio de me mostrar o local.
- Os israelenses sabem a
localização – respondem.
Mostram-me as crateras no
alvo. Algumas janelas foram destruídas, bem como os tubos de ventilação,
mas o concreto resistiu.
- Eles descobriram o lugar
através de um companheiro de dezoito anos que foi capturado. Imaginamos
isso porque o ataque ocorreu 48 horas depois que o rapaz foi preso. Aqui
entretanto, não corremos perigo, só com bomba atômica
eles podem nos destruir.
Numa das bases ouço
gemidos vindos de um quarto. Recusam-se a dizer do que se trata. Dois dias
depois explicam tudo. Um traidor havia fornecido ao serviço secreto
de Israel informações que resultaram na prisão de
todo um grupo em território ocupado. Eles esperaram sua vinda à
Jordânia, como fazia habitualmente.
- Durante dois dias o torturamos
– narra friamente Bakr, o líder do grupo, - Ele nos deu uma longa
lista de nomes infiltrados em várias organizações
e até de oficiais egípcios que trabalham para Israel. Quando
não tinha mais nada e dizer, amarramos nele uma carga de 30 quilos
de explosivo e adeus a um traidor.
Não existem guerras
limpas, mas esta se nutre de ódios acumulados há 21 anos.
Os fedayin são terroristas e tratados como tal. Não consegui
permissão em Telavive para visitar qualquer dos 2 mil prisioneiros.
Desses, apenas pouco mais de 150 foram julgados, em grande parte condenados
à prisão perpétua. A facilidade com que a maior parte
dos presos denuncia os companheiros decorre parcialmente – como afirma
Israel – da falta de consciência política. Mas, em alguns
casos, isso só não explica.
Para os fedayin, os israelenses
são aqueles que tomaram suas terras e suas casas. Não há
contemplação. Numa base do Front Popular, um rapaz de quinze
anos contou-me como tornou-se especialista em envenenar os lagos artificiais
construídos nos kibutzin para a criação de peixes.
Outro contou-me com alegria como preparou uma mina horas antes e vira a
explosão matar dois soldados. E outro narrou-me com detalhes como
dinamitara a casa de um “colaboracionista” em Hebron, com toda a família
dentro dela.
Ouvi histórias inacreditáveis
de violência cometidas por ambos os lados, e todos oferecem a mesma
desculpa, absurdamente lógica: estamos em guerra, que podemos fazer?
- E para onde vamos com
essa guerra?
Paradoxalmente, a mesma
pergunta foi-me feita por um rico comerciante jordaniano, Farid,
de franca simpatia pelo rico Ocidente, e um veterano militante do Partido
Comunista, Fuad. Ambos vêm na escalada da luta palestina e na conseqüente
escalada das represálias de Israel o prenúncio de duas tragédias
nacionais:
Nestes
campos as sementes da violência
Baqaa parece uma das
cidades-satélites de Brasília. Mas logo a impressão
se desfaz: aqui não se constrói; apenas se espera. Em Baqaa
há 35 mil pessoas. Mais tarde verei outros acampamentos na própria
Jordânia, na Síria, no Líbano. São refugiados.
Fugiram da guerra em 1948, em 1965 e em 1967. Alguns participaram dos três
êxodos e, mais tarde, tiveram de abandonar o vale do Jordão,
em virtude de constantes bombardeios.
Não faz muito, quando
jornalistas estrangeiros visitavam os campos, as crianças corriam
a pedir esmola, em troca de se deixarem fotografar. Agora , correm, sorriem,
mas não estendem a mão.
Numa das dezesseis escolas
mantidas pelas Nações Unidas descubro a razão. Zora
tem quinze anos e faz questão de ler para mim um longo poema de
exaltação do povo palestino e de condenação
de Israel. Fatma tem doze anos e se orgulha dos dois irmãos mais
velhos, ambos fedayin. Zainab tem catorze e me diz:
- A paz não é
possível, é preciso lutar para voltar à nossa pátria.
- Que pátria? A Palestina
nunca existiu como nação. Desde a dispersão dos judeus
pelos romanos no ano 70, suas terras foram de muitos impérios, mas
jamais existiu uma nação palestina.
Agora, porém, ela
existe. Nasceu aos 21 anos dos campos de refugiados, das frustações
e misérias de uma longa espera pela solução que a
ONU, as grandes potências, Israel e os países árabes
não conseguem encontrar. Durante anos, os refugiados foram instrumentos
políticos dos governos árabes. Mas o sofrimento os uniu,
mostrou-lhes que eram algo diferente entre os árabes, deu-lhes a
consciência de serem uma nação.
Visito as clínicas
mantidas pela Inglaterra e Noruega. Vejo crianças recebendo alimentação
na cozinha sustentada pela ONU. Entro em algumas tendas. Aceito o chá
que me é oferecido por Abdel Rahman, de 38 anos. Era lavrador em
Jericó. Agora recebe mensalmente da ONU 10 quilos de farinha, açúcar,
azeite, arroz. Mas não quis, como outros, mudar para uma casa pré-fabricada,
pequena mas bem mais confortável do que sua tenda. Não quer
nada que pareça definitivo. Quer voltar para seu pequeno pedaço
de terra em Jericó. Todas as noites, às 7 horas, reúne-se
com os amigos para ouvir o programa radiofônico do Al Fatah, transmitido
do Cairo. Do pouco dinheiro que consegue obter, separa 10 por cento e os
entrega a um dos homens do Al Fatah. Gostaria de combater, mas não
deixaram: só querem os jovens.
Vou a uma clínica
do Al Fatah, no chamado “bairro dos jovens”, onde os policiais são
fedayin com braçadeiras vermelhas. Um médico mostra fotografias
tiradas no último inverno. O campo ficou coberto com 1 metro de
neve, a estrada bloqueada. Médicos e enfermeiras corriam nas tendas
com lama até os joelhos, para levar leite às crianças
e aplicar vacinas. Mas muita gente morreu porque não foi atendida
a tempo.
Espalhados no Libano, Jordânia,
Síria, Iraque e Egito, há mais de 1 milhão e meio
de refugiados. Morrem mil por ano, nascem quase 50 mil. São o centro
de todo o problema do Oriente Médio. No princípio eram a
lança que os governos árabes esgrimiam contra Israel, depois
tornaram-se um ferro em brasa nas mãos dos esgrimistas. Antes, os
países árabes queriam mantê-los nas tendas, e a Jordânia
foi o primeiro a dar-lhes cidadania. Hoje, pelos menos o Egito, o Líbano
e a própria Jordânia gostariam de solucionar o problema: absorver
os refugiados e dispersá-los pelo mundo.
- Israel é uma realidade
irremovível – diz-me Fuad . – O Fatah fala de guerra popular. Mas
como? Em Israel mesmo, isto é, afora os territórios ocupados
em 1967, vivem 2 milhões e meio de judeus, e apenas 300 mil árabes.
Como fazer uma guerra popular contra a maioria da população,
e uma maioria que já provou estar disposta a lutar até o
fim? Ainda há possibilidade de uma solução política,
pacífica, se Israel se dispuser a aceitar o retorno dos refugiados
e a eventual criação de um Estado palestino nos atuais territórios
ocupados. E nós temos de aprender a viver com Israel em nossas fronteiras.
Mas, se a luta continuar, não haverá mais solução
possível, senão o fim de um dos povos, ou dos dois.
- Nós não
podemos mais deter os fedayin – diz Farid.
No QG do Front Popular,
Abu Tarik vê a violência indiscriminada como um processo natural:
- Quanto mais problemas
criarmos, melhor. Nós atacamos o avião da El-Al em Atenas,
Israel, em represália, ataca o aeroporto de Beirute. Os libaneses
perdem metade de seus aviões de passageiros, as companhias de seguros
de Israel tiveram de pagar uma parte de indenizações.
Só nós ganhamos, porque muitos árabes descobriram
a impossibilidade de paz com Israel. Para nós, seria muito bom que
Israel atacasse novamente, invadisse a Síria, a Jordânia,
o Líbano. Quanto mais esticar sua linhas, quanto mais árabes
Israel tiver sob seu domínio melhor pra nós.
Diante de mim, no QG do
Fatah em Amã, há seis homens. Sei que entre eles estão
alguns daqueles que dividem com Yasser Arafat a direção do
movimento: Kamal Odwen, Salah Khalaf, Rafik Natché, Khaled El Hassan,
Abdoul Maggid Shouman e Farouk Kadoulmi, o teórico da organização.
Mas é impossível identificá-los através dos
nomes falsos com que se apresentam.
Pergunto: - E a Guerra dos
Seis Dias, em 1967, não provou que Israel pode, a qualquer tempo,
impor uma nova derrota fulminante aos países árabes?
- Guerra? Que guerra? –
a resposta vem de Abu Dejani, que se apresenta como um ex-engenheiro dos
campos petrolíferos do Kuwait. – Sabe quantos homens morreram em
combate? Mais de 171 jordanianos, 138 sírios, 283 egípcios.
Isso é uma guerra? Mais de 10 mil egípcios morreram no deserto
do Sinai durante a fuga, de fome e sede, não brigando. Os generais
corruptos do Egito foram os grandes responsáveis pela derrota, não
somente no Sinai, mas aqui também na Jordânia. Os aviões
egípcios foram destruídos em terra, porque Israel sabia a
localização exata de todas as bases.
- Seja como for – insisto
-, Israel demonstrou claramente uma força superior e não
há motivo para se acreditar que a situação se modificou.
E se Israel voltar a atacar?
- Que temos nós a
perder? Somente as nossas tendas, no máximo, algumas vidas.
A resposta vem de um moreno
baixinho, que fala um francês perfeito, obtido juntamente com um
diploma de medicina na Sorbonne.
- Mas os países árabes
têm o que perder – argumento. – E se Jordânia, o Egito e o
Líbano fizessem a paz, admitissem a existência de Israel na
Palestina?
- Isso é problema
deles – responde Abu Dejani.
Estados Unidos e Rússia
são vistos com idêntica desconfiança. Qualquer solução
negociada será rejeitada- eles afirmam.
- Aos poucos, o número
de operações a partir do próprio território
ocupado está aumentando. E assim continuará até haver
uma insurreição nas cidades, em Ramallah, Nablus, Jericó,
Jerusalém. Depois, os árabes que vivem em Israel também
se levantarão. São esses os nossos objetivos estratégicos.
Se as quatro potências
enviarem um força militar, ela será tratada como inimiga.
Se a Cisjordânia for transformada em novo Estado Palestino, isso
poderá ser aceito como meia vitória, mas a luta continuará.
Até o fim, seja ele qual for.
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