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Al
Fatah ataca!
Texto adaptado da revista
Realidade - 1969
32 anos após esta
matéria, o terrorismo árabe, sob o comando de Osama Bin Laden,
provou aos americanos, de
maneira cruel, que jamais poderá ser subestimado.
| Este grupo pode ser a centelha
de uma nova explosão no Oriente Médio (profecia? - NE). Com
sua ações cada vez mais violentas, seus integrantes podem
precipitar a eclosão de outro conflito entre árabes e israelenses.
O que são eles ? Criminosos, diz Israel. Patriotas, afirmam alguns
países árabes. Revolucionários, sustenta a China.
Ameaça à paz mundial, adverte a União Soviética.
Uma incógnita, dizem os Estados Unidos. O repórter Milton
Coelho percorreu a área conflagrada e demonstra aqui que a verdade
tem muitas faces quando Al Fatah ataca...
Eles
começam muito cedo no ofício de matar
Uma base do
Al Fatah, Jordânia, 11 horas da noite. Assisto à partida de
um comando. São nove homens, apenas o líder tem mais de 25
anos. Dois são religiosos, eu os vi fazendo orações
à tarde, voltados para Meca. Não há demonstração
visível de nervosismo, mas posso sentir a tensão da espera,
especialmente nos três mais jovens, que vão para o seu batismo
de fogo. O objetivo, segundo me explicam, é uma pequena guarnição
militar israelense a 8 quilômetros apenas de onde estamos.
Outro grupo, chamado de unidade de proteção,
ficará nas margens do Jordão, aguardando o retorno dos companheiros.
Se tudo correr bem, voltarão antes do sol nascer. Mas talvez não
dê tempo e eles terão de se ocultar até a noite de
amanhã. A unidade de proteção tem metralhadoras pesadas;
sua missão é cobrir a travessia do rio, caso os outros sejam
perseguidos por soldados de Israel.
Pouco antes da partida, o guia e o responsável
pela operação repassam no mapa, o caminho a percorrer, de
onde as minas colocadas pelos israelenses foram anteriormente retiradas.
Chega o minuto da verdade. O comandante
sai à frente e todos os outros se esgueiram, um a um, entre a vegetação
que circunda a base. Vou no final da coluna, acompanhado de perto por um
dos elementos da unidade de proteção. Aproximamo-nos do rio
Jordão, posso ver a rampa do lado oposto, apesar da fraca lua
de quarto minguante.
Meu acompanhante segura-me o braço:
daqui em diante não posso continuar. As sombras à minha frente
desaparecem, vai começar a longa espera. Sou levado de volta à
base.
Abu Kamal, o chefe do grupo, explica-me
como é feito o trabalho preliminar de limpeza do terreno. Todos
os dias, homens especializados atravessam o rio e vão verificar
se há novos campos minados. As minas anti-homem são enterradas
de forma que o detonador fique apenas 1 ou 2 centímetros do solo.
Elas são pequenas, não mais que 13 ou 15 centímetros
de diâmetro; uma pressão de 3 quilos basta para detoná-las.
É preciso cutucar o terreno levemente com uma faca. Quando a mina
é localizada, abre-se um buraco em torno dela, para ver se há
algo embaixo. Os israelenses usam muito este truque: embaixo da mina amarram
uma granada: se alguém a retira por cima, o pino de segurança
sai e ela explode.
- no princípio – diz Abu
Kamal -, muitos dos nossos morreram, perderam o braço ou ficaram
cegos por não conhecerem essa armadilha. Agora, isso só acontece
quando eles não seguem os conselhos que lhes são incessantemente
repetidos.
Os guias das operações são
cuidadosamente escolhidos, pois sua importância é igual ou
até maior que a dos chefes. Poucos dias antes, contam-me, catorze
homens caíram numa emboscada porque o guia não conhecia
bastante bem o terreno. Saldo do erro: cinco mortes e nove prisioneiros.
Vou dormir. Acordo às 5 horas da
manhã com o estrondo de canhões. A artilharia jordaniana,
instalada nas montanhas às nossas costas, duela com a israelense,
como ocorre quase diariamente. Mas isso nada tem a ver com a operação.
E os rapazes não voltaram ainda.
- Nem voltarão mais hoje – diz
Abul Kamal. – Estão escondidos em alguma de nossas bases do lado
de lá. Ou houve alguma coisa e logo saberemos.
Três dias depois, descobrirei que
algo realmente aconteceu. No tiroteio com a guarnição israelense,
um dos novatos morreu e dois outros homens voltaram feridos. Entre os israelenses,
pelo menos dois mortos e vários feridos, diz um comunicado distribuído
ao jornais jordanianos.
É a rotina desta guerra.
Onde
os meninos são armas secretas
Mohamed Azakir, do Reuters,
premiado pela foto que mostra o desespero
causado por uma guerra insana
- aliás, como a maioria das guerras o são.
Foi no 14º
dia da minha viagem que consegui ver um comando do Al Fatah no fogo do
combate. Era mais uma etapa de uma longa perseguição por
Agel, Beirute e Damasco. Em cada uma dessas cidades assinei papéis,
entreguei fotografias, recebi cartas de apresentação. Em
Amã, finalmente, preenchi a última ficha, informei meu endereço
no Brasil.
- Pode lhe acontecer alguma coisa, precisamos
saber a quem avisar.
Agora, o jipe Land Rover sobe penosamente
a estrada difícil. As cortinas estão baixadas, não
sei o rumo em que vou: sei apenas que saí de Amã, capital
da Jordânia, há mais de hora e meia. O jipe estremece e pára.
A cortina traseira se levanta, a cara sorridente do motorista aparece.
- Chegamos, pode descer.
Estamos num campo de treinamento do Al
Fatah, a maior das organizações palestinas que pregam a destruição
de Israel pela guerra de guerrilhas. A 5 metros de distância, um
menino – treze anos, no máximo – olha-me fixamente, um olhar tão
inesperado e desconcertante pra sua idade como o fuzil-metralhadora que
carrega a tiracolo. Além do menino sentinela, as nascentes de um
rio abrem uma imagem paradisíaca na paisagem áspera das montanhas.
Lugar ideal para um piquenique, com um pequeno bosque ladeando as águas,
que correm limpas e rápidas sobre um leito de pedras. Mas aqui não
se fazem piqueniques. Aqui se preparam os homens que, protegidos
pela noite, atravessam o rio Jordão e vão atacar os kibutzin,
quartéis, oleodutos, escolas, supermercados, pontes, usinas – tudo
enfim que marca a existência de Israel na Palestina.
Abu El-Abd tem trinta anos. A vida de
combates, desde 1957, deu-lhe a aparência de quarentão. Executou
mais de cinqüenta missões nos territórios ocupados por
Israel, e agora é comandante de um campo de treinamento. Ele recebe-me
em sua tenda, ladeado por seus dois auxiliares imediatos, e dispõe-se
a responder minhas indagações. Explica que, em cada trimestre,
175 novos recrutas aprendem com ele a viver no deserto, comendo sapos e
cobras, crus, se necessário; a manejar todo tipo de armas, da pistola
ao foguete russo Katyucha; a matar a sede colocando uma pedra sob a língua;
a nadar, rastejar, atravessar desfiladeiros pendurados em cordas, a montar
a desmontar minas, fabricar e usar explosivos, destruir tanques.
A demonstração que me fazem
dura cinco horas e tem toques cinematográficos: os alunos atravessam
um riacho, cruzam cercas de arame farpado e pulam sobre fogueiras, enquanto
Abu El-Abd dispara rajadas de tiro real a centímetros de suas cabeças
e pés.
Ele diz que apenas 70 por cento
dos homens são aproveitados. Admite que as perdas do Fatah eram
grandes a princípio. Agora, entretanto – ele afirma -, seus homens
são “melhor preparados do que os soldados israelenses”. Lembro que
estes servem durante três anos e que Israel aperfeiçoa cada
vez mais seu dispositivo de segurança. Ao longo de todas as fronteiras
e especialmente nos 100 quilômetros do vale do rio Jordão,
existem campos de minas, dispositivos eletrônicos moderníssimos,
pequenas patrulhas a cada 500 metros, luzes infravermelhas que permitem
identificar um inimigo mesmo na mais completa escuridão, helicópteros
sempre prontos a decolar. Argumento, ainda, que o terreno dificulta a infiltração:
não há florestas, os fedayin (nome dado a esses combatentes
árabes) tem de atravessar o vale praticamente a descoberto.
Abu El-Abd balança
a cabeça. Diz que poderia levar-me agora mesmo, à luz do
dia, a qualquer ponto dos territórios ocupados por Israel. Somente
em junho passado – afirma -, o Al Fatah realizou mais de 120 operações;
o total desde janeiro de 1965 é superior a 1300. (Esses números
são muito exagerados, segundo pude constatar posteriormente em Israel.)
Converso com Fayez. Com dezesseis anos
de idade, já esteve seis vezes em território ocupado. Uma
vez foi gravemente ferido no abdomem e passou quatro meses no hospital.
E ainda tem ataduras numa perna, lembrança de um tiro recente.
- Você não acha, Fayez, que
seria mais útil a seu povo se estivesse estudando ?
- Mais tarde terei tempo de estudar. Agora
é tempo de lutar.
Pergunto a Abul El-Abd por que há
tantos meninos de doze a dezesseis anos entre seus soldados.
- Há certas coisas que só
os meninos podem fazer – diz ele. E encerra o assunto.
O equipamento básico dos fedayin
inclui um fuzil Kalashnikov, que pesa pouco mais de 4 quilos e dá
uma rajada de trinta tiros em menos de quatro segundos. Conforme a missão
a realizar, cada grupo leva também uma metralhadora pesada Dieterinov,
que pode servir, como antiaérea, uma bazuca ou um lança-foguetes.
Ou, às vezes, apenas minas e explosivos.
Quase ao pôr do sol, sou convidado
para um almoço, servido no chão sobre cobertores. Muita verdura
e sardinha em lata apagam o gosto dos pedaços de cobra assada e
sapo cru que tive de provar. Os homens reúnem-se sob as árvores
e dançam ritmos folclóricos ao som de uma flauta e uma lata
de banha. Fazem questão de frisar: são músicas palestinas,
não apenas árabes.
Aqueles
que devem morrer!

Fedayin em árabe
significa “os redentores” ou “aqueles que se sacrificam”. A guerra de 1948,
desencadeada pelos países árabes contra o recém-nascido
Estado de Israel, foi uma jddah, uma guerra santa inspirada pelo fanatismo
muçulmano, que, acima de tudo, visava a eliminar os “intrusos infiéis”,
segundo o modelo das guerras conduzidas por Maomé.
Da derrota nasceram os fedayins. Eram
recrutados entre os refugiados e preparados para missões-suicidas
contra Israel. A grande maioria, no início, constituía-se
de fanáticos religiosos ou simples marginais, que não raramente
vendiam as armas recebidas e fugiam. O recrutamento era feito então
principalmente pelos Irmãos Muçulmanos, uma organização
de extrema direita religiosa. Depois, com o apoio dos governos árabes,
criou-se a Organização de Libertação
da Palestina, liderada por Ahmed Chukeiry. A OLP organizou um éxercito
de tipo convencional, cujas unidades eram integradas nos outros exércitos
árabes, especialmente do Egito.
Muitos outros grupos, entretanto, começaram
a ser criados, especialmente entre estudantes no exílio. Curioso
paradoxo: embora mais da metade dos quase 3 milhões de palestinos
estejam confinados em campos de refugiados, eles são os árabes
de maior nível educacional. As crianças não têm
o que fazer senão ir à escola, e uma bolsa de estudos no
Exterior é a única fuga possível. Por isso, há
menos de 20 por cento de analfabetos entre eles, e mais de 50 mil universitários
espalhados pelo mundo.
A partir da guerra de 1956, esses grupos
se foram fortalecendo, na medida em que o desespero crescia nos campos
dos refugiados. A guerra dos Seis Dias, em 1967, foi a gota final. Mais
uma derrota fácil dos exércitos árabes esgotou o resto
de confiança que ainda mereciam das facções mais radicais.
Oficiais palestinos que serviam nos exércitos sírio e egípcio
abandonam as fileiras e vão juntar-se às organizações
que pregam a guerrilha, feita pelos próprios palestinos. Com dinheiro
de origem até hoje não bem explicada, essas organizações
compram dos beduínos as armas arrecadadas no deserto, após
a Guerra dos Seis Dias. Depois passam a obter armamento soviético
através da China.
Uma
luta só, muitas idéias

O ano de 1968
registra uma lenta porém constante escalada desses grupos, especialmente
do Al Fatah, que significa “reconquista” e é formado pelas iniciais
de Harakat al-Tahrir al-Watani Philistini (Movimento Nacional de Libertação
da Palestina). Al Fatah nasceu dentro da União de Estudantes Palestinos,
de 15 mil membros, da qual seu líder, Yasser Arafat, foi presidente.
Arafat, cujo nome de guerra é Abu Amar (todos os membros da Al Fatah
tem um nome de guerra precedido pela palavra Abu, que significa “pai de”,
mesmo aqueles que não tem filhos), sente-se bastante forte em fins
de 1968, para um golpe político de largo alcance. Funda o Conselho
Nacional da Palestina com a participação de todas as organizações,
inclusive a OLP. Ahmed Chukeiry compreende que, com isso, Arafat passara
a manejar o aparelho burocrático que ele construíra durante
vinte anos e as verbas fornecidas oficialmente à OLP pelos
países árabes. Dos 105 lugares do Conselho Nacional, Arafat
e o Al Fatah ficam com mais de dois terços, Chukeiry e seus amigos
com menos de quinze.
Os novos recursos permitem a compra de
mais armas, os jovens afluem em quantidade crescente aos campos de treinamento.
Os palestinos saem da obscuridade de 21 anos, passam a ser um novo elemento
a complicar o jogo de interesses no Oriente Médio.
Naji Alush é um intelectual que,
há cinco anos, escreveu um livro em que criticava a pregação
do Al Fatah. Dizia:
“Por que devemos supor que o exército
israelense ficará com as mãos amarradas diante dos ataques
dos fedayin ? O exército de Israel destruirá cidades e povoados
árabes, e pode mesmo dar um passo decisivo, ocupando, por exemplo,
toda a margem ocidental do Jordão (o que ocorreria posteriormente
em 1967). O Al Fatah considera que, nas presentes circunstâncias,
os exércitos árabes são incapazes de varrer Israel,
enquanto uma entidade palestina é capaz de atingir esse milagre.
Como? Com a ajuda dos Estados Árabes e dos não árabes?
Vemos por isso a Estrada Revolucionária preconizada pelo Al Fatah
como um caminho que não oferece garantias. Os ataques dos fedayin
não podem esmagar Israel, por causa do preparo e das armas de que
este dispõe”.
No QG do Al Fatah em Amã, a pessoa
que me recebe se chama Naji Alush. Agora, ele fala outra linguagem:
- Nosso objetivo é a criação
de uma Palestina onde judeus e árabes possam viver juntos sob o
princípio “um homem, um voto”. Não somos anti-semitas, porque
nós mesmos somos semitas. Também não somos anti-judeus
sem problemas. Mas somos radicalmente anti-sionistas e anti-imperialistas.
Israel é produto do sionismo e instrumento dos imperialismos ocidentais
no Oriente Médio. Não poderá haver paz enquanto Israel
não for destruído!
As idéias de Naji Alush representam
apenas a esquerda do Al Fatah. Mais tarde descobrirei que todos querem
o fim de Israel, mas há profundas divergências quanto aos
outros objetivos. O espectro político do Al Fatah inclui extremistas
de direita.
O Al Fatah tem em suas fileiras 70 a 80
por cento dos combatentes palestinos. Por ser a maior organização,
é também heterogênea. Yasser Arafat, seu líder,
a quem encontro casualmente no QG de Amã, diz claramente:
- Este não é o momento de
termos divergências políticas ou ideológicas. Nossa
luta é comum, temos de nos unir contra Israel e o sionismo. Depois
discutiremos o resto.
Nem todos entretanto querem discutir o
resto depois. O Front Popular de Libertação da Palestina
– Jebbah Shabbya – não aceitou participar do Conselho Nacional Palestino,
organizado por Yasser Arafat. O Front Popular não aceitou a divisão
dos postos. Para consumo externo, costuma afirmar que não quer receber
dinheiro dos governos árabes. Na verdade, entretanto, seus membros
recusam qualquer discussão política. Preconizam uma linha
militar dura, implacável. O Front Popular foi o autor dos ataques
aos aviões da El-Al em Zurique e Atenas e, por isso, é condenado
pelas outras organizações, especialmente pelas esquerdistas,
a Frente Democrática (Jebbah Democratie) e Al Saika (O Raio).
Fadel, um dos líderes mais importantes
do Front Popular, fala incisivamente:
- A revolução não
pode ser entregue a políticos. Somos uma organização
militar. Temos de ser bons combatentes e não ter conversa bonita.
A noite das bombas em Jerusalém
e as explosões no Hotel Ambassador e no bar do Hotel St. George
estão entre as muitas façanhas que o Front aponta como vitórias.
O líder da Frente Democrática,
Naif Hawartman, tem outra opinião a respeito. Denuncia a ação
do Front Popular como terrorismo vulgar, que apenas serve para denegrir
a imagem da luta palestina em todo o mundo.
- De que serve atacar aviões civis
? Nossa principal tarefa é organizar a população nos
territórios ocupados e atacar apenas objetivos que representam a
dominação militar, econômica e cultural de Israel.
Naif proclama-se marxista-leninista, simpatizante
da China. Afirma categoricamente que não recebe um só níquel
de qualquer governo árabe e não hesita em dizer:
- Nós nos sentimos muito mais próximos
dos progressistas de Israel do que dos reacionários árabes. |
Nesta
guerra suja, para os fedayin vale tudo
Leon Uris, em seu livro
Exodus (volumes 1 e 2), mostra toda a realidade
da luta entre israelitas
e árabes, desde a fundação do Estado de Israel, em
1948.
Na foto, Leon em Israel
na década de 50, já coletando material para seu best-seller.
O Front Popular, segundo Naif, é
apoiado pelos palestinos milionários e continua recebendo contribuições
do Iraque e do Egito. A Frente Democrática não vê a
menor possibilidade de vir a se ligar ao Fatah.
- Estamos convencidos – diz Naif – de
que não devemos nos diluir em outra organização. Nossa
luta deve ter um caráter revolucionário puro desde já,
para que as massas palestinas tenham clareza dos rumos a seguir.
A Al-Saika pensa diferente. Ela é
o braço armado da seção palestina do Baas, um partido
socialista pan-árabe que está no poder na Síria e
no Iraque. Mas é um partido dividido: o governo iraquiano representa
a direita do Bass e o sírio, a esquerda.
Uma
guerra imunda, sem quartel
Visitei bases de todas as organizações.
Nelas não se sente o menor vestígio das divergências
políticas. Todos vestem com maior ou menor descaso os mesmos uniformes
verdes ou de tecido camuflado (semelhante ao de nossos pára-quedistas).
Todos tem o mesmo armamento: fuzis Kalashnikov e Semyonov, metralhadoras
pesadas Dieterionov, minas aparentemente americanas. A maior parte das
armas, embora de modelos soviéticos, é fabricada pela China.
O Front Popular leva-me a seu QG, perto
de Irbed, no Norte da Jordânia: uma caverna na rocha, sobre a qual
colocaram um reforço de concreto de 1 metro de largura. Pergunto
por que não tem receio de me mostrar o local.
- Os israelenses sabem a localização
– respondem.
Mostram-me as crateras no alvo. Algumas
janelas foram destruídas, bem como os tubos de ventilação,
mas o concreto resistiu.
- Eles descobriram o lugar através
de um companheiro de dezoito anos que foi capturado. Imaginamos isso porque
o ataque ocorreu 48 horas depois que o rapaz foi preso. Aqui entretanto,
não corremos perigo, só com bomba atômica eles podem
nos destruir.
Numa das bases ouço gemidos vindos
de um quarto. Recusam-se a dizer do que se trata. Dois dias depois explicam
tudo. Um traidor havia fornecido ao serviço secreto de Israel informações
que resultaram na prisão de todo um grupo em território ocupado.
Eles esperaram sua vinda à Jordânia, como fazia habitualmente.
- Durante dois dias o torturamos – narra
friamente Bakr, o líder do grupo, - Ele nos deu uma longa lista
de nomes infiltrados em várias organizações e até
de oficiais egípcios que trabalham para Israel. Quando não
tinha mais nada e dizer, amarramos nele uma carga de 30 quilos de explosivo
e adeus a um traidor.
Não existem guerras limpas, mas
esta se nutre de ódios acumulados há 21 anos. Os fedayin
são terroristas e tratados como tal. Não consegui permissão
em Telavive para visitar qualquer dos 2 mil prisioneiros. Desses, apenas
pouco mais de 150 foram julgados, em grande parte condenados à prisão
perpétua. A facilidade com que a maior parte dos presos denuncia
os companheiros decorre parcialmente – como afirma Israel – da falta
de consciência política. Mas, em alguns casos, isso só
não explica.
Para os fedayin, os israelenses são
aqueles que tomaram suas terras e suas casas. Não há contemplação.
Numa base do Front Popular, um rapaz de quinze anos contou-me como tornou-se
especialista em envenenar os lagos artificiais construídos nos kibutzin
para a criação de peixes. Outro contou-me com alegria como
preparou uma mina horas antes e vira a explosão matar dois soldados.
E outro narrou-me com detalhes como dinamitara a casa de um “colaboracionista”
em Hebron, com toda a família dentro dela.
Ouvi histórias inacreditáveis
de violência cometidas por ambos os lados, e todos oferecem a mesma
desculpa, absurdamente lógica: estamos em guerra, que podemos fazer?
- E para onde vamos com essa guerra?
Paradoxalmente, a mesma pergunta foi-me
feita por um rico comerciante jordaniano, Farid, de franca simpatia
pelo rico Ocidente, e um veterano militante do Partido Comunista, Fuad.
Ambos vêm na escalada da luta palestina e na conseqüente escalada
das represálias de Israel o prenúncio de duas tragédias
nacionais:
Nestes
campos as sementes da violência
Baqaa parece uma das cidades-satélites
de Brasília. Mas logo a impressão se desfaz: aqui não
se constrói; apenas se espera. Em Baqaa há 35 mil pessoas.
Mais tarde verei outros acampamentos na própria Jordânia,
na Síria, no Líbano. São refugiados. Fugiram da guerra
em 1948, em 1965 e em 1967. Alguns participaram dos três êxodos
e, mais tarde, tiveram de abandonar o vale do Jordão, em virtude
de constantes bombardeios. Não faz muito, quando jornalistas estrangeiros
visitavam os campos, as crianças corriam a pedir esmola, em troca
de se deixarem fotografar. Agora , correm, sorriem, mas não estendem
a mão.
Numa das dezesseis escolas mantidas pelas
Nações Unidas descubro a razão. Zora tem quinze anos
e faz questão de ler para mim um longo poema de exaltação
do povo palestino e de condenação de Israel. Fatma tem doze
anos e se orgulha dos dois irmãos mais velhos, ambos fedayin. Zainab
tem catorze e me diz:
- A paz não é possível,
é preciso lutar para voltar à nossa pátria.
- Que pátria? A Palestina nunca
existiu como nação. Desde a dispersão dos judeus pelos
romanos no ano 70, suas terras foram de muitos impérios, mas jamais
existiu uma nação palestina.
Agora, porém, ela existe. Nasceu
aos 21 anos dos campos de refugiados, das frustações e misérias
de uma longa espera pela solução que a ONU, as grandes potências,
Israel e os países árabes não conseguem encontrar.
Durante anos, os refugiados foram instrumentos políticos dos governos
árabes. Mas o sofrimento os uniu, mostrou-lhes que eram algo diferente
entre os árabes, deu-lhes a consciência de serem uma nação.
Visito as clínicas mantidas pela
Inglaterra e Noruega. Vejo crianças recebendo alimentação
na cozinha sustentada pela ONU. Entro em algumas tendas. Aceito o chá
que me é oferecido por Abdel Rahman, de 38 anos. Era lavrador em
Jericó. Agora recebe mensalmente da ONU 10 quilos de farinha, açúcar,
azeite, arroz. Mas não quis, como outros, mudar para uma casa pré-fabricada,
pequena mas bem mais confortável do que sua tenda. Não quer
nada que pareça definitivo. Quer voltar para seu pequeno pedaço
de terra em Jericó. Todas as noites, às 7 horas, reúne-se
com os amigos para ouvir o programa radiofônico do Al Fatah, transmitido
do Cairo. Do pouco dinheiro que consegue obter, separa 10 por cento e os
entrega a um dos homens do Al Fatah. Gostaria de combater, mas não
deixaram: só querem os jovens.
Vou a uma clínica do Al Fatah,
no chamado “bairro dos jovens”, onde os policiais são fedayin com
braçadeiras vermelhas. Um médico mostra fotografias tiradas
no último inverno. O campo ficou coberto com 1 metro de neve, a
estrada bloqueada. Médicos e enfermeiras corriam nas tendas com
lama até os joelhos, para levar leite às crianças
e aplicar vacinas. Mas muita gente morreu porque não foi atendida
a tempo.
Espalhados no Libano, Jordânia,
Síria, Iraque e Egito, há mais de 1 milhão e meio
de refugiados. Morrem mil por ano, nascem quase 50 mil. São o centro
de todo o problema do Oriente Médio. No princípio eram a
lança que os governos árabes esgrimiam contra Israel, depois
tornaram-se um ferro em brasa nas mãos dos esgrimistas. Antes, os
países árabes queriam mantê-los nas tendas, e a Jordânia
foi o primeiro a dar-lhes cidadania. Hoje, pelos menos o Egito, o Líbano
e a própria Jordânia gostariam de solucionar o problema: absorver
os refugiados e dispersá-los pelo mundo.
- Israel é uma realidade irremovível
– diz-me Fuad . – O Fatah fala de guerra popular. Mas como? Em Israel mesmo,
isto é, afora os territórios ocupados em 1967, vivem 2 milhões
e meio de judeus, e apenas 300 mil árabes. Como fazer uma guerra
popular contra a maioria da população, e uma maioria que
já provou estar disposta a lutar até o fim? Ainda há
possibilidade de uma solução política, pacífica,
se Israel se dispuser a aceitar o retorno dos refugiados e a eventual criação
de um Estado palestino nos atuais territórios ocupados. E nós
temos de aprender a viver com Israel em nossas fronteiras. Mas, se a luta
continuar, não haverá mais solução possível,
senão o fim de um dos povos, ou dos dois.
- Nós não podemos mais deter
os fedayin – diz Farid.
No QG do Front Popular, Abu Tarik vê
a violência indiscriminada como um processo natural:
- Quanto mais problemas criarmos, melhor.
Nós atacamos o avião da El-Al em Atenas, Israel, em represália,
ataca o aeroporto de Beirute. Os libaneses perdem metade de seus aviões
de passageiros, as companhias de seguros de Israel tiveram de pagar
uma parte de indenizações. Só nós ganhamos,
porque muitos árabes descobriram a impossibilidade de paz com Israel.
Para nós, seria muito bom que Israel atacasse novamente, invadisse
a Síria, a Jordânia, o Líbano. Quanto mais esticar
sua linhas, quanto mais árabes Israel tiver sob seu domínio
melhor pra nós.
Diante de mim, no QG do Fatah em Amã,
há seis homens. Sei que entre eles estão alguns daqueles
que dividem com Yasser Arafat a direção do movimento: Kamal
Odwen, Salah Khalaf, Rafik Natché, Khaled El Hassan, Abdoul Maggid
Shouman e Farouk Kadoulmi, o teórico da organização.
Mas é impossível identificá-los através dos
nomes falsos com que se apresentam.
Pergunto: - E a Guerra dos Seis Dias,
em 1967, não provou que Israel pode, a qualquer tempo, impor uma
nova derrota fulminante aos países árabes?
- Guerra? Que guerra? – a resposta vem
de Abu Dejani, que se apresenta como um ex-engenheiro dos campos petrolíferos
do Kuwait. – Sabe quantos homens morreram em combate? Mais de 171 jordanianos,
138 sírios, 283 egípcios. Isso é uma guerra? Mais
de 10 mil egípcios morreram no deserto do Sinai durante a fuga,
de fome e sede, não brigando. Os generais corruptos do Egito foram
os grandes responsáveis pela derrota, não somente no Sinai,
mas aqui também na Jordânia. Os aviões egípcios
foram destruídos em terra, porque Israel sabia a localização
exata de todas as bases.
- Seja como for – insisto -, Israel demonstrou
claramente uma força superior e não há motivo para
se acreditar que a situação se modificou. E se Israel voltar
a atacar?
- Que temos nós a perder? Somente
as nossas tendas, no máximo, algumas vidas.
A resposta vem de um moreno baixinho,
que fala um francês perfeito, obtido juntamente com um diploma de
medicina na Sorbonne.
- Mas os países árabes têm
o que perder – argumento. – E se Jordânia, o Egito e o Líbano
fizessem a paz, admitissem a existência de Israel na Palestina?
- Isso é problema deles – responde
Abu Dejani.
Estados Unidos e Rússia são
vistos com idêntica desconfiança. Qualquer solução
negociada será rejeitada- eles afirmam.
- Aos poucos, o número de operações
a partir do próprio território ocupado está aumentando.
E assim continuará até haver uma insurreição
nas cidades, em Ramallah, Nablus, Jericó, Jerusalém. Depois,
os árabes que vivem em Israel também se levantarão.
São esses os nossos objetivos estratégicos.
Se as quatro potências enviarem
um força militar, ela será tratada como inimiga. Se a Cisjordânia
for transformada em novo Estado Palestino, isso poderá ser aceito
como meia vitória, mas a luta continuará. Até o fim,
seja ele qual for. |
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