Em 11 de maio de 1937, um ruído
no céu da chapada do Araripe assustou os camponeses. Com medo, eles
tentavam se esconder entre as árvores enquanto máquinas voadoras
deslizavam pelos ares daquela região do Cariri, no sul do Ceará.
Homens, mulheres e crianças fugiam de algo que, com certeza, viam
pela primeira vez. O desespero foi ainda maior quando os aviões
da Força Áerea Brasileira (FAB) começaram a metralhar.
Muitos ali devem ter sussurrado o derradeiro Pai-Nosso. Outros nem tiveram
tempo para tanto.
Quarenta anos após o massacre
dos sertanejos liderados por Antonio Conselheiro, em Canudos, na Bahia,
e 20 anos depois da Guerra do Contestado, episódio com desfecho
semelhante ocorrido nos estados do Paraná e de Santa Catarina, as
tropas de diferentes esferas do poder público novamente uniam forças
para abater humildes agricultores brasileiros. Desta vez as vítimas
pertenciam à comunidade do sítio Caldeirão, cujo líder
era o beato José Lourenço.
Naquele dia, a polícia militar
do Ceará e os aviões enviados pelo Ministério da Guerra
exterminaram nordestinos religiosos e pacíficos que por dez anos
tinham buscado apenas uma forma de sobreviver às mazelas da vida
sertaneja: seca, fome, coronelialismo... Passadas aproximadamente
sete décadas de quase completo silêncio, o Conselho Estadual
de Preservação do Patrimônio Cultural do Ceará
(Coepa) tombou, em 21 de março de 2007, uma área de 60 hectares
pertencente ao núcleo do que um dia foi o sítio Caldeirão.
Com isso, o governo estadual tenta corrigir um erro histórico, reconhecendo
a importância do episódio em que migrantes, principalmente
do Rio Grande do norte, viveram uma utopia de igualdade e auto-suficiência
baseada na fé cristã. A medida, porém, não
pode reparar a morte dos 700 (400, segundo dados oficiais) seguidores
de José Lourenço, discípulo do padre Cícero.
Como
tudo iniciou
Longe do litoral nordestino,
um emaranhado de crenças – cristãs e pagãs – caracterizava
a religiosidade popular das terras secas nas primeiras décadas do
século 20. Sem contar com assistência do Estado e da Igreja
para enfrentar as dificuldades de sobrevivência, os sertanejos tinham
poucas opções, como o cangaço, o trabalho semi-escravo
nos latifúndios dos coronéis ou o misticismo. Assim, Virgolino
Ferreira da Silva se tornou o “Lampião” e Antônio Vicente
Mendes Maciel, o “Conselheiro”.
A alternativa da fé era
encabeçada por profetas populares, que viam a miséria
como um “castigo de Deus” e encorajavam a prática de penitências
como forma de obter a salvação. Para eles, as mazelas do
nordeste eram sinais de que o fim do mundo estava próximo e, portanto,
não tardaria a grande viagem ao paraíso divino.
Quando deixou seu lar para trabalhar em
fazendas de gado próximas à sua cidade, no estado de Paraíba,
José Lourenço Gomes da Silva era ainda jovem. Ao retornar
para casa, após anos de ausência, soube que seus pais haviam
mudado para Juazeiro do Norte, no Ceará – lugar que se tornara um
pólo de atração devido à fama do padre Cícero.
Em 1890, já novamente ao
lado de sua família, José Lourenço acabou conquistando
a amizade do famoso sacerdote. Depois de viver alguns anos nas proximidades
de Juazeiro e de integrar algumas seitas de penitentes – pessoas que rezavam
em cemitérios pelas almas do purgatório e que praticavam
autoflagelação para se purificar de pecados -, o paraibano
arrendou o sítio Baixa Dantas, onde formou uma comunidade. De 1894
a 1926, ali foi desenvolvida sua primeira experiência de trabalho
coletivo igualitário. Enxada na mão, José Lourenço
e seus companheiros enfrentaram o desafio imposto pelo terreno pedregoso
e passaram a cultivar frutas, cereais, algodão e hortaliças.
A comunidade crescia à medida que muitas famílias chegavam
a Juazeiro – a “meca sertaneja” – sem ter trabalho ou moradia e eram encaminhadas
pelo padre Cícero aos cuidados do beato.
A perseguição começa aos poucos...
Apesar dos progressos no Baixa Dantas,
a vida dos moradores do lugar não foi isenta de percalços.
Em 1921, surgiu o boato de que o boi doado pelo padre Cícero para
melhorar a raça do gado local estava sendo adorado pela comunidade.
Floro Bartholomeu, chefe militar de Juazeiro, prendeu José Lourenço
por 18 dias e matou o boi, num ato denominado por ele de “combate ao fanatismo”.
Anos depois, o beato enfrentaria outra situação intrincada.
O sítio em que a comunidade vivia foi vendido, e o novo proprietário
expulsou os camponeses sem qualquer indenização.
Diante desse problema, o padre Cícero
encaminhou José Lourenço e seus seguidores à sua fazenda
Caldeirão dos Jesuítas. A aridez do lugar, limitado ao norte
pela caatinga e ao sul pela floresta do Araripe, não desanimou o
hábil grupo de lavradores que havia trabalhado por 32 anos no Baixa
Dantas. Tocado como um projeto coletivo, logo o Caldeirão começou
a se transformar.
Famílias de todo o nordeste,
a maioria proveniente do Rio Grande do Norte, passaram a viver de trabalho
e oração naquele pequeno terreno de 500 hectares no interior
do Ceará, que chegou a comportar 2 mil pessoas. Ali tudo era feito
em sistema de mutirão, e imperava a cooperação. As
obrigações eram divididas e os benefícios distribuídos
conforme as necessidades de cada um.
Sem coronéis para explorar
a mão-de-obra, os camponeses experimentaram sopros de liberdade.
A paraibana Maria Inácia tinha 10 anos quando morou no Caldeirão,
lugar que recorda com um olhar saudoso: ”Era o mesmo que um céu
aberto. Logo que amanhecia, meu padrinho Lourenço era o primeiro
a sair para a lida. Nós tomávamos café ali mesmo,
na roça. Às 9 horas vinha uma carga de rapadura para merendar,
e às 11 chegavam as cozinheiras com o almoço. Na roça,
tudo o que se planta, dá...e lá a gente plantava” , lembra
enquanto mostra orgulhosa as fotos dos “padrinhos” Cícero e José
Lourenço, penduradas na parede da sala.
Um
sopro de liberdade acaricia os infelizes
Relatos como o de Maria Inácia
são freqüentes entre antigos membros da irmandade formada no
Caldeirão. Todavia, essa memória positiva só é
possível porque houve um grande empenho no passado. Após
os primeiros anos de adaptação, as atividades foram diversificadas
e a comunidade caminhou para a auto-suficiência, produzindo quase
tudo de que precisava: desde roupas e sabão até panelas,
copos e baldes. Para tanto, os artesãos, carpinteiros e ferreiros
utilizavam matéria-prima local. Os tecidos, por exemplo, eram feitos
com algodão cultivado na própria fazenda. O que não
conseguiam obter ali era comprado nas cidades próximas.
Para os membros da comunidade,
era importante que houvesse uma igreja onde pudessem praticar a religião
tradicional. Apesar de nunca terem recebido a visita de um sacerdote, ainda
que tivesse sido solicitado, no começo da década de 1930
um mestre-de-obras foi convidado a ajudar na construção da
Capela de Santo Inácio de Loyola, na parte central do Caldeirão.
A expulsão dos camponeses, porém, ocorrida cinco anos depois,
impediu que a obra fosse concluída. Hoje, restaurada pela prefeitura
do Crato, a igrejinha é um dos principais marcos históricos
do sítio.
Buscando
abrigo no Caldeirão
Dentre as virtudes da comunidade
do Caldeirão, também conhecida como Irmandade de Santa Cruz,
a caridade sobressaiu durante a seca de 1932. Constantes no semi-árido
nordestino, duas grandes estiagens forçaram os sertanejos a migrar
para o litoral nas primeiras décadas do século passado. Para
controlar a “invasão de flagelados” na de 1915, o governo do Ceará
construiu o Campo de Refugiados do Alagadiço, onde uma epidemia
de varíola matou boa parte dos reclusos. Em 1932, com a intenção
de manter os retirantes longe de Fortaleza, os órgãos públicos
intensificaram as medidas de contenção. Assim, ergueram sete
campos de concentração – ou “currais”, na linguagem popular
– distribuídos pelas linhas férreas do estado.
Enquanto os dois campos próximos
da capital reuniram cerca de 5,5 mil pessoas, o Buriti, no Crato, que tinha
capacidade para no máximo 5 mil, aglutinou por volta de 18 mil.
Segundo a historiadora Rosângela Martins, durante a seca de 1932
os refugiados de Buriti foram vigiados rigorosamente por sentinelas.
Havia ali até mesmo uma prisão interna para os desobedientes.
Por causa da desnutrição e de doenças, “morria gente
todos os dias, e um caminhão passava recolhendo os corpos no final
da tarde para jogá-los em valas na parte alta do campo”, afirmava
Rosângela.
Alguns retirantes tiveram sorte
e conseguiram driblar o Campo de Buriti e chegar até o Caldeirão,
onde as atividades corriam normalmente, já que mesmo nos anos de
estiagem não faltava comida. José Lourenço solidarizou-se
com os sertanejos e integrou à sua comunidade pelo menos 500 pessoas
que pediram auxílio.
Exemplo
ecológico
O termo “caldeirão”, antes
de dar nome ao sítio que abrigou a irmandade liderada pelo beato
José Lourenço, já designava uma falha geológica
formada por pedras que se enchia de água do riacho que por ali passava.
Essa estrutura natural foi muito importante para o desenvolvimento da comunidade,
porque a água ficava acumulada no “caldeirão” mesmo em tempos
de seca.
O clima na região do Cariri
é semi-árido, com chuvas concentradas nos quatro primeiros
meses do ano. Depois desse curto período, nem uma gota cai do céu.
Por isso o desafio maior para o pessoal do sítio era irrigar as
plantações, uma vez que o solo não possibilitava a
retenção de água.
“Como é possível
sustentar toda uma comunidade dependendo de um solo que tem restrições
agrícolas ? O grande mérito do beato foi exatamente este:
ele soube utilizar os recursos e os ecossistemas do semi-árido”,
afirma o geógrafo Arlindo Siebra. Além do modus vivendi igualitário,
o Caldeirão foi um exemplo ecológico para o nordeste. Segundo
Siebra, a comunidade construiu várias microbarragens e dois açudes.
Faziam também um tipo de cisterna, que cobriam para evitar a evaporação,
armazenando a água no subsolo.
Outra característica importante
frisada por Siebra era o não-desmatamento da “coroa da serra” –
como são chamadas as partes mais altas da fazenda. Normalmente os
agricultores trabalham com rotação de culturas, ou seja,
queimam a vegetação para adubar o solo e depois plantam durante
cerca de três anos. Posteriormente, abandonam a área – deixando
a vegetação brotar de novo, o que chamam de “encapoeiramento”
– para repetir o processo após três ou cinco anos. A falta
de espaço, porém, impedia José Lourenço de
fazer as rotações.
Segundo Siebra, o beato “só
plantava abaixo da “coroa da serra”, e apenas em um trecho por ano, passando
depois para outro. Como a cobertura vegetal da coroa permanecia intacta,
quando chovia as sementes eram dispersadas de cima para baixo. Dessa maneira,
utilizando a força da gravidade, a área encapoeirava mais
rápido que um terreno plano”. Com esse manejo agrícola,
somado à criação de peixes e de gado, as quase 2 mil
bocas da irmandade não sentiam falta de comida.
Expulsão
pela ganância dos
Salesianos
e maldade dos militares
Se no Baixa Dantas os camponeses
perderam o direito à terra e tiveram de sair às pressas,
no Caldeirão não foi diferente. Aliás, pior. José
Lourenço não era considerado pelas elites do Ceará
um simples beato analfabeto e inofensivo, mas um perigoso líder
capaz de articular grandes levantes contra a ordem pública. O principal
problema apontado era a organização da comunidade, que as
oligarquias tachavam de comunista.
As autoridades, na verdade, queriam
o fim do Caldeirão, mas havia um problema: a ligação
entre o beato José Lourenço e o padre Cícero. Brigar
com o “Padrinho” não valia a pena, em hipótese alguma. Porém,
com a morte do sacerdote, aos 90 anos, surgiu a oportunidade tão
esperada, uma vez que desde 1923 o testamento do religioso garantia a propriedade
do Caldeirão aos padres salesianos.
Por essa razão, o beato
José Lourenço teve de começar a pagar tributos aos
novos proprietários pelo usufruto da terra. Segundo José
Tavares de Lira, filho e neto de ex-moradores do Caldeirão, seu
pai sempre levava uma tropa de burros carregada de gêneros para os
salesianos. Contudo, em 1936, o bacharel Raymundo Norões Milfont,
representante jurídico dos padres, solicitou reintegração
de posse.
No mesmo ano, a cidade de Fortaleza
sediou uma reunião de representantes de seis instituições:
diocese do Crato, ordem dos padres salesianos, Liga Eleitoral Católica,
polícia política (Deops), polícia militar e governo
do Ceará. Os presentes ouviram relatos do capitão José
Bezerra (embora o nome seja igual, e ruim tal, não é o comandante
do assassinato à traição de Lampião e seu bando),
da polícia militar, que, em busca de um pretexto para a invasão,
havia espionado a comunidade para ver se ali havia armas. O oficial não
as encontrou, mas disse que as forças públicas precisavam
agir “com rapidez fulminante, para evitar a possibilidade de uma reação
premeditada”, pois havia muita gente no arraial.
O massacre
começa a ser esboçado
As autoridades temiam a resistência
semelhante à de Canudos, onde o exército brasileiro fora
seguidas vezes derrotado, até que, em 1897, promoveu o massacre
de milhares de camponeses. Alegaram também o risco de o Caldeirão
resvalar para as mãos de líderes marxistas, já que
no final de 1935 Luís Carlos Prestes tinha comandado a Intentona
Comunista, cujo primeiro levante havia ocorrido no Rio Grande do Norte.
No dia 11 de setembro de 1936,
as forças do Estado invadiram o Caldeirão. Coturnos de policiais
civis e militares entraram marchando, mas não encontraram o beato
José Lourenço, que havia fugido para a floresta da chapada
do Araripe, onde ficou escondido até o início de 1938. Lá
ele tomou o cuidado de não fixar residência, vivendo de forma
nômade em construções de palha improvisadas, alimentando-se
de frutas silvestres e, por vezes, de gêneros doados por amigos de
fazendas próximas. No dia da invasão porém, o capitão
Cordeiro Neto ficou confuso sobre a atitude a tomar diante das mais de
400 casas de taipa. Optou pela devastação: expulsou os moradores,
queimou os casebres e entregou parte dos bens ao município do Crato.
“A polícia chegou lá e acabou com tudo. Levaram o que havia
no armazém, e até as portas da casa do beato”, conta José
Lira.
Homens de confiança de José
Lourenço foram presos e conduzidos a Fortaleza. Retornaram ao Crato
após 14 dias e encontraram pessoas da comunidade vivendo no pé
da serra da Conceição, nas entranhas do Araripe, sob constantes
maus-tratos das autoridades, que permaneciam em alerta. No depoimento dado
ao pesquisador Régis Lopes, Eleutério Tavares, morador influente
do Caldeirão, comentou a ação policial: “ Lá,
bateram em pessoas, fizeram gente engolir rosário na ponta da baioneta.
Só não fizeram matar mesmo”.
O general
Eurico Gaspar Dutra apóia os perseguidores
No início de 1937, as autoridades
do Ceará receberam denúncias sobre o pessoal de José
Lourenço, que após a dissolução da comunidade
vivia clandestinamente nas matas da chapada do Araripe. Corriam boatos
de que ex-integrantes do Caldeirão atacariam o Crato. Ciente disso,
o capitão Bezerra e 11 soldados da polícia de Juazeiro foram
até lá para checar as informações e entraram
em conflito com um grupo de camponeses. Nesse embate, morreram o capitão
e três praças. Do outro lado, foram cinco perdas, entre elas,
Severino.
Após a divulgação
daquele conflito, fortes contingentes militares partiram de Fortaleza à
caça dos remanescentes do Caldeirão, determinados a vingar
a morte do capitão Bezerra. O ministro da Guerra, general Eurico
Gaspar Dutra, colocou a força federal à disposição
do governo cearense e autorizou o vôo de três aparelhos do
Destacamento de Aviação, sob responsabilidade do capitão
José Macedo, para auxiliar no reconhecimento da zona e localização
dos camponeses.
Dos aviões, as metralhadoras
dispararam, enquanto 200 patrulheiros vasculhavam a chapada de Araripe
para concluir a missão. Naquele 11 de maio de 1937, cerca de 700
lavradores foram massacrados. Nenhum soldado morreu. Mesmo depois da “grande
investida” militar, policiais continuaram a perseguir, prender, torturar
e matar pessoas que se vestissem de preto e portassem rosário –
as características dos seguidores do beato.
Eu
não celebro missa para bandido!
Em 1938, José Lourenço
retornou ao sítio Caldeirão e ali permaneceu por dois anos,
até ser novamente expulso pelo procurador dos padres salesianos,
proprietários da fazenda. Seguiu então para Exu, no lado
pernambucano da chapada, onde montou outra comunidade, no sítio
União, comprado com os 7 contos de réis recebidos como indenização
por uma parte dos bens do Caldeirão. O advogado do beato tentou
mover uma ação contra o Estado para recuperar a totalidade
das perdas do arraial, todavia o pedido não foi atendido.
José Lourenço morreu
em 12 de fevereiro de 1946 no sítio União, vítima
de peste bubônica. Seguidores carregaram o caixão com seu
corpo, a pé, de Exu até Juazeiro do Norte, num percurso de
70 quilômetros. Depois da longa e cansativa jornada, o corpo do beato
foi velado na casa de Eleutério Tavares. Em seguida, os fiéis
solicitaram uma missa a monsenhor Joviniano Barreto, porém o vigário
não apenas recusou o pedido, como proibiu a entrada do esquife na
capela: “Eu não celebro missa para bandido”, alegou o sacerdote.
Após serem rejeitados na
“casa de Deus”, e debaixo da chuva qua caía em Juazeiro do Norte,
os amigos do beato fizeram um sepultamento no cemitério do Socorro,
ao lado da igreja homônima. A estudante de pedagogia Ana Izabel Tavares
é quem atualmente cuida do jazigo, onde estão até
hoje as imagens de santos que tinham sido importadas da Alemanha para a
Capela de Santo Inácio de Loyola.
Patrimônio
A estrada de terra esburacada dificulta
o acesso ao Caldeirão, situado no município do Crato, entre
os distritos de Monte Alverne e Dom Quintino. Em 1998 o ex-secretário
municipal da Cultura Rosemberg Cariry apresentou projeto com o objetivo
de transformar o sítio num grande parque histórico, com museu
e anfiteatro para eventos ligados à cultura popular. No mesmo ano,
a prefeitura do Crato comprou parte central do terreno onde viveu a irmandade
liderada pelo beato José Lourenço e reformou a Capela de
Santo Inácio de Loyola, colocando portas novas, pois as originais
haviam sido roubadas na invasão policial de 1936.
Atualmente a única família
residente no sítio é a do agricultor Raimundo Batista. Embora
não seja remanescente da antiga comunidade, ele sabe que ali havia
fartura, ao contrário do que acontece hoje, pois mal consegue garantir
a própria subsistência: ”Isto aqui era um Caldeirão
vivo, hoje é um Caldeirão morto”, lamenta. O isolamento só
é quebrado pelas romarias de setembro ou quando aparecem pesquisadores
para examinar as ruínas da fazenda.
A cruz ao lado da capela, por exemplo,
indica o cemitério. Mais adiante fica o “caldeirão” de pedras,
onde os filhos de Raimundo aproveitam para nadar e fugir do calor da caatinga.
Segundo Arlindo Siebra, o “caldeirão” está passando por um
processo de assoreamento, ou seja, perdendo profundidade. Isso indica que
mesmo após o Coepa ter ratificado a importância do sítio,
em março, ainda faltam medidas de manuntenção. Pouco
a pouco os vestígios históricos, como a casa do beato José
Lourenço, estão desaparecendo.
Revista Problemas Brasileiros
Texto e fotos de João Mauro Araujo
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