Carnaval - De Baco ao rei Momo
Os portugueses foram os responsáveis pela introdução do carnaval no Brasil
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Rio de Janeiro - Fotos da década de 20, de Augusto Malta

  Surgido há milhares de anos como uma cerimônia pagã para festejar as colheitas, o carnaval, que começou como culto aos deuses das religiões politeístas, acabou sendo incorporado em outros tempos e culturas, em tradições de todas as sociedades, qualquer que fosse seu grau de desenvolvimento. Baco, o deus do vinho, era um dos mais festejados, e a festa acabou virando bacanal, para mais tarde se tornar uma festa socialite, atravessando um período que podemos chamar de romântico, para voltar à bacanal novamente após a década de 80, principalmente no Brasil. Revistas e fitas com fotos pornográficas ainda são top de vendas logo após os festejos carnavalescos, trazendo fotos dígnas dos aplausos de uma Cicciolina.
 Na mitologia grega, Momo (ou Momus), era o deus dos escritores e poetas, e personificava um espírito mal-intencionado, crítico injusto, que usava de burla, ou seja, tanto enganava quanto zombava de suas vítimas, lhes lançando culpas inexistentes, criadas pela sua maldade. Não é o caso dos reis Momos carnavalescos, mas, não se sabe o motivo, ao invés da luxúria de Baco, que seria a mais adequada ao carnaval, eles preferiram incorporar o espírito crítico de Momo ao mesmo, homenageando o sádico e maldoso deus da mitologia grega como rei da folia. 
  Tais festas pagãs foram toleradas pela Igreja Católica na Idade Média, depois de uma série de restrições. Em meados do século XIII, os elegantes bailes de máscaras se tornariam uma tradição, hoje substituidos por desfiles de fantasias exóticas e estapafúrdias e pela liberação de pudores e libidos nos salões de grandes clubes.
  No Renascimento houve uma popularização ainda maior dos bailes de máscaras e já no século XIX, o carnaval se popularizaria de tal forma na Europa, que até mesmo Londres, na época a mais puritana das cidades, acabou cedendo ao apelo erótico de Baco. Mas no início do século passado, os carnavais foram desaparecendo na Europa, só sendo comemorado em Nice, onde a população parecia enlouquecer por alguns dias do ano.

A igreja católica muda a data do carnaval

  Antes, o carnaval ia de 25 de dezembro a 06 de janeiro, mas a Igreja Católica, quando o regulamentou, marcou a data dos festejos para sete domingos antes da Páscoa. No Brasil, o carnaval foi trazido pelos portugueses e era festejado em qualquer ocasião, até para recepcionar a chegada de uma personagem ilustre.  Os hábitos carnavalescos portugueses, barulhentos e violentos, eram chamados de entrudo. Por sua violência, o entrudo acabou sendo proibido na colônia, mas sua essência permanece até hoje nos carnavais, que é justamente a data, segundo levantamento das polícias civil e militar, onde acontecem mais  furtos, roubos, latrocínios e  acidentes automobilísticos, pois de sexta a terça-feira, nos cinco dias de folia, boa parte da população, principalmente as das grandes cidades, parece ensandecer.
  Em 1604  o entrudo voltava a ser proibido, até desaparecer, dando lugar a um tipo de folia mais amena, onde pedaços de madeira usados para dar bordoadas e consequentes danos físicos, foram substituidos por flores e limões-de-cheiro. Em 1906 os chamados limões-de-cheiro seriam substituidos pelos afamados e defamados lança-perfumes, que eram comercializados em vidros, só recebendo invólucros de metal a partir de 1927.
  O entrudo veio de Portugal e os confetes e serpentinas são originários da Espanha, e, da Africa, veio o semba, ou umbigada, que acabou virando samba e se transformou no elemento básico de todos os carnavais a partir de então. A fantasia, na sua característica de crítica social, à qual também se incorporariam muitos sambas enredos, surgiria  no Brasil durante a Campanha Abolicionista, quando dois cariocas sairam à rua, um trajando roupas de senhor de engenho e outro, em farrapos, representando os escravos. Pierrô, colombina, príncipe, chinês, turco, pirata e os diabinhos, foram trazidos também pelos portugueses.

Assim surgiu o Corso
 


Corso em 1919 - Foto de Augusto Malta

  Em 1907, quando um automóvel transportando as filhas do então presidente Afonso Pena, entrou na Avenida Central do Rio de Janeiro, estava criando, sem que o soubesse, o famoso Corso, o qual o inesquecível  Tché tradicionalizou no carnaval de Barra Bonita, SP. Com a I Guerra Mundial e a subsequente crise financeira, o carnaval perdeu o luxo, mas não perdeu  o brilho. A suntuosidade dava lugar à criatividade e à originalidade.
  Os negros, que dançavam para divertir os nobres, que assistiam às danças passivamente, estavam também incorporando ao carnaval brasileiro, além de seus rítmos, ritos e danças, o cordão carnavalesco, que eram foliões dando-se as mãos em rodas de samba pela avenida. Nessa época eram incorporados também os tambores, cuicas, tamborins e reco-recos. O primeiro cordão devidamente licenciado para brincar o carnaval, foi o Flor de São Lourenço, de 1885, seguidos depois por outros, como  Estrela da Aurora, Teimosos da Chama, Flor da Harmonia, Rosa de Diamantes e ainda outros. As pastoras, produtos das antigas comemorações carnavalescas, lembram os cortejos de coroação dos reis africanos.

Século XX - O carnaval vai se renovando, abrindo
alas, até chegar às grandes e famosas escolas de samba

 Em 1908 surgiria o primeiro rancho carnavalesco: o Macaco é Outro. Por volta de 1912 os ranchos já haviam substituido os cordões, e seriam os precursores das futuras escolas de samba. Eles já seguiam um enredo, teatralizando através dos desfiles de carnaval uma história, como o Caprichosos da Estopa, que naquela época ousou apresentar como enredo de seu desfile, uma adaptação da peça Salomé, de Oscar Wilde.
  Mais tarde os instrumentos de percussão do carnaval receberiam o apoio musical de cavaquinhos, violão, pistão e clarinete. Em 1932, um ano após a oficialização do carnaval no país, formou-se no Rio de Janeiro a Associação dos Ranchos Carnavalescos. Menores que os ranchos, mas igualmente animados, surgiram os blocos carnavalescos. Um grupo de vizinhos ou amigos se juntavam, fantasiavam-se, formavam seu próprio instrumental e saiam às ruas. Os primeiros e mais famosos blocos foram Corações de Ouro, Guarani e Piratas do Amor.


Em 1932 surgiam os blocos, que nada mais eram que alguns vizinhos, 
animados, que faziam suas fantasias, sempre hilárias, e saiam festejando o carnaval

  A compositora Chiquinha Gonzaga, a pedido do cordão Rosas de Ouro, fez a primeira marcha carnavalesca da história do reinado de Momo, a famosa Abre Alas, e em 1917,  Donga comporia e gravaria  o primeiro samba de que se tem notícia,  impondo de vez o rítmo no País. O samba se chama Pelo Telefone, e anos atrás foi regravado com sucesso por Martinho da Vila. Em 1919 acontecia no Teatro Lírico do Rio de Janeiro o primeiro concurso de músicas carnavalescas, destacando-se nomes como Sinhô, Pixinguinha, Noel Rosa, Ismael Silva, João de Barro, Ari Barroso, Haroldo Lobo, Herivelto Martins e Lamartino Babo. Só por curiosidade, Lamartine foi o compositor da maioria dos hinos oficiais dos grandes clubes do futebol carioca, como América, Vasco, Flamengo e outros.
  Nos primórdios carnavalescos, não havia praticamente nenhuma organização. Cada um se fantasiava e brincava à sua maneira. A grande Portela, por exemplo, quando começou, tinha o nome de Vai Como Pode, pois era realmente assim: brincava quem queria e como podia. Hoje as escolas de samba oficiais são registradas como sociedades civis, com planejamento anual, não só do enredo, com toda a alegoria e música seguindo aquele enredo, mas também há previsões de receitas e despesas, como uma verdadeira empresa. 

Os trios elétricos e as micaretas
 


Natal-RN, a famosa micareta no Carnatal - Foto de JRego

 As origens do trio elétrico remontam à "dupla elétrica baiana", formada por Adolfo Antônio Nascimento - o Dodô - e Osmar Álvares de Macêdo - Osmar - que resolveram restaurar um velho Ford Bigode 1929, guardado numa garagem. No Carnaval do mesmo ano, saiu às ruas tocando seus "paus elétricos" em cima do carro e com o som ampliado por alto-falantes. A apresentação aconteceu às cinco horas da tarde de um domingo de Carnaval, arrastando uma multidão pelas ruas do centro da cidade.
O chamado Trio elétrico designa no Brasil um caminhão equipado com aparelhagem sonora, criando uma espécie de palco ambulante onde os artistas se apresentam. Uma invenção baiana que criada especificamente para o Carnaval da Bahia, tornou-se presença garantida em carnavais de outros Estados e fora de época, inclusive em outros paises.
 Da Bahia também surgiria a Micareta, que é o carnaval fora de época. Neste estado, praticamente, se comemora o carnaval durante todo o mês de fevereiro. Como a coisa deu certo, movimentando milhares de reais e dólares através de turistas brasileiros e de outros países, outros estados seguiram a receita, e surgiu o Carnatal, em Natal, Rio Grande do Norte, que acabou se tornando a micareta mais famosa do país.

A maior indústria do turismo no Brasil


Carnaval no Rio de Janeiro - 2008 - A vice-campeã Beija Flor

  No final da década de 70 chegou-se até a prever o fim da grande indústria do carnaval, mas tal não aconteceu. O carnaval acabou crescendo em São Paulo, justamente onde um compositor já havia cognominado como "o túmulo do samba", e no Rio de Janeiro, capital do carnaval brasileiro, a folia de rua tomou jeito empresarial, recebeu um marketing direcionado ao turista e hoje movimenta milhares e milhares de dólares nos cinco dias de folia e na semana que antecede a eles, com milhões de turistas chegando de toda a parte do mundo para ver o samba na Marquês de Sapucai. Na Bahia também, onde o carnaval teve sua ascensão comercial após o advento do trio elétrico, chegam milhares de turistas para beber água de côco e dançar freneticamente ao som da singular música baiana. 
 No Rio de Janeiro, por exemplo, as grandes escolas de samba são economicamente ativas, bem administradas e geram empregos durante o ano todo. Como marketing, elas costumam convidar para seus desfiles personalidades, principalmente do mundo artístico, que estão em destaque. Artistas também que buscam destaque e turistas, chegam a pagar para desfilar em determinadas escolas. Além dos incentivos das secretarias de turismo, já que o carnaval das grandes cidades como Rio, São Paulo, Recife e Bahia, dá retorno garantido, as grandes escolas de samba vivem e sobrevivem às suas próprias custas, como empresas. Seus funcionários são os sambistas, mestres-salas e portas-bandeiras e todo um corpo de funcionários que trabalha durante o ano todo para fazer as fantasias e os carros alegóricos; seu público alvo são os turistas e a população em geral;  e seu produto é o show na avenida.

Samba1 Dance Group’s
Nosso carnaval além fronteiras


Ashley Klein, Vanessa Santos, Dill Costa, Palloma Pimentel, Emily Conrath & Shirley Vieira

 Shirley Vieira, sambista e empresária de shows de carnaval, foi a responsável por levar nosso carnaval além fronteiras, introduzindo-o com toda sua garra e coragem na terra berço do Rock´in Roll, os EUA. Ela, com sua fibra e muito profissionalismo, literalmente ensinou o Tio Sam a "tirar o samba no pé".
 Shirley nasceu no Rio de Janeiro e, como todos os cariocas, ela aprendeu a dançar o samba ainda na adolescência. Nesta época ela aperfeiçoou suas habilidades de dança com profissionais sambistas  (um mestre de dança) das tradicionais escolas de samba do Rio de Janeiro. Shirley praticamente se criou dentro da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, subúrbio do Rio de Janeiro, bairro onde moram ainda seus parentes. 
 A Beija-Flor, campeã por várias vezes, é uma das tops do carnaval carioca e é nela e também em outras escolas de samba famosas do Brasil que Shirley se inspira, principalmente no quesito vestuário. Todo ano ela vem ao Brasil para se inteirar das novidades carnavalescas.
 Mas antes de aterrissar nos EUA, Shirley morou alguns anos em Salvador, Bahia, onde envolveu-se ainda mais com a dança. 
 Finalmente, em 1996, sentindo-se preparada para voar mais alto, Shirley Vieira, junto com um colega também sambista, foi para Chicago, e apenas um ano mais tarde, com o incentivo de sua família no Brasil, ela criava o Samba1 Dance Group, que tornou-se a maior e mais  famosa referência do samba brasileiro em terras estrangeiras, e ainda abrindo caminho para a apresentação de muitos outros artistas brasileiros. 
 O Samba1 Dance Group promove eventos com muitas bandas brasileiras,  como Paulinho Garcia, Samba de Chicago e Vente Marshall, e também com seu próprio CD de música personalizada, e hoje, entre seus clientes, estão muitas Universidades, Museus, participação em eventos internacionais, Gala Ball Eventos, Fund Raising, boates, churrascarias brasileiras nos EUA e ainda clubes de Jazz, na área de Chicago e na região Centro-Oeste do Estado. Na super lista de apresentações de Shirley e suas garotas sambistas, também estão Pittsburgh, PA, e Long Beach, CA.
 Shirley, além dos inúmeros eventos com seu grupo de sambistas, ainda participou como instrutora de samba no Summer Dance Chicago, programa realizado pela cidade de Chicago, no ano passado. 
 Como diz o site (em inglês) do Samba1 Dance Groups (www.brasilviachicago.com),
Shirley Vieira foi a pioneira real a abrir as portas da dança brasileira nos EUA, começando por Chicago. Hoje, além de continuar sambando bonito e gerenciar sua empresa, ela é professora de dança brasileira no Old Town School of Folk Music de Chicago e, além disso, tem dado muitos workshops de samba, levando ao seu grande público o autêntico sabor da dança e da cultura do Brasil.
 Com a agenda tão cheia, Shirley contratou os serviços de Edilson Lima, um excelente dançarino e coreógrafo, que a ajuda no trabalho cuidando da coreografia das belas dançarinas do Samba1 Dance Group. 
 E assim, onde os gangsters imperavam nas décadas de 20 e 30, hoje imperam Shirley Vieira e as lindas sambistas  do Samba1 Dance Group. As antigas rajadas de metralhadoras foram substituidas hoje  por rajadas do vento do divertimento e da alegria, roçando nas coloridas vestes de Shirley Vieira e suas dançarinas, movimentando-se como borboletas musicais e multicores pelas ruas de Chicago.

Quando havia carnaval em Barra Bonita

  Os inesquecíveis bailes carnavalescos de salão em Barra Bonita, aconteciam na Sociedade Italiana, no Ideal, na AABB e Bar do Liberato Fraga. Mais tarde outros clubes, como o Operário, Panela de Pressão, Vila Nova e Botafogo, disputariam a alegria e energia dos foliões.   Na rua, o corso dominava, inclusive com os músicos equlibrando-se precariamente e tocando de cima da carroceria de um caminhão. 
  O carnaval romântico das décadas de 30 a 50, teriam as participações também inesquecíveis dos boêmios da época, que formaram entre outros conjuntos musicais, o Barra Jazz, Garotos do Tietê, Conjunto Vocal Esponja (que pelo nome não devia deixar uma gota de bebida por onde passava), Marujos do Samba, Raul e seu Conjunto, Conjunto Regional, Carlito e seu Conjunto, a famosa Orquestra Tabajara e a Turma da Madrugada. Esta era tão divertida, que no carnaval de 1956 criou o bem-humorado Circus Relaxus.
  Em 1957, tendo como gancho o sonho de Cezar Saffi (o Tché), então diretor da AABB, de construir uma piscina, os jovens Luiz Pizzo e Arthur  Manin compuseram uma marchinha carnavalesca que virou sucesso nos bailes dos clubes e acabou até sendo gravada pela Orquestra Tabajara. A chamada Marcha do Tché, tinha a seguinte letra: "O Tché comprou calção pra nadar na nova piscina, mas como ela não está pronta, ele foi nadar na poça da esquina. Não faça onda, Tché, deixa de onda, não faça onda não. O perigo é que as ondas até poderão, oh, Tché, te rasgar o teu calção!" 
  Em 1983, os foliões barra-bonitenses pularam e dançaram alegremente, pela primeira vez, ao som de um trio elétrico. Mas, apesar do grande sucesso baiano, a coisa não pegou em Barra Bonita. Assim, o carnaval em Barra Bonita, principalmente o de rua, a trancos e barrancos (mais a trancos do que barrancos), continuou saindo, e os clubes tradicionais continuam lotados de foliões nas cinco noites de Momo.
  Também deixaram seu nome na história do carnaval barra-bonitense, os cantores Lazinho Castelari, Aparecido Silva (Cido), Burrinha, Ana Maria e Celia de Almeida,  entre outros, como Américo Veghini, Antonio Franco da Rocha, Láercio, Agenor e José Paschoal. Na AABB, o conjunto de Salin Kail era o grande "hit" da época. Cido, que cantou em clubes por mais de 30 anos, lembra com muita saudade daqueles tempos.
"Bandeira branca, amor, não possso mais, pela saudade que me invade, eu peço paz..."


Fontes: historiador Ademar Roberto Silva, radialista Herivelto Otoboni - Enciclopédia Abril - Livro Barra
Bonita - 100 anos - http://photografe.com.br/gal.htm - ttp://www.samba-choro.com.br/noticias/arquivo/5814
Fotógrafo: Augusto Malta - Evento: Carnaval no Rio Antigo - Ano: 1919 – O corso - A Av. Rio Branco, na
altura da Rua do Ouvidor e da Miguel Couto, tomada de gente - Christiane de Assis Pacheco - o  Carnatal
em Natal - Vista aérea do Carnatal - Micareta anual de Natal /RN - Autor Jrego - Ilustração: Foto do
carnaval de 1947 em Barra Bonita - Na foto, a moça Maria Tereza, que está com o braço no ombro do
rapaz Luiz Caldeira, foi castigada pelos pais apenas por isso. Ela é filha do famoso marinheiro de vapor, José Paulino. E, quanto ao castigo, não adiantou, pois ela acabou casando-se com o rapaz e, na época desta matéria, estavam octagenários e felizes...
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