“Algum homem primitivo um dia inventou
a faca, para cortar peles e
alimentos. Eis o cientista. Outro roubou
seu invento e então o usou
para matar. Eis o político.
Outro justificou a matança dizendo que
era o desígnio de algum deus.
Eis o religioso.” - Francisco Saiz
Statue
of
Chief
Seattle:
Tilikum
Place,
downtown
Seattle
Carta do cacique
Seattle ao presidente
dos EUA. Texto
de domínio público
distribuído pela ONU
O que ocorrer com
a Terra recairá
sobre os filhos
da Terra. Há uma
ligação em tudo!
Apresentação
Em 1854, o governo dos Estados Unidos
tentava convencer o chefe indígena Seatle a vender suas terras.
Como resposta, o chefe enviou uma carta ao presidente Franklin Pierce,
que se tornou um documento institucional importante e que merece uma reflexão
atenta, pois é uma lição que deve ser cultivada por
esta e pelas futuras gerações.
Decorridos 157 anos da carta do
cacique indígena Seatle ao presidente dos Estados Unidos, seus ensinamentos
permanecem atuais e proféticos, para todos aqueles que sabem enxergar
no fundo do conteúdo de sua mensagem, excluindo, é claro,
a mágoa, ódio e profundo desprezo ao homem branco que dá
para notar entremeados à sua pronúncia (ou carta). O
adendo é do GNT.
A carta do cacique Seatle é
uma lição inesgotável de amor à natureza e
à vida, que permanece na consciência de milhões de
pessoas em todas as partes do mundo. É o hino de todos aqueles que
amam a natureza e tudo o que nela vive. A cada leitura, renovamos os ensinamentos
que ali estão. Serve para ler e reler e passar adiante para que
todos a conheçam.
No Brasil, existiam mais de de
4 milhões de indígenas, quando os colonizadores chegaram.
Hoje, restam cerca de 400 mil! Embora os indígenas tenham contribuído
também para a miscigenação da raça brasileira,
é certo que foram sendo expulsos de suas terras pelos exploradores
e eliminados por doenças contraídas através do convívio
com os brancos.
Atualmente, continuam sofrendo a
invasão de suas terras por madeireiros, fazendeiros e garimpeiros,
seus principais algozes.
É fundamental que seja preservada
a riqueza de sua cultura, suas danças, ritos, conhecimentos sobre
as plantas e animais e as formas de viver em harmonia com a natureza.
A história dos indígenas
em cada país onde existiam, antes do homem branco, é diferente
nas suas particularidades, mas no seu conteúdo são iguais.
Nos Estados Unidos ou no Brasil, os problemas enfrentados pelos indígenas
foram os mesmos. Daí esse sentimento de solidariedade e cooperação
que existe entre os diferentes povos indígenas e essa sabedoria
milenar da qual todos nós temos muito que aprender, cultivar e preservar.
Foto do cacique e, ao
alto, sua estátua em Seattle
Uma
outra fonte
A equipe de Floresta Brasil fez
uma pesquisa sobre a história da carta que o cacique Seattle teria
mandado ao presidente norte-americano Franklin Pierce, em 1854 e chegou
à conclusão de que muito provavelmente o cacique Seattle
jamais escreveu carta alguma com o conteúdo que lhe é atribuído
ao presidente. Segundo as fontes pesquisadas pela equipe brasileira, os
índios Duwamish (do chefe Seattle) habitavam a região onde
atualmente se encontra o estado de Washington - no extremo Noroeste dos
Estados Unidos, fazendo divisa com o Canadá.
O primeiro registro conhecido sobre
a fala do cacique Seattle parece ser um artigo publicado pelo dr. Henry
Smith, no Jornal Seattle Sunday Star, em 1887. O dr.Smith teria estado
presente quando do pronunciamento do grande cacique, tendo o texto do artigo
se baseado nas anotações que seu autor teria feito na ocasião
do discurso.
O pronunciamento do cacique
Seattle
(Discurso pronunciado após a fala
do encarregado de negócios
indígenas do governo norte-americano
haver dado a entender
que desejava adquirir as terras de sua
tribo Duwamish)
"O grande chefe de Washington mandou
dizer que deseja comprar a nossa terra, o grande chefe assegurou-nos também
de sua amizade e benevolência. Isto é gentil de sua parte,
pois sabemos que ele não precisa de nossa amizade.
Vamos, porém, pensar em sua oferta,
pois sabemos que se não o fizermos, o homem branco virá com
armas e tomará nossa terra. O grande chefe de Washington pode confiar
no que o chefe Seattle diz com a mesma certeza com que nossos irmãos
brancos podem confiar na alteração das estações
do ano.
Minhas palavras são como as estrelas
que nunca empalidecem.
Como podes comprar ou vender o céu,
o calor da terra? Tal idéia nos é estranha. Se não
somos donos da pureza do ar ou do resplendor da água, como então
podes comprá-los? Cada torrão desta terra é sagrado
para meu povo, cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada
véu de neblina na floresta escura, cada clareira e inseto a zumbir
são sagrados nas tradições e na consciência
do meu povo. A seiva que circula nas árvores carrega consigo as
recordações do homem vermelho.
O homem branco esquece a sua terra
natal, quando - depois de morto - vai vagar por entre as estrelas. Os nossos
mortos nunca esquecem esta formosa terra, pois ela é a mãe
do homem vermelho. Somos parte da terra e ela é parte de nós.
As flores perfumadas são nossas irmãs; o cervo, o cavalo,
a grande águia - são nossos irmãos. As cristas rochosas,
os sumos da campina, o calor que emana do corpo de um mustang, e o homem
- todos pertencem à mesma família.
Portanto, quando o grande chefe
de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito
de nós. O grande chefe manda dizer que irá reservar para
nós um lugar em que possamos viver confortavelmente. Ele será
nosso pai e nós seremos seus filhos. Portanto, vamos considerar
a tua oferta de comprar nossa terra. Mas não vai ser fácil,
porque esta terra é para nós sagrada.
Esta água brilhante que corre
nos rios e regatos não é apenas água, mas sim o sangue
de nossos ancestrais. Se te vendermos a terra, terás de te lembrar
que ela é sagrada e terás de ensinar a teus filhos que é
sagrada e que cada reflexo espectral na água límpida dos
lagos conta os eventos e as recordações da vida de meu povo.
O rumorejar d'água é a voz do pai de meu pai. Os rios são
nossos irmãos, eles apagam nossa sede. Os rios transportam nossas
canoas e alimentam nossos filhos. Se te vendermos nossa terra, terás
de te lembrar e ensinar a teus filhos que os rios são irmãos
nossos e teus, e terás de dispensar aos rios a afabilidade que darias
a um irmão.
Sabemos que o homem branco não
compreende o nosso modo de viver. Para ele um lote de terra é igual
a outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite
e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã,
mas sim sua inimiga, e depois de a conquistar, ele vai embora, deixa para
trás os túmulos de seus antepassados, e nem se importa. Arrebata
a terra das mãos de seus filhos e não se importa. Ficam esquecidos
a sepultura de seu pai e o direito de seus filhos à herança.
Ele trata sua mãe - a terra - e seu irmão - o céu
- como coisas que podem ser compradas, saqueadas, vendidas como ovelha
ou miçanga cintilante. Sua voracidade arruinará a terra,
deixando para trás apenas um deserto.
Não sei. Nossos modos diferem
dos teus. A vista de tuas cidades causa tormento aos olhos do homem vermelho.
Mas talvez isto seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que de
nada entende.
Não há sequer um lugar
calmo nas cidades do homem branco. Não há lugar onde se possa
ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o tinir das asas de um
inseto. Mas talvez assim seja por ser eu um selvagem que nada compreende;
o barulho parece apenas insultar os ouvidos. E que vida é aquela
se um homem não pode ouvir a voz solitária da coruja ou,
de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Sou um homem vermelho
e nada compreendo. O índio prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar
a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado
por uma chuva do meio-dia, ou recendendo a pinheiro. O ar é
precioso para o homem vermelho, porque todas as criaturas respiram em comum
- os animais, as árvores, o homem.
O homem branco parece não
perceber o ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele
é insensível ao ar fétido. Mas se te vendermos nossa
terra, terás de te lembrar que o ar é precioso para nós,
que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta.
O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também
recebe o seu último suspiro. E se te vendermos nossa terra, deverás
mantê-la reservada, feita santuário, como um lugar em que
o próprio homem branco possa ir saborear o vento, adoçado
com a fragrância das flores campestres.
Assim pois, vamos considerar tua
oferta para comprar nossa terra. Se decidirmos aceitar, farei uma condição:
o homem branco deve tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos.
Sou um selvagem e desconheço que
possa ser de outro jeito. Tenho visto milhares de bisões apodrecendo
na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia a tiros disparados
do trem em movimento. Sou um selvagem e não compreendo como um fumegante
cavalo de ferro possa ser mais importante do que o bisão que nós,
os índios, matamos apenas para o sustento de nossa vida.
O que é o homem sem os animais?
Se todos os animais acabassem, o homem morreria de uma grande solidão
de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais, logo acontece
ao homem. Tudo está relacionado entre si.
Deves ensinar a teus filhos que
o chão debaixo de seus pés são as cinzas de nossos
antepassados; para que tenham respeito ao país, conta a teus filhos
que a riqueza da terra são as vidas da parentela nossa. Ensina a
teus filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa
mãe. Tudo quanto fere a terra - fere os filhos da terra. Se os homens
cospem no chão, cospem sobre eles próprios.
De uma coisa sabemos. A terra não
pertence ao homem: é o homem que pertence à terra, disso
temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue
que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo
quanto agride a terra, agride os filhos da terra. Não foi o homem
quem teceu a trama da vida: ele é meramente um fio da mesma. Tudo
o que ele fizer à trama, a si próprio fará.
Os nossos filhos viram seus pais
humilhados na derrota. Os nossos guerreiros sucumbem sob o peso da vergonha.
E depois da derrota passam o tempo em ócio, envenenando seu corpo
com alimentos adocicados e bebidas ardentes. Não tem grande importância
onde passaremos os nossos últimos dias - eles não são
muitos. Mais algumas horas, mesmos uns invernos, e nenhum dos filhos das
grandes tribos que viveram nesta terra ou que têm vagueado em pequenos
bandos pelos bosques, sobrará, para chorar sobre os túmulos
de um povo que um dia foi tão poderoso e cheio de confiança
como o nosso.
Nem o homem branco, cujo Deus com
ele passeia e conversa como amigo para amigo, pode ser isento do destino
comum. Poderíamos ser irmãos, apesar de tudo. Vamos ver,
de uma coisa sabemos que o homem branco venha, talvez, um dia descobrir:
nosso Deus é o mesmo Deus. Talvez julgues, agora, que o podes possuir
do mesmo jeito como desejas possuir nossa terra; mas não podes.
Ele é Deus da humanidade inteira e é igual sua piedade para
com o homem vermelho e o homem branco. Esta terra é querida por
ele, e causar dano à terra é cumular de desprezo o seu Criador.
Os brancos também vão acabar; talvez mais cedo do que todas
as outras raças. Continuas poluindo a tua cama e hás de morrer
uma noite, sufocado em teus próprios dejetos.
Porém, ao perecerem, vocês
brilharão com fulgor, abrasados pela força de Deus que os
trouxe a este país e, por algum desígnio especial, lhes deu
o domínio sobre esta terra e sobre o homem vermelho. Esse destino
é para nós um mistério, pois não podemos imaginar
como será, quando todos os bisões forem massacrados, os cavalos
bravios domados, as brenhas das florestas carregadas de odor de muita gente
e a vista das velhas colinas empanada por fios que falam. Onde ficará
o emaranhado da mata? Terá acabado. Onde estará a águia?
Irá acabar. Restará dar adeus à andorinha e à
caça; será o fim da vida e o começo da luta para sobreviver.
Compreenderíamos, talvez,
se conhecêssemos com que sonha o homem branco, se soubéssemos
quais as esperanças que transmite a seus filhos nas longas noites
de inverno, quais as visões do futuro que oferece às suas
mentes para que possam formar desejos para o dia de amanhã. Somos,
porém, selvagens. Os sonhos do homem branco são para nós
ocultos, e por serem ocultos, temos de escolher nosso próprio caminho.
Se consentirmos, será para garantir as reservas que nos prometestes.
Lá, talvez, possamos viver os nossos últimos dias conforme
desejamos. Depois que o último homem vermelho tiver partido e a
sua lembrança não passar da sombra de uma nuvem a pairar
acima das pradarias, a alma do meu povo continuará vivendo nestas
floresta e praias, porque nós a amamos como ama um recém-nascido
o bater do coração de sua mãe.
Se te vendermos a nossa terra, ama-a
como nós a amávamos. Proteje-a como nós a protegíamos.
Nunca esqueças de como era esta terra quando dela tomaste posse.
E com toda a tua força, o teu poder e todo o teu coração,
conserva-a para teus filhos e ama-a como Deus nos ama a todos. De uma coisa
sabemos: o nosso Deus é o mesmo Deus, esta terra é por Ele
amada. Nem mesmo o homem branco pode evitar o nosso destino comum".
NE – Como o GNT sempre faz, antes
de postar qualquer matéria aqui, pesquisamos vários textos
atribuidos ao cacique Seattle. Alguns estavam incompletos e outros tinham
parágrafos diferentes dos textos que achamos mais satisfatórios.
Desta peneirada, agrupamos 3 textos e suas respectivas apresentações
ou considerações, deixando ao leitor a palavra final,
após ler e ponderar se as apresentações, considerações
e o texto em si satisfazem nossa curiosidade sobre um assunto ocorrido,
segundo consta a maioria das informações, há um século
e meio e que, mais que um lindo tratado ecológico, tornou-se uma
lenda e traz uma profecia sobre a Terra e o homem branco que sobre ela
habita que vem se cumprindo dia após dia, ano após ano, século
após século. Como teria dito o chefe índio “será
o fim da vida e o começo da sobrevivência”...E eu acho que
desde o século XX para cá já estamos vivenciando esta
profecia em seu ápice.
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