Chocolate Quente

 

 

  Sabe, a gente que nasceu na roça – não sei se todos que estão me lendo,  sempre olha para o mundo que vai se descortinando diante da gente, desde a infância, até sempre,  como uma criança que trava conhecimento com coisas que nunca viu. As assustadoras, a  gente esquece; as maravilhosas, a gente guarda lá no fundo do coração, para que a mente, quando quiser, possa puxar o arquivo e nos fazer voltar àquele dado momento que tanto nos emocionou ou nos encantou.
  E eu, para não fugir à esta regra, que nem sei se existe ou se é coisa minha apenas, sempre fui assim. Uma curiosidade sem limites, mas sadia, me levava a procurar conhecer as coisas, fossem elas quais fossem, desde os tempos da roça até quando vim para a cidade grande.
  É uma coisa meio que inexplicável, e que, tenho certeza, vai fugir completamente ao entendimento das crianças e jovens de hoje, acostumados a aviões e carros com controle remoto, depois a vídeos-games e agora a celulares, computadores, ipods e uma infinita parafernália do mundo consumista.
  Assim também, são acostumados, acho que desde o berço, a chips, bolachas recheadas, danones e Mc Donald´s da vida. Então eles dificilmente irão se satisfazer, por exemplo, com um bom prato de polenta com feijão ou com um jabá com farinha.
  Mas para mim, que nasci já diante de um prato de polenta e feijão, acompanhados por couves ou taioba, é claro que mais tarde iria me deslumbrar diante de um prato de arroz com batatas! E até hoje, a comida que para muitos é trivial, eu a vejo como um banquete! Isso não quer dizer que eu seja um glutão, mas apenas que prezo tudo aquilo que não tive na infância.
  Meus carrinhos de rolemã, feitos pelo meu irmão mais velho, eram uma maravilha. Normalmente eu saia deles arranhado e ralado, mas feliz. Os carrinhos de controle remoto eram apenas um pedaço de tábua com dois cortes abaixo, que se encaixavam nos carretéis vazios que minha mãe jogava fora na sua labuta de costureira.
  Beber um danone para mim hoje, é como saborear um néctar dos deuses. Até a adolescência eu nem sabia o que era isso. Assisto a um filme do Homem Aranha e me sinto como uma criança satisfeita. Na infância, a gente ia assistir filmes (de graça) e somente aos sábados num salão paralelo à igreja católica no meu pequeno Alto Jequitibá. Os filmes eram em P&B e às vezes vinham em seriados, e a gente passava uma semana ansioso para saber se o mocinho ia salvar a mocinha ou não...
  Bem, o que tudo isso tem a ver com chocolate quente? Tem tudo, pois era necessário explicar como é (ou era) a infância de um garoto de sítio, para chegar a essa história e para melhor vocês compreendê-la, pois se a contasse diretamente, poderia parecer uma coisa idiota, sem que eu falasse dos parâmetros entre o garoto de ontem e os garotos de hoje.
  Lembro que foi num domingo. A igreja presbiteriana organizou uma festa no pátio do Colégio Evangélico, para arrecadar fundos não sei para quê. Eu tinha lá meus 8 anos de idade e não ia me incomodar com isso. Para mim o importante, a alegria, foi o convite do meu pai para irmos até à dita festa. Meu irmão, já moço, trabalhava fora da cidade naquela época, e então o “reizinho” era eu mesmo. Vantagens de um caçula...
  Então, naquela noite gelada de julho, lá fomos, meu pai, minha mãe e eu, para a festa. Meus olhos inquietos primeiro se espantaram com aquela multidão de gente. Deveria ter ali no pátio umas 300 pessoas, mas para mim era uma multidão. Fomos andando pelas barracas coloridas entre aquela gente risonha e feliz. Eu olhava para as pessoas e para as delícias expostas nas barracas, tipo pés-de-moleque, doces de abóbora, de milho, suculentos bolos de fubá e outras incontáveis delícias. De repente meu pai parou perto de uma barraca desconhecida para mim. Olhei para uma plaquinha acima, escrita à mão, e tentei soletrar...c..h...o...cho...co....l...a...la...chocolate...q...u...e...n....quente...
chocolate quente, acabei de decifrar e logo perguntei à minha mãe:
 - O que é chocolate quente, mãe?
- Ah, é uma coisa muito gostosa...espere seu pai voltar, que você vai saber do que estou falando.
 Meu pai já havia ido até à barraca e voltava equilibrando três grandes e estranhas peças brancas na mão. Eram xícaras, o que eu também não conhecia, pois estava acostumado com canecas e, para mim, para beber algo, se usava canecas ou copos. Os copos, de lindos desenhos, minha mãe guardava para as visitas ou para a gente usar em ocasiões especiais. De resto, tudo era em canecas mesmo.
  Meu pai, com um meio sorriso, depositou com vagar a tal da xícara na minha pequena mão e avisou:
- Cuidado, filho, que está quente. Segura na asa e bebe devagar, para não queimar a boca.
 Minha curiosidade estava a mil, mesmo quando vi aquela coisa amarronzada fumegando um cheiro delicioso de dentro da xícara. Senti o calor da bebida através da louça e, para acabar de vez com a curiosidade, dei uma pequena sorvida...dei uma sopradinha, pra ajudar a esfriar, e outra sorvida...e outra...
- E então, Sérgio, não disse que era gostoso? – Disse minha mãe.
  Eu nem respondi, tão encantado fiquei com o sabor da bebida. E continuei com minhas goladas e esvaziei a xícara antes dos meus pais. Perguntei ao meu pai se podia beber outra xícara, e ele, me dando uma moeda, disse para eu mesmo ir à barraca e pegar outra.
 E lá fui eu, sorrindo e lambendo os lábios e logo voltando com um xícara cheia de chocolate quente para perto dos meus pais. E repeti o mesmo ritual, agora já até sem me incomodar com a multidão que se acotovelava à nossa volta, fazendo fila para a barraca de chocolate quente.
  Meus pais sabiam de tudo, eu pensava. Como minha mãe havia dito, aquela bebida era uma delícia do outro mundo! Ela descia fumegante, aquecendo primeiro meu estômago e depois se espalhava, dando um calor gostoso em todo meu corpo. Era como se um anjo naquela hora me cobrisse com seu manto, me protegendo do vento gelado que saltava as montanhas e se espalhava pelo vale do Alto Jequitibá, fazendo as pessoas tiritarem de frio.
 Na terceira xícara, eu já estava até com calor, mas, como dizem meus irmãos mineiros, aquela coisa era boa demais, sô! Na quarta xícara, meu pai, de cenho franzido, fazendo cara de bravo, acabou com minha alegria. 
- Agora chega, menino! As outras pessoas também querem beber chocolate quente, certo?
  Pois bem, a festa acabou e nós voltamos felizes para casa. Eu ainda lambia os lábios, vez ou outra, lembrando o delicioso sabor do chocolate quente. Aliás, eu não ia esquecê-lo por um bom tempo, pois senão pelo sabor, seria pela dor de barriga que tive já na madrugada, o que me impediu de ir à escola no dia seguinte...
                                                     


A cidade de Alto Jequitibá pouco mudou. A foto ao alto, de 2002, é exatamente como era em 1958, quando tive minha primeira experiência com o tal de chocolate. E as barracas e as pessoas amontoadas no pátio do Colégio Evangélico, são iguais às da narrativa.
 

 
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