|
Literatura
de Cordel
A estátuta do escravo Inácio,
precursor da Literatura de Cordel através dos
seus Repentes. A estátua está no jardim da linda Catingueira,
Paraíba,
em justa homenagem ao famoso filho - Foto: catingueiraonline.com
Recebem o nome de Literatura de
Cordel as obras que são produzidas de maneira praticamente artesanal
por artistas dos estados nordestinos, onde esta cultura surgiu através
de um escravo, no século XIX. Essas obras, além do nível
artístico, é uma difusão popular da arte folclórica
nordestina. Nessa manifestação os artistas dos cordéis
contam e cantam os costumes, as crenças ou personagens (reais e
imaginárias).
Os exemplares têm uma tiragem
de milhares de cópias e são vendidos nas feiras populares.
Recebem o nome de cordel, por serem expostos à venda pendurados
em fios de barbante.
Os temas são geralmente populares
como a história do Padre Cicero, Lampião, Pedro Malazarte,
Surubim, etc. Mas o tema Cangaço é o que mais ocupa as páginas
dos cordéis.
A literatura de cordel e o Repente,
se fundem, pois um é semelhante ao outro. Um desafio de cantores
repentistas pode transformar-se num cordel, assim como o cordel pode se
transformar no repente. São duas culturas nordestinas, mas que se
fundem. Tanto é que
Inácio da Catingueira, o escravo
tido como o criador da Literatura de Cordel, fazia os versos não
escritos, mas cantados em desafios de Repentes.
Embora a Embolada, seja também
muito interessante, não se pode confundir, pois esta é cantada
tão depressa que realmente vira uma “embolada”, exigindo muita perícia
vocal do cantador, como diz a canção Festival de Embolada,
do CD Carga Pesada, da Som Livre.
Já os desafios de Repente,
são cantados pausadamente, de maneira inteligível, ao som
normalmente do violão ou de pandeiros e já exige do artista
muita atenção e rapidez de pensamento, pois enquanto o desafiante
está cantando uma quadra, ele tem que prestar atenção
no que o outro está cantando e ao mesmo tempo ir formulando os versos
na cabeça para dar a resposta.
Quem
foi Inácio da Catingueira
Inácio
da Catingueira, escravo do fazendeiro Manuel Luiz, foi cantador lendário
e citado orgulhosamente por todos os improvisadores do sertão. Seus
dotes de espírito, a rapidez fulminante das respostas, a graças
dos remoques, a fertilidade dos recursos poéticos, a espantosa resistência
vocal, ficaram celebrados perpetuamente. Sendo negro e analfabeto não
trepidou enfrentar os maiores cantadores do seu tempo, debatendo-se heroicamente
e vencendo quase todos. Foi o único homem que conseguiu derrubar
o mais famoso repentista da época, Romano da Mãe D’Água,
depois de cantarem juntos oito dias em Patos, luta que é a página
mais falada nos anais da cantoria sertaneja. Inácio nasceu no dia
de santo Inácio Loiola, 31 de julho, na fazenda e povoação
de Catingueira, perto de Teixeira, Ribeira do Piancó, no Estado
da Paraiba, e faleceu aí, sexagenário, em fins de 1879.
O nome certo
do local onde nasceu Inácio, no século XIX, é Sítio
Marrecas, como escravo de Manoel Luiz de Abreu, mas também foi cativo
por herança de Francisco Fidié Rodrigues de Sousa, genro
do mesmo. No inventário, Inácio da Catingueira, constou como
bem, em valor de 1.200$000 (um conto e duzentos mil réis). Tal partilha
foi procedida na residência do senhor Nicolau Lopes da Silva, filho
da viúva Ana Joaquina da Silva, em 13 de fevereiro de 1875, oportunidade
em que Inácio da Catingueira já contava 30 anos de idade
e era considerado um imenso bem humano. No dia 22 de março, em seguida
à partilha, o inventário foi homologado pelo juiz, dr. João
Tavares de Melo Cavalcante Filho. O histórico documento encerrou-se
com distribuição das custas aos serventuários da justiça,
em 21 de abril do mesmo ano.
Nas pesquisas
e informações que obtivemos através de Gervásio
da Silva, de Saloá, Pernambuco, se desencontram apenas a idade de
Inácio. Umas fontes trazidas por ele, dizem que Inácio morreu
com mais de 60 anos, vitimado por pneumonia; e outras dizem que ele, vitimado
pela mesma doença, haveria morrido com pouco mais de 30 anos. Pelo
sim, pelo não, resolvemos manter as duas datas.
Inácio
da Catingueira, analfabeto, teve como grande trunfo para conseguir a liberdade,
o talento poético, com o qual sensibilizou o seu senhor. Não
chegava a ser impedido de se ausentar da morada para qualquer viagem, por
mais que demorasse e, ainda por cima, era dono de tudo o que conseguia
como sua humildade artística.
O acontecimento
que o tornou conhecido é tido também, como a maior peleja
entre dois repentistas já ocorrida no Nordeste. O desafiante seria
outro poeta, não escravo e já afamado, conhecido por Romano
da Mãe D água, e tal embate se daria na cidade de Patos.
A primeira vez que Inácio se deparou com aquele que seria um parceiro
por muito tempo, foi registrada na casa de Firmino Aires, oportunidade
em que se fazia acompanhar de um grupo proveniente de sua terra. O objetivo
era apenas conhecer o homem tido como grande mestre. Levado para a presença
do Rei dos Repentes, empunhando o seu pandeiro, Inácio foi desafiado
por este, e o célebre desafio entre os dois cantadores e que sagrou
Inácio o campeão inconteste, durou oito dias, garantindo
público, em praça pública de Patos, nas redondezas
da tradicional feira, proximidades da Igreja da Conceição.
A partir daí, ficaram companheiros e, por onde passava a dupla,
arregimentava verdadeiras multidões.
Inácio
da Catingueira, segundo a outra fonte, veio a falecer acometido de pneumonia,
em conseqüência de trabalhos no campo, época da queima
de brocas, com pouco mais de trinta e três anos de idade. Seu
corpo não foi sepultado na Fazenda, como de praxe faziam com os
escravos. Repousa em uma praça, no centro da cidade, a qual leva
o seu nome, tendo, inclusive, uma estátua em sua homenagem.
Patativa
do Açaré
"Eu nunca vi filho único
Que não fosse preguiçoso!
Quem anda com guarda-costa
Não é valente, é
medroso!
O homem se faz por si,
Ninguém nasce poderoso!
O pobre fica maluco,
O rico fica nervoso..."
A veia artística de Patativa e
o deboche, que também é parte fundamental no Repente, como
se insultasse o adversário. Mas, ao fim, os repentistas finalizam
o desafio em paz um com o outro.
Antônio Gonçalves da
Silva, mais conhecido por Patativa do Assaré, nasceu em 5 de março
de 1909, na Serra de Santana, num pequeno sítio, no município
de Assaré, no sul do Ceará. É filho de Pedro Gonçalves
da Silva e Maria Pereira da Silva. Foi casado com D. Belinha, com a qual
teve nove filhos. Publicou Inspiração Nordestina em 1956;
Cantos de Patativa, em 1966; e em 1970, Figueiredo Filho publicou seus
poemas comentados Patativa do Assaré. Tem inúmeros folhetos
de cordel e poemas publicados em revistas e jornais. Está sendo
estudado na Sorbonne, na cadeira da Literatura Popular Universal.
Patativa do Assaré foi unanimidade
no papel de poeta mais popular do Brasil. Para chegar onde chegou, dava
sua receita poética: dizia que para ser poeta não era preciso
ser professor. 'Basta, no mês de maio, recolher um poema em cada
flor brotada nas árvores do seu sertão', declamava.
Cresceu ouvindo histórias,
desafios de repentistas e folhetos de cordel. Em pouco tempo, a fama de
menino violeiro se espalhou. Com oito anos trocou uma ovelha do pai por
uma viola. Aos 18 anos foi para o Pará e enfrentou muitos repentistas.
Quando voltou à sua terra, seu nome Patativa do Assaré, já
estava consagrado no mundo do Repente e depois o seria também na
Literatura de Cordel. Nessa época, alguns desses poetas populares
eram chamados de 'patativas' porque viviam cantando versos. Para não
ser apenas mais uma patativa, ele adotou o nome de sua cidade.
Luiz Gonzaga, o rei do Baião,
gravou muitas músicas dele, entre elas a Triste Partida, uma das
músicas mais emocionantes gravadas pelo "Véio Lula", narrando
a tristeza do migrante que é obrigado pela seca a deixar sua terra
e partir com a família para terras estranhas.
Sobre sua vida, a obra mais recente é
'Poeta do Povo - Vida e obra de Patativa do Assaré', um trabalho
do jornalista e pesquisador Assis Angelo, que reúne, além
de obras inéditas, um ensaio fotográfico e um CD.
Patativa, como a maioria dos nordestinos,
teve um começo de vida duro. Trabalhava na roça e ainda com
deficiência física, pois perdeu um dos olhos aos 4 anos de
idade. No livro 'Cante lá que eu canto cá', o poeta dizia
que no sertão enfrentava a fome, a dor e a miséria, e que
para 'ser poeta de vera é preciso ter sofrimento'.
Apesar de seus estudos escolares
só terem durado seis meses, pelo montante e importância de
sua obra ele foi honrado com o título de doutor honoris
causa por três universidades. Aos 91 anos de idade, com a saúde
abalada e a memória começando a falhar, Patativa dizia que
não escrevia mais porque ao longo de sua vida já dissera
tudo que havia a dizer. Patativa do Açaré conquistou na Literatura
de Cordel contemporânea a mesma fama do gênio pioneiro Inácio
da Catingueira. Ele morreu em 08 de julho de 2002 na cidade que lhe emprestava
o nome, e onde se encontra um museu em sua homenagem.
A
saga de Lampião é o tema mais explorado
Na mente dos repentistas e escritores
de Cordel, tem a miséria do sertão, tem as histórias
mais populares, enfim, é uma mistura magnífica de problemas
sociais, histórias e lendas. E, é claro que Lampião,
o rei do Cangaço, é o tema preferido deles, até hoje.
Prova disso são os dois livretos de Cordel que me chegaram ao conhecimento,
durante a pesquisa para esta matéria. Abaixo o GNT publica as duas
histórias, para quem conhece e gosta de Cordel, para quem tem apenas
curiosidade e para aqueles que não conhecem. A primeira história
é de autoria de José Pacheco e narra a hipotética
chegada de Lampião no inferno e sua briga com os capetas; e a segunda,
da autoria de Guaipuan Vieira, ao contrário do colega escritor de
Cordel, narra a também hipotética ida de Lampião para
o céu e os problemas que ele causa a São Pedro e ao Padim
Ciço Romão. Vamos ler? Ah, sim, se você quiser, pode
arrumar uma musiquinha de cabeça, como os repentistas do sertão,
e até cantar...
|