Gente,
amores e cidades
Sergio Ferraz
Estive
pensando em amar...
Mas
ainda mais pensando, perguntei a mim mesmo:
Amar
a quem?
Todos
os amores nascem no peito e muitos morrem no leito.
Todas
as pessoas têm um coração cheio de amores
Mas
nem todos os amores têm um coração.
Estive
pensando em fazer uma revolução...
Mas
ainda mais pensando, perguntei a mim mesmo:
Revolução
contra quem?
Toda
política é igual e todos os políticos fazem política.
E
todo o povo é cheio da política
Porque
toda política é cheia de políticos...
Estive
pensando então em mudar...
Mas
ainda mais pensando, perguntei a mim mesmo:
Mudar
para onde?
Todas
as cidades são iguais.
Todas
as cidades são cheias de casas, com casas cheias de gente.
E
toda a gente é cheia de esperança, sem saber que, talvez,
A
esperança esteja cheia da gente.
Toda
a cidade tem um monte de casas
E
uns poucos ricos e um monte de pobres.
Todas
as casas têm um cachorro que late
E
faz cocô na grama do jardim do vizinho...
E
toda a cidade tem uma igreja
E
toda igreja tem um padre e um coroinha
E
o padre quer a coroa, e o coroinha quer ser padre.
Toda
igreja também tem um alto-falante
E
todos têm raiva do alto-falante
Mas
todos não falam a ninguém
Pois
temem a santa inquisição espiritual...
Toda
cidade tem uma igreja e toda igreja tem um monte de fiéis
E
todo fiel tem um terço com um monte de bolinhas
E
faz um monte de ladainhas
E
todos eles dizem ter Cristo no coração
Mas
a maioria fala mal do seu irmão.
Toda
cidade tem uma prefeitura
E
toda prefeitura tem o seu alcaide
E
todo alcaide comanda um monte de vereadores
E
todo vereador diz que é amigo do povão
Mas
é ao poder que ele entrega seu coração
Todas
as cidades têm suas empresas
E
toda empresa tem seu patrão
E
todo patrão tem seu empregado
E
todo empregado sonha em ser patrão
Depois
de muito assim pensar
Descobri
que toda forma de amor é perigosa
Todo
político é apenas o que ele é, ou seja, político
mesmo. Mais nada...
E
que também uma revolução não leva a nada
Pois
todas as cidades são iguais, cheias de casas
Com
casas cheias de gente, com gente cheia de esperança
Sem
saber que, talvez, a esperança já esteja cheia da gente.
Resolvi
então não amar, não revolucionar e não mudar.
A
diferença, cheguei a uma conclusão, está na gente
E
não no País e no político, não nas cidades
e não nas gentes, como também não no coração
dos outros.
O
País é o mesmo, as cidades continuam cheias de casas e cheias
de gente e as pessoas continuam desamando.
É...eu
tenho que mudar a mim mesmo, pois não importa aonde vá, não
importa a quem ame, todas as cidades são iguais, todas são
cheias de casas e todas as casas são cheias de gente...
E
todas a gente é cheia de esperança e a esperança cheia
da gente!
Hienas
Ao
ser descoberto nosso lindo País, Caminha escreveu que, em se plantando,
tudo dava aqui. Quem pode, não planta, e quem planta é castigado.
E a gente ri...
Os
portugueses criaram a Derrama e derramaram o sangue dos nossos heróis.
E a gente riu...
Governos
medíocres, tiranos, politiqueiros, corruptos, curvados ante o imperialismo
do dólar. E a gente ri...
Inflação
subindo, com tendência a subir mais. E a gente ri...
Nos
obrigam a votar e a pagar compulsoriamente os compulsórios. E a
gente ri...
Tarifas
sobem 500 por cento e o salário, 7 por cento. E a gente ri...
Aluguéis
pela hora da morte e alimentos pela missa de sétimo dia. E a gente
ri...
Saúde
falida, Educação indo pelo mesmo caminho. E a gente ri...
Os
cartéis esmagam a economia (e os pobres). E a gente ri...
Os
políticos enriquecem. E a gente ri...
O
arroz e o feijão apodrecem. E a gente ri...
Pobres
e crianças morrem de fome, de tiro, de desespero. E a gente ri...
Bandidos
policiam as penitenciárias e os policiais banditeiam. E a gente
ri...
Bandido
usa fuzil AR15 e o cidadão honesto é obrigado a entregar
sua garrucha de dois tiros. E a gente ri...
A
gente só não acha graça quando falta cachaça,
carnaval e futebol. Aí a gente vira técnico, fica zangado,
desesperado, mau-humorado. E a gente não ri...Mas é perigoso
a gente não rir, então inventaram que o povo quer pão
e circo. Não temos o pão muitas vezes, mas o circo está
sempre armado. Um circo, diga-se de passagem, sem trapézio, sem
animais...só de contorcionistas e palhaços. E onde nós
somos os atores. E é a gente que ri...
Incerto
hoje
Sei
que meu corpo reclama algo
Sei
que minha alma anseia por alguma coisa
Mas,
não sei dizer o que seja, o que ela almeja
Não
consigo enxergar, como o cego sem luz
Não
consigo saber de mim mesmo
Sei
que quero a liberdade, e não encontrá-la, cria a minha ansiedade
Sei
que quero amar, mas não sei a quem
Sei
que quero ser amado, mas não sei por quem
Sem
rumo, sem direção, sem uma meta sequer
Me
sinto como um barco sem leme
Perdido
na imensidão do oceano além
Me
vejo como o peregrino, perdido no Saara
Com
fome, sem saber como comer
Como
sede, sem saber onde beber
Com
medo, sem saber a quem acorrer
A
mente pede paz, tranquilidade que satisfaz
Mas
não sei onde encontrar
Meu
corpo pede descanso, anseia um remanso
Mas
não encontra onde repousar
Procuro
um abrigo, sem saber qual
Procuro
por tudo, entre o bem e o mal
O
passado é cruel, o presente é como o fel
O
futuro? Apenas o medo dos passos a dar
As
pessoas são ingratas e más. Todas elas
E
eu também sou ingrato e mau comigo mesmo.
Pois
não sei da certeza que vociferam as goelas
Não
sei o que quero. Desejos a esmo
Sei
sim, o que não quero, e o espírito debate dentro do corpo
Como
ave aprisionada
Uma
prisão de muitos e muitos anos
Mas
como a ave, que após o debate, se resigna com
As
barras da gaiola
Meu
espírito liberto, também não sei onde irá
Para
as profundezas do inferno, continuando seu penar
Ou
com o Criador irá se encontrar?
Ah,
Deus...onde Estás?
Todos
os dias, a qualquer hora, posso me encontrar com Satanás
Mas,
e o meu Senhor, onde?
Porque
me deu uma vida que eu não queria
Porque
me deu esse espírito confuso
Porque
não me bafejou com a sorte dos grandes,
Já
que essa, em todos esses anos, de mim se esconde
Porque
essa cantilena humana de pensamento positivo?
Porque,
se assim for, alguns têm a mente superior a outros?
É
tudo uma questão de fé? Ou eu sou o que sou?
Então
a minha é tão pequena que não move uma pedrinha sequer
Da
montanha que Jesus falou?
Eu
creio no Senhor, mas desacreditei de mim
Sei
que é preciso lutar,
Mas
me feri nas batalhas e sangrei na desilusão
Sem
objetivos agora, parece que caminho a estrada
Daqueles
que já não são
O
que fazer? Aonde ir? O que realmente sou?
O
que o Senhor espera de mim
Que
ainda não retirou assim o sopro da vida que em mim soprou?
Eu
não tenho nada a oferecer, a não ser
Um
corpo cansado e angustiado
Um
espírito amargurado, amedrontado, desesperançado
Estou
perdido, Senhor
Como
o barco sem bússola no alto mar
Como
o andante no Saara, sem saber onde o deserto irá terminar
Como
o cego em local desconhecido
Estou
perdido
E
parece que ninguém se importa
Pois
todos têm sua própria sorte, seu próprio eu
Sua
própria porta
E
eu, que já não tenho mais um eu
Que
em todas as portas já entrei
A
procura de mim
Espero
um socorro pelo qual já gritei
Espero
luz, não sei de onde
Espero
compreensão. De quem, não sei
Como
posso querer isso, se eu mesmo não me compreendo
Se
me vejo da vida no fundo
Como
um intruso no mundo
Enquanto
jovem, pensava que sabia o que queria
Agora,
com mais idade, sei que só caminhei encruzilhadas
Sem
jamais saber o caminho certo. O rumo correto
Jesus
disse ser o Caminho, a Verdade e a Vida
Então
Senhor, me mostre esse Caminho
Me
diz qual é a Verdade nesta Vida
Onde
encontrar guarida
Pois
os caminhos que trilhei, sempre sozinho
Em
minha alma só deixaram marcas de ferida
E
a cada passo parecem ir me tirando a vida
Sei
que a morte a cada dia
Mais
se aproxima
A
cada suspirar mais o fôlego se mina
Como
condenado, Senhor
Gostaria
de ter direto a um último desejo
Eu
queria saber por que aqui estou, é o que por último almejo
Me
responda, apenas isso, por favor.
Pequenas
maravilhas
(para crianças)
Olha
aquela vaquinha, pastando sob o sol
Na
mais absoluta calma
E
o ser humano, nervoso, gritando palavrões
Apenas
fere a minha alma
Olha
o meu gato, miando sobre o telhado
Tranquilo,
nada aflito
E
o ser humano, sem paz, já que nada o satisfaz
agride
meu espírito
Ouça
o coaxar do sapo, feliz sob o luar
Ele
entoa o seu canto na lagoa
E
o ser humano, cego pela estupidez
Tão
somente me magoa
Ouça
também do passarinho, lá na verde árvore
O
lindo e contente estribilho
E
o ser humano, na sua negra vereda
Da
vida encobre o brilho
O cachorro,
bonachão e humilde
Vem
lamber a nossa mão
E
no ser humano, egoísta e maldoso
Só
se encontra ingratidão
Veja
as formigas lidando unidas
Como
comandadas por um capitão
E
o ser humano, sem união
Se
rebela até contra seu irmão
Posso
falar de borboletas e também do cantar do galo
Que
na madrugada, seu belo canto faz ouvir
Mas
o ser humano, sem Deus no coração
Tais
maravilhas jamais poderá sentir
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