Crônicas & Poesias 3
Gente, amores e cidades 
                Sergio Ferraz 

Estive pensando em amar... 
Mas ainda mais pensando, perguntei a mim mesmo: 
Amar a quem? 
Todos os amores nascem no peito e muitos morrem no leito. 
Todas as pessoas têm um coração cheio de amores 
Mas nem todos os amores têm um coração. 
Estive pensando em fazer uma revolução... 
Mas ainda mais pensando, perguntei a mim mesmo: 
Revolução contra quem? 
Toda política é igual e todos os políticos fazem política. 
E todo o povo é cheio da política 
Porque toda política é cheia de políticos... 
Estive pensando então em mudar... 
Mas ainda mais pensando, perguntei a mim mesmo: 
Mudar para onde? 
Todas as cidades são iguais. 
Todas as cidades são cheias de casas, com casas cheias de gente. 
E toda a gente é cheia de esperança, sem saber que, talvez, 
A esperança esteja cheia da gente. 
Toda a cidade tem um monte de casas 
E uns poucos ricos e um monte de pobres. 
Todas as casas têm um cachorro que late 
E faz cocô na grama do jardim do vizinho... 
E toda a cidade tem uma igreja 
E toda igreja tem um padre e um coroinha 
E o padre quer a coroa, e o coroinha quer ser padre. 
Toda igreja também tem um alto-falante 
E todos têm raiva do alto-falante 
Mas todos não falam a ninguém 
Pois temem a santa inquisição espiritual... 
Toda cidade tem uma igreja e toda igreja tem um monte de fiéis 
E todo fiel tem um terço com um monte de bolinhas 
E faz um monte de ladainhas 
E todos eles dizem ter Cristo no coração 
Mas a maioria fala mal do seu irmão. 
Toda cidade tem uma prefeitura 
E toda prefeitura tem o seu alcaide 
E todo alcaide comanda um monte de vereadores 
E todo vereador diz que é amigo do povão 
Mas é ao poder que ele entrega seu coração 
Todas as cidades têm suas empresas 
E toda empresa tem seu patrão 
E todo patrão tem seu empregado 
E todo empregado sonha em ser patrão 
Depois de muito assim pensar 
Descobri que toda forma de amor é perigosa 
Todo político é apenas o que ele é, ou seja, político mesmo. Mais nada... 
E que também uma revolução não leva a nada 
Pois todas as cidades são iguais, cheias de casas 
Com casas cheias de gente, com gente cheia de esperança 
Sem saber que, talvez, a esperança já esteja cheia da gente. 
Resolvi então não amar, não revolucionar e não mudar. 
A diferença, cheguei a uma conclusão, está na gente 
E não no País e no político, não nas cidades e não nas gentes, como também não no coração dos outros. 
O País é o mesmo, as cidades continuam cheias de casas e cheias de gente e as pessoas continuam desamando. 
É...eu tenho que mudar a mim mesmo, pois não importa aonde vá, não importa a quem ame, todas as cidades são iguais, todas são cheias de casas e todas as casas são cheias de gente... 
E todas a gente é cheia de esperança e a esperança cheia da gente! 

Hienas

 Ao ser descoberto nosso lindo País, Caminha escreveu que, em se plantando, tudo dava aqui. Quem pode, não planta, e quem planta é castigado. E a gente ri...
Os portugueses criaram a Derrama e derramaram o sangue dos nossos heróis. E a gente riu...
Governos medíocres, tiranos, politiqueiros, corruptos, curvados ante o imperialismo do dólar. E a gente ri...
Inflação subindo, com tendência a subir mais. E a gente ri...
Nos obrigam a votar e a pagar compulsoriamente os compulsórios. E a gente ri...
Tarifas sobem 500 por cento e o salário, 7 por cento. E a gente ri...
Aluguéis pela hora da morte e alimentos pela missa de sétimo dia. E a gente ri...
Saúde falida, Educação indo pelo mesmo caminho. E a gente ri...
Os cartéis esmagam a economia (e os pobres). E a gente ri...
Os políticos enriquecem. E a gente ri...
O arroz e o feijão apodrecem. E a gente ri...
Pobres e crianças morrem de fome, de tiro, de desespero. E a gente ri...
Bandidos policiam as penitenciárias e os policiais banditeiam. E a gente ri...
Bandido usa fuzil AR15 e o cidadão honesto é obrigado a entregar sua garrucha de dois tiros. E a gente ri...
A gente só não acha graça quando falta cachaça, carnaval e futebol. Aí a gente vira técnico, fica zangado, desesperado, mau-humorado. E a gente não ri...Mas é perigoso a gente não rir, então inventaram que o povo quer pão e circo. Não temos o pão muitas vezes, mas o circo está sempre armado. Um circo, diga-se de passagem, sem trapézio, sem animais...só de contorcionistas e palhaços. E onde nós somos os atores. E é a gente que ri... 

Incerto hoje

Sei que meu corpo reclama algo
Sei que minha alma anseia por alguma coisa
Mas, não sei dizer o que seja, o que  ela almeja
Não consigo enxergar, como o cego sem luz
Não consigo saber de mim mesmo
Sei que quero a liberdade, e não encontrá-la, cria a minha ansiedade
Sei que quero amar, mas não sei a quem
Sei que quero ser amado, mas não sei por quem
Sem rumo, sem direção, sem uma meta sequer
Me sinto como um barco sem leme
Perdido na imensidão do oceano além
Me vejo como o peregrino, perdido no Saara
Com fome, sem saber como comer
Como sede, sem saber onde beber
Com medo, sem saber a quem acorrer
A mente pede paz, tranquilidade que satisfaz
Mas não sei onde encontrar
Meu corpo pede descanso, anseia um remanso
Mas não encontra onde repousar
Procuro um abrigo, sem saber qual
Procuro por tudo, entre o bem e o mal
O passado é cruel, o presente é como o fel
O futuro? Apenas o medo dos passos a dar
As pessoas são ingratas e más. Todas elas
E eu também sou ingrato e mau comigo mesmo.
Pois não sei da certeza que vociferam as goelas
Não sei o que quero. Desejos a esmo
Sei sim, o que não quero, e o espírito debate dentro do corpo
Como ave aprisionada
Uma prisão de muitos e muitos anos
Mas como a ave, que após o debate, se resigna com 
As barras da gaiola
Meu espírito liberto, também não sei onde irá
Para as profundezas do inferno, continuando seu penar
Ou com o Criador irá se encontrar?
Ah, Deus...onde Estás?
Todos os dias, a qualquer hora, posso me encontrar com Satanás
Mas, e o meu Senhor, onde?
Porque me deu uma vida que eu não queria
Porque me deu esse espírito confuso
Porque não me bafejou com a sorte dos grandes, 
Já que essa, em todos esses anos, de mim se esconde
Porque essa cantilena humana de pensamento positivo?
Porque, se assim for, alguns têm a mente superior a outros?
É tudo uma questão de fé? Ou eu sou o que sou?
Então a minha é tão pequena que não move uma pedrinha sequer
Da montanha que Jesus falou?
Eu creio no Senhor, mas desacreditei de mim
Sei que é preciso lutar, 
Mas me feri nas batalhas e sangrei na desilusão
Sem objetivos agora, parece que caminho a estrada
Daqueles que já não são
O que fazer? Aonde ir? O que realmente sou?
O que o Senhor espera de mim
Que ainda não retirou assim o sopro da vida que em mim soprou?
Eu não tenho nada a oferecer, a não ser
Um corpo cansado e angustiado
Um espírito amargurado, amedrontado, desesperançado
Estou perdido, Senhor
Como o barco sem bússola no alto mar
Como o andante no Saara, sem saber onde o deserto irá terminar
Como o cego em local desconhecido
Estou perdido
E parece que ninguém se importa
Pois todos têm sua própria sorte, seu próprio eu
Sua própria porta
E eu, que já não tenho mais um eu
Que em todas as portas já entrei
A procura de mim
Espero um socorro pelo qual já gritei
Espero luz, não sei de onde
Espero compreensão. De quem, não sei
Como posso querer isso, se eu mesmo não me compreendo
Se me vejo da vida no fundo
Como um intruso no mundo
Enquanto jovem, pensava que sabia o que queria
Agora, com mais idade, sei que só caminhei encruzilhadas
Sem jamais saber o caminho certo. O rumo correto
Jesus disse ser o Caminho, a Verdade e a Vida
Então Senhor, me mostre esse Caminho
Me diz qual é a Verdade nesta Vida
Onde encontrar guarida
Pois os caminhos que trilhei, sempre sozinho
Em minha alma só deixaram marcas de ferida
E a cada passo parecem ir me tirando a vida
 Sei que a morte a cada dia 
Mais se aproxima
A cada suspirar mais o fôlego se mina
Como condenado, Senhor
Gostaria de ter direto a um último desejo
Eu queria saber por que aqui estou, é o que por último almejo
Me responda, apenas isso, por favor.

Pequenas maravilhas
(para crianças)

Olha aquela vaquinha, pastando sob o sol
Na mais absoluta calma
E o ser humano, nervoso, gritando palavrões
Apenas fere a minha alma

Olha o meu gato, miando sobre o telhado
Tranquilo, nada aflito
E o ser humano, sem paz, já que nada o satisfaz 
agride meu espírito

Ouça o coaxar do sapo, feliz sob o luar
Ele entoa o seu canto na lagoa
E o ser humano, cego pela estupidez
Tão somente me magoa

Ouça também do passarinho, lá na verde árvore
O lindo e contente estribilho
E o ser humano, na sua negra vereda
Da vida encobre o brilho

O cachorro, bonachão e humilde
Vem lamber a nossa mão
E no ser humano, egoísta e maldoso
Só se encontra ingratidão

Veja as formigas lidando unidas
Como comandadas por um capitão
E o ser humano, sem união
Se rebela até contra seu irmão

Posso falar de borboletas e também do cantar do galo
Que na madrugada, seu belo canto faz ouvir
Mas o ser humano, sem Deus no coração
Tais maravilhas jamais poderá sentir
 


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