Hoje acordei por volta
das 7 horas da manhã. Bem, acordei, é modo de dizer, pois
normalmente durmo e acordo a hora que me dá na telha. Não
sigo os horários humanos. Assim mesmo dei uma boa espreguiçada
– coisa que aprendi com meu dono, sacudi as pulgas e sai pra rua.
Eu mal sabia o que me esperava naquele dia, mas como desconhecia os fatos,
e como também não temos preocupações, como
os homens, eu não estava nem aí. Queria mais era encontrar
alguém para bater papo, um osso pra roer ou, quem sabe, alguma donzela
a fim de um romance...
Revirei algumas latas
de lixo, arrebentei vários sacos plásticos, na esperança
de algo comestível, mas só achei as porcariadas dos humanos.
Nada de comida. E comecei mal o dia, pois além de não encontrar
nada para o café da manhã, o dono do lixo, ou da casa onde
o lixo estava em frente, me viu e mandou um pedaço de tijolo sobre
mim. Pegou de raspão, mas mesmo assim doeu pra cacete. Sai ganindo
de dor e fugi para outra rua. Caramba, que culpa tinha eu em querer comer?
Meu dono só me dava comida a hora que lembrava – e quando lembrava!
Lá pelas 8
horas, com toda aquela emoção inicial, bateu uma dor de barriga.
Procurei um canto da calçada, perto de um canteiro de flores, e
mandei ver. Nossa...não era mesmo meu dia. A dona das flores me
viu, gritou uma pá de palavrões e correu atrás de
mim com uma vassoura. Cáspita, o que ela queria que eu fizesse?
Eu não tinha como ir ao banheiro, igual a ela, e além disso,
meu dono me deixava solto e não me ensinara a fazer cocô no
lugar certo, como alguns amigos meus faziam. Como os humanos mesmo dizem,
a educação começa no berço...
Por volta do meio
do dia, já batia aquela fome literalmente canina e eu voltei à
casa do meu dono. Neca de piriquitiba de comida. Nem um pedaço de
polenta! Bebi um pouco de água que restara de uma poça da
chuva da noite anterior, e sai novamente pra rua. Numa esquina tinha
várias mulheres nervosas, metendo a boca no prefeito da cidade;
numa outra esquina, quatro homens falavam sobre os perigos da guerra no
Oriente. Dois defendiam o Bush, um defendia o Hussein e o outro falava
que a culpa era do Fernando Henrique Cardoso...
Andei um pouco mais
e...tcham, tcham, tcham! Vi uma donzela linda, que assim que me viu, veio
abanando o rabo pro meu lado, toda oferecida. Não me fiz de rogado.
Depois de umas cheiradas aqui e uns cafunés ali, tomei a posição
clássica e, clau!
Mas não é
que nem mesmo amor a gente pode fazer sossegado? Logo apareceram uns putos
duns estudantes e começaram a dar pedradas na gente. Uma mulher
do outro lado da rua deu risadas e gritou que eles estavam fazendo certo,
que aquilo era mesmo uma pouca vergonha e etc e tal. Puxa vida! Até
parece que os humanos não fazem isso...E fazem até pior,
pois alguns agem como verdadeiros animais na hora disso. Não têm
pudor e nem vergonha, segundo o próprio código moral deles.
Um amigo meu certa vez disse que os humanos têm tanta moral quanto
uma pulga. Se nós agimos por instinto, eles também o fazem.
Se nós viramos latas de lixo atrás de comida, tem também
alguns pobres humanos, esquecidos pela sociedade, que reviram lixões
atrás do que comer. Sendo assim, segundo esse sábio amigo
meu, os atuais humanos só se diferenciam da gente na hora de ir
ao banheiro...
Eu, após muito
refletir, acabei concordando com ele. Afinal, os animais não enganam,
não traem, não dão cheques sem fundos, não
fingem ser o que não são e não falam mal do prefeito,
por pior e mais imbecil que ele seja. Se é pra falar mal, porque
votam no sujeito, né? Não faz sentido...Além do mais,
o humano fala, fala, mas na hora de agir, ele não tá nem
aí. Ao contrário de nós, animais. A gente não
fica com vontade de morder. Se tivermos que morder, nós vamos morder,
e pronto! Sem essa de ficar só rosnando de bobeira. Esse negócio
de que cão que ladra não morde, é coisa de humano.
Andei e andei pelas
ruas da cidade, ponderando sobre a vida e sem que nada mais de emocionante
acontecesse. À tardezinha resolvi voltar pra casa. Cheguei depois
do jantar dos meus donos. Lá de dentro veio um arroto, seguido de
um pum e logo vi alguma coisa sendo jogada para o quintal. Era minha comida,
calculei. Fui até perto do objeto voador não identificado
e vi tratar-se de um pedaço de osso de frango. Ora, os nossos amigos
veterinários estão carecas de dizer que não se deve
dar tais coisas a nós, pois corremos o risco de perfurar alguma
tripa. Mas a fome era tanta, que acabei roendo aquele minguado ossinho
mesmo. Quando foi lá pelas 10 horas da noite, vi outro objeto voador
não identificado sendo jogado no quintal. Só que desta vez
ele veio rodopiando lá da casa vizinha. Fui até perto e,
pasmem! Era um grande e suculento pedaço de carne! Cheirei pra ver
se não estava estragada e...manja que te fa bene! Engoli a carne
em saborosos nacos.
Santa cadela da minha
mãe! Pouco depois parecia que minhas tripas estavam sendo rasgadas,
uma a uma. A dor era tanta, que eu urrava e rolava pelo chão, pedindo
um socorro que já sabia que não viria. Descobri naquele terrível
momento que maior que a covardia dos humanos era a sua maldade. O vizinho
havia jogado um pedaço de carne envenenado para mim. Mesmo na angústia
da dor insuportável que corroia meus intestinos, lembrei vagamente,
já quase em delírio, que o vizinho sempre reclamava dos meus
latidos noturnos. Justo ele, cujo filho colocava um som tão alto
que irritava toda vizinhança. Mas ninguém iria dar um pedaço
de carne envenenado pra ele...
Em poucos minutos
a dor já não era tão insuportável, mas meu
cérebro parecia estar entorpecido e eu já não conseguia
pensar. Da minha boca começou a sair uma espuma branca e meus membros
foram se enrijecendo. Eu já não podia mexer nenhum músculo.
Só algumas contratações doloridas que faziam meu corpo
estremecer. Meus olhos estavam embaçados e eu não via nada
além de algumas formas esfumaçadas e indefinidas, que foram
sumindo aos poucos, enquanto eu ia mergulhando numa escuridão
infinita...
FIM
(Dedicado à
Nanci, Geovete, Ieda, Jamil e a todas
pessoas que se
dedicam aos animais)
NE - O belo cão que
ilustra este conto, não é um vira-lata. Ele é um cão
de raça. Não sei qual, pois não sou nenhum "cachorrólogo".
Coloquei a foto dele apenas para amenizar um pouco a história. |

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