Escrevi
esta história de ficção em 1993 e agora, após
16 anos, vendo que a tecnologia cibernética avança a níveis
incríveis, com a busca dos poderosos de um controle total sobre
o homem, com implante de chips, com a caminhada para uma unificação
monetária, aumento de violência, perseguições
religiosas e outros males, além de uma 5a Essência detectada
por cientistas, que vem acelerando o Planeta, ví que tudo vem se
cumprindo de acordo com o já previsto na Bíblia Sagrada há
milhares de anos. E eu em 1993, já sentindo isso, com base nas Escrituras,
escrevi esta história. Como muita coisa aqui que antes era imaginação,
acabou acontecendo, resolvi publicar o livro, para vocês mesmos tirarem
suas conclusões...
Sérgio Ferraz
– Janeiro de 2009
ECLESIASTES
por Sergio R. Ferraz
(Copyright 1993/2009-Todos
os direitos reservados)
Dedicado ao meu irmão
Abiezer R. Ferraz
"O que foi, isso é
o que há de ser; e o que se fez, isso se tornará a fazer:
de modo que nada há
novo debaixo do sol." (Rei Salomão - Bíblia Sagrada)
Capítulo 1
Ano 2040, século
21. Apesar de não ter acontecido nos últimos 40 anos o tão
temido conflito nuclear, o mundo passou por profundas transformações
nas áreas geográfica, politica e econômica. A ciência
que tanto crescera ao final do século passado, recolheu-se aos últimos
avanços, chegando mesmo a regredir. Doenças já há
muito debeladas, voltavam a atingir os povos da Terra e a fazer vítimas
como as fazia ainda em meados do século 20.
Na área politico-geográfica,
paises inteiros haviam sucumbido à força das mudanças
econômicas. Soberania então era uma palavra perdida no tempo.
inflação, doenças, superpopulação e
endividamento, foram as pragas que levaram vários paises a um tal
grau de ingovernabilídade, que o último recurso fôra
o de se anexar à Liga Universal, a fusão do Mercado Comum
Europeu com o Grande Mercado Américo-Asiático.
Não havia mais presidentes,
senadores ou deputados. Apenas governadores, indicados pelos líderes
da Liga, governavam nas grandes cidades dos países da Liga e dos
anexados. Há somente uma moeda para todas as transações
financeiras e uma língua oficial, apesar de milhares de pessoas
resistirem a isso, falando ainda sua lingua pátria. Mas isso não
interferia na disposição mundial da Liga Universal.
Contudo, apesar do avanço
tecnológico dos países da Liga, grandes problemas do passado,
além das doenças, afligem o mundo. Malgrado o rígido
controle de natalidade, as pessoas continuam a ter muitos filhos, contribuindo
ainda mais para a superpopulação mundial. Se houvera um avanço
no sentido da união dos povos, a libertinagem, a idolatria, a violência
e todo tipo de vício também alcançaram níveis
animalescos. Apesar do aparente progresso, o gênero humano se corrompia
cada vez mais.
As boas almas que existiam
ainda no mundo, através da Comissão de Cidadãos, pressionam
os lideres da Liga para refrear com leis mais duras e policiamento ostensivo
aquela baderna generalizada.
- L1, posso mandar entrar
a Comissão?
L1, o atual líder
supremo da Liga, assentiu com a cabeça. Eles vão se reunir
para debaterem o problema da violência, que já estava ficando
fora do controle da Liga. Mas pela cabeça do L1, naquele momento,
está passando um problema tão ou mais grave que o da violência:
a destruição da Camada de Ozônio. Esta já se
encontra quase que completamente destruida, e por esse motivo, lagos e
rios estão secando, pois já não chove há anos.
O clima se alterava em questão de horas, de frio para um calor insuportável.
Se tal fato persistisse seria o caos total. Segundo os cientistas, o mundo
estava chegando à beira da completa destruição com
o desequilíbrio ecológico causado por décadas e décadas
de completo desrespeito à Terra.
A Liga Universal não
tem idéia de como resolver todos esses problemas. Foram criados
grupos de cientistas e ecologistas; foram colocados filtros antipoluentes
em todas as indústrias e estas não produziam mais aerosóis,
mas o dano já acontecera e o problema persistia, com tendência
a piorar ainda mais.
L1 levantou-se do seu lugar,
ao centro de uma grande mesa de vidro, e caminhou até a uma das
janelas do imenso pavilhão que servia de sede à Liga. O grande
líder tem cerca de cinquenta anos. É alto, de tez avermelhada.
Cabelos de tom cinza-amarelo ornam a fronte de um rosto largo e sério.
A barba curta e totalmente branca dá a ele um aspecto de mais idade.
Todos os membros da Liga - quatorze ao todo, têm um número
antecedido pela letra L. Seus números são de acordo com a
adesão de seus paises à Liga Universal, e eles eram escolhidos
por votos, nas grandes cidades governadas.
L1, ainda de pé,
mãos entrelaçadas às costas, olhou fixamente o grupo
de cidadãos à sua frente.
- Caros senhores, eu já
sei que estão aqui em busca de uma resposta aos problemas nas grandes
cidades.. .pois bem, nós estamos preparando tal resposta!
- E qual é ela? -
quis saber um dos cidadãos, mais exaltado.
Sob o olhar cúmplice
dos demais membros da Liga, e de expectativa dos cidadãos, L1 apertou
um botão no tampo da mesa de vidro, e uma grande tela apareceu na
parede, às costas dele. Na tela apareceram as figuras de centenas
de soldados em treinamento.
- Vejam! - L1 virou-se,
apontando a tela. - Em nossa Central de Treinamento Policial, estamos preparando
cerca de mil homens a mais, aumentando em muito nosso efetivo policial.
Com mais esses homens patrulhando as cidades, teremos um pouco mais de
segurança.
- Não creio que isso
vá resolver. - Disse alguém da Comissão de Cidadãos.
- Experiências passadas nos dizem que não adianta ficar aumentando
o número de policiais nas cidades!
- Certo. Sem liderança,
eles não são capazes de solucionar todo os problemas de violência.
- Atalhou um outro - E, se solucionam algum caso, a própria lei
impede que os criminosos sejam devidamente castigados! É preciso
líderes honestos em nossa força policial, e é preciso
mudar a lei!
- Um momento... - Pediu
L1 - Foram vocês mesmos e os seus pais que criaram esse atual estado
deplorável de violência. Seus pais não defendiam os
criminosos no final do século passado?
O líder fez uma pausa,
olhando o grupo agora cabisbaixo e calado à sua frente. Vendo que
suas palavras tiveram o efeito desejado, continuou:
- A lei que vocês
criaram está ai. Eu apenas a faço cumprir. Vocês querem
mudar a lei dos seus pais? Vocês se responsabilizarão pela
quebra dessas leis? Será que todas as Comissões de Cidadãos
do mundo aprovarão e darão permissão para matarmos
criminosos?
- Mas.. .é preciso
matá-los? - Perguntou um dos cidadãos, timidamente.
- Onde prendê-los?
- Perguntou em resposta L1 - Já temos muitos problemas com superpopulação
carcerária.
- E o problema da Camada
de Ozônio? - Indagou outro cidadão, fazendo com que a conversa
tomasse outro rumo. - Os criadores estão perdendo milhares de cabeças
de gado, diariamente, com essa seca.
- Calma, senhores.. .um
problema de cada vez. Agora estamos falando de segurança. Porém,
quanto à Camada de Ozônio, nossos cientistas estão
empenhados em solucionar e reverter seus malefícios. Mais dia, menos
dia, acabaremos com essa triste situação.
Dando por encerrado o assunto,
a Comissão de Cidadãos se retira, e L1 volta a ocupar seu
lugar na távola de vidro. Seu semblante continua a mostrar preocupação.
- Senhores, eu daria tudo
para voltarmos a 1990, onde cada pais cuidava dos seus respectivos problemas!
- Desabafou. L4, Iider da França na Liga Universal, disse:
- Quando anexamos os pequenos
países e seus povos à Liga, não esperávamos
tantos problemas!
- Ora, há apenas
15 anos que foi criada a Liga Universal - lnterviu L8, da Itália.
Houve uma grande mistura etnológíca e é natural que
problemas tais como a violência ocorram.
- Mas não era para
ocorrer em tal intensidade. - Tomou L1 - A intenção era nos
unirmos em busca do progresso e bem-estar da Humanidade!
- Olha, eu não vou
discutir aqui o problema da mistura racial, segundo o camarada L8. - O
líder da Russia se levantou, apontando um grande globo geográfico
da nova ordem mundial. - Eu acho que nosso maior problema está nas
eleições que se aproximam. - Mostrando no globo as faixas
alaranjadas que indicavam as grandes cidades governadas, continuou: - Temos
de pelo menos amenizar os problemas da violência nas cidades governadas,
pois dentro de três meses teremos eleições, e temos
que ganhá-las, para assim termos tempo para procurar uma solução
definitiva para todos os problemas, e não só o da violência.
- Entendo o que você
quer dizer, L10. - Cortou L3 - Se perdermos as eleições,
gente nova vai estar liderando na Liga, e os problemas tendem então
a se perpetuarem.
L1O anuiu com a cabeça
e sentou-se. Então L3, representante da China, levantou-se, e na
sua tradicional maneira de falar, curvando levemente o corpo em cada frase,
disse:
- Creio que honoráveis
membros da Liga têm razão. Temos vários problemas para
resolver, ou amenizar, até as eleições. Necessário
seria atacar todos problemas de uma só vez, mas será que
existe em todo nosso vasto planeta alguém capaz de resolver isso
em tão pouco tempo?
Após o líder
chinês ter se sentado, todos se olhavam, como se em busca de alguma
solução viável. Então o líder israelense,
L7, tomou a palavra:
- O L3, sem querer, talvez
trouxe uma abertura para nossas angústias. - Como? quiseram saber
os demais membros da Liga, inclusive o próprio L3. O que ele dissera
de tão importante para um efeito tão imediato? L7 continuou:
- Nós temos tentado
resolver esses problemas, sem nenhum sucesso, e o L3 pergunta se existe
alguém capaz de solucioná-los.. .E se criássemos algo
ou alguém para nos ajudar?
Os líderes se entreolham,
sem alcançar ainda o sentido pleno das palavras do L7. Este sente
isso, e explica:
- Ora, senhores.. .se a
nossa ciência médica estagnou, a tecnológica fez avanços
extraordinários, principalmente na área da informática.
Acho que devemos pedir aos nossos cientistas que analisem o problema por
esse prisma. - E L7 concluí com uma parábola: - Se você
tem muitos ratos em casa e não sabe como acabar com eles, deve então
arranjar um gato!
Seguiu-se às palavras
do líder de Israel uma intensa discussão. Por fim, todos
concordaram em colocar aquela idéia em prática. Afinal, o
que tinham a perder? Caso desse errado, seria apenas mais uma tentativa
que não dera certo. Mas, se ao contrário, fosse criado algo
que trouxesse solução àqueles problemas, seria uma
maneira viável de se consolidarem no poder. E tal hipótese
não os desagradava de forma alguma.
Capítulo II
Nova York é
a cidade-sede da Liga Universal; São Francisco, Rio de Janeiro,
São Paulo, Tokio, Bogotá, Cidade do México, Paris,
Montreal, Berlim, Londres, Roma, Telavive, Moscou, Madrid, Sidney, Lisboa,
Buenos Aires, Hong-Kong, Havana, Cairo, Atenas, Caracas, Damasco, Riad,
Seul e Estocolmo, são as 26 cidades do mundo governadas por uma
junta composta de um governador e vários secretários para
cada uma delas. O povo dessas cidades escolhe, desde o ano 2010 do novo
século, os líderes, e estes, por sua vez, nomeiam os governadores
das cidades. Os líderes, escolhidos por voto, como antigamente,
devem cuidar do destino do mundo, através da Liga Universal, por
dez anos. Os que estavam atualmente no poder eram o segundo grupo de lideres
escolhidos na nova ordem mundial.
Contudo, se as cidades governadas
escolhiam seus líderes, os criminosos
escolhiam as cidades para
as sedes do mal. Dentre estas, São Francisco, Tokio, Rio de Janeiro
e Bogotá, são as mais violentas. As mesmas forças
criminosas do século passado controlam o poder da violência
e do vicio nessas cidades. A reavivada Máfia italiana em São
Francisco, o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, a Yakuza em Tokio e o
Cartel de Medelin, em Bogotá. Na virada do século, o Cartel
de Medelin voltara ao poder pleno no narcotráfico, conduzido por
um outro líder, mais sanguinário e cruel que Escobar.
As atividades criminosas
aumentavam em violência e em quase total desrespeito às autoridades,
porém suas organizações e áreas de atuação
no mundo continuavam exatamente as mesmas do século passado. O controle
delas ainda era sobre sequestros, assassinatos, prostituição,
jogos, drogas, pornografia e mais uma dezena de atividades ilícitas
e perníciosas.
Nos dias atuais, tais organizações
criminosas deixaram de ser preocupação das autoridades. Hoje
elas lutam entre si mesmas, em busca do controle total do poder. Na sua
insana busca desse poder, as organizações do mal tentavam
imperar nas cidades governadas. Já haviam corrompido vários
governadores. Castro Mendes, governador da cidade do Rio de Janeiro, era
um desses corrompidos. Os criminosos só não haviam penetrado
ainda na cúpula do poder mundial, representada pelos lideres na
Liga Universal.
Capítulo III
São 20 horas
de uma noite abafada e quente. Na cidade do Rio de Janeiro as pessoas já
eram acostumadas a todo aquele calor, mas Peter Danthon não. Grossas
gotas de suor escorrem por todo o seu corpo. Peter sente a fina camisa
branca toda empapada, o que até certo ponto é bom, pais quando
uma ténue brisa da baia o atingia, resfriava o pano molhado da camisa,
colado ao corpo, e dava a Peter uma rápida, porém gostosa,
sensação de frescor.
Peter, que é um dos
principais líderes religiosos da Nova Igreja, está no Rio
de Janeiro por causa de problemas na congregação local. Em
todos os pontos do mundo a Nova Igreja passava por crises, porém,
nas cidades dominadas pelo crime organizado, os problemas dela eram bem
maiores. No Rio de Janeiro, por exemplo, havia casos de cristãos
presos por pregarem o Evangelho. Não agradava às autoridades
corrompidas a presença daquelas pessoas pregando uma vida cristã
sadia, livre de vícios. Muitas pessoas eram convertidas, e as organizações
criminosas, que vivem exclusivamente da degradação humana
não queria os chamados "crentes” por perto.
No ano 2010, poucos anos
após o despertar do novo século, os então existentes
templos evangélicos foram quase que todos fechados. Os cristãos,
na época, acreditavam ter chegado o Ano da Luz. Havia paz, acontecia
a união dos povos da Terra. Todos eram aparentemente irmãos.
Para os lideres cristãos de então, a evangelização
não mais seria necessária. Porém, aquele estado paradisíaco
pouco durou, Peter lembra-se bem, pois na época ele e outros crentes
duvidaram daquela eufórica idéia de paz e amor. Em menos
de cinco anos e a decantada união da paz e do amor cedia lugar a
tempos de ódio e muita criminalidade. As pessoas a partir de então
entregavam-se desesperançadas a uma vida desregrada. Sexo, ganância,
corrupção e crime abafaram a já tão pequena
religiosidade de muitas pessoas.
Então surgiu a Nova
Igreja, e em pouco tempo ela cresceu, agregando em suas fileiras milhares
de pessoas que buscavam no Evangelho a saida daquele lodaçal em
que se transformava o mundo. Quando as organizações criminosas
sentiram a força da Nova Igreja, começaram então as
perseguiçães. Decretos de governadores corruptos impediam
a realização de trabalhos religiosos nas cidades. Estes passaram
a ser feitos às escondidas. Bombas em casas de lideres religiosos
e muitas prisões dos membros da Nova Igreja aconteciam, alegando
que eles perturbavam a ordem pública...
Peter tomou um taxi e seguiu
em direção ao bairro de Santa Teresa. Era esta a terceira
vez que ele vinha ao Rio de Janeiro. O táxi parou, a pedido do pastor,
em frente um velho prédio, numa rua de pouco movimento.
- Irmão Peter!
De braços abertos,
Antonio Carlos, pastor da congregação local da Nova Igreja,
encontra Peter Danthon, saudando-o alegremente.
- Shalon, irmão!
- Peter cumprimenta Antonio Carlos na forma que a Nova Igreja adotara para
a saudação entre seus membros. Shalon significa paz em hebraico,
e paz é o que eles mais necessitam no difícil trabalho de
conquistar almas para Deus.
Antonio Carlos colocou o
braço em volta dos ombros do recém-chegado, cuja presença
já era aguardada.
- Temos uma cama macia e
uma gostosa refeição à sua espera.
Peter Danthon visita todos
os anos as congregações nas cidades da Liga e também
nas cidades dos paises anexados. Apesar da alegria demonstrada pelo pastor
Antonio Carlos, a visita é tensa, pois a Nova Igreja no Rio de Janeiro
vem sofrendo ameaças abertas do governador Castro Mendes.
- Estou muito contente por
estar aqui, irmãos. Graças ao bom Deus, minha viagem foi,
digamos assim, vitoriosa até agora.
De um improvisado púlpito,
Peter cumprimenta os membros cariocas da Nova Igreja. Após um refrescante
chuveiro e uma boa refeição, ele fôra colocado a par
de todos os problemas da congregação, por Antonio Carlos.
Agora, já revigorado da longa viagem, Peter fala a uma silenciosa
e atenta platéia. São ao todo 45 almas, entre homens, mulheres
e sonolentas crianças, sentadas em caixotes, pneus velhos e em algumas
poucas cadeiras. Eles se encontram na parte térrea do velho edifício.
- Visitei os irmãos
em Bogotá, em Quito e Buenos Aires. Eles têm orado muito por
vocês.
O líder religioso
conta um pouco sobre sua viagem.
- Nessas três cidades,
graças a Deus, a perseguição tem sido pouca. Acontece,
mas não tanto quanto aqui no Rio de Janeiro. Mas devemos perseverar,
irmãos, pois como disse o Senhor Jesus Cristo, aquele que perseverar
até o fim alcançará o galardão eterno. Amém!
Toda a congregação
respondeu amém.
- Amanhã, se Deus
quiser, irei com o pastor Antonio Carlos conversar com o governador. Vamos
ameaçar levar a noticia de suas más ações à
Liga Universal! - As pessoas presentes, felizes e orgulhosas de tal despreendimento
de Peter e Antonio Carlos, gritaram aleluias e bateram palmas.
Capítulo IV
Apesar do calor insuportável,
o ambiente no laboratório de pesquisas da Liga é
muito agradável,
devido aos aparelhos de ar condicionado. L1 deixara de suar
mas, mesmo que ainda o fizesse,
isso não importaria a ele, tão absorto está ante
as explicações
do cientista-chefe.
- Já experimentamos
em diversos animais e o sucesso foi total. Todos os
movimentos deles puderam
ser pré-condicionados.
- Mas essa... L1 esqueceu
o nome. L7, que o acompanhava, o ajuda.
- Célula computadorizada.
- Chip é melhor pra
você se lembrar. - Disse o cientista
- Isso, essa coisa pode
ser adaptada a um ser humano?
- Obviamente. - Respondeu
o cientista - Trata-se de uma microcélula, que em
nada interferirá
no cotidiano daquele em que ela for inserida.
E o cientista continua a
explanação. L1 está muito atento a tudo que ele diz,
pois
as chances de sucesso, as
possibilidades de uma futura solução para os
problemas do planeta, deixam-no
feliz.
-A partir do momento em
que tivermos um voluntário, introduziremos esse chip
em seu cérebro, através
de uma rápida intervenção cirúrgica. A microcélula,
agindo em conjunto com o
subsconsciente da pessoa, enviará ao centro nervoso
do cérebro, sempre
que necessário, milhares de informações, fórmulas,
técnicas,
soluções,
enfim, tudo que foi catalogado cientificamente até hoje.
- Mas, qualquer um de nós,
lendo bastante, não consegue essas informações?
- Quis saber L1.
- Impossível! - Contestou
o cientista. - Uma pessoa, sem o auxílio dessa
microcélula levaria
dez, talvez vinte anos para obter tais informações. E quando
as obtivesse todas, já
teria se esquecido de mais da metade delas.
Foi L7 quem desta vez interviu.
- Quer dizer que esse chip
libera, assim que for solicitado, as informações de que
o cérebro precisa?
- Exatamente! É igual
a um software armazenado num computador, que ao
aperto de um simples botão,
libera seus dados. Nesse chip, criado por nossa
engenharia cibernética,
estão computadas vidas, obras, pensamentos, criações
e
ações de cientistas,
escritores, músicos, políticos, militares, inventores, enfim,
tudo o que humanamente de
bom, de genial, passou pelo mundo no último
milênio, e basta a
pessoa pensar num problema, para que ele libere para seu
cérebro centenas
de dados a respeito daquilo.
- Então, caso concordemos
com tal experiência e consigamos um voluntário
estaremos criando um super-homem,
um supergênio, um super-sei-lá-o-quê...
- Praticamente. - Concordou
o cientista,
- . . . Enfim, senhores,
é isso que o nosso laboratório de pesquisas criou. Com essa
microscópica peça, nossos cientistas acreditam poder solucionar,
ou melhor, criar o elemento para solucionar nossos problemas. Não
vejo a curto e médio prazo outra coisa a fazer. Poderemos errar?..
Sim, poderemos. Mas creio que devemos tentar.
- E o voluntário?
Já temos? - Quis saber L12. A resposta foi afirmativa.
- Sim. Um dos próprios
cientistas do laboratório aceitou participar da experiência.
Agora chamo a atenção dos senhores para os enormes benefícios
que tal experimento, se bem sucedido, poderá proporcionar ao nosso
mundo, Além das soluções dos problemas atuais, poderemos
vir a ter um mundo de seres altamente inteligentes. O desenvolvimento tecnológico,
médico e científico não teria mais fronteiras então!
Capítulo V
No suntuoso gabinete
do governador Castro Mendes encontram-se, além dele mesmo, mais
três pessoas. Uma delas é o secretário direto de Castro;
as outras duas pessoas são os sub-chefes do terrível Comando
Vermelho, cuja sigla CV é temida no eixo Rio-São Paulo há
várias décadas. Ainda no século XX o CV já
era conhecido e temido.
- Chamei-os aqui senhores,
porque necessito da ajuda do CV. Ë o seguinte... - Castro vira-se
para seu secretário, recebendo deste uma folha de papel. Nos dias
de hoje não existem mais bonitas e perfumadas secretárias
como antigamente. Computadores instalados nas entradas dos edifícios,
escritórios e residências, codificam todas as visitas, fotografam-nas
e em poucos segundos arquivam em pequenas fichas todos os dados de uma
pessoa. Isso havia sido feito quando da visita de Peter Danthon e Antonio
Carlos ao gabinete do governador, pela manhã.
Castro apanhou a ficha deles
das mãos do raquítico secretário e as entregou aos
dois homens sentados à sua frente. Castro tem sessenta e cinco anos.
É gordo como uma porca velha. O nó da sua gravata chega a
ser encoberto pela banha sob o queixo.
- Vejam esses homens.. Antonio
Carlos e Peter Danthon. . Os dois são pastores. . sabem, esses chefes
de igrejas de crentes...
- Nós sabemos o que
é um pastor! - Atalhou um dos homens. Evidentemente ele não
gostara da insinuação velada de Castro sobre sua possível
ignorância. O governador enxugou a testa com um lenço amarrotado,
pigarreou, e disse:
- Pois bem, esses dois ameaçaram
ir à Liga Universal, se eu continuar atrapalhando os serviços
religiosos na cidade.
- Entendemos - Decididamente
os dois homens do CV não são dados a muita falação,
como os políticos. Estão acostumados à ação,
e a conversa longa os enerva. - O que você quer que a gente faça?
- Bom... - Castro cruzou
as mãos sobre a imensa barriga e olhou para o teto, como se escolhesse
um mau pensamento, já que os tinha de sobra. Então sentenciou:
- Vocês devem dar um jeito no Antonio Carlos, que é o pastor
local. Isso deverá assustar o tal do Peter e os demais membros da
Nova Igreja. Não quero mais eles aqui em meu gabinete, me ameaçando!
- Tudo bem.. será
feito. - O homem que falava agora, guardou a ficha de Antonio Carlos no
bolso do casaco - Agora, a respeito do próximo lote de cocaina,
ele deverá chegar amanhã ao aeroporto, disfarçado
em barris de vinho. Não esqueça de dizer aos guardas da alfândega
para não perturbarem!
Rindo, eles se levantam,
dando por encerrada a funesta reunião.
Hoje é quarta-feira.
Antonio Carlos fecha a porta do prédio onde a congregação
estava a pouco reunida. Já fazem quatro dias que Peter havia ido
embora, Do Rio de Janeiro ele tinha viajado para Lisboa. Antonio Carlos,
no culto desta noite, havia orado pela árdua missão do amigo
e líder da Nova Igreja.
Estava chovendo lá
fora, mas o calor continuava. Antonio Carlos abre seu guarda-chuva e começa
a caminhar pela calçada. Nisso um carro preto emparelha-se a ele.
Por instantes o pastor pensa tratar-se de alguém querendo alguma
informação ou, quem sabe, dar-lhe uma carona. De repente,
o cano serrado de uma carabina calibre 12 aparece na janela do carro.
O grande estrondo provocado
pelo disparo da potente arma atraiu várias pessoas às janelas
do prédios vizinhos àquele local. Antonio Carlos chegou a
ser levantado do solo devido ao impácto da mortífera carga
de chumbo, e depois seu corpo foi lançado para trás, indo
cair entre algumas latas de lixo e caixotes velhos.
O tiro fez um grande buraco
no peito do pobre homem. Antonio Carlos está morto. O sangue sai
do ferimento em grandes borbotães e mistura-se com a água
da chuva escorrendo pela calçada. O carro já sumira na escuridão.
As pessoas fecham as janelas, insensíveis, e a rua mergulha novamente
num tétrico silêncio.
Peter fôra avisado
em Lisboa, já pela manhã . Tomou o primeiro avião
para a cidade do Rio de Janeiro, e ainda chegou a tempo para o enterro
do amigo.
A manhã ainda estava
chuvosa. O tempo nublado dava um aspecto ainda mais triste ao cemitério.
Peter já chorara bastante a morte do amigo. Agora, com voz emocionada,
lê um trecho do livro dos Salmos, na Bíblia Sagrada, como
última homenagem a Antonio Carlos:
- - Quando o ímpio
morre, o povo sorri; quando o justo morre, até o céu chora...”
Ó Senhor Deus, a quem a vingança pertence, mostra-te resplandecente.
Exalta-te, Tu, que és o Juiz da Terra; dá o pago aos soberbos.
Até quando os ímpios, Senhor, até quando os ímpios
saltarão de prazer. Até quando proferirão, e dirão
coisas duras, e se gloriarão todos os que praticam a iniquidade?
Reduzem a pedaços o Teu povo, e afligem a Tua herança. Matam
a viúva e o estrangeiro, e ao órfão tiram a vida.
E dizem: o Senhor não o verá; nem para isso atentará
o Deus de Jacó. Atendei, ó brutais dentro o povo; e vós,
loucos, quando sereis sábios? Aquele que fez o ouvido não
ouvirá? E o que formou o olho, não verá? Aquele que
argui as gentes, não castigará? E o que dá ao homem
o conhecimento, não saberá? O Senhor conhece os pensamentos
do homem, que são vaidade.
Bem-aventurado é
o homem a quem repreendes, ó Senhor, e a quem ensinas a Tua Lei.
Para lhe dares descanso dos dias maus, até que se abra a cova para
os ímpios. Pois o Senhor não rejeitará o Seu povo,
nem desamparará a Sua herança. Mas o Juizo votará
a ser Justiça, e hão de segui-lo todos os retos de coração.
Quem será por mim contra os malfeitores? Quem se porá ao
meu lado contra os que praticam a iniquidade? Se o Senhor não fôra
em meu auxílio já a minha alma habitaria no lugar do silêncio.
Quando eu disse: o meu pé vacila; a Tua benignidade, Senhor, me
susteve. Multiplicando-se dentro de mim os meus cuidados, as Tuas consolações
recrearam a minha alma. Podia acaso associar-se Contigo o trono da iniquidade,
que forja o mal tendo por pretexto uma lei? Acorrem em tropel contra a
vida do justo, e condenam o sangue inocente. Mas o Senhor foi o meu alto
retiro; e o meu Deus a rocha em que me refugiei. E fará recair sobre
eles a sua própria iniquidade; e os destruirá na sua própria
malícia; o Senhor nosso Deus os destruirál”
Capítulo VI
O rapaz que se oferecera
como voluntário para a experiência, é um sujeito de
estatura além do normal, devendo ter entre 1,90 a 2m. É bastante
forte, apesar da pacata e sedentária profissão que exerce
no laboratório de pesquisas. Seus cabelos são negros e a
pele é clara. O rosto é bem desenhado, limpo, sem barba ou
bigode. O rapaz tem um corpo perfeito.
A operação
durou cerca de vinte e cinco minutos. O rapaz foi colocado em um quarto,
para observação.
- Vejam! Ele está
acordandol
O cientista-chefe aproximou-se
da cama onde estava o voluntário.
- Você está
bem? - Pergunta. O valente rapaz coloca a mão na cabeça,
sentindo as grossas bandagens, e responde:
- Dói um pouco..mas
me sinto bem. - Olhou por instantes fixamente para o homem ao lado de sua
cama. - Só que não estou sentindo diferença em meu
modo de pensar.
O cientista sorriu, e colocando
a mão sobre o braço do rapaz, explicou:
- Calma, meu caro...você
não irá sentir mesmo muita diferença. Somente quando
um problema for colocado à sua frente, suas ondas cerebrais irão
ativar a microcélula, que em resposta emitirá nas próprias
ondas do seu cérebro as informações de que você
necessita.
No ano 2040 não existem
mais redes privadas de rádio, televisão e jornais. Há
somente um canal de TV que transmite em cadeia para o mundo todo, dia e
noite, noticiários e programas oficiais da Liga. Não havia
mais escolas. As criancas eram instruidas através do Canal Popular,
como era chamado pelo povo, em suas próprias residências.
Além das residências,
todas monitoradas, a Liga colocara imensos telões em pontos vitais
de maior trânsito de pessoas e veículos. A qualquer hora as
pessoas na rua podiam se inteirar de uma notícia ou de qualquer
nota veiculada pela Liga.
Desde que começara
a onda crescente de calor, com a notícia que a instabilidade climática
se devia à destruição da Camada de Ozônio, as
pessoas passaram a olhar com mais atenção - e medo - para
os telões. Já há uma semana pararam as chuvas e o
calor voltara ainda mais forte. Ontem, as pessoas nas ruas centrais de
Tókio pararam ao ouvir a singular música que antecedia a
uma nota importante que seria veiculada nos telões.
Após o desequilíbrio
ecológico promovido por anos e anos de depredação
da Terra, insetos e uma infinidade de pragas como aranhas, lagartos, ratos
e baratas invadiram as cidades, colocando seus moradores numa vida de nojo
e pânico. Mas nada era pior para eles como a certeza que mais dia,
menos dia, a Terra poderia entrar em colapso total, com o degelo da calota
polar. A tragédia que isso iria causar era imprevisível e
inimaginável.
- Atençãol
Segundo nota divulgada nesta tarde pelo Instituto Meteorológico
da Antártida, grandes geleiras estão se despreendendo no
Pólo Norte e sendo trazidas pela corrente marítima para o
Oceano Pacífico. Navios e pequenas embarcações devem
redobrar os cuidados na navegação!
Acabada a nota, entrou um
programa educacional sobre a vida dos insetos...
Na rua, as pessoas respiraram
aliviadas e comentaram a notícia entre si. Ainda não iria
acontecer a tão propalada catástrofe climática que
eles tanto temem. O sol brilha no céu azul; o calor sufoca, mas
eles já estão ambientados. Eles trabalham, sonham, namoram
e casam. A vida continua...
Capítulo VII
Já haviam se
passado quinze dias da operação no voluntário, lá
no laboratório da Liga. O cientista-chefe e o rapaz agora estão
na sede, onde L1 os aguardava, ansioso.
- Então?... - Pergunta,
assim que os vê.
- A operação
foi um sucesso! - Garante o cientista.
- Já poderemos ter
então solução para algum problema? - Quis saber L1,
mas em tom de brincadeira do que a sério. Afinal, ele não
sabia quando o rapaz estaria pronto para colocar em prática os poderes
conferidos a seu cérebro pela microcélula.
- Eu já tenho a solução
para os problemas da criminalidade e da produção de grãos!
Todos os membros da Liga
se entreolharam boquiabertos. Era difícil acreditar. A experiência,
ao que parece, fôra bem sucedida. Nem o cientista-chefe esperava
resultados tão rápidos. Mas o rapaz não brincava.
Ele falou com voz firme. O olhar um tanto duro, fixo no L1.
- Sim?... - Incentivou este
para ele continuar.
- Eu já posso resolver
os citados problemas, e outros, só que...eu quero o seu lugar, L1!
- M-mas... - Gagueja o cientista-chefe,
nervosamente. L1 ficou em silêncio, olhando incrédulo o ousado
rapaz ali à sua frente, sentado no meio da sala. O rapaz está
impassível, malgrado o constrangimento geral que provocou.
- Você ficou louco?
- Conseguiu finalmente se expressar o líder da Liga.
- Ele está apenas
brincando! - Disse L3, arrazoando.
- Não. Eu não
estou aqui para brincadeiras, e tampouco estou louco. Eu tenho o poder
aqui -E o rapaz apontou a própria cabeça. - Ninguém
mais poderá tira-lo de mim! Eu tenho as soluções para
os problemas que a Liga Universal enfrenta, mas antes quero fazer parte
dela!
- Isso é uma idioticel
Recuso-me a ouvir tanta asneira!
Indignado, L1 se retira,
sendo logo seguido por L7 e pelo cientista-chefe. O rapaz, impassível
como até agora estivera, continuou olhando fixamente para os demais
membros da Liga. Estes conferenciavam entre si. Pouco depois L10, representante
da Rússia se levantou, dirigindo as palavras ao rapaz:
- Você sabia que o
povo das cidades governadas é quem nos escolhe, através de
votos?
- Sim. - Respondeu o rapaz.
- E também sei que são vocês que escolhem entre si
o Líder.
- Eu ia chegar lá...
- Atalhou L10 - Dentro de dois meses acontecerão as eleíçães...Seu
nome estará entre nós, para ser votado. Se você fizer
um bom trabalho agora, realmente solucionando o problema, ao menos da criminalidade,
todos seremos reeleitos pelo povo e, por nossa vez, nos comprometemos a
elegê-lo o próximo Líder.
- Eu concordo.
Todos os membros foram novamente
surpreendidos pelo rapaz. Não esperavam uma concordância tão
rápida da parte dele. L2, dos Estados Unidos, então se levantou,
perguntando o nome do rapaz.
- Vocês podem me chamar
de MAKRO!
Lá fora da sala,
L1 e seus amigos conversavam.
- Será que criei
um monstro? - Indaga o cientista, ainda nervoso. L1 responde olhando pela
janela do edifício. Lá fora um sol inclemente castiga a Terra.
- Pode até ter criado,
doutor...Mas se ele for mesmo capaz de fazer o que prometeu, nós
precisamos desse "monstro"!
Capítulo VIII
Passados dois dias
daquela reunião surpreendente, Makro convocou todos os líderes
para outra.
- Senhores, eu vou direto
ao assunto, pois na atual situação não nos é
dado o desperdício de tempo.
Makro está vestindo
um uniforme de cor negra, bem diferente dos azulados uniformes dos membros
da Liga Universal. Apenas algumas listras verdes e um
desenho em cor vermelha,
simbolizando a Terra, ao centro do seu peito, quebram a homogenidade do
conjunto. Makro tem uma figura imponente, que ao mesmo tempo que atemoriza,
inspira confiança e respeito.
- Eu não vou poder
resolver nenhum dos outros problemas, sem antes atacar a criminalidade.
- E como você pretende
fazer isso? - Perguntou L14, meio cético.
Makro, que falava do parlatório,
responde:
- Simples. Devemos tratar
bandido como bandido. Ou seja: com leis e ações mais duras.
Nós só podemos combatê-los de igual para igual, ou
mesmo até com mais dureza ainda. Se o criminoso nos arranha o braço,
nós cortaremos o braço dele; se ele cortar um dos nossos
braços, então lhe cortaremos as pernas; se ele nos atingir
o fígado, nós lhe arrancaremos o coração!
Os líderes estavam
pasmados com o hipnótico discurso de Makro. L3, o menos suscetível,
ponderou:
- Mas no passado, honoráveis
representantes da Sociedade diziam que a violência atraí violência..
- Sim, eu sei disso. Porém,
pergunto a você, L3, especialmente a você: no chamado Massacre
da Praça da Paz Celestial, em seu país, quem venceu? Os que
lutavam com flores ou os que tinham os canhões?
- Os que tinham os canhões...
- Respondeu o líder chinês. Ele não gostava de lembrar
daquele vergonhoso episódio da história da sua pátria.
Porém Makro tem razão. A violência sempre dominou o
mundo. O homem para se impor, ou para apenas sobreviver, precisa ser como
o lobo. L3 se sentou, e Makro continuou:
- Eu posso lhes oferecer
a vitória, senhores...mas quero carta branca para agir.
Desta vez foi o próprio
L1 quem interrompeu:
- Mas, e a respeito das
nossas leis?
- A lei, ora a lei... -
Brincou Makro, esboçando um leve sorriso. Era a primeira vez que
alguém via um sorriso em seus lábios. Depois seu rosto voltou
a ser duro e enigmático. -As leis que estão aí, nós
as herdamos do século passado. Elas não ajudaram as pessoas
naquele século, e tampouco irão nos ajudar agora. É
preciso que a Liga Universal crie as suas próprias leisl
Os líderes gostavam
do que estavam ouvindo. Até mesmo L1 e L7, que não nutrem
simpatia por Makro, concordam que o que a Liga tivera até agora
fôra uma administração apática por parte deles.
A energia de Makro estava atingindo hipnóticamente a todos.
Capítulo IX
Apesar de permanecer
impertigadamente em atitude militar, ante os líderes da Liga, Abiezer
Yuri está impassível. Com uma intensa vida guerreira, nada
mais o assombra, nem mesmo a sua urgente convocação pelos
lideres mundiais.
Makro, sentado ao lado do
L1, lê a ficha pessoal de Abiezer:
Abiezer Yuri, 45 anos, 1:88m,
ex-coronel do Exército Israelense, atual comandante da Polícia
Internacional, medalha de honra concedida pela Liga Universal por bons
serviços prestados...
Makro olhou Abiezer fixamente
por alguns instantes, e perguntou:
- Confere, coronel?
- Confere, senhor.
Makro então se levantou,
e acercou-se do grande globo geográfico a um canto da sala.
- Venha até aqui,
coronel, por favor...
Quando Abiezer se aproximou,
Makro disse, apontando o globo:
- Isso é o mundo,
o nosso mundo. Aqui estão todas as cidades dos países da
Liga e as cidades dos países anexados. Por essas cidades estão
espalhados milhares de criminosos, que estão se matando entre si
mesmo, em busca do controle total do poder. Mas isso é pouco, eu
quero você nas cidades onde estão as sedes do crime organizado,
matando todos os criminosos que ainda estiverem vivos!
A última frase conseguiu
fazer Abiezer estremecer. Até mesmo ele, um homem forjado na violência,
foi apanhado de surpresa pelas firmes palavras de Makro. Ali estava a oportunidade
que todo policial ainda incorrupto, desejava. Tratar o bandido como ele
realmente merecia, sem que a lei o protegesse. Mas assim mesmo Abiezer
ficou aturdido. Apesar do treinamento de soldado, que o impelia a executar
ordens sem perguntas, seus olhos procuraram rapidamente por L1. Este balançou
a cabeça levemente, em sinal de concordância.
- Então, coronel,
caso o senhor aceite esta missão, a partir de agora deverá
deixar seu cargo na Polícia Internacional, e passar a recrutar os
homens em quantidade e em qualidade necessárias para tal empreendimento.
Esta será uma Força Tarefa Especial, subordinada exclusivamente
à Liga. O senhor tem 72 horas para começar!
A cabeça loira do
militar parecia dar voltas, quando ele deixou a sede da Liga Universal.
Apenas três dias o tal de Makro dera a ele. Enquanto caminhava pelo
pátio arborizado da sede da Liga, Abiezer Yuri ia pensando nos homens
com os quais poderia contar. Existem cerca de oitocentos homens da Policia
Internacional lotados em Nova York. Dentre estes iria dar para ele recrutar
uns cem homens, valorosos, de confiança, para o acompanhar naquela
gigantesca empreitada.
Nos justos três dias,
o ex-coronel do antigo Tzahal, convocara cento e doze homens de valor.
Makro dera-lhe duas semanas para o treinamento deles. Como aqueles homens
já haviam tido um certo treinamento na polícia, Abiezer conseguiu
concluir tudo em prazo hábil. Agora é hora de colocar em
prática o que teoricamente aqueles homens haviam aprendido em campos
de treinamento. É HORA DE GUERRA!
A grande Operação
D, como a chamara Abiezer Yuri, tem início. Ele a batizara assim
em memória ao famoso Dia D, que acontecera em meados do século
passado, quando as forças conjuntas dos paises aliados invadiram
a Normandia, pondo fim ao império de terror de HitIer. O que Abiezer
Yuri estava começando com seus homens, também seria uma operação
de guerra, de guerra contra o terror da criminalidade.
Cinco grandes helicópteros
cinza-metálicos, trazendo em seus lados o emblema com o desenho
de uma pomba, em cores vermelho e branco, símbolo da Liga Universal,
ergueram-se ao ar, ruidosamente, e velozmente rumaram em direção
à São Francisco. Eles estão levando o coronel Abiezer
Yuri e seus homens.
Capítulo X
Para Peter Danthon,
seu amigo Antonio Carlos não é apenas uma saudosa lembrança.
Ele fôra um dos primeiros mártires da Nova Igreja. Peter pretende
voltar logo ao Rio de Janeiro, local onde Antonio Carlos fôra covardemente
assassinado. Ele pretende confrontar o governador Castro Mendes. Peter
tem certeza que o governador é responsável pela morte de
Antonio Carlos. Peter também tem certeza de que a congregação
na cidade do Rio de Janeiro está precisando dele.
Perdido nesses pensamentos,
Peter liga o televisor, automaticamente...
- Novas notícias
do Instituto Meteorológico na Antártida informam que uma
frente fria está vindo pelo Oceano Pacifico, devendo atingir o litoral
americano em dois dias.
- O que o noticiário
está dizendo, querido?
Laura, a meiga esposa de
Peter, aproxima-se nesse instante trazendo uma bandeja de café e
bolinhos.
Peter apanha uma xícara
de café, enquanto responde:
- Está dizendo que
uma onda de frio vem ai...
- Oh, isso é bom.
Já chega de tanto calor! - Exclama Laura, animada com a notícia.
- Mas isso não adianta
muito... um dia frio demais: outro com um calor de rachar... não
se anime muito.
Laura ia dar continuidade
à conversa, quando o filho pequeno do casal chora, chamando sua
atenção. Ela beija a testa do marido e vai acudir o pequeno
John.
Peter já ia desligar
o aparelho, quando outra notícia o impede de fazer isso.
- E atenção:
nosso escritório em Bogotá informa que há poucas horas
um terremoto de 3 pontos na Escala Richter, atingiu uma vila ao norte de
Bogotá. Não há notícias de vítimas.
- Graças a Deus!
- Suspirou Peter.
E através da televisor,
as notícias continuam:
- Um grande incêndio
está ocorrendo agora no Parque Florestal da cidade de Londres. Toda
a reserva está sendo destruída pelo pavoroso incêndio.
A botânica Elisabeth Macgregor, responsável pelo Departamento
de Conservação do Parque, estima a morte de centenas de animais...
Peter resolveu desligar
de vez o aparelho. Ele tem que colocar os relatórios de suas viagens
em dia, pois à noite haverá reunião dos líderes
da Nova Igreja, para avaliação de missões. Peter agora
tem mais um motivo para ir, pois os irmãos da vila atingida pelo
terremoto, devem estar precisando muito de amparo físico e espiritual.
Graças a Deus, o governador de Bogotá é um homem de
bem. Peter tem certeza que amparo material não faltará aos
moradores da desditada vila.
Capítulo XI
Através de informações
dos líderes da Liga, Abiezer Yuri sabia com quem poderia contar
nas cidades onde iria atacar e tinha detalhes pormenorizados dos pontos
a atacar, que era praticamente tudo relacionado às organizações
criminosas: escritórios, laboratórios de refino de drogas,
plantaçôes de coca e de maconha, frotas de embarcações,
veículos e aeronaves, casas de jogos e de prostituição
e qualquer outra coisa material, que pertencesse aos criminosos. O coronel
também já fora informado sobre governadores, auxiliares e
policiais, corruptos ou não.
Nas cidades onde o governador
é corrupto, Yuri irá contar apenas com a Força Policial.
Se nessa, todos fossem vendidos aos criminosos também, o coronel
deveria agir segundo seu próprio critério.
O L1 já enviara fax,
pedindo às autoridades policiais nas cidades, total apoio para o
coronel. Por um lado, Yuri achou isso bom, pois não poderia simplesmente
ir invadindo as cidades, sem nenhuma explicação. Mas por
outro lado, algum policial corrupto iria deixar os criminosos de sobreaviso.
- Eu não quero esses
asquerosos como prisioneiros! - Dissera-lhe Makro, um dia antes do início
da Operação. 0 coronel lembrava-se bem dessas palavras. No
que dependesse dele e de seus homens, realmente não haveria prisioneiros!
Ao anoitecer os helicópteros
chegaram à periferia de São Francisco, com sua carga humana.
Abiezer Yuri ordenou a formação.
Todos descem dos helicópteros, perfilando-se frente ao coronel.
- A vontade! - Comanda Yuri.
Com as mãos entrelaçadas às costas, ele caminha de
um lado para outro, enquanto fala aos homens: - Hoje começaremos
uma guerra. Não uma guerra convencional para a qual vocês
haviam tido um treinamento básico; mas uma guerra com os mais repelentes
e malditos seres do Planeta! Nessa guerra não haverá tréguas,
não haverá compaixão... não haverá prisioneiros
em nenhum dos dois Iados!...Os senhores receberam um treinamento de operação-comando.
Pouco, mas o suficiente para enfrentarmos e ganharmos esta guerra. Eu somente
espero dos senhores a coragem e a lealdade de um Gurca! Lembrem-se: estamos
combatendo pelo bem. Deus por certo estará ao nosso lado! Sargentos!
Ao comando de Abiezer Yuri,
os oito sargentos de Grupos se adiantaram, batendo continência. Após
isso, eles viraram-se para seus respectivos Grupos de Combate, separando-os
dos demais.
Um Grupo de Combate é
formado por dez homens: um sargento um cabo e oito soldados. A Liga Universal
não mantinha mais os antigos exércitos. Mas, apesar de não
haver mais no mundo os grandes e poderosos Exércitos, o coronel
Yuri ainda usava todas normas e regulamentos militares do passado. Talvez
o fato de viver dentro de uma farda há mais de vinte anos, o condicionasse
a isso. Yuri ainda engraxa seus coturnos diariamente e corta os cabelos
à antiga moda militar. Os regulamentos que norteam a Policia Internacional
não exigiam mais isso.
Os Grupos de Combate se
separaram. Ao comando dos sargentos, todos os soldados verificaram granadas
de mão, munição, capacetes e a potente L-Ruger, a
maravilha tecnológica na área militar. A L-Ruger é
uma submetralhadora de mão, desenvolvida pela Ruger Corporation.
Esta empresa, que já produzia armamentos no século passado,
fora estatizada, assim como todas as outras similares, passando a fabricar
armas e munições para uso restrito à Polícia
Internacional.
A L-Ruger de calibre 9mm,
é individual. Mesmo um outro soldado não pode usar a arma
que não lhe pertence, isso graças a um sensor no corpo da
arma que a trava completamente para disparos, quando as impressões
digitais de quem a empunhar não coincidir com as impressões
registradas no sensor. Isso fôra feito para evitar que, mesmo caindo
em mãos inimigas, as armas pudessem ser usadas por eles, como acontecia
no passado com outras armas.
A L-Ruger pesa cerca de
3 kg, lança todo tipo de granada e até um poderoso mini-foguete.
Ela dispara 950 balas por minuto, com velocidade semi e automática.
Ao lado do corpo da arma existe uma pequena luneta com infravermelho, para
tiros noturnos. Para tais tiros, bastava o soldado trazer a luneta para
sobre a alça de mira.
Yuri sobe ao jeep que um
soldado acabara de trazer de um dos helicópteros e fala ao sargento
Marvin:
Capítulo XII
- Sargento, agora eu vou
até o Departamento de Polícia. De lá mandarei os caminhões
e passarei as coordenadas para vocês.
- Certo, senhor. Assim que
os caminhões chegarem, cada Grupo irá para um setor da cidade.
- Confirma Marvin. O coronel anui.
- Positivo. Os 32 homens
restantes deverão se encontrar comigo lá no Departamento
de Policia. Boa sorte!
- Obrigado, senhorl - Responde
o sargento, com uma continência.
Conforme a tática
a ser empregada, assim que os caminhões militares, cedidos pela
policia de São Francisco, chegassem, os soldados embarcariam, seguindo
cada Grupo de Combate para um setor da cidade. Yuri, transformando o Departamento
de Policia em seu próprio QG, passaria de lá as ordens de
ataque aos seus homens.
Em menos de vinte minutos
Yuri já assinalava em um mapa de operações os pontos
de ataque, e passava as coordenadas a Marvin e aos outros sargentos.
- Sargento Ruiz, você
deve atacar o armazém 45, no cais. Contrabando e drogas. Destrua
tudo!...Sargento OConnor, casas de jogos na rua 17, esquina com avenida
2. Destrua tudol...Sargento Morrison, casas de prostitução
na Alameda 52. É ponto de venda de drogas. Retire as pessoas e acabe
com o local!...Sargento Marvin...
Assim a voz firme e clara
de Yuri ia coordenando as primeiras ações da Força
Tarefa da Liga Universal, através dos radios-transmissores. São
Francisco estava sendo tomada de norte a sul, de leste a oeste. Onde havia
um foco de criminalidade, os homens de Yuri estavam lá.
Voltando novamente ao velho
jeep, o coronel agora vai comandar pessoalmente os 32 soldados que foram
encontrá-lo.
- Precisa de ajuda, coronel?
Da escada do prédio
do Departamento de Policia, o tenente Burt, chefe da polícia local,
oferece ajuda a Yuri.
- Não, obrigado Burt.
Meus homens dão conta do recado. Bem... - O coronel pensou um instante
e depois completou, sorrindo: - Você pode comandar o recolhimento
dos corpos depois!
Enquanto o jeep saia a toda,
seguido do caminhão, Burt praguejava, sacudindo o punho na direção
que eles tomaram.
- Merda! Só vai sobrar
lixo pra gente!
Os sargentos de Yuri não
encontraram quase nenhuma dificuldade em seus setores. Ao norte, no cais,
o mexicano Ruiz encontrara resistência armada de cinco homens. As
L-Ruger fizeram seu trabalho direitinho. Logo o sangue dos bandidos misturava-se
com o pó branco que escorria dos caixotes arrebentados pelos tiros.
Depois, a uma distância segura, vários mini-foguetes foram
lançados. Em pouco tempo o armazém não passava de
um monte de ferros retorcidos, em chamas.
A sudeste, O’Connor fizera
o mesmo com um sobrado, onde funcionava uma casa de jogos. Mas ali os soldados
mataram apenas dois bandidos. O restante das pessoas que estavam na casa,
que eram clientes, foram dispersados.
Uma casa de prostituição,
na Alameda 52, também virou cinzas.
Missão cumprida,
coronel! - Avisou Marvin pelo rádio. A ação dos Grupos
não levara mais que 15 minutos. - Nenhuma baixa do nosso lado!
- Ótimo, sargento.
Reuna os homens e volte aos helicópteros. Vocês já
arrebentaram o calcanhar da fera; agora vamos esmagar-lhe a cabeçal
- Boa sorte, coronel!
Capítulo XIII
Já eram 23h00,
quando Abiezer Yuri e seus homens chegaram ao grande prédio onde
funciona o cérebro da Máfia, em São Francisco. Até
aquele momento, os Grupos de Combate haviam matado apenas peixes pequenos.
Os tubarões, como Yuri havia previsto, se esconderam no enorme e
iluminado edifício da organização.
Assim que chegaram à
frente do prédio, Yuri e seus soldados foram recebidos com uma chuva
de chumbo quente. Os capangas dos mafiosos queriam impedir, a todo custo,
que os soldados entrassem no prédio. Em menos de 10 minutos de combate,
estavam mortos quatorze bandidos e dois homens de Yuri.
Passando pela porta do prédio,
saltando sobre corpos ensanguentados, o coronel ordenou que cinco soldados
fossem pela escada de incêndio; mais três homens invadiriam
pelas janelas; e por fim, o restante dos soldados subiriam pela escada
interna.
Pelas balas que passaram
zumbindo por sobre sua cabeça, o coronel teve certeza que as víboras
estavam no sexto andar.
- Estão no sexto!
- Avisou pelo rádio aos homens do lado de fora do prédio.
- Tamashiro, dentro de 30 segundos pode invadir! - Ordenou.
Ambos cronometraram seus
relógios. Em seguida Yuri avisou aos soldados na escada de incêndio:
- Preparem-se! Vamos espantá-los
para ai!
- Positivo, senhor. Manda
ver!
Na escada de incêndio,
do lado escuro do prédio, o jovem sargento Silva ergueu a L-Ruger
aos ombros, acionou o visor infravermelho, para tiros noturnos, e aguardou
calmamente, mirando o topo da escada.
Todos os soldados de Yuri
usam a L-Ruger, inclusive os sargentos. Yuri e o sargento Marvin, são
as únicas excessões. O sargento gosta mesmo é de um
velho revólver Smith & Wesson 625-2, calibre 45, de seis tiros.
Uma arma potente e mortal, muito usada no século XX. Já Yuri,
por sua vez, usa uma pistola Walther .P88, calibre 9 mm Parabellum, de
quinze tiros, e um revólver Ruger GP 100, 357 Magnum, que era usado
pela polícia novaiorquina, também no século passado.
Foi segurando estas armas,
uma em cada mão, que ele irrompeu pelo corredor do sexto andar,
vomitando balas sobre os bandidos. Enquanto estes ainda caiam fulminados,
Tamashiro já se balançava perigosamente a 20m de altura.
Com um impulso, batendo os pés contra a parede, ele e os outros
dois soldados jogaram o corpo para trás, no vazio, e em seguida
voltam, estourando as janelas do sexto andar com os pés, e já
caindo dentro das salas de arma em punho. Eles assim surpreendem os bandidos,
cercando-os entre dois fogos. Os mafiosos mais velhos tentam fugir pela
escada de incêndio, como previra o coronel, mas foram metralhados
pelo Grupo do brasileiro sargento Silva. Alguns despencaram lá de
cima; outros ficaram mortos ali mesmo na escada.
Capítulo XIV
Faltavam apenas cinco
minutos para a meia-noite, quando Yuri comandou seus homens a voltarem
ao caminhão. Eles carregaram dois soldados mortos e três feridos,
mas em compensação, deixaram para trás mais de cinquenta
mafiosos mortos, e a destruição completa de seus negócios
sujos na cidade!
- Se Chinatow não
tivesse sido destruida há cinco anos, numa guerra de quadrilhas,
teríamos ainda mais mortos!
- Mas a gente não
conseguiu matar todos os bandidos, né, coronel?
- Claro que não,
sargento. - Respondeu Yuri à observação de Tamashiro.
- Ainda tem muitos, porém são lambarizinhos que a polícia
local vai acabar matando ou prendendo. O importante eram os tubarões,
e estes nós já ‘fisgamos’
- E os criminosos das cidades
não governadas? - Insistiu o militar japonês. Yuri responde
com uma parábola:
- Se você arrancar
a raiz de uma árvore, seus galhos e suas folhagens morrem!
Vendo que o rapaz não
entendera, Yuri foi mais explícito:
- A raiz são os chefões...se
os liquidamos, os pequenos criminosos, sem liderança, se dispersam,
e fica fácil à policia apanhá-los.
Assim que os veículos
param, ao lado dos helicópteros, o coronel manda descarregar as
armas recolhidas dos bandidos mortos. Em seguida manda Marvin relacioná-las.
- Sargento O’Connor, vá
com o helicóptero e leve os feridos e os corpos dos soldados mortos,
para Nova York. Você deve voltar até amanhã, ao meio-dia,
quando partiremos para Bogotá!
- Certo, senhor!
Com uma continência,
O’Connor gira nos calcanhares, e se afasta. Pouco depois o grande pássaro
metálico ganhava altura, provocando grande deslocamento de ar. Yuri
deu ordens para os homens irem dormir, e depois aproximou-se de Marvin.
- Então?...
- Caramba! Esses caras estavam
bem equipados! - Exclamou o sargento. - Olhe...cinco carabinas calibre
12, duas Makarov soviéticas, um CoIt 45...Estas aqui são
da sua terra... - Marvin ergueu uma Uzi SMG, de fabricação
israelense, as preferidas por policiais, terroristas e bandidos no século
XX. E, ao que parece, ainda o eram pelo crime organizado do século
XXI. - Temos oito delas. - Informou Marvin. E continuou: - Também
temos sete rifles Ruger mini-14, vinte e nove revólveres 38 e quatro
Norincos. E só! - Concluiu Marvin.
As Norincos são pistolas
rústicas de 9mm, de desenho soviético, mas de fabricação
chinesa. Elas eram tidas como muito resistentes, mas não chegaram
a ser as preferidas.
- Tudo bem. - Disse o coronel.
- Junte-as num saco. Amanhã vamos jogá-las ao mar!...E o
dinheiro, deu pra conferir?
- O que ‘arrecadamos’ nas
casas de jogos e de prostituição, deu oito milhões
de cartões. Falta contar o que você trouxe.
Yuri sorriu, e disse:
- O sargento Silva já
contou. Havia doze milhões e duzentos mil cartões nos cofres
dos chefões. - O coronel guardou a caderneta, onde estavam anotados
os números, e continuou: -Makro vai ficar contente. Este dinheiro
será aplicado na compra de grãos e no desenvolvimento tecnológico
das plantações.
- Yuri acendeu um charuto,
deu uma baforada, e terminou: - Bem, agora vou dormir, sargento. Coloque
as sentinelas e vá descansar também.
Dito isso, o coronel se
afastou, dasabotoando o cinturão de onde pendiam a Walther P88 e
o Ruger GP 100. O dinheiro que Marvin contara, são cartões
magnéticos. No ano 2040 já não eram usadas mais cédulas
e nem moedas.
Yuri deitou-se em uma rede,
perto de um dos caminhões. Usando apenas uma camiseta e uma velha
calça camuflada, ele sentia um pouco de frio, já que a temperatura
caira sensivelmente. Se Yuri usasse um uniforme como o de seus soldados,
o frio não o incomodaria. O uniforme dos soldados era também
um avanço na área tecnológica militar. Além
de um capacete que cobria-lhes todo o rosto, com entrada de ar e filtro
de gases, com um dispositivo infravermelho para visão noturna e
um microcomputador para análise de distância para disparo
de granadas e mini-foguetes, a roupa deles é térmica, provida
de um biosensor, que aquece no frio e refrigera no calor. O uniforme também
tem camuflagem automática, imitando sempre o local onde o soldado
se encontrava. Por fim, complementando o uniforme, os coturnos são
de couro, mas com uma fina e resistente malha de aço por dentro,
para proteger os soldados de explosões de minas.
Mas Yuri e Marvin descartavam
tais maravilhas, usando ainda os velhos tipos de farda do passado. Aliás,
o coronel preferia seu velho quépe aos grandes e técnicos
capacetes, e Marvin usava uma boina.
São agora 11h00 da
manhã. O’Connor já havia voltado de Nova York, trazendo os
parabéns dos líderes da Liga pelo sucesso da missão
em São Francisco. Às 11h30 os potentes helicópteros
partem, levando o coronel e seus homens para a distante Colômbia.
- Dizem que o governador
de Bogotá também é um sujeito honesto. - Comenta o
sargento Marvin.
- Sim. Nas quatro cidades
onde existem sedes do crime organizado, somente os governadores de Tókio
e do Rio de Janeiro, são corruptos. - Responde Yuri.
- Mas mesmo sabendo disso,
como vamos provar que eles são corruptos?
- Nós não
vamos provar, sargento...nós vamos matá-los!
Com esta resposta, o coronel
encerrou a conversa.
Capítulo XV
Mesmo para o sargento
Marvin, nascido no Harlem, aquela luta de boxe entre os dois lutadores
colombianos era de arrepiar os cabelos. Os lutadores não usavam
as luvas de antigamente, que serviam como proteção dos golpes.
Hoje, devido à crescente sede de sangue e emoções
fortes, a luta é travada com os pugilistas usando grandes luvas
metálicas, que vão até os seus cotovelos. Estas luvas
são cheias de pontas agudas, que causam terríveis ferimentos
no corpo todo.
Marvin olhou por instantes
os ensanguentados lutadores se degladiarem no ringue, e depois seguiu caminho
por entre a multidão, que ensandecida, incentivava os lutadores,
aos berros. Marvin está acompanhado do seu Grupo. Eles chegaram
a Bogotá a cerca de 30 minutos, e já iam iniciar a operação,
usando a mesma tática bem sucedida em São Francisco. A única
diferença, é que na cidade de Bogotá não havia
laboratórios de refino e nem plantações. Então,
além de atacar os prédios e escritórios do pessoal
do Cartel de Medelin na cidade, Abiezer Yuri e seus homens teriam que atacar
também na zona rural, onde estavam os laboratórios e plantações
de drogas.
Na cidade o ataque foi rápido,
decisivo e mortal. Porém, na zona rural, o coronel encontrou problemas,
pois alguns policiais corruptos tinham avisado os chefães do narcotráfico,
dando tempo para eles se prepararem. Quando Yuri e os soldados chegaram,
tiveram que enfrentar mais uma chuva de chumbo.
- Existe algum tipo de guarda-chuva
contra chuva de balas? - Brincou Ruiz.
Um grupo de bandidos restantes
e alguns policiais, num total de sessenta e cinco, foram acuados por Yuri
na Fazenda Estrelita, propriedade de um dos chefões das drogas.
- Vamos fazer um círculo,
fechando a fazenda de todos os lados. Morrison, mande seus homens lançarem
foguetes sem parar sobre a casa.
- 0k, coronel.
Em fração
de segundo os microcomputadores nos capacetes dos homens do Grupo do sargento
Morrison davam as coordenadas para os tiros. Velocidade 331 m”...hectâmetro...azimute
450 NS...alça 5 graus...
A tática empregada
pelo coronel foi bem sucedida. Os mini-foguetes, certeiramente, caiam sobre
as casas da fazenda, não dando tempo aos bandidos de se organizarem
para reagir ao feroz ataque de Yuri e seus soldados.
Como em São Francisco,
não houve prisioneiros. Entre a cidade e a zona rural foram mortos
cento e quinze traficantes, entre chefes, capangas e policiais. Yuri, por
seu lado, havia perdido sete homens. Como fizera na cidade, o coronel mandou
queimar tudo que ali havia: laboratório de refino de coca, os estoques,
quinze carros e três aviões monomotores. Já as casas
da fazenda tinham sido quase que completamente destruidas pelos mini-foguetes.
Depois, dos helicópteros, eles dinamitaram as plantações
de coca e maconha e ainda outros laboratórios espalhados mata à
dentro. Em seguida um dos helicópteros voltou aos Estados Unidos,
agora definitivamente, levando os corpos dos soldados mortos, o jeep que
era usado pelo coronel e todo o dinheiro tomado dos impérios do
crime, tanto em São Francisco quanto em Bogotá.
- Agora vamos para o Rio
de Janeiro, pessoal! - Comandou Yuri.
Novamente, todas as armas
apreendidas foram lançadas ao mar.
- Depois do Rio de Janeiro,
iremos para o Japão? - Quis confirmar Marvin.
- Sim. Em Tókio concluiremos
a Operação D! - Afirmou o coronel.
Enquanto os helicópteros
voam em direção à América do Sul, Yuri vai
pensando no resultado até agora obtido. Ele está triste por
causa das baixas. Nove homens valentes e honrados foram mortos, e três,
feridos. Mas a centena de bandidos mortos e a destruição
de seus impérios em duas cidades, estavam compensando o sacrifício.
Capítulo XVI
Peter Danthon, a esposa
Laura e o pequeno John, chegaram à cidade do Rio de Janeiro ontem
à noite. Hoje, pela manhã, Peter havia ido até o prédio
do governo, falar com Castro Mendes.
Eu não tenho nenhuma
prova de que foi você quem mandou assassinar o pastor Antonio Carlos,
mas, por Deus, eu vou conseguir provas e vou levar você diante da
Liga Universal!
Peter, curvado sobre a mesa
do gabinete de Castro, quase chegava a encostar o indicador no suarento
nariz do governador do Rio de Janeiro.
- Se você não
tem provas, faça o favor de retirar-se daqui, ou vou chamar a segurança!
- Gritou o raquítico secretário de Castro.
- Calma...eu já vou..
- Peter afasta-se da mesa, e encaminhando-se para a porta, ainda ameaçou
Castro: - Mas eu vou voltar aqui, e quando voltar, vou trazer as provas
e a policia comigol
O religioso sai, batendo
a porta com força às suas costas. O governador carioca não
pode conter a gargalhada, no que foi imitado pelo secretário.
- Vou trazer a polícia...diz
ele...Ah!AhlAh!...Se ele soubesse que praticamente toda a polícia
está nas minhas mãos!...
Castro ainda riu um pouco,
e depois, fechando o semblante numa careta, disse entredentes:
- Ainda vou fazer esse pastorzinho
se arrepender de ter nascido!
Capítulo XVII
Os dois helicópteros,
jogando folhas e pó para todos os lados, pousaram sobre o morro.
Abiezer Yuri havia escolhido aquele local para acampamento, pois além
de ser afastado cerca de seis quilômetros da cidade, é um
local alto, perfeito para rechaçar um possível ataque inimigo.
Os homens de Yuri estão
vivendo nessas duas últimas semanas em precárias condições
de higiene. Eles têm comida, roupas, equipamentos e munições
à vontade, mas uma boa cama e um bom chuveiro e um aparelho de barbear,
viriam a calhar. O coronel falou a eles, assim que terminaram de montar
o acampamento:
- Bem, rapazes, aqui no
Rio de Janeiro a coisa será diferente. Governador e policiais, são
todos corruptos. A organização criminosa conhecida por Comando
Vermelho tem sua base operacional nas favelas, que ficam em morros, dentro
da cidade. Nossa luta, portanto, será nesses morros. Tudo é
muito perigoso, pois boa parte dos moradores dessas favelas, são
obrigados a acobertar os bandidos. Teremos que agir com muita cautela,
pois não quero vocês feridos, e muito menos quero que inocentes
expectadores se firam. - Yuri pára por instantes, alisa o queixo
onde a barba já estava bem crescida, e recomeça: - As atividades
desse tal Comando Vermelho se estendem à cidade. Como eu já
disse, não iremos contar com a ajuda de ninguém. Então,
iremos nos espalhar pela cidade e procurar, antes de qualquer ação,
saber mais a respeito do inimigo. - Yuri correu o olhar pelos homens, vendo
todos aparentando cansaço - Mas enquanto fazemos esta averiguação,
nada impede de vocês irem para um hotel, tomarem um banho e se divertirem
um pouco...isso é, se vocês quiserem!
- Hyphurrall! - Gritaram
os soldados, de alegria. Eles queriam muito ouvir esta ordem. Yuri pediu
calma, completando:
- Não se esqueçam:
fiquem de olhos e ouvidos bem abertos. Os sargentos deverão se revezar
com seus Grupos, para que sempre fique um Grupo de guarda no acampamento.
Dispensados!
Os soldados, em grupos,
invadiram a cidade. Só que desarmados. Eles foram se espalhando
pela metrópole, em busca de um hotel, de um banho...Depois sim,
depois eles iriam verificar se a beleza da mulher carioca era mesmo tão
incrível como diziam lá em Nova York.
Meia hora após os
soldados terem descido para a cidade, Abiezer Yuri tomou a mesma direção.
Ele vai portando apenas sua velha Walther P88, em busca também de
um hotel. Afinal, ele também precisava de um chuveiro e de uma noite
bem dormida em uma cama macia e cheirosa.
Mas não eram somente
estes os motivos que faziam o coronel descer para a cidade. O L1 pedira
a ele para entrar em contato com a congregação local da Nova
Igreja, para ver possibilidades de conseguir pistas sobre o recente assassinato
do pastor local.
Capítulo XVIII
Raquel detestava sair
à noite sozinha, mas a festa de aniversário do filho da sua
amiga terminara tarde, e ela não quisera dormir lá. Para
chegar ao prédio onde mora, Raquel tem que subir uma grande escadaria.
Ali sempre ficam alguns vagabundos, importunando as pessoas. Raquel sabe
disso, mas não há outro caminho. Resignada, saltou do taxi,
e começou a subir os degraus da escada. Um homem, recostado a um
degrau, parecia dormir, mas quando a jovem vai passando, ele segura-a pelo
tornozelo, derrubando-a. Em seguida o sujeito levanta a saía da
moça, e ofegante e babando sobre ela, tenta tirar sua calçinha.
Raquel grita, esperneia, esmurra o agressor, mas já se sente perdida.
De repente uma mão
forte parece suspender o vagabundo no ar, atirando-o em seguida escadaria
abaixo. O coronel Yuri ajuda a moça a se levantar, e a acompanha
até a porta do edifício.
- Você não
quer entrar? - Pergunta Raquel. Apesar do susto, ela não deixa de
admirar a viril figura do homem à sua frente. Alto, loiro, a pele
queimada pelo sol do Saara, Yuri sempre despertara suspiros apaixonados
nas mulheres. No entanto, ainda continuava solteiro, não tendo encontrado
ainda a dona do seu coração.
- Se você não
se incomoda...
Raquel entrou no prédio,
seguida de Yuri, e foi até o elevador. Então ele disse:
- Espere só um momento...já
volto.
Deixando a moça à
distância, para não chocá-la, Yuri voltou até
o homem que ainda se encontrava lá embaixo na calçada, meio
zonzo.
- Então você
é candidato a estuprador, não é?
Yuri o ergueu, e colocando
a arma no peito do sujeito, disparou. Apenas um tiro, abafado pelo corpo
do vagabundo. Este estremeceu e amoleceu, sendo sustentado pelo militar.
Yuri então o arrastou
até um matagal, ao lado do prédio, e o largou lá.
Ajeitando o quepe na cabeça, voltou para onde havia deixado Raquel.
- O que aconteceu? - Quis
saber ela.
- Ah, nada...Apenas fui
pedir àquele sujeito que não ficasse mais na escada do edifício.
- Oh, sim!
O elevador chegou e levou
o casal até o quarto andar, onde mora Raquel.
- Sente-se um pouco, que
vou preparar um drinque para nós.
- Obrigado, moça...
- Raquel, percebendo que
ainda não havia se apresentado, logo o fez:
- Desculpe-me...Raquel.
- Prazer, Raquel. Meu nome
é Abiezer Yuri.
- Abiezer. . . que nome...
- Diferente! - Antecipou-se
Yuri.
- Isso! É diferente!
- Exclamou ela, sorrindo.
É de origem hebraica.
- Explicou Yuri. E continuou: - O que ia eu lhe dizer, Raquel, é
que sou obrigado a dispensar o drínque, infelizmente, pois tenho
um compromisso urgente.
- Mas nem... - Yuri não
a deixou completar o que ia dizer. Pegou suas mãos, sentindo a textura
sedosa delas, e disse:
- Não posso ficar
mesmo. Porém, gostaria de voltar a vê-la, se você não
se importar.
- Oh, não! Eu gostaria
muito também!
- Então, talvez amanhã?...
A bela morena sorriu, concordando.
- Claro. Isso é...se
você quiser.
- Amanhã, às
8 então, tá?
- Tá...então,
até amanhã.
Apesar da sua intensa vida
de ação, diante de uma mulher o coronel ficava completamente
indefeso. Meio sem jeito, ele finalmente consegue dizer adeus.
Raquel fechou a porta, e
ainda apoiada nela, suspirou e sorriu, lembrando a timidez de Yuri.
Capítulo XIX
Abiezer Yuri chegara
quase no final da reunião na congregação da Nova Igreja.
Lá no púlpito, um homem aparentando a sua idade, estava terminando
a pregação.
- ... E estas foram as palavras
de Jesus: ‘Bem-aventurados os que sofrem perseguições por
causa da Justiça, por que delas é o Reino dos Céus;
bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem por
Minha causa, exaltai e alegrai-vos, por que grande é o vosso galardão
nos Céus.
Amai os vosso inimigos,
e fazei bem aos que vos odeiam, para que sejais filhos do vosso Pai que
está nos Céus... Oremos, irmãos!
Ao pedido de Peter, todos
se levantaram. Então ele orou:
- Ó Grande Pai, que
disse: "a vingança é Minha!", vem em nosso socorro, ó
Deus de Jacó. Nós estamos como ovelhas entre lobos e serpentes.
Proteja o seu rebanho, Senhor! Em nome de Jesus, amém! Agora vamos
cantar o hino Vencendo vem Jesus!
Enquanto os fiéis
cantam, Peter Danthon desce do púlpito e vem ao encontro daquele
homem estranho à congregação. Yuri está de
pé ao lado da porta de entrada.
- Boa noite. - Cumprimenta
Peter.
Yuri lhe estende a mão,
apresentando-se.
- Boa noite. Eu sou o coronel
Abiezer Yuri, da Liga Universal. Pediram-me para vir aqui e...
- Ah, sim! Eu sei por que
você veio! - Interrompeu-o Peter. Pegando Yuri pelo braço,
chamou:
- Vamos, quero apresentá-lo
à congregação.
Peter voltou ao púlpito,
deixando um Yuri meio constrangido no meio dos membros da congregação.
Uma menininha de uns cinco anos teima em piscar um olho para o coronel,
enquanto cantava. O hino terminou, e Peter falou:
- Aleluia, irmãos!
O Senhor ouviu as nossas preces! A Liga Universal enviou um homem a nós!
- Com um aceno de mão,
Peter convidou Yuri a ir até a ele.
- Este é o coronel
Abiezer Yuri, que nos foi enviado pela Liga. Ele irá investigar
a morte do pastor Antonio Carlos.
Depois da apresentação,
Peter deu por encerrada a reunião daquela noite. Então ele
convidou Yuri a subir ao primeiro andar do edifício, pela escada,
já que o elevador não funcionava, e levou-o até onde
morava com a esposa e o filho, enquanto permanecia no Rio de Janeiro.
- Esta é a minha
mulher Laura, e o meu filho John.
- Prazer, senhora...Abiezer
Yuri...Oi, Johnl
- Ei, moço, o que
é isso aí? - Quis saber o garotinho apontando o coldre da
arma de Yuri.
- Ora...isso é minha...han...ferramenta
de trabalho!
Laura tomou o pequeno John
nos braços, impedindo outras curiosidades por parte dele, e perguntou:
- O senhor toma um café
com a gente?
- Obrigado.
Após o café,
Laura levou o filho para o quarto, deixando os dois homens conversando
na sala.
- Escuta, coronel..não
foi você que atacou o Cartel de Medelin na semana passada?
Antes de responder, Yuri
pediu permissão para fumar.
- Posso? - Peter balança
a cabeça em assentimento, e Yuri acende o seu inseparável
charuto.
- Sim, fui eu mesmo. Mas,
como soube?
- Eu estava perto de Bogotá,
na Vila de Santiago, que fôra atingida por um pequeno terremoto,
e ouvi falar de suas façanhas.
- É. Graças
a Deus estamos tendo sucesso nesta Operação. Agora nós
vamos agir aqui, na cidade do Rio de Janeiro.
- Ora, ora...se você
vai atacar os bandidos daqui, então nem vai precisar investigar
a morte do nosso pastor, pois por certo você irá encontrar
os assassinos dele entre os bandidos.
- Certamente. Mas, espere...-
Atalhou Yuri - Você não desconfiava do governador?
- Desconfiava, não.
Eu tenho certeza de que foi ele o mandante! Só que nele será
difícil você colocar as mãos!
Yuri bateu a cinza do charuto
no cinzeiro, e respondeu:
- Talvez você se engane,
reverendo...
Dito isso, ele se levantou,
perguntando ao se despedir de Peter:
- Reverendo, me diga uma
coisa: você falava lá embaixo que Jesus manda a gente amar
os nosso inimigos...Eu até hoje matei os meus inimigos! Um homem
como eu pode se salvar?
Peter colocou a mão
sobre o ombro do coronel, dizendo:
- Caro Yuri, quem somos
nós para entendermos os caminhos e os pensamentos do Senhor? O que
para o homem é impossível, para Deus não o é.
O nome Abiezer era de um dos valentes de Davi. Ora, o próprio rei
Davi era um guerreiro! Sua espada matou a muitos inimigos, e no entanto,
o Senhor o amava!
Os olhos de Yuri brilharam,
agradecidos.
- Obrigado, reverendo...olhe,
vou deixar este rádio-transmissor com você. Nós estamos
acampados a poucos quilómetros daqui. Se precisar de algo, é
só nos chamar.
Yuri despediu-se, e foi
embora. A conversa com Peter Danthon fôra muito benéfica.
Ele se sente agora estranhamente leve. Até um pouco feliz. Yuri
não sabia explicar, mas quando Peter falava com ele, sentia-se como
uma criança ouvindo os conselhos do pai amoroso. Eu vou voltar aqui
mais vezes!, pensou. Deu mais uma olhada para o velho prédio que
abrigava a congregação da Nova Igreja, e foi para o hotel.
No dia seguinte, o coronel
voltou ao acampamento, para saber notícias de seus homens, e também
para apanhar um outro rádio-transmissor. O sargento Marvin tinha
novidades:
- Segundo o que conseguimos
saber, coronel, os caras do Comando Vermelho já têm conhecimento
da nossa presença aqui.
- A fama então nos
precedeu? - Brincou Yuri. Marvin sorriu e continuou:
- Parece que sim. Pelo que
conseguimos descobrir, eles estão se unindo num local chamado Morro
da Mineira, para nos enfrentar.
- Ótimo! Assim fica
mais fácil pegá-losl - Comentou o coronel. O sargento porém,
tinha mais informações:
- Agora, o difícil
de acreditar foi o que nos contaram a respeito dos chefões do Comando
Vermelho! Eles estão presos, coronel!
- Como assim? - Estranhou
Yuri.
- É de um presídio
que eles comandam seus homens. Sequestros, assassinatos, tráficos
e outras atividades ‘sociais’, são coordenadas por eles lá
do presídio!
- Caramba! - Yuri estava
perplexo. - Mas se a policia já tem os caras presos, por que acontecem
todas estas atividades criminosas?
- Não é difícil
imaginar, coronel. Com o atual estado de corrupção das autoridades
cariocas, o presídio funciona como um 'hotel’ para o pessoal do
CV. Para a sociedade, tudo bem, pois eles estão presos: para os
bandidos, melhor ainda, pois podem agir livremente. E isso tem funcionado
desde o século passado!
Yuri acendeu um charuto,
alisou o queixo, agora bem barbeado, e disse:
- Faça o seguinte,
sargento: descubra que diabo de presídio é este e como são
suas defesas. Ah sim. Manda o sargento Silva sobrevoar o tal do Morro da
Mineira e mapear o local e as posições dos bandidos.
Capítulo XX
São 6 horas
da tarde quando Abiezer Yurí deixa o acampamento no velho carro
que havia alugado na noite anterior. Tudo estava bem com seus homens, e
ele podia se dar ao luxo de ir encontrar-se novamente com Raquel. Ele passou
em uma loja, onde comprou uma caixa de bombons, e se dirigiu ao prédio
onde Raquel mora. A túnica social, de gola alta, está incomodando,
e muito. O coronel sente falta da velha farda.
- Oi, entre. - Pediu Raquel,
dengosamente. Yuri entrega-lhe a caixa de bombons, e recebe um beijo no
rosto, em agradecimento. A moça então o puxa para uma poltrona,
e diz:
- Sente-se um pouco, Yuri,
que estou acabando de me aprontar!
- Olha, Raque!...eu não
conheço a cidade, então você escolhe o local para irmos,
tá?
- Deixa comigo! - A moça
piscou marotamente, e foi se arrumar.
Eles comeram num aconchegante
restaurante à beira-mar, passearam bastante pela praia, conversaram
muito, e por volta de 22h00 eles voltaram ao apartamento. Yuri ainda sente
as pernas bambas, desde o momento em que se beijaram, lá na praia.
Ele não consegue explicar a si mesmo o que está ocorrendo
com ele. É uma sensação muito gostosa estar com Raquel.
É como se sempre estivesse um céu estrelado, numa noite eterna.
Era como se a lua e o sol, juntos, coubessem em seu coração.
Uma sensação que ele jamais havia sentido. Era bom, muito
bom, estar com Raquel.
Capítulo XXI
O secretário
de Castro comanda pessoalmente o covarde ataque à congregação
carioca da Nova Igreja. Peter e os demais membros foram pegos de surpresa.
Eram mais ou menos 9 horas da manhã, quando a cerimônia religiosa
estava sendo iniciada. Laura, que estava no andar de cima, com o pequeno
John, ouvindo os gritos desesperados, veio até a escada, de onde,
horrorizada, assistiu à violenta agressão aos cristãos.
Os cinco homens de Castro foram atirando em adultos e crianças,
indiscriminadamente. As pessoas que ainda estavam de pé, eram abatidas
à coronhadas.
- Agarrem ele! - Gritou
o secretário, apontando Peter. Laura apenas viu quando os quatro
brutamontes foram em direção ao seu marido e, jogando-o ao
chão, começaram a espancá-lo. Então ela lembrou-se
do rádio que Yuri dera a Peter. Correu a apanhá-lo, gritando
histericamente por ajuda. Mas, infelizmente, os bandidos ouviram suas súplicas.
Três deles correram para onde ela estava e, sob o olhar traumatizado
do garotinho, os malditos começaram a espancar Laura. Quando ela,
desequilibrada por uma bofetada, caiu ao chão, o seu vestido vermelho
subiu, deixando à mostra o corpo bem feito dela. A visão
daquelas pernas brancas, lisas e macias, despertou os piores desejos nos
três sujeitos.
Laura apenas soluça
baixinho, já sem forças. Então ela vê quando
um dos homens, um negro, se coloca nú. Os outros dois, um branco
e um mulato, garga!hando freneticamente, também ficam nús,
imitando o negro. Este então foi e se deitou sobre a aterrorizada
mulher, rasgando com violência a calcinha dela, e penetrando-a em
seguida, de maneira ensandecida.
A pobre mulher já
não via ou sentia mais nada, pois havia desmaiado...
- Coronel! Coronell...Acampamento
chamando...câmbio!
Yuri levantou-se de um salto
da cama, atendendo ao rádio:
- Fala, soldado!
- Coronel, uma mulher chamada
Laura, acaba de pedir socorro pelo rádio!
- Quê?!... - Yuri
recobrou-se instantaneamente da surpresa, e comandou, ainda vestindo as
calças: - Avise ao primeiro Grupo com o qual conseguir contato,
para ir para a rua José Soares, urgente!
Raquel, ainda sonolenta,
pergunta o que houve.
- Problemas, garota! - Acabando
de se vestir, Yuri a beijou, dizendo: - Eu volto assim que resolvê-los.
Tchaul
Capítulo XXII
Quando Yuri chegou,
já encontrou o Grupo do sargento O’Connor no prédio da congregação.
Eles estavam prestando os primeiros-socorros aos feridos. Adultos e crianças,
ensanguentados, gemem e choram, sem ainda entender a selvageria de que
foram vítimas ainda à pouco. Oito corpos estão cobertos
com lençol. Há sangue por todo lado. Yuri procura entre os
feridos, até ver Laura a um canto, com o filho no colo, chorando
desconsoladamente ao lado de Peter. Este tem o rosto coberto de sangue,
e um braço quebrado.
- Foi o maldito Castro,
coronel! - Disse. Peter fala dolorosamente, devido aos vários ferimentos.
Yuri o ajuda a sentar-se, recostando-o com cuidado na parede. Peter continuou:
- Agora eu levo aquele monstro até a Liga!
- Antes disso eu vou falar
com ele. - Disse Yuri. Peter não se apercebeu do tom frio da voz
do militar. Estende a mão com dificuldade, colocando-a sobre o braço
de Yuri, e pede:
- Pode ir, coronel...mas
não lhe faça nenhum mal. A lei vai cuidar dele. - O religioso
procura os olhos do militar. - Promete?
- Prometo, reverendo...fique
sossegado. - Erguendo-se, Yuri começou a dar ordens: -O’Connor,
leve os feridos para o hospital: você, você e você, sigam-me!
Com os três soldados
seguindo-o, o coronel deixou o prédio. No que dependesse dele, a
guerra com os bandidos da cidade do Rio de Janeiro iria começar
agora!
Em menos de quinze minutos,
usando toda a velocidade alcançada pelo carro, Yuri chegou com os
soldados ao prédio do governo. Com a Walther já engatilhada,
ele entra no prédio. Literalmente ele está invadindo o local,
obrigando os seguranças à reação. E é
isso que Yuri quer. Os seguranças de Castro são bandidos
ou policiais corruptos. Matá-los só iria custar o preço
da bala!
- Como diziam os brasileiros,
na Segunda Guerra Mundial...Agora a cobra vai fumar! - Ironizou um dos
soldados ao lado de Yuri, já com a L-Ruger pronta para disparar.
A Walther então cospe sua mortífera carga de chumbo, e o
primeiro segurança cai com a cabeça varada por uma bala.
As L-Ruger também cospem chumbo e os cinco seguranças restantes,
caem mortalmente feridos, sem ao menos terem dado um tiro sequer!
Yuri aciona o botão,
chamando o elevador. Quando este chega ao térreo, e abre sua porta,
o ascensorista, também homem da segurança, esboça
uma reação, tentando sacar a arma. Ficou só na tentativa.
Yuri acertou-lhe um pontapé no baixo ventre, dando em seguida uma
potente cotovelada na cara do sujeito. Antes que ele caisse, o punho fechado
de Yuri esmagou-lhe a traquéia.
O coronel consultou uma
tela na parede do elevador, onde estavam programados todos os andares e
seus respectivos ocupantes. O gabinete de Castro ficava no décimo.
- Eu e você vamos
pelo elevador... - Disse a um dos soldados. - Vocês dois vão
pela escada!
Enquanto eles se dirigiam
ao décimo andar, o computador na entrada do prédio já
havia acionado todos os alarmes do edifício, avisando da invasão.
Em menos de um minuto o
elevador parou no décimo andar. Quando a porta se abriu, uma carga
de chumbo de uma carabina calibre 12 passou sobre a cabeça de Yuri
e do soldado.
- Cuidado! - Gritou Yuri,
enquanto se jogava no meio do corredor. Ele rolou sobre si mesmo por duas
vezes, enquanto despejava as balas da Walther sobre o agressor. Um dos
tiros acertou o peito do bandido, atirando-o para trás, contra a
parede; o outro tiro acertou-lhe o meio da testa, pregando seus miolos
na mesma parede. Yuri correu para onde havia caido o corpo do sujeito,
pegando a carabina que ele usava. Em seguida ele e o soldado aproximaram-se
da porta do gabinete de Castro. Com um pontapé, o coronel abriu-a,
deixando à mostra lá dentro, os dois covardes, tremendo,
completamente apavorados. Mesmo assim Yuri entrou com cuidado, para evitar
surpresas. Mas não havia mais ninguém ali, além de
Castro e do seu secretário. Este, ao ver Yuri, ergueu as mãos,
choromingando. Então Castro, aproveitando-se do momento de distração,
apanhou uma arma na gaveta. Pegando o secretário magricela por trás,
pelo pescoço, o governador apontou a arma para a cabeça dele,
na desesperada tentativa de intimidar Yuri.
- Se você der mais
um passo, eu o mato! - Ameaçou. O coronel então respondeu:
- Foi bom você fazer
isso. Eu havia prometido que não ia lhe fazer mal. Portanto, se
eu atirar em seu secretário, e você, por um desagradável
acaso, for atingido, não estarei quebrando a minha promessa.
Terminando de falar, Yuri
acionou o gatilho da escopeta. Castro mal teve tempo de arregalar os olhos.
A carga concentrada de chumbo abriu um rombo na barriga de seu secretário,
e seguiu seu caminho mortal, atingindo o governador carioca em seguida.
O sangue dos dois misturou-se sobre o tampo envernizado da mesa. Com o
impacto do tiro, seus corpos foram arremessados para trás, atravessando
o vidro da janela, e indo se espatifar lá embaixo, no negro e duro
asfalto.
Yuri tirou o isqueiro do
bolso, e ateou fogo às cortinas do gabinete do agora falecido governador.
Em seguida, ele e o soldado voltaram ao elevador, avisando aos dois que
vinham pela escada:
- Ateiem fogo em todas as
salas! Quero este maldito prédio destruido!
Capítulo XXIII
No dia seguinte Yuri
foi com Raquel ao hospital, visitar Peter.
- Como é que você,
sendo tão feio, arranjou uma namorada bonita assim?
Brincou Peter.
- Obrigado, reverendo. Pelo
jeito você está bem.
- É. Religiosos também
têm o couro duro! - Comentou Peter, com um sorriso.
- E dona Laura e o .John,
estão bem?
- Razoavelmente. Eles foram
liberados pelo médico ontem mesmo. - Respondeu o religioso, calmamente,
não demonstrando nenhum rancor na voz. Apenas seus olhos, que viram
toda aqueIa violência contra os membros da congregação
e seus entes mais queridos, demonstram tristeza.
- Nós somos adultos,
e temos um pouco mais de condição para absorver o ódio
que o mundo nos devota...Eu me preocupo mesmo é com as crianças.
O coração delas é muito terno para entender as maldades
do homem.
- Às vezes não
entendo por que Deus permite tudo isso... - Comenta Yuri. Peter então
lhe diz:
- Deus não permite.
O homem é que, usando o livre arbítrio que Deus lhe deu,
escolhe entre o bem e o mal, e, infelizmente, pende mais para o lado do
mal. Um dia o homem será pesado de acordo com as suas ações,
mas isso só acontecerá depois que a taça da ira estiver
cheia...
Sem entender muito bem as
últimas palavras do pastor, Yuri se despede, dizendo que ia visitar
Laura. Peter ajeitou-se melhor na cama, e perguntou:
- Escuta.. como foi a conversa
lá com o governador?
- Foi boa. Só que
depois, segundo a polícia local, alguns vândalos atacaram
o prédio, mataram o governador e incendiaram o local.
- Coronel Abiezer Yuri!...
- Peter lança um olhar de desaprovação para o militar.
Este responde calmamente, com ar angelical:
- Olha, reverendo...eu não
atirei no governador. Cumpri a minha palavra. Nem encostei a mão
nele!
Depois das visitas, Yuri
deixou Raquel no apartamento dela e voltou ao acampamento. Com todos os
soldados perfilados à sua frente, ele disse, com voz alta e clara,
e em poucas palavras:
- Senhores, hoje à
noite vamos atacar o reduto dos bandidos. Hoje, se Deus nos ajudar, encerraremos
nossa missão aqui no Rio de Janeiro. Preparem armas e equipamentos.
Às 20 horas atacaremos! Sargentos, podem dispensar os homens.
Enquanto os soldados dispersam-se
pelo acampamento, Yuri e os sargentos reunem-se na barraca de comando.
Ali, num cavalete, tem um desenho que fôra feito pelo sargento Silva
dias antes, quando, de helicóptero, estudara as posições
dos bandidos na favela chamada de Morro da Mineira. Yuri então explica
a tática a ser empregada:
- O Grupo do sargento Morrison
fará o ataque aéreo do primeiro helicóptero; os Grupos
do Silva e do Ruiz descerão do segundo helicóptero aqui,
atrás das linhas inimigas - Yuri aponta o local no improvisado mapa
- O sargento O’Connor e seu Grupo, cuidarão da artilharia, lançando
mini-foguetes aqui - novamente ele aponta o desenho - E, finalmente, Marvin
e os Grupos restantes subirão comigo pela entrada principal da favela.
Yuri acendeu o charuto,
e perguntou:
- Alguma dúvida,
senhores? - Como ninguém se manifestasse, Yuri completou: - Tudo
bem. Vamos então estudar agora o esquema tático para entrarmos
no presídio onde estão os chefões do CV!
Às 20h00 em ponto
os dois helicópteros ganharam o céu estrelado da cidade carioca.
Sobrevoaram a cintilante baia da Guanabara e os iluminados prédios.
Pouco depois eles chegavam ao Morro da Mineira. Um deles segue, sobrevoando
a enorme favela, e o outro deixa Yuri e o pessoal da linha de frente e
de apoio. E depois também segue, levando o Grupo do sargento Morrison
para o ataque aéreo.
Os bandidos estavam realmente
de sobreaviso, pois assim que Yuri e o restante dos Grupos de Combate iniciaram
a subida pela rua principal da favela, as balas começaram a zumbir
em seus ouvídos.
- Vai, OConnor! Manda ver!
- Grita Yuri.
Os pequenos e mortíferos
foguetes deixam um rastro iluminado na noite, indo cair precisamente sobre
os bandidos. Antes que estes possam se recuperar do explosivo ataque, Morrison
começa a lançar do helicóptero, dúzias de granadas
sobre eles. Os bandidos então procuram atabalhoadamente outros pontos
de defesa. Para aumentar então o inferno de fogo, chumbo e sangue,
os sargentos Ruiz e Silva atacam com seus Grupos pela retaguarda dos bandidos.
O intenso combate dura poucos
minutos. Alguns bandidos, querendo evitar a morte certa, se entregam, sem
maior resistência, mas o restante, acreditando numa possível
vitória, desce o morro desordenadamente, atirando sobre Yuri e os
soldados, que subiam.
- Abriguem-se entre os barracos!
- Comandou o coronel. Nisso o sangue gelou em suas veias: uma pequena criança
negra atravessa a rua, inocentemente.
- Cubra-me, Marvinl - Yuri
grita, e corre para pegar a criança. Marvin corre atrás dele
disparando seu Smith & Wesson por sobre a cabeça de Yuri. Um
dos bandidos, com uma Star Z-75, disparou sobre o coronel, malgrado a proteção
de Marvin. O coronel sabe que aquela arma. quando dispara, puxa para a
direita e para o alto. Assim, ele agarrou a criança e atirou-se
ao chão, rolando o corpo para o lado direito. Ainda no chão,
ele disparou sua Walther P88, acertando o peito do sujeito. Mas este já
estava de olhos arregalados, agonizando, pois Marvin já havia lhe
acertado um tiro na garganta. A bala 45 simplesmente estourara a garganta
do bandido. De sua boca ainda saiu um som rouco, estrangulado. Então
ele dobrou os joelhos e caiu morto.
- Meu filho! - A mulher
correu a tomar o filho dos braços de Yuri, e logo desapareceu dentro
de um barraco. O coronel entregou a criança, sem desviar o olhar
da turba que descia o morro, enlouquecida. Descarregou o resto das balas
da sua Walter, mandando mais quatro bandidos para o inferno. Em seguida
começou a usar o seu Ruger 357.
- Coronel... - Falou Marvin,
de trás da parede de um velho prédio. - A gente vai ficar
a noite inteira neste troca-troca?
Yuri, vendo que os bandidos
haviam se agrupado atrás de um barraco, ordenou:
- Peça ao Morrison
para jogar uma granada bem no meio deles!
Marvin, pelo rádio,
passou a ordem. Instantes depois um par de granadas explodia entre os bandidos
restantes. Da nuvem de pó e fumaça levantada pelo estouro
das granadas, sairam seis bandidos. As L-Huger dos soldados de Yuri completaram
então o serviço. O tiroteio terminou, Os soldados cercaram
os bandidos sobreviventes - apenas oito - dos quase duzentos que estavam
aquartelados no Morro da Mineira.
Os dois helicópteros
pousaram ao lado. Os moradores da favela aos poucos iam aparecendo nas
portas dos barracos, ainda assustados.
- Civis mortos?... - Perguntou
Yuri.
- Nenhum. - Respondeu Ruiz.
- Baixas?... - Tornou o
coronel.
- Três homens do sargento
Silva, um do O'Connor e um do meu Grupo.
A par da situação,
Yuri disse:
- Sargento Silva, pegue
os corpos dos soldados mortos, recolha todas as armas, e volte ao acampamento.
O’Connor e Marvin ficam comigo. Os outros podem voltar também.
- Ei, cara! E nós?...O
que vai fazer com a gente? - Perguntou um dos bandidos. Um sujeito baixo,
moreno, dono de um fino e ridículo bigode. Ele usa uma camisa florida,
aberta no peito, de onde pendem grossos cordões de ouro. - Nós
temos direito a um advogado. - Insistiu ele.
Yuri virou-se para Marvin:
- Sargento, nós temos
algum advogado entre os soldados?
- Só se algum se
formou recentemente, e não nos avisou, senhor. - Respondeu Marvin,
contendo a custo o riso. Yuri foi até o local onde o sargento Silva
empilhava as armas tomadas dos bandidos, e apanhou uma delas.
- Puxa, uma AR-15! - Exclama
Yuri, apreciando a velha arma usada antigamente pelos soldados americanos.
Yuri, sem ao menos fazer pontaria, disparou sobre os bandidos, matando
seis deles. Os outros dois pularam para o lado, apavorados.
- Eis aí o seu advogado!
O sujeito do bigodinho fino
olhou os companheiros mortos, e retrucou, apavorado:
- Pó, m-meu...ca-calma!
Você é louco?!
- Quem sabe? - Respondeu
o coronel, e em seguida disse aos dois últimos bandidos:
- Agora quero que vocês
me levem até o presídio Centurion, e me mostrem quem são
os chefes de vocês.
Um dos helicópteros
foi para o lado do presídio, levando Yuri, os Grupos de Marvin e
O'Connor e os dois bandidos. O outro aparelho voltou ao acampamento, de
acordo com as ordens recebidas.
Capítulo XXIV
- Vá lá dentro,
fale com o diretor, e conte tudo o que você viu até agora.
- Disse Yuri ao sujeito de bigodinho. - Se em cinco minutos ele não
abrir os portões para mim, vamos invadir o local...e então
muita gente irá morrer!
O bandido correu, atendendo
as ordens do coronel. Pouco depois ele voltava, com um gordo e apavorado
diretor correndo ao seu lado.
- Eu sou o coronel Abiezer
Yuri, comandante da Força Tarefa Especial da Liga Universal. Quero
somente apanhar os homens do Comando Vermelho. Depois irei embora. Se você
tentar me impedir, serei obrigado a matá-lo, e a seus homens!
O diretor apertou os olhinhos
por trás dos óculos de grossas lentes, olhou para o pequeno
exército de homens ao lado do helicóptero, e não teve
dúvidas. Deixou Yuri entrar.
Os prisioneiros, no pátio
do presídio, olham com curiosidade para aquela estranha invasão.
Um homem forte, de feições duras, caminhava à frente
de um punhado de soldados armados até os dentes. Os detentos foram
se afastando, enquanto Yurí e seus homens ocupavam o pátio.
Os soldados ficaram em alerta,
para conter uma possível rebelião, enquanto o coronel, Marvin,
e os dois bandidos que haviam trazido no helicóptero, se encaminharam
até a um grupo de cinco homens, que estavam num canto do pátio.
- São eles... - Disse
o de bigodinho, num sussurro. Yuri então pegou ele e o outro pelo
pescoço, e os empurrou na direção dos outros cinco.
Um deles, o chefão, segundo deduziu Yuri, disse entredentes:
- ‘Cagueta' maldito...cê
vai se foder depois!
- D-desculpe, chefe.. .fui
obrigado a fazer isso.. eles já mataram todos os nossos homens lá
fora! - Disse o baixinho de bigode, choromingando. O chefe do CV, ignorando-o,
ameaçou Yuri:
- Olha, cara...se você
pensa em ferrar a gente, pode crer que a comissão de Direitos Humanos
vai ficar sabendo!
- Eu não sei de nenhuma
‘comissão’, meu chapa. - Nada no rosto de Yuri se mexia, a não
ser seus lábios. - Eu vim julgá-lo, em nome da Liga Universal!
- Me julgar, é? Ah!
Ah! Ah!...E qual será o veredito, panaca?
- Morte!
Os frios olhos azuis de
Yuri se estreitaram no rosto duro e ele, sem mais nenhuma palavra, sacou
seu Ruger 357, e disparou sobre eles. Quatro foram atingidos pelas potentes
balas, e deslizaram para o chão, devagar, deixando um lúgubre
desenho de sangue escorrendo pelo muro. Os outros três tentaram saltar
sobre Yuri, mas foram abatidos pelo sargento Marvin. Ali terminava a carreira
criminosa dos chefões do Comando Vermelho.
Nenhum dos demais detentos
esboçou qualquer reação. Um silêncio denso desceu
sobre o pátio do presídio, só sendo quebrado pelo
rotor do helicóptero, quando este alçou vôo, levando
Yuri e seus soldados embora.
Capítulo XXV
Quando o dia amanheceu,
já encontrou os soldados desmontando o acampamento.
- Você entendeu, sargento?
- Perguntou o coronel a Marvin.
- Sim, senhor. Voltar aos
Estados Unidos, entregar relatório à Liga e pegar mais munição.
- Correto.
- Coronel...
- Sim?
- Me explica uma coisa:
- Marvin tirou a boina da cabeça, coçou esta, e continuou.
- com o governador do Rio de Janeiro morto, quem governará a cidade?
- Uma Comissão de
Cidadãos assumirá esta responsabilidade, de agora em diante,
até a Liga nomear outro governador.
Marvin deu mais uma coçada
na cabeça, colocou a boina de volta, e voltou a falar:
- Só mais uma pergunta,
coronel...e os policiais corruptos, os que não matamos, eles serão
expulsos da polícia?
- Não sem provas,
sargento. De qualquer forma, é muito difícil acabar com todos
eles. Enquanto a ganância e a deslealdade existirem, também
existirá o policial corrupto. E esse é muito pior do que
qualquer marginal.
Os dois helicópteros
vão voltar aos Estados Unidos, levando o Grupo de Marvin, que após
entregar o relatório da Operação D aos líderes
da Liga Universal, irá apanhar mais munição e depois
se encontrará com Yuri no Japão. Em um dos aparelhos também
seguem os corpos dos soldados mortos. O coronel havia prometido não
deixar o corpo de nenhum de seus homens em terras estranhas.
Com uma continência
Marvin se despede de Yuri.
- Até mais, senhor.
Yuri dispensa a continência,
lhe estendendo a mão.
- Nos veremos em Tókio,
sargento.
Yuri deixou os soldados
no aeroporto, de onde embarcariam para o distante Japão, e foi se
despedir de Peter e Raquel.
- Sim, coronel. Assim que
eu sair deste hospital, fico mais uma semana nesta cidade, e depois volto
aos Estados Unidos. Nosso próximo encontro será lá,
se Deus quiser!
- 0k, reverendo. Até
lá, então. Lembranças a dona Laura e ao John.
Peter apertou fortemente
a mão de Yuri.
- Que Deus proteja você
e seus homens nessa missão, coronel!
Deixando o hospital, Yuri
foi até o apartamento de Raquel.
- Raquel...eu...eu...bem,
vou direto ao assunto: não sei falar palavras bonitas...aliás,
nem falar direito com uma moça eu sei! Eu sou um homem de ação...eu
então quero dizer...Drogal Eu estou indo para Tókio, e de
lá volto aos Estados Unidos...Não, não é isso!
- Yuri pragueja novamente, ante o olhar divertido da moça. - Puxa,
isso é difícil! Raquel, eu a amo. Sei que é muito
cedo, que eu deveria esperar...eu...talvez você nem sinta nada por
mim...mas eu...
- Yuri! Yuri!
Colocando a mão sobre
os lábios de Yurí, Raquel impede que ele continue tagarelando,
e diz:
- Eu também amo você!
- Han?!...Tem certeza?!
- Claro que tenho...desde
o primeiro dia, coronel Abiezer Yuri!
Yuri ia falar, mas a moça
o impede novamente, só que desta vez com um beijo longo, doce, apaixonado.
Depois do beijo, com a cabeça a girar, Yuri consegue dizer:
- Assim que terminar minha
missão em Tókio, venho buscá-la.
Capítulo XXVI
Todas as Comissões
de Cidadãos, de todo o Planeta, estavam reunidas no pátio
do colossal prédio da Liga Universal. Além das Comissões,
governadores de cidade e grande parte do povo de Nova York também
estavam reunidos ali. Era tanta gente, que não caberia de forma
alguma na sala de reuniões da sede da Liga.
Fôra improvisado um
palco, onde estavam sentados os líderes da Liga. À frente
deles, Makro preparava-se para falar. Diante dele haviam dois microfones.
Um, destinado a levar sua voz ao povo alí reunido; e o outro, conectado
à câmara de televisão, vai levar as palavras de Makro
a todas as regiões da Terra.
- Senhores líderes
da Liga Universal... Comissões de Cidadãos... governadores..,
povos de todas as nações, eu os saúdol - Após
esta saudação, Makro inicia seu discurso. - Há pouco
mais de um mês, eu, Makro, prometi aos líderes da Liga Universal,
soluções imediatas para o nosso planeta. Hoje, já
tenho tais soluções. Nós tínhamos um grande
problema, que era o da criminalidade. Criei então uma Força
Tarefa Especial, de repreensão ao crime...
- Quem deixou ele discursar?
- Perguntou L1, irritado.
- Ninguém. - Respondeu
L4. - Ele nos havia dito que iria apenas cumprimentar o povo, e que depois
passaria a palavra a você...Agora não podemos calá-lo
na frente de todos.
Enquanto os líderes
se exasperavam, Makro continuava:
- São Francisco,
Bogotá e o Rio de Janeiro, que eram sedes do crime organizado, estão
agora livres desta praga. Foram mortos milhares de bandidos e arrecadados
milhões de dinheiro. Nossos valentes soldados agora se encontram
em Tókio, último reduto da alta criminalidade. Todo esse
dinheiro arrecadado através do combate ao crime organizado, será
usado na produção de grãos e ainda no desenvolvimento
tecnológico das nossas lavouras. - A multidão bateu palmas,
entusiasmada com as palavras de Makro - Não teremos mais crimes
em nossas ruas, em nossas cidades; não teremos mais o fantasma das
drogas apavorando nossos lares e dizimando nossos jovens; e dentro em pouco,
debelaremos a fome para sempre! - Novos e ruidosos aplausos -Também,
com esse dinheiro, construiremos mais hospitais, e vamos tirar nossos doentes
das ruas e tratá-los como seres humanos!... - Os olhos brilhantes
de Makro passeiam sobre a multidão que o ovaciona. Então,
após esta breve pausa, ele continua: - Outro problema que estou
resolvendo agora: as Comissões, doravante, poderão nomear
prefeitos para todas as cidades não governadas. Com esta medida,
iremos poder contar com relatórios sobre problemas dessas cidades,
podendo assim fazer uma melhor distribuição de benefícios.
E mais: o povo dessas citadas cidades não precisará mais
pagar impostos à Liga. Esse dinheiro economizado deverá ser
usado para cada cidade sanar seus próprios problemas!
Nesse momento do discurso
de Makro, que parecia ter o dom de falar exatamente o que o povo queria
ouvir, a sede da Liga chega a estremecer, tal o alarido de palmas e gritos
da multidão. L1, possesso, disse que ia fazer Makro parar, mas foi
impedido por L7.
- Este maldito está
usurpando o poder dos líderes, na nossa cara!
- Calma, L1 ...Agora não
podemos fazer nada.
E Makro, ignorando os líderes
da Liga, continuava:
- For fim, meus filhos,
tenho ainda uma ótima notícia a lhes dar: nesta semana devemos
começar a fabricação de um satélite-filtro,
que será colocado em órbita entre a Terra e o Sol, numa substituição
provisória da Camada de Ozônio, para que esta tenha tempo
para se reconstituir. Com esse filtro, teremos uma sensível melhora
em nosso clima, com benefícios imediatos para nossos rios, lagos
e, consequentemente, para as pastagens e as lavouras!
A multidão vai ao
delírio. As palmas encobrem o tom irado da voz do L1.
- Ele está louco!
- Não, L1. Loucos
fomos nós, quando o criamos. - Replicou L7.
Alguns membros das Comissões
de Cidadãos, eufóricos, sobem ao palanque, para cumprimentarem
Makro. Os líderes se retiram então, e vão para a sala
de reuniões da sede.
- Nós temos que reconhecer
que falhamos em nosso propósito de liderar o mundo. - Disse o líder
israelita. - Criamos algo para nos ajudar, e o povo agora o acolhe como
líder.
- Só nos resta um
caminho: unirmo-nos a ele. - Ponderou L8. - Combatê-lo, a esta altura,
seria nos indispor contra o mundo!
- É. A televisão
levou o discurso dele aos quatro cantos do Planeta. A repercussão
deve ter sido a mesma daqui. - Disse L3, aborrecido. L1 atalhou:
- Discurso demagogo, diga-se
de passagem. Ele não vai resolver o problema das doenças,
e muito menos o da Camada de Ozônio.
- Não se esqueça,
L1, que ele tem uma superinteligência... - Lembrou o líder
russo. E continuou: - Veja o lado bom: o mundo queria um Líder,
e isso nós não fomos. Agora demos um Líder a eles.
O melhor para nós, creio, é tirar proveito da situação.
- Aproveite você,
e os outros que quiserem! - Explodiu o L1 - Eu estou deixando a Liga agora!
- Eu também saio!
- Disse L7.
Os dois homens deixaram
a sala. Os demais líderes continuaram com a reunião, indiferentes
à saída do L1 e do L7.
Capítulo XXVII
Makro, após a saída
dos dois líderes da Liga Universal, ficou ainda mais à vontade
para acumular poder. Consegue o apoio dos demais líderes, e as Comissões
de Cidadãos estão contentes com ele. As eleições
então são canceladas e Makro é proclamado L1, o Líder
Supremo!
Aos poucos, Makro vai cumprindo
o que prometera ao povo. O projeto do satélite-filtro dá
certo; todo mundo espera ótimas safras; a fome, se não fôra
totalmente debelada, pelo menos foi atenuada; hospitais são construidos;
e 70% do império do crime organizado já fôra destruido.
O povo começa então
a idolatrar Makro. Como o povo cria e passa a adorar um bezerro de ouro?...0
que é Makro? Não é apenas um homem, com uma inteligência
privilegiada? Qualquer grupo de três ou mais pessoas poderia facilmente
matá-lo. No entanto, o povo, em busca de uma angustiada saída
para seus problemas, coloca-o em um pedestal, também colocando suas
vidas e a de seus filhos, nas mãos de Makro.
Os líderes da Liga,
para agradar o povo, e continuarem no poder, outorgam suas responsabilidades
a um homem, e apoiam o povo em sua idolatria. Então um homem, um
simples mortal, passa a ser o ídolo de bilhões de almas.
Um fato ainda não explicado até hoje, nem por cientistas,
filósofos, religiosos ou psicólogos. Isso já acontecia
no passado, com os imperadores romanos, e depois com o demoníaco
Hitler. E agora acontecia novamente. Makro tem a seu dispor as almas e
as armas...Uma força muito grande à disposição
de um único homem. Nem um outro pretenso imperador do mundo soube
conviver com tal poder. Seria Makro excessão?
Capítulo XXVIII
Já se passaram cinco
meses, desde que a Força Tarefa Especial da Liga Universal começara
a guerra contra o império do crime. Agora na cidade de Tókio,
o coronel Abiezer Yurí estava encerrando a Operação
D, após eliminar todos os membros e chefões da poderosa Yakuza,
a terrível máfia japonesa.
Enquanto os soldados embarcaram
de volta aos Estados Unidos, ele voltou ao Rio de Janeiro, para buscar
Raquel.
Da capital carioca, eles
também viajaram para Nova York. Yuri deixou Raquel na casa de Peter,
e foi até à sede da Liga, para o relatório final da
missão. Em Tókio, Yuri perdera quinze homens, entre eles
os sargentos O’Connor e Ruiz. O coronel voltara aos Estados Unidos com
apenas oitenta dos cento e doze homens que haviam participado da Operação
D. Makro organizou uma grande homenagem para os heróis de Yuri,
com a televisão mostrando isso para todo mundo, evidentemente...
Makro parecia continuar
uma boa liderança, e tudo aparentava estar bem. O coronel Abiezer
Yuri então casou-se com Raquel. Peter celebrou o casamento, e Marvin
e sua esposa, Eloíse, foram os padrinhos. Yuri e Raquel também
começaram a frequentar a igreja onde Peter era o pastor. Sim, tudo
parecia mesmo bem, apesar dos problemas climáticos continuarem.
Malgrado a instalação do filtro entre o Sol e a Terra, as
geleiras continuavam a se despreenderem e a invadir as águas dos
oceanos, provocando alguns acidentes com as navegações e
contribuindo para o aumento do nível de rios e mares.
Terremotos também
aconteciam e constantemente florestas inteiras eram destruidas por incêndios
monstruosos, ocasionados pela intensa sêca. Doenças de pele
e respiratórias eram as mais frequentes.
Makro então mandou
os cientistas verificarem o satélite-filtro, e eles descobriram
que este estava com uma grande rachadura.
- O filtro está avariado.
Sua proteção é nula.
- Não comentem isso,
para não alarmar o povo. - Ordenou Makro, ao ser informado da avaria
pelos cientistas.
Mas a vida, não obstante,
continuava. As pessoas trabalhavam, se divertiam, namoravam, casavam, sonhavam...
Capítulo XXIX
- Com licença, coronel.
- O soldado entrou no escritório de Yuri com uma mensagem. Yuri
a leu, e mandou o soldado chamar o sargento Marvin.
Dai a pouco Marvin chegou.
- Marvin, temos uma missão.
- Beleza! Já estava
me sentindo enferrujado! O que é, coronel?
- Está havendo uma
agitação no Brooklin. Vamos lá!
- Positivo, senhor. Vamos
levar uma tropa de choque?
- Não, Marvin. Apenas
uns cinco homens é o suficiente.
- Pois não, senhor.
- Marvin... - Chamou Yuri,
afivelando o cinto com suas inseparáveis armas.
- Sim, coronel?
- Acho que meu padrinho
de casamento deve me chamar de Yuri.
- Positivo, senhor...quer
dizer...Yuri!
Marvin bateu continência,
e sorrindo se afastou. Quando Yuri chegou com seus soldados, teve uma surpresa:
soldados de uniformes negros, usando cães, acuavam um grupo de pessoas
ao lado de um supermercado. Um dos soldados, vendo o coronel chegar, veio
ao seu encontro:
- Polícia Metropolitana,
senhor.
- Quem mandou vocês?
- O L1, senhor.
Yuri se aproximou das pessoas,
acompanhado por Marvin.
- Meu Deus! É o reverendo!
- Exclamou o sargento Marvin. Yuri não acreditando no que os seus
olhos viam, ajoelhou-se ao lado de Peter. Este estava segurando uma mulher
negra. Da cabeça da mulher escorria um filete de sangue de um ferimento
provocado por uma pancada do cassetete de um dos soldados da Polícia
Metropolitana.
- O que aconteceu, reverendo?
- Olá, Yuri...Que
susto, rapaz! Por um instante pensei ser você o comandante destes
soldados de negro!
- O que aconteceu? - Insistiu
Yuri.
- Nós estávamos
fazendo um culto naquela casa ali - Peter apontou uma pequena casa próxima
dali - E quando começamos a cantar, o dono do supermercado ao lado
disse que a gente estva perturbando os fregueses dele. Nós paramos,
mas assim mesmo ele chamou estes soldados, que já chegaram nos agredindo.
- Malditos!...Marvin, ajude
estas pessoas! - Yuri deu a ordem, e já partiu para cima de um dos
soldados de negro. Ele socou o soldado fortemente, e este caiu desmaiado.
Yuri está furioso. - Peguem ele e sumam daqui!
Enquanto eles obedeciam
a ordem, o coronel dirigiu-se para o supermercado.
- Oh, não! Ele vai
agredir o dono do supermercado! - Lastimou-se, Peter.
- Que nada!... Ele vai fazer
compras! - Brincou Marvin.
Assim que Yuri entrou, um
sujeito enorme e barbudo, veio ao seu encontro, sorrindo:
- É isso aí,
general. Vocês fizeram um bom serviço!
O coronel agarrou o sujeito
pelo peito da camisa, e o atirou sobre um balcão de frios. Em seguida,
sacou da Walther e começou a atirar sobre uma prateleira de latarias.
As latas, estouradas pelos tiros, espalhavam-se pelo chão do estabelecimento,
sob o olhar apavorado do seu dono.
- E agora, panaca? Estou
perturbando a sua freguesia?
Lá fora, Marvin tenta
animar o preocupado Peter:
- Ele deve ter achado os
preços muito altos! Esse coronel...tem uma personalidade explosiva,
mesmo!
Após uma boa lição
no dono do supermercado, Yuri dispensou seus homens e, junto com Marvin,
levou Peter para casa.
- É a primeira vez
que isso acontece? - Quis saber Yuri. Peter apanhou o copo de água
das mãos de Laura, e respondeu:
-Com esses soldados de negro,
é a primeira vez. Mas eu tenho em mãos alguns relatórios
que chegaram de outras congregações da Nova Igreja, reclamando
maus tratos de outros soldados. E isso não é tudo, coronel...Esses
mesmos relatórios, dizem que Makro instalou ambulatórios
em diversas cidades de paises onde há casos de superpovoamento,
com a ordem de esterilizar as mulheres, principalmente as de classe pobre,
as negras e índias.
- Filho da puta! - O sargento
Marvin não conseguiu esconder a revolta. - Desculpe, reverendo.
- Tudo bem. - Desculpou-o
Peter, que estava muito mais preocupado com os recentes acontecimentos
do que com os palavrões do sargento. - Mas não é só:
Makro também deu ordens para matarem os doentes, em todos os hospitais
públicos!
- Mas...como? - Yuri e Marvin
estavam perplexos. Peter explicou:
- Eles matam os doentes
com remédios errados, injeções de ar, desligamento
de oxigênio em UTIs, e outras atrocidades.
- Mas como a Nova Igreja
ficou sabendo de tudo isso?
- Alguns membros estavam
trabalhando nesses hospitais e ambulatórios, e vendo o que estava
ocorrendo, se demitiram e enviaram-me esses relatórios. Nós
mandamos uma carta de protesto à Liga, e acho que é por isso
que Makro começou a nos perseguir.
- Mas por que não
me avisou disso, pastor?
- Desculpe, Yuri...é
que achei que poderia sensibilizar alguns membros da Liga, mas, ao que
parece, Makro já dominou a todos!
Capítulo XXX
Após deixar
a casa do pastor, Yuri mandou o sargento Marvin voltar ao Departamento
Central da Polícia Internacional, e foi até a sede da Liga.
Quando chegou à porta
de acesso, dois soldados, de negro também, tentam impedir sua entrada.
Yuri socou um deles e deu uma joelhada no baixo ventre do outro. A briga
ia continuar, quando então alguém disse:
- Deixem-no passar.
Yuri virou-se e viu o homem
que dera a ordem. Este também se veste de negro.
Seu nome é Taddor,
um oficial sem escrúpulos com quem Yuri nunca simpatizara.
- O que você faz aqui?
- Perguntou Yuri, estranhando a presença daquele sujeito na sede
da Liga.
- Eu sou o comandante da
recém-criada Polícia Metropolitana! - Disse Taddor, olhando
Yuri com desprezo. O coronel passou por ele, empurrando-o para o lado.
Ele quer mesmo é falar com Makro. Este se encontra sentado à
grande távola de vidro da sala de reuniões.
- Por que o senhor criou
essa polícia, e ainda colocou aquele sujeito asqueroso como seu
comandante? A Liga já não tem uma polícia, que somos
nós?
- Calma, coronel...- Pediu
Makro - Eu preciso do capitão Taddor, assim como preciso de você.
- Você não
precisa de mim para matar inocentes e fazer as coisa odiosas que está
fazendo!
Yuri queria usar de sutileza,
porém, está irritado demais para isso.
- Cale-se, coronel! - Gritou
Makro.
- Não, não
me calo! Você é um maldito, Makro! A inteligência que
você tem servirá apenas para a sua ruína! Ninguém
pode fazer com a vida das pessoas o que você está fazendo.
Você não é Deus! - Yuri então arrancou o símbolo
da Liga Universal do braço e o jogou aos pés de Makro. -
Eu estou me demitindo da policia, Makro, senhor! - Ele diz com raiva e
desprezo, desafiando a autoridade de Makro.
O capitão Taddor
observa Yuri sair da sala. Makro se levanta e também deixa o recinto.
Taddor nota que ele parece nervoso e confuso. Makro entrou em outra sala.
Suas mãos estão crispadas. Seus lábios tremem. De
repente solta um grito sobrenatural, e cai ao chão, falando sozinho.
- Eu, maldito?...Como?...Eu
só quero ajudar as pessoas...fazê-las viver em um mundo melhor...felizes,
sem doenças. Eu quero criar um novo mundo!...Ah!Ah!Ah!...Sim, eu
vou fazer um mundo novo, uma nova raça, uma raça pura! O
que aí está, é tudo errado...eu posso criar um mundo
novo! Eu sou um deus!..Ah!Ah!Ah!...Eu sou maior que César!...Sou
deus! Uma raça pura vai me adorar...Todos se ajoelhem perante mim!
Ah!Ah!Ah!Ah!
Makro rola pelo chão.
De sua boca sai uma baba, que escorre pelo seu peito. Então ele
pára de gargalhar e se levanta. Agora ele está sério.
Olhos com um brilho estranho, fixos no nada...apenas um brilho de loucura!
Pouco depois ele voltou
à sala de reuniões. Taddor ainda estava lá.
- Capitão...
- Pronto, senhor.
Taddor percebe que Makro
agora está calmo. Este então lhe ordena:
- Chame seus homens, e vá
prender o coronel Abiezer Yuri. Ele deve ser preso por insubordinação
e deslealdade à Liga Universal. Vá!
Tador vira-se sobre seus
calcanhares e vai cumprir - não sem sentir um certo prazer -, a
ordem de Makro.
- Espere, Taddor... - Makro
alisa a pequena barba que deixara crescer. Os anéis em seus dedos
brilham à luz ambiente. Ele se levanta, ajeita a capa vermelha nos
ombros, e se aproxima do capitão. - Quantos homens temos na Polícia
Metropolitana, Taddor?
- Quinhentos e cinquenta,
senhor.
- E são leais a mim?
- Completamente, senhor.
Eu mesmo os escolhi, um a um, fazendo-os jurar lealdade a Makro!
- Muito bem, capitão...
- Makro olha com seu olhar fixo e brilhante para seu oficial, e diz: -
Então, meu caro Taddor, vá prender Yuri...e também
pode prender todos os membros da Nova Igreja!
Mesmo Taddor ficou surpreso
com a ordem.
- Todos os cristãos,
senhor? - Makro voltou à mesa, sentou-se, e respondeu:
- Sim. Eles estão
me perturbando!
Capítulo XXXI
Cerca de duas horas depois,
Taddor volta à sede da Liga, com as novidades:
- O coronel Yuri e sua mulher
estão presos, senhor...junto com mais trezentos cristãos!
- Ótimo, Taddor.
- Makro deu uma gargalhada, e uma nova e terrível ordem: - Leve
uns cinquenta cristãos para o Autódromo Municipal, capitão.
Vamos dar uma festa para o nosso povo, e eles serão a atração
principal!
O Autódromo de Nova
York é um circuito oval, todo cercado por altos muros, onde nas
noites de sábado ocorrem sangrentas corridas. O povo delirava com
o violento esporte, onde os pilotos só venciam quando conseguiam
jogar o carro do adversário contra o muro. Makro manda convidar
pela televisão o povo para uma sensacional e diferente noite de
corrida.
‘Vocês nunca assistiram
nada igual. Makro lhes promete alegria e felicidade. Não percam,
neste sábado, às 20 horas...’ Dizia o locutor através
dos telões espalhados pelas ruas e dos aparelhos nas residências.
- Você ficou louco,
Makro? Você acha que iremos permitir que você coloque seres
humanos no autódromo, para serem esmagados pelos carros?
Gritava o ex-L1, possesso.
Junto a ele estão o L7 e alguns membros da Comissão de Cidadãos
de Nova York, tentando dissuadir Makro da terrível idéia.
Os demais líderes também se juntaram a eles.
- Meus filhos...vocês
não estão entendendo. O que eu estou fazendo é para
o bem do nosso mundo. Esses cristãos estão interferindo na
Nova Ordem Mundial. Eu preciso castigar alguns, para que os outros sintam
o poder da Liga. Se ela não for respeitada, como poderemos criar
um mundo melhor para nós e os nossos queridos? Confiem em mim, fllhinhos...Makro
sabe o que está fazendo!
Por mais incrível
que possa parecer, as palavras de Makro convenceram facilmente a todos,
com excessão do ex-L1, da Alemanha, primeiro líder da Liga,
e do L7, de Israel. Depois que todos se retiraram, Makro disse ao capitão
da sua guarda pessoal:
- Taddor, mande alguns soldados
seguirem Ll e L7, e matá-los, sem que o povo saiba. E depois mande
seus homens fazer o seguinte...
O fiel e crédulo
Taddor, depois de ouvir Makro, sai para cumprir suas ordens.
- O coronel Yuri, que é
o único homem com coragem e capacidade para enfrentar esse louco,
está preso...O que poderemos fazer? - Comenta o ex-líder,
com o cabisbaixo L7. Os dois estão reunidos na casa deste último.
- Vamos ver se ainda existem
soldados leais a nós e...
- Nisso batem à porta,
interrompendo o L7. Ele foi atender e foi surpreendido por quatro soldados
de negro que irromperam sala à dentro. As L-Ruger foram acionadas,
e em menos de um minuto os dois líderes estavam mortos, crivados
de balas. Um dos soldados então desenhou a figura de um peixe, símbolo
do cristianismo, em uma das paredes da sala e, rápido como chegaram,
foram embora, deixando para trás, morte e traição.
Às cinco horas da
tarde daquele mesmo dia, Makro aparece pela rede de televisão, falando
ao povo.
- ... Sim, eu estou prendendo
os membros da Nova Igreja, porque eles querem nos impedir de realizar a
Nova Ordem Mundial! E como eles querem fazer isso?
Assassinando os líderes
da Liga Universal! Hoje eles mataram covardemente os líderes da
Alemanha Unificada e de Israel, meus dígnos e honrados irmãos!...
- Makro habilmente finge carinho e tristeza - ...Eu vou castigar esses
cristãos, para que eles não me impeçam de criar um
mundo melhor para vocês, meus filhos!...
- Hoje seremos nós,
os cristãos; amanhã serão os negros, depois os judeus,
e assim por diante. A loucura de Makro não tem limites! - Disse
Peter para si mesmo, acompanhando o discurso de Makro pelo telão
do autódromo. Peter está entre os cinquenta cristãos
que serão sacrificados. Eles se encontram presos no vestiário
do autódromo, vigiados pelos guardas de Taddor. - Felizmente Laura
e John ficaram presos lá no do Departamento de Policia. Peter não
suportaria vê-los sacrificados também!
Cerca de cento e cinquenta
cristãos, e ainda Yuri e Raquel, estão presos no pátio
fechado do Departamento de Polícia Internacional, aguardando sua
sorte.
- Será que Makro
irá nos matar a todos? - Pergunta Raquel, apreensiva, abraçada
a Yuri. O coronel, ainda sentindo fortes dores, devido ao espancamento
que sofrera dos homens de Taddor, tenta acalmá-la:
- Não, querida. Deus
há de nos ajudar. Tenha fé!
Capítulo XXXII
Sete horas da noite
de sábado.
- Agora! - Ordena o sargento
Silva. O soldado então aciona o gatilho da L-Ruger, e a pequena
flecha, certeira e mortal, derruba um dos guardas de sobre o alto muro.
Haviam dez soldados de Taddor vigiando os prisioneiros. Cinco estavam sobre
a passarela do muro, e cinco dentro do prédio. Enquanto aqueles
eram abatidos um a um pelas silenciosas balestras, o sargento Morrison
e seu Grupo invadia o prédio, matando os cinco restantes.
- Ei, coronel...aonde o
senhor está?
Yuri levantou-se, sentindo
intensas dores nas costelas, e respondeu a Marvin:
- Estou aqui, sargento.
Marvin passou entre o aglomerado
de pessoas, indo na direção da voz do coronel. Abraçou-o
emocionado, e disse:
- Viemos buscá-lo,
senhor.
- O que vocês planejaram,
sargento?
- Nós temos três
onibus e dois caminhões lá fora, para levar as pessoas. Os
sargentos Morrison, Silva e Tamashiro, a essa hora, já devem ter
eliminado todos os guardas. Assim que você estiver pronto, vamos
explodir o muro.
- Ótimo. Eu já
estou pronto. Vamos afastar as pessoas do muro. - Com essas palavras, Yuri
voltava a assumir o comando de seus homens e da situação.
Após colocarem as pessoas em local seguro, ele disse:
- Pode dar a ordem, Marvin.
Pelo rádio-transmissor,
Marvin avisou o sargento Silva:
- Pronto, Silva. Prega fogo!
Após a explosão
e a fumaça abaixar, deu para ver um grande rombo feito no muro,
por onde os cristãos começaram a passar e entrar nos veículos.
- Coronel...
- Sim, Marvin?
- Ainda tem cinquenta pessoas,
lá no autódromo...- Marvin consultou o relógio - Daqui
a dez minutos elas começarão a morrer!
- Eu estou sabendo, sargento.
Nós iremos pegá-las, também. Mas, antes, temos que
colocar estas daqui à salvo.
Nisso os demais sargentos
se aproximaram e, alegres, cumprimentam o coronel.
- Em quantos nós
somos?
- Os mesmos oitenta da Força
Tarefa, senhor. - Informou Tamashiro - A maioria dos outros policias estão
com Makro!
- Então eles acham
que Makro está com a razao... - Lamentou-se Yuri.
- Mas nem todos, coronel.
- Disse o sargento Silva - Alguns estão neutros. Não vão
ajudar a gente, mas também não ficarão do lado de
Makrol
- Menos mal. - Dito isso,
Yuri foi até o caminhão onde está Raquel.
- Agora eu tenho que ir,
Raquel. Vamos libertar Peter e os outros. Fique ao lado de Laura.
- Tudo bem, querido. Nós
vamos ficar bem.
Yuri voltou-se, ordenando:
- Sargentos Silva e Morrison,
levem os Grupos de vocês e escoltem estas pessoas até ao aeroporto.
Nos aguardem lá.
- Positivo, senhor.
- Marvin, Tamashiro...Agora
vamos chutar a bunda daquele desgraçado!
Enquanto o comboio de dois
onibus e dois caminhões seguia para o aeroporto, Yuri e os demais
soldados subiram no terceiro onibus e sairam à toda, em direção
ao Autódromo Municipal.
Capítulo XXXIII
Oito horas da noite.
Uma multidão sedenta de sangue e emoções fortes, ocupa
as arquibancadas do autódromo. Os soldados de Taddor já estavam
abrindo os portões dos vestiários e levando, aos empurrões,
os cristãos para a pista de corrida. No centro desta, os pilotos,
insensíveis, aceleravam seus carros, prontos para investirem sobre
os pobres prisioneiros. Então a multidão fez silêncio,
ao ver Makro se levantar. Ele falou ao povo, através dos alto-falantes
do autódromo:
- Bem-vindos a este evento,
meus filhos. Agora vamos mostrar aos inimigos da Nova Ordem Mundial que
ninguém poderá impedir a nossa caminhada para o progresso
e bem-estar. Nós seremos uma nova raça, mais poderosa que
o Céu e a Terra! - Os aplausos da multidão só pararam
quando Makro voltou a sentar-se. Então ele disse: - Podemos começarl
O locutor oficial do autódromo,
histericamente, passou a comandar o terrível espetáculo:
- Morte aos que matam os
nossos líderes! Morte aos inimigos da Nova Ordem Mundial! Morte
aos cristãos!
As pessoas, ensandecidas,
respondiam em coro:
- Morte aos cristãos!
Viva Makro, nosso deus!
Makro então levantou
as mãos, e bateu uma contra a outra, dando início ao sacrifício.
Os carros partiram velozmente para cima dos prisioneiros. Apavorados, sem
terem para onde fugir, eles se atropelavam entre si, e iam sendo esmagados
pelos carros. Peter, no centro do circuito, tenta reunir as pessoas à
sua volta, procurando protegê-las. Os carros passam freneticamente
ao redor deles.
O onibus com Yuri e seus
soldados, chega nesse exato momento, parando do lado de fora do autódromo.
Yuri desce comandando:
- Tamashiro, atire os foguetes!
Temos que abrir uma brecha no muro, suficiente para o onibus passar!
O sargento Tamashiro correu
com seus soldados, e começaram a disparar sobre o reforçado
muro. Lá dentro, o alarido da multidão insana e o ronco dos
carros de corrida, abafavam o estrondo dos mini-foguetes. No circuito continuava
a matança dos inocentes cristãos.
- Oh, Senhor dos Exércitos,
vem em socorro de seu povo! - Clama Peter, segurando duas crianças
no colo. Os carros assassinos passam cada vez mais perto deles.
Nisso, os gritos eufóricos
da multidão transformam-se em gritos de pânico. O último
mini-foguete lançado acabara de abrir um grande buraco no muro.
- Tamashiro, agora atire
nos carros da Policia Metropolitana! Marvin, vamos! - Gritou Yuri, já
pendurado no onibus. Ao volante, o sargento Marvin pisou fundo no acelerador,
fazendo o enorme veículo invadir o circuito. O onibus derrubou as
arquibancadas mais próximas, e as pessoas que estavam sobre elas.
Enquanto ele avança, passando sobre alguns carros de corrida, as
pessoas, apavoradas, sem saber o que estava acontecendo, começam
a correr para todos os lados. Muitas morreram ainda na queda das arquibancadas;
outras estavam morrendo agora, pisoteadas!
O onibus jogou três
carros para fora da pista, e parou perto de Peter e do círculo de
pessoas que se formara ao seu redor.
- Vamos, pastor! Traga todos
para o onibus!
Gritou Yuri, enquanto disparava
sobre os carros que se aproximavam, com uma velha XC-450, que havia pegado
lá no Departamento de Polícia. Então, o piloto do
único carro que ainda não havia sido destruido, manobrou
velozmente para cima de Yuri e das pessoas que estavam subindo no onibus.
Enquanto o carro se aproxima de forma mortal, Yuri ouve um estalido seco
em sua arma.
- Marvin, acabou minha munição!
- Gritou desesperado. O sargento sacou o seu Smith & Wesson e o jogou
para Yuri, por sobre as cabeças das pessoas. O coronel pegou a arma
no ar, girou sobre o corpo, e fez fogo. Uma, duas, três vezes. As
potentes balas 45 entraram pela lataria do carro, rasgando metal e carne.
O piloto, no choque da morte, puxou o volante para a esquerda, violentamente.
O carro girou sobre si mesmo, capotou várias vezes, e saiu voando,
indo cair nas arquibancadas, sobre Makro, esmagando-o. Makro teve morte
instantânea, mas ninguém na enlouquecida multidão se
apercebeu disso. A cabeça dele foi pisoteada inúmeras vezes
pelas pessoas que instantes atrás o adoravam.
- Vamos, coronel! - Pediu
Marvin, assim que os cristãos acabaram de entrar no onibus. Yuri
pulou para a porta e Marvin arrancou, saindo pelo mesmo lugar por onde
entrara. Lá fora ele parou para os soldados subirem. Tamashiro já
havia estourado os carros da guarda de Makro, para retardar a perseguição.
- Para o aeroporto, Marvin!
- Comandou Yuri.
O onibus atravessa velozmente
as ruas centrais de Nova York, até parar, por ordem de Yuri, perto
de alguns onibus que faziam o transporte coletivo na cidade. Então
o coronel perguntou:
- Quantos soldados têm
família aqui na cidade? - Quinze homens ergueram as mãos.
- E com os sargentos Silva e Morrison, tem mais algum?
- Não, senhor.
- Sargento Marvin, deixe
o volante com o Tamashiro, pegue dois coletivos daqueles e vá buscar
Eloise e as famílias dos soldados. Vá! - Apressou Yuri.
Marvin e os quinze soldados
desceram. Yuri ainda viu quando eles fizeram os passageiros dos onibus
desembarcarem, e então mandou o sargento Tamashiro tocar para o
aeroporto.
- Laura e John estão
bem? - Quis saber Peter, apreensivo.
- Sim, pastor. E o senhor?
- Estou ótimo, coronel!
Graças a Deus, ótimo! - Respondeu ele, sorrindo.
O onibus chegou ao aeroporto,
juntando-se aos outros veículos que lá já estavam.
As pessoas, na pista, correram a se abraçar umas às outras.
Yuri começa novamente a dar ordens:
- Sargento Silva, corte
os cabos telefônicos! Morrison, vá até a torre, precisamos
de um avião abastecido e um piloto! Tamashiro, estoure as caixas
de energia!
Enquanto Silva e Tamashiro
cuidavam em destruir a comunicação do aeroporto, Morrison
e seus homens tomaram a torre. Por sorte, lá havia dois pilotos.
Eles prenderam os controladores de vôo.
- Une, dune, tê, mamãe
mandou eu levar você! - Brincou Morrison, escolhendo um piloto negro,
que lhe pareceu o mais simpático. Em minutos ele entregava o piloto
ao coronel.
- Este avião pode
ser usado? - Perguntou Yuri, apontando um grande e velho boeing DC 10,
numa das pistas.
- Sim. Mas, para quantas
pessoas? - Quis saber o piloto, olhando as centenas de pessoas ao redor
deles.
- Cerca de quatrocentas.
- Então vamos ter
de usar um outro avião também. - Explicou o piloto, apontando
outro DC 10, no hangar. - Ele também está abastecido.
Morrison fez uma careta
e disse, referindo-se ao outro piloto:
- Então vou ter de
voltar para apanhar o branquelo!
O coronel então ordenou:
- Silva, separe as pessoas:
duzentas nesse avião, e as outras, naquele. Ande rápido!
Taddor, sem saber da trágica
morte de Makro, agrupa seus homens, tomam carros das pessoas que passavam
nos arredores do autódromo, e saem em perseguição
aos cristãos. Um dos seus soldados havia ouvido quando Yuri gritou
a palavra 'aeroporto’. Uma grande fila segue Taddor. São tantos
soldados quanto as pessoas que Yuri quer salvar. Este estaria em nítida
desvantagem, com apenas oitenta soldados, caso Taddor os alcançasse
antes da decolagem.
- Subam rápido neste
avião! - Exaspera-se o coronel. Nisso ele ouve o barulho de um veículo
pesado. É Marvín, chegando com os soldados restantes e suas
famflias.
- Depressa! Depressa! -Insiste
Yuri.
São muitas crianças,
mulheres e velhos, o que atrasa o embarque. Yuri, que também nada
sabia da morte de Makro, manda os soldados fazerem uma barreira humana
entre os aviões e a entrada do aeroporto, aguardando com certeza
um ataque de Taddor, sob as ordens de Makro.
Finalmente o primeiro avião,
carregado, começa a decolagem. Nesse exato instante Taddor e seus
assustadores soldados de negro chegam ao aeroporto.
- Atirem! Não podemos
deixar eles se aproximarem! - Berra Yuri. Seus soldados então começam
a fazer uso total das L-Ruger, com as balas, mini-foguetes, e até
as flechas, assim que a munição ia acabando. Nos primeiros
minutos do combate, eles conseguiram manter Taddor e seus homens à
distância. Mas logo estes, em maior número, começaram
a ganhar terreno, fazendo Yuri e seu pequeno grupo retrocederem para o
meio da pista.
Yuri tinha um olho no combate
acirrado, e outro verificando o embarque das pessoas. Faltavam apenas umas
vinte almas para subirem ao avião. Logo ele e seus homens também
poderiam ir. Nisso, um grande estrondo, que ia crescendo em intensidade,
foi ouvido por todos. O chão de concreto da pista estremeceu, desequilibrando
os soldados. Uma pequena brecha então foi se abrindo na pista, entre
o grupo de Yuri e os homens de Taddor. A brecha aumentou em questão
de segundos, alcançando os soldados de Taddor. Dezenas deles cairam
dentro da enorme cratera que ia se formando.
- Terremoto! Corram para
o avião! - Gritou Yuri, fazendo ouvir sua voz de comando acima do
grande estrondo. Os soldados, carregando as últimas pessoas, subiram
para o avião. Quando Yuri, que ficara por último, chegou
ao alto da escada, o avião já começava a se mover,
obrigando-o a saltar, agarrando-se à borda da porta. Marvin e Tamashiro
o içaram para dentro.
Yuri olhou para onde estavam
a pouco Taddor e seus soldados, e viu todos como se tivessem sendo tragados
pela terra. Homens e veículos desapareciam em segundos. O terremoto,
como uma enorme serpente, rasgou a pista do aeroporto ao meio. Yuri fechou
os olhos e agradeceu mentalmente a Deus, por salvá-los de tão
terrível morte.
Capítulo final
O coronel procurou
por Raquel. Esta já vinha pelo corredor do avião, ao seu
encontro. Os dois abraçaram-se longamente. Marvin passou por eles
e, sorrindo, foi sentar-se ao lado de Eloise e de seus dois filhos.
- Papai agora vai levá-los
para a Disneylândia! - Brincou.
Duas poltronas à
frente, Peter, com o pequeno John ao colo, começou a cantar, logo
seguido pela maioria das pessoas no avião:
- ‘Já refulge a Glória
eterna, de Jesus, o Rei dos reis, logo os reinos deste mundo seguirão
as Suas Leis. Os sinais da Sua vinda, mais se mostram cada vez, vencendo
vem Jesus! Glória, glória, aleluia...
Enquanto os cristãos
se alegravam pela libertação, lá embaixo, nas ruas
de Nova York, o pânico havia se generalizado. Um locutor nervoso
dava as últimas notícias pelos telões:
- O Instituto Meteorológico
da Antártida acaba de ser destruido. Um deslocamento gigante de
geleiras está provocando maremotos que já estão atingindo
todas as cidades litorâneas do mundo! Nova York logo será
atingida!...
Nas ruas, muitas pessoas
gritam por Makro; outras gritam por Deus...
Os tremores de terra continuavam,
violentos. Enormes prédios desabavam como se fossem feitos de papel,
esmagando milhares de pessoas; o mar, como se quisesse saltar do seu côncavo,
lança ondas gigantescas sobre as cidades, arrastando carros, casas
e pessoas; usinas nucleares explodem, lançando para o céu
grossas nuvens radioativas.
O céu se torna negro,
e uma tempestade se abate então sobre a Terra. Os raios rasgam as
nuvens carregadas de radioatividade, fazendo com que grandes bolas de fogo
caiam sobre as cidades. O satélite-filtro, criado por Makro, é
atingido por um raio, que o estilhaça em mil pedaços.
Nas cidades, as redes de
energia elétrica são atingidas pelo vento impetuoso. Usinas
hidrelétricas se rompem, e as cidades ficam às escuras, aumentando
mais ainda o terror.
Isso tudo durou pouco tempo.
Tão rápido como começara, os elementos retrocedem
em sua ação mortal. O mar se acalma e recua. A tempestade
pára. Somente uma chuva fina, negra, cai sobre as cidades semi-destruidas.
Uma brisa então sopra suavemente. Os sobreviventes caminham sobre
os escombros. Os olhos fixos em nada...
No avião, que voava
acima das nuvens, Peter, alheio ao desastre ecológico, comenta com
Yuri:
- Eu estou preocupado com
os cristãos das outras cidades. Makro, com certeza, se voltará
contra eles também!
- Assim que deixar vocês
em segurança, eu voltarei com os meus homens e percorreremos todas
as cidades. Eu trarei todos a você, pastor, vivos e saudáveis!
- Promete Yuri. Pouco depois ele deixa Peter e vai até a cabine
do avião. Assim que o piloto o viu, perguntou:
- Para onde vamos, coronel?
- Para a França,
meu caro.
O potente boeing vence tranquilamente
o espaço aéreo entre os Estados Unidos e a França.
Um pouco antes do amanhecer e ele já sobrevoava Paris, e começava
a descer. Então o piloto exclama, atônito:
- Meu Deus! Olhe, coronel!
Yuri olha e custa a acreditar
no que via. A pouca claridade do amanhecer mostra um quadro ainda mais
dantesco de uma Paris completamente destruida. A grande Torre Eiffel, orgulho
dos parisienses, está caida ao chão, toda retorcida. Apenas
poucos prédios permaneciam inteiros. O avião empina o bico
e começa novamente a ganhar altura.
- Aqui não existem
mais aeroportos, senhor!
- Vamos para a Espanha,
então! - Fala Yuri, ainda aturdido.
Na Espanha, o retrato da
destruição era o mesmo. As milenares cidades estavam destruidas.
O piloto pergunta a Yuri:
- E agora, coronel?
- Como estamos de combustível?
- Ainda temos um pouco.
- Então siga em direção
à Argélia, e pouse no primeiro aeroporto que encontrar!
Ordenou Yuri, rezando para
que a destruição não tivesse atingido toda a Terra.
Eram cerca de quatro horas
da tarde de domingo, quando o ronco dos motores dos dois DC 10 assustam
os animais das savanas. Pelo que Yuri pôde notar, aliviado, o continente
africano, onde a ação nefasta das mãos humanas não
alcançara de todo, estava intacto.
- Nesta terra os meus antepassados,
há milhares de anos, peregrinaram em busca da Terra Prometida...Parece
que agora, nós também seremos peregrinos nela! - Pensou Abiezer
Yuri.
FIM
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