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Leonel
Há muitos, muitos
anos, ainda quando os violentos piratas singravam os Sete Mares com suas
ferozes bandeiras desfraldadas, vivia em uma aldeia da costa francesa um
rapazinho chamado Leonel. Apenas Leonel. Sem nenhum sobrenome, sem saber
de onde veio, pois não conhecera seus pais e nem tampouco o lugar
onde nascera.
Para o jovem Leonel,
o mundo se resumia, na sua visão de órfão de 16 anos
de idade, à aldeia onde morava com o tio, um pobre e velho pescador.
Por muitas vezes Leonel se quedava sentado na praia, fazendo mil imagens
de seus pais e do mundo além do horizonte do mar azulado e nuvens
brancas.
O pai de Leonel, forte
e valente, como seu tio contara, morrera de desgosto dentro de um frio
calabouço, após ver a mãe de Leonel ser queimada viva
por alguns homens que se diziam cristãos, e que, após um
julgamento cruel e covarde, concluiram que a pobre mulher era feiticeira.
O pai de Leonel, enlouquecido pelo destino que a Inquisição
dera à sua amada, tingiu a lâmina de sua espada no sangue
ruim de vários inquisidores. Dominado pelos soldados, foi lançado
para sempre na prisão.
Leonel desconhecia
toda esta história, até que seu tio, doente e já prevendo
ser chegada a hora da partida, resolvera revelar a tragédia acontecida
aos pais do garoto.
- Filho, desde a mais tenra
idade você vive comigo e com sua tia... – O velho tossiu, cansado,
e continuou, fixando os olhos lacrimejantes no rapaz sentado ao lado de
sua cama – Seu nome é Leonel, e ele significa que você é
um pequeno leão. E é como leão que você irá
assumir meu lugar nesta casa, quando eu me for ao encontro do Criador...Sua
tia, velha e já sem forças, vai precisar do seu amor e da
sua destreza na pesca, conforme ensinei a você.
- Pode ficar tranquilo,
meu tio. Nada irá faltar à minha tia. Juro pelas almas dos
pais que não conheci!
- Obrigado, pequeno leão...Eu
sei que você não vai deixar este lar desamparado...
O velho homem do
mar tossiu novamente, sorveu devagar a caneca de chá que a esposa
lhe ofereceu, consultou-a com o olhar, e prosseguiu:
- Filho, já é
hora de você tomar conhecimento da verdadeira história dos
seus pais...
E assim o jovem Leonel
ficou conhecendo o cruel destino dos seus pais. E após a morte
do tio, herdou a enorme responsabilidade de prover a casa e zelar pela
velha tia. Mal ele poderia imaginar o que lhe estava reservado pela mão
do destino...
Nas mãos dos piratas
Dois anos depois...
- Então, filho, melhorou
a pesca? – Perguntou a velha senhora, já sabendo de antemão
a resposta, pela expressão desanimada no rosto do rapaz.
- Nada, tia. Parece que
os peixes simplesmente desapareceram da costa. Se assim continuar, daqui
um mês os pescadores vão deixar a aldeia, levando suas famílias.
Com a alimentação
cada vez mais escassa, devido à má fase da pesca, Leonel
se preocupava cada vez mais com a já enfraquecida tia. Certa madrugada,
sem falar com a tia, para não preocupá-la, o jovem resolveu
que iria tentar a sorte em alto-mar. Aquela época, em pleno inverno,
o mar estava muito bravio e agitado, e nem mesmo os pescadores mais experientes
se arriscavam a tal aventura.
Mas a preocupação
de Leonel com a tia era maior que a cautela, e assim, naquela madrugada,
partiu com sua embarcação, enfrentando ondas gigantescas
e violentas, em busca do alimento sagrado que, ele imaginava, encontraria
no seio das águas bravias.
O mar, bonito, misterioso
e assustador, poderia tanto tirar a vida dos valentes que se aventuram
em seus domínios, quanto dar a vida, através dos seus alimentos.
Leonel, agora assustado e ansioso, rogava aos Céus que o mar lhe
concedesse a segunda opção.
O vento forte que
encrespava as águas, então começou a soprar para o
sul, empurrando o barco do jovem pescador para uma ilha desconhecida. Extenuado
pela luta contra os elementos, Leonel lançou âncora e, antes
de tentar a pesca, resolveu deitar-se na areia quente e aconchegante da
praia.
O sono que embalou
o inocente rapaz foi espantado por uma dor súbita e lancinante.
Leonel, acordado violentamente, tentou levantar-se, mas a bota do pirata
atingiu novamente suas costelas, e ele rolou pela areia, gemendo.
- O que você está
fazendo em nossa ilha, miserável?
Quando o musculoso
e mal-encarado pirata ergueu Leonel pela gola do blusão, o jovem,
ainda que aturdido, pôde reparar no enorme navio ancorado a
pouca distância da praia. Leonel também notou, atemorizado,
a sinistra caveira que ornava a bandeira no alto do mastro principal. Na
praia, cercando o rapaz e o pirata que o segurava, uma dezena de piratas,
armados até os dentes, saboreavam em ruidosas gargalhadas a sofrível
situação de Leonel.
- Descul...desculpem...eu,
eu cheguei aqui sem querer...
- Vamos, capitão!
Mate-o logo e vamos enterrar o tesouro! – Gritou um dos piratas, cruel
e impacientemente.
- Não...deixe o garoto,
capitão. Ele não oferece perigo. – Condoeu-se um dos piratas.
O chefe dos malfeitores
deixou Leonel de lado e dirigiu-se ao homem que opinara em libertar o rapaz.
- Seu cretino! Não
podemos deixá-lo ir, agora que ele sabe a localização
da nossa ilha!
- M...mas eu não
vou contar a ninguém! – Garantiu o jovem pescador.
O líder dos
piratas, sem nenhuma compaixão, virou-se para o homem mais próximo
ao rapaz e disse:
- Mate-o!
Os guerreiros da luz
De joelhos, Leonel
viu entre assustado e resignado o pirata se aproximar com a espada em punho.
Ele fechou os olhos, antevendo sua cruel morte, quando de repente, quando
tudo parecia perdido para ele, uma enorme bola de fogo surgiu como se do
nada e envolveu o homem que se preparava para matá-lo. Aos gritos,
consumido pelas chamas, o malfeitor caiu morto sobre a areia.
Leonel, agora de
olhos bem abertos, não acreditava no que estava ocorrendo. Os piratas,
sem atinar com o fenômeno, corriam apavorados de um lado para o outro
da praia, enquanto a bola de fogo ia envolvendo-os. Nisso Leonel viu uma
figura que parecia um guerreiro, brilhando entre as chamas. O aço
da sua espada, tão brilhante quanto as chamas, ia abatendo os piratas,
uma a um.
Alguns, em desespero,
ainda tentaram reagir, mas suas espadas e nem os tiros de suas pistolas
causavam dano algum ao guerreiro. Era como se tentassem abater o próprio
vento.
Em pouco tempo, ante
o olhar atônito do jovem pescador, apenas um pirata estava vivo e
de pé. Era justamente o homem que havia intercedido pela vida de
Leonel. O guerreiro de fogo aproximou-se lentamente do apavorado homem,
e falou com uma voz que parecia o barulho das ondas no quebra-mar:
- Como você demonstrou
piedade, sua vida será poupada. Você irá voltar com
o rapaz e deverá se afastar para sempre da pirataria, antes que
o castigo dos seus companheiros abata-se também sobre sua cabeça!
- S...sim, senhor! – Concordou
o pirata, caindo ao chão de joelhos, sem atrever-se a olhar para
o guerreiro. A bola de fogo que havia espalhado o terror entre os piratas,
aproximou-se do guerreiro, e diminuindo de intensidade, foi desaparecendo,
até surgir em seu lugar uma linda mulher de longos cabelos dourados.
O guerreiro tomou-a pela mão, e juntos aproximaram-se do rapaz.
- Filho, pela pureza e bondade
do seu coração nos foi concedido o dom divino de vir em sua
ajuda. Você não nos verá mais, porém, sua mãe
e eu vamos lhe deixar nossa dádiva!
Dito isso, o guerreiro
entregou a espada fulgurante ao rapaz. A mulher, tirando do alvo pescoço
um cordão de onde pendia uma pedra de cor púrpura, colocou-o
com um sorriso amoroso no pescoço de Leonel, que a essa altura não
conseguia emitir nenhuma palavra, dado à magia do acontecido.
- Continue
no caminho reto, meu filho, seguindo as normas do seu bondoso coração.
– Aconselhou o guerreiro de fogo - Enquanto você trilhar a estrada
do Bem, a espada e o cordão irão protegê-lo. Quando
você alcançar idade avançada, e a espada e o cordão
não forem mais necessários, você irá presenteá-los
a alguém que, como você, traga o amor e a justiça
no coração. Mas não se aflija, pois isso ainda está
muito longe de acontecer, e quando se tornar preciso, você saberá
a hora e a quem doá-los!
Com dificuldade,
as lágrimas emocionadas lavando o espanto de seu rosto, Leonel finalmente
conseguiu falar:
- Pai...mãe...e quanto
à minha tia? Ela está passando por privações,
devido à nossa extrema pobreza. Posso levar algo do tesouro dos
piratas?
- Não, filho. Este
tesouro teve seu brilho tingido pelo sangue de inocentes. É amaldiçoado
e você não deverá tocá-lo! – Explicou o guerreiro
– O espírito do tesouro não se encontra aqui, mas seus passos
serão guiados pelo seu próprio coração, para
que você encontre tesouro ainda maior. E não se preocupe com
sua tia, pois ela terá uma vida ampla e abastada ao seu lado!
Quando o guerreiro
terminou de falar, a mulher beijou a fronte de Leonel e disse:
- Agora vá, filho
meu...Este homem irá ajudá-lo no retorno à aldeia.
Depois deixe-o ir, pois no destino dele irá cumprir-se o seu!
Sem entender a maioria
das palavras da mulher e do guerreiro, mas tendo em seu coração
que estivera frente a frente com seus pais, um ainda abismado, porém
feliz Leonel, entrou no barco com o pirata. Quando após algumas
poucas remadas, ele olhou para trás, para um derradeiro adeus, ,
não viu mais a figura altiva e brilhante do guerreiro e nem a linda
mulher. Mas sim uma bola de fogo, de proporções muito maiores
do que a primeira, que cobria toda a ilha. Os corpos dos piratas e seu
sangrento tesouro, sumiram ante a violência das chamas, e logo depois,
o sinistro navio deles tinha o mesmo destino.
O rapto da princesa de Vanille
Meses depois desse
acontecimento, uma horda de piratas invade o reino de Vanille, que ficava
ao norte da fronteira da França. Vorazes e impiedosos, os fora-da-lei
não puderam ser impedidos pela guarda real, e muitos soldados tombaram,
fiéis ao rei e à missão de proteger Vanille. O pacato
reino do rei Moaran de repente se transformou num inferno de chamas, gritos
furiosos e gemidos dos feridos. Não bastasse saquearem o palácio
e todas as casas do reino, os piratas raptaram também a filha do
rei Moaran e exigiram mais tarde uma grande quantidade em ouro para libertá-la.
- O que posso fazer, meus
amigos? – Perguntou o aflito pai aos seus conselheiros, após receber
o pedido de resgate dos piratas. – mesmo que eu pague o resgate da princesa
Larissa, temo que os piratas não a libertem!
- Infelizmente seu temor
tem procedência, majestade – Concordou um dos conselheiros, no que
os demais anuiram, balançando silenciosamente a cabeça –
Aqueles homens cruéis podem ficar com o ouro e ainda manter nossa
princesa cativa...ou mesmo matá-la!
No momento em que
o rei e seus conselheiros conversavam, entrou um soldado, curvou-se ante
os principais do reino, e disse:
- Majestade...conselheiros...tem
aí fora um homem que garantiu conhecer alguém que poderá
ajudar a libertar a princesa!
- Mande-o entrar imediatamente,
soldado! – Animou-se o rei Moaran.
O ex-pirata que havia
sido poupado na ilha, e que agora vivia honestamente no reino de Vanille,
soubera do ataque e da desgraça do rei, e resolvera vir contar o
que lhe acontecera meses atrás.
Após cumprimentar
os nobres da Côrte, ele dirigiu-se ao rei:
- Majestade, mora numa vila
de pescadores, próxima a este reino, um jovem que tem o auxílio
de forças sobrenaturais e poderosas!
E o ex-pirata narrou
toda sua história ao rei. Após ouví-lo com a maior
atenção, o rei, entusiasmado, enviou-o com uma escolta em
busca de Leonel.
Cerca de quatro dias
a cavalo, e o ex-pirata e a escolta real chegaram à vila aonde vivia
Leonel e sua tia.
- O rei lhe oferece muito,
muito ouro, meu jovem, para que você livre a princesa das mãos
dos piratas!
Leonel ouviu toda
a história sobre o ataque dos piratas, do rapto da princesa e da
tentadora oferta do rei Moaran, mas não aceitou a missão.
- Sinto, mas nada posso
fazer! Nem mesmo eu posso explicar direito, até hoje, o que aconteceu
naquela ilha. Mas após voltar para a vila, a pesca melhorou sobremaneira,
e eu vivo tranquilo aqui, cuidando da minha velha tia. Diga ao rei que
não me sinto à altura para tal empreitada!
A comitiva real,
ouvindo isso, despediu-se do rapaz, e com seus cavalos a trote lento, foram
deixando a vila. Porém, antes que o último cavaleiro se
perdesse de vista, a espada que Leonel ganhara do guerreiro de fogo começou
a brilhar intensamente, e levitando, deixou a cabeceira da cama onde o
jovem a deixara, e veio pousar na mão do boquiaberto rapaz. Em instantes
ele sentiu no coração o que a espada queria lhe dizer. Emocionado,
acariciou a pedra de jaspe vermelho que sua mãe colocara em seu
pescoço, e decidiu-se a ir com os homens do rei. Despedindo-se da
tia, ele colocou a espada encantada na cintura, muniu-se de água
e pão, e seguiu após a comitiva.
Algumas léguas
adiante, a comitiva havia parado para dar descanso aos animais. Eles estavam
debaixo de frondosas árvores, ao lado de uma refrescante fonte.
Homens e cavalos tomavam fôlego para a volta ao reino de Vanille.
Mas apesar do belo e tranquilo local, os semblantes dos homens estavam
tristes, pois a missão não tivera sucesso. Como amavam o
rei e a princesa, pensavam sobre a aflição dele e no destino
da moça. Após quase uma meia hora ali, eles, desanimados,
já preparavam-se para montar, quando viram surgir ao longe
na estrada a figura de Leonel.
Cerca de uns dez
minutos depois ele aproximou-se deles. Informado pelo jovem que iria ajudar
o rei, um dos conselheiros que estava junto com a escolta, alegremente
ofereceu sua própria montaria ao rapaz, despachando-o à frente
deles:
- Vá, meu jovem,
porque o tempo urge! Que o destino seja benevolente com todos nós
e que os Céus abençoem sua missão!
Assim que chegou a Vanille,
Leonel foi introduzido à presença do rei. Este, após
abraçar e agradecer o rapaz, colocou-o a par da situação.
O navio pirata estava fundeado a poucas milhas da praia, e Leonel, após
comer e descansar, para lá se dirigiu na madrugada do dia seguinte,
só em um pequeno barco, para não chamar a atenção
e evitar reações imediatas dos malfeitores.
Nasce um guerreiro
- Ó de bordo! – Gritou,
assim que seu barco encostou no casco do navio. Como não houvera
nenhum alarme, Leonel calculou que os piratas ainda dormissem. Gritou novamente:
- Ó de bordo! Eu
venho trazer o resgate da princesa!
Alguns piratas colocaram
seus sonolentos rostos sobre a amurada, e logo atiraram uma corda, por
onde Leonel começou a subir. O próprio rapaz estava estranhando
a completa ausência de medo em seu coração. Era como
se a espada e a pedra lhe dessem ânimo de guerreiro.
Assim que colocou os pés
no convés, um sujeito de alta estatura, que estava no tombadilho
e que aparentava ser o líder dos piratas, quis saber:
- Então...cadê
o ouro?
- E onde está a princesa?
– Respondeu Leonel com outra pergunta.
O homem no tombadilho
fez um sinal e um dos piratas foi até o porão do navio. Logo
um homem velho, de aparência estranha, apareceu no convés,
trazendo a princesa Larissa presa com uma fina corrente ao pescoço.
Apesar da situação crítica, Leonel não pôde
deixar de se encantar com a beleza de Larissa. Ela era tão linda
quanto uma aurora na primavera, comparou em pensamento.
- Capitão... – Chamou
o velho com sua voz rouca e tenebrosa.
- Fala, feiticeiro!
- Sinto a presença
do Bem ao lado daquele jovem, Seus homens não conseguirão
combatê-lo!
O chefe dos piratas
deu uma sonora gargalhada. Afinal, ele tinha ao seu dispor naquela navio,
30 homens da mais alta periculosidade, todos eles peritos no manejo da
espada. O que um garoto poderia fazer contra eles? – Este foi seu pensamento.
Então ridicularizou a cautela do feiticeiro.
- Ora, seu velho medroso...ele
é apenas um rapazola!
- Eu sei, mas mesmo assim
vou conjurar forças do mal para nos ajudar!
O capitão,
apesar de acreditar nas forças demoníacas a serviço
do velho feiticeiro, as quais já tanto lhes havia ajudado na trilha
do crime, não achou necessária nenhuma intervenção
sobrenatural apenas por causa daquele jovem. Ele desceu do tombadilho e
aproximando-se de Leonel, ordenou:
- Agora me entregue o ouro!
– Disse impaciente.
O sol começou a brilhar
no horizonte do ainda escuro oceano, e seus raios se refletiram nos cabelos
e no olhar sereno do rapaz. Ele então empunhou a espada, que ante
o olhar espantado do pirata, começou a flamejar. Mas o homem
nem sequer teve tempo de atinar com aquilo, pois a lâmina afiada
da espada decepou sua cabeça, num golpe preciso.
- Aqui está
seu ouro! – Gritou Leonel, e partiu para cima dos demais piratas. Os golpes
da espada de fogo iam tombando um a um, e os piratas, surpresos e assustados,
demoraram a esboçar uma reação. Disso se aproveitou
Leonel e chegando próximo à princesa, cortou a corrente que
a prendia com um golpe certeiro, gritando para que ela ficasse ao seu lado.
O feiticeiro correu para a proa do navio e os piratas restantes, aos berros,
vieram com toda fúria para cima dos dois jovens.
Ao passo que a espada
de fogo fazia círculos brilhantes no ar e ia ceifando a vida dos
sanguinários homens, Leonel mandou Larissa descer para o barco.
Enquanto a princesa descia pela mesma corda que subira o rapaz, uma dezena
de piratas atirava-se contra ele. No momento em que a violenta batalha
tinha sequência, na proa o velho feiticeiro, de joelhos e revirando
os olhos maléficos, conjurava forças do inferno para virem
ajudar os piratas.
Enfrentando o demônio
Leonel, ao ver que
a princesa já estava no barco, saltou para lá também.
A meia dúzia de piratas que sobreviveram, ficaram na amurada, lançando
todo tipo de imprecações, enquanto o barco se afastava lentamente
do navio.
Repentinamente no
céu até então claro, surgiram densas e negras nuvens
e em instantes relâmpagos avermelhados envolveram o navio. Amedrontados,
os piratas jogaram-se no convés. Então, bem no alto do mastro
principal, começou a tomar forma uma figura demoníaca. Com
corpo de homem, coberto de escamas e cabeça e cauda de dragão,
a horrenda criatura tinha uns dez metros de altura. O feiticeiro, gargalhando
diabolicamente, instigou o monstro a atacar o barco que levava os dois
jovens.
A cauda do monstro
riscou o ar e foi se abater sobre a pequena embarcação, arrebentando
o mastro e a vela. Leonel desembanhou a espada, procurando nela ajuda
para ferir o demônio, mas com o impacto do golpe da imensa cauda,
a espada escapou da mão do jovem e foi cair no fundo do barco. Desesperado,
o jovem apertou a pedra do cordão em seu pescoço, evocando
uma ajuda que não acreditava que viesse.
Mas o jaspe vermelho começou
a brilhar com a intensidade do sol. Um facho de luz saiu da pedra em direção
à criatura envolta em negras nuvens. O raio dissipou as nuvens
e arrancou um grito de dor do demônio ao atingí-lo. A horrível
criatura então se evaporou num grande estrondo, tão rápido
quanto havia aparecido. O poderoso facho de luz continuou em sua intensidade,
envolvendo o navio pirata e incendiando-o, junto com todos os homens que
nele se encontravam.
Pouco tempo depois,
apenas uma brisa serena acariciava as ondas do agora calmo mar. Nada sobre
sua superfície demonstrava que há pouco ali acontecera uma
incrível batalha entre o Bem e o Mal. Leonel consertou o mastro
e o barco, tranquilamente, os levou de volta à terra.
O rei, emocionado
e agradecido, ofereceu a Leonel, além das riquezas, o título
de Cavaleiro do reino de Vanille. O jovem buscou a tia para morar com ele
meio a todo conforto que o reino oferecia. Passado algum tempo, Leonel
e a princesa Larissa, que já haviam se apaixonado desde o primeiro
encontro, se casaram, sob as bençãos do rei e da velha e
feliz tia.
Anos depois, abastado
de dias felizes, o velho rei Moaran partiu ao encontro dos seus antepassados,
e Leonel e Larissa passaram a reinar em Vanille. O jovem acabou por descobrir
o espírito do tesouro, do qual seu pai havia lhe falado na ilha.
Reinando com amor e justiça, o espírito do tesouro habitou
no reino, e ele teve prosperidade nunca jamais igualada. Leonel, com sabedoria,
ponderava que seu tesouro maior era o amor que existia entre ele e Larissa.
O rei Leonel, a espada
de fogo e o cordão de luz viveram juntos ainda muitas aventuras,
e o rei aguardava com ansiedade a calma velhice e o encontro com aquele
que seria dígno de continuar empunhando a espada encantada e levar
no peito a pedra de jaspe vermelho. Mas as outras incríveis aventuras
do rei Leonel e seu encontro com seu sucessor, já é uma outra
história...
FIM
Sergio
Ferraz – 1993/2010
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