Eu estava aquele dia
como sempre na maioria das vezes me encontrava: pra baixo como bunda de
sapo. Quando passei em frente ao portão de uma certa casa, vi a
placa de “vendo frango caipira”. Pensei um pouco e disse a mim mesmo: por
quê não?
Eu havia nascido
na roça e, apesar de estar na cidade há vários
anos e já ter me desacostumado da vida no sítio, guardava
boas lembranças dos frangos ensopados que minha mãe fazia,
acompanhados, claro, de uma enorme tigela de angú...
Assim, com as lembranças
da infância ativando minha glândula salivar, veio água
à boca e eu resolvi comprar um frango caipira, como diziam as letras
na placa.
O dono da casa –
e dos frangos, me mandou entrar e escolher o frango que quisesse. Acompanhei-o
até os fundos da casa, onde num velho e pequeno galinheiro as pobres
aves se espremiam, com olhares angustiados, não sei se temendo serem
compradas e irem parar num panela, ou por causa do calor e da sede, pois
não vi nenhum vasilhame de água à disposição
das coitadas.
Assim, meio que penalizado,
poderia até comprar todos os frangos, se tivesse um sítio
ou mesmo uma chácara, e lá os deixaria, soltos como gostam,
ciscando e correndo atrás de alguma minhoca incauta. Mas eu não
tinha, e assim resolvi escolher o frango que me pareceu mais esperto e
simpático. Não ia querer levar um frango fraco e doente para
meu já calculado ensopado com polenta. Polenta, sim, pois agora
vivia em São Paulo, e paulista, acho que devida à descendência
italiana, come polenta, e não angú, como nós, os mineiros.
Para mim era tudo a mesma coisa, mas eles batiam o pé que não
era. Paciência...
Minutos depois, após
pagar o preço devido, deixei a casa em direção ao
carro com o frango preso firmemente sob o braço. Como disse, eu
nascera na roça e sabia o trabalho danado que dava pegar um frango
fugitivo. Por isso tomei todo o cuidado. Coloquei-o no banco da frente,
bem ao meu lado, para poder ficar de olho nele, no caso de uma possível
intenção de fuga, se bem que o pobre empenado estava com
os pés amarrados, o que lhe dificultava qualquer movimento maior.
Ele acocorou-se quietamente
no banco, e eu entrei no carro e dei partida, em direção
à minha casa, que ficava num bairro bem distante do centro. Daí,
pra passar o tempo, fingi entabular uma conversa com o frango.
- Sabe, não sei por
que esse negócio de chamar a gente de caipira. Quando eu vim aqui
para São Paulo, detestava que me chamassem assim. Só porque
a gente vem do interior, já vêm esses almofadinhas gozando
a gente. Caipira...caipira...Nem vocês pobres aves, escapam disso.
Sabe que até os ovos eles chamam de caipira? Rá! Como se
ovo falasse caipirês!
- Mas nem eu falo! – Disse
o frango. – Aliás, eu cacarejo como qualquer frango, seja da cidade
ou da roça.
Por vários segundos,
penso eu, não pude atinar com aquilo. Eu ouvi alguém falar
ao meu lado. Pensei ser brincadeira de algum amigo cretino, e olhei o banco
de trás. Não havia ninguém. Olhei o frango, que também
olhava para mim, mas meu cérebro se recusava a computar a realidade.
Como disse, foi uma pequena fração de segundos, mas o susto
foi enorme. Por pouco não colidi com um carro estacionado. E assim,
mais tonto do que peru de Natal, eu parei o carro, automaticamente, para
evitar o pior. Olhei novamente para trás, olhei para fora. Nada.
Aí, já suando apavorado, olhei o frango.
Eu me recusava, preservando
minha integridade mental, perguntar ao frango o que ele havia dito. Imagina!
Bichos não falam. Pelo menos humanês, não. Então,
como todo bom caipira, lembrei das histórias de “assombração”
contadas pelos mais velhos, e senti os pelos do corpo arrepiando. Olhei
para o frango de olhos esbugalhados (eu, não o frango), e praticamente
gritei, colocando os dedos em cruz:
- Vade retro! Pé
de pato mangalô sete vezes!
Fechei os olhos, evitando
a visão do “frango endemoniado” ao meu lado, e na esperança
de que ele desaparecesse. Abri os olhos, devagar...e o frango ainda estava
lá, e balançava a cabeça, em sinal de reprovação
do meu ato.
- Meu, cê tá
maus! Isso é coisa dos nossos avós. Deixa de ser besta e
pára com isso!
Saindo do meu torpor, consegui
balbuciar algumas palavras de constatação e incredulidade,
ao mesmo tempo.
- Ma...mas...vo...você
fala?! Isso não é possível! Devo estar sonhando!
- É possível,
sim, e você não está sonhando!
- Como não? Galinhas
não falam!
- Êpa, êpa!...Olha
o respeito. Eu sou macho, meu caro. Que negócio é esse de
galinha?
- Tá bom, desculpe...frango,
então.
- Melhorou. Agora vamos
conversar direito. Escuta, dá pra você desamarrar meus pés?
Já estou ficando com cãimbras!
Tirei a corda dos pés
do frango, mas ainda me achando meio zoró. O frango agradeceu, se
ajeitou melhor no banco, e disse:
- Tá legal. Sei que
você ainda não está acreditando. Diga aí, então,
o que você quer saber.
- Simplesmente quero saber
que loucura é esta. Você realmente fala?
- Mas é claro. Não
precisa correr para nenhum psicólogo. Isso é normal.
- Mas como, normal?
- Ora, ora...me diz que
você, quando morava no sítio, jamais imitou o cacarejar de
uma galinha, o pio de um pássaro ou o relinchar de um cavalo!
- Humm – Cocei o queixo,
buscando recordações distantes – sim, eu costumava imitar
patos, mas eu era muito bom mesmo imitando os latidos dos...ei! Eu estou
entrando na sua! Frangos não falam, e pronto! Me recuso a conversar
com você!
Cruzei os braços,
irritado com aquela situação insólita. Depois dei
uma rápida olhadinha para fora do carro, para ver se não
havia ninguém por perto. Já imaginaram se alguém me
visse falando sozinho, como eu imaginava, estivesse? Iria pensar que eu
endoidara de vez. E se me vissem conversando com um frango então,
por certo me mandariam para um sanatório. O frango quebrou o rápido
silêncio:
- Você percebeu?
- Percebi o quê, ô
galinha-de-angola? – Perguntei, ainda irritado.
- Sem ofensas, por favor.
Só perguntei se você percebeu que, se um humano pode imitar
a ‘voz’ dos animais, nós também podemos imitar a voz de vocês.
Cocei novamente o queixo
e não pude deixar de concordar.
- É...nisso você
tem razão.
- Falou, cara. Liga o carro
então, e vamos embora. Vá dar cumprimento ao meu cruel destino!
Meio abestado, obedeci ao
frango. Dei partida e sai devagarinho, com o cérebro ainda dando
mil voltas. Eu pensava e olhava pro frango e olhava pro frango e pensava.
Mas, apesar de algumas dúvidas não sanadas, fiquei calado.
Foi ele quem começou novamente a conversa, perguntando de sopetão.
- Como você pretende
me comer?
Olhei para ele novamente
e, um pouco mais calmo, respondi evasivamente.
- Sei lá...acho que,
ensopado...é ensopado. Era essa minha idéia, quanto comprei
você.
- Ufa! Ainda bem!
- Por quê “ainda bem”?
- É que tenho trauma
de frigideira. Sabe, aquele óleo fervendo...vigi mãe...detestaria
morrer frito!
Ai a coisa ultrapassou todo
meu entendimento humano, e, sem mais nada a entender, pois não havia
mesmo, comecei a rir da preocupação do frango.
- Ah! Ah! Ah! Mas você
é uma besta mesmo! Se for ensopado ou frito, você não
saberá, pois já estará morto, sua anta!
- Eu sei, ô infeliz,
mas é a sensação da forma da morte que incomoda, que
assusta.
Dei nova risada, agora já
me divertindo com as inteligentes observações do galináceo,
e perguntei se ele tinha um nome, além de “frango caipira”.
- Tenho sim...é Cacáti!
- Cacete! Que nome esquisito!
Parece coisa de índio ou sei lá o quê!
- Bem, a origem do nome
eu não sei, mas também acho esquisito. E, por falar nisso,
qual é o seu?
- Praxedes...Praxedes da
Silva!
Eu detestava este nome,
pois sempre causava risos em quem o ouvia. Mas disse ao frango, pois achei
que uma ave não teria senso de zombaria. Me enganei redondamente...O
maldito frango caiu na risada, e quando conseguiu falar, observou:
- É, Praxedes, realmente
nós dois temos nomes esquisitos! Ah! Ah! Ah!
- Eu sei...eu sei...dá
pra parar de gozar?
- Tá bom, desculpe.
– Disse ele, enxugando os cantos dos olhos com uma das asas.
- Me chame de Dedé
– Disse eu, sério e taxativo.
- Tá bem, Dedé.
Mas quem botou esse nome ‘disgramado’ em você? – Ele perguntou e
caiu na risada de novo.
- Ré, ré...muito
gozado. E quem botou esse nome de fresco em você?
O frango então subitamente
ficou sério, tomando um ar de tristeza, e após alguns segundos,
contou:
- Tudo bem, sei que você
está zangado...mas, não é nome de fresco. Foi uma
criança que colocou este nome em mim.
Fiquei na minha, apenas
ouvindo. E o frango continuou:
- Sabe aqueles sítios
lá em Minas, onde no terreiro tem um galo e várias galinhas?
- Sei...Eu também
sou de Minas Gerais, e nasci num sítio.
- Pois bem, no caso dos
frangos, é ao contrário dos humanos. Uma mulher sem muito
juizo na cabeça, anda com vários homens, engravida, e depois
nem sabe direito quem é o pai da criança, não é?
- É... – Concordei
automaticamente, querendo ver aonde o frango queria chegar.
- Já no caso das
galinhas, os pintinhos têm mais dificuldade de saber quem é
a mãe, do que quem é o pai, já que só tem um
galo no terreiro. Então por constatação, sabe-se quem
é seu pai, mas não a mãe...
- O que é que meu
pai tem a ver com isso? – Perguntei, grilado.
- Ah, larga mão,
sô! Tô falando “seu pai” num sentido genérico. Não
me referi a SEU PAI, especificamente. Entendeu?
- Ahann... – Eu não
havia entendido bulhufas, mas não queria deixar o frango perceber
que era mais inteligente do que eu... – Vai, continua a história!
– Mandei, impaciente. A impaciência e a consequente estupidez são
as saídas contumazes de todo ser humano medíocre. E acabei
atropelando a narrativa do pobre frango. – Você ia falar sobre seu
nome, me parece, e foi lá atrás, quando você ainda
era um ovo!
- É para você
entender melhor...
Olhei com cara de bravo
pro frango. Cara de bravo também é uma ótima saída
para quem se acha em desvantagem intelectual. Mas mesmo assim senti que
o frango estava me chamando de burro, por tabela.
- Eu somente exemplificava
a diferença antropológica entre mulheres e galinhas, entre
homens e galos e entre crianças e pintos...
- Chega, pô! Fala
logo sobre seu maldito nome! – Gritei, perdendo as estribeiras.
- Tá bem, tá
bem, não se estresse, por favor.
Eu não sabia explicar,
mas continuava com a nítida impressão de que o frango
me gozava...Ele se ajeitou no banco, colocou as asas sob a cabeça
e cruzou as perninhas. Agora só falta ele me pedir um cigarro, pensei
com meus botões. O frango limpou a garganta e continuou:
- Então, como dizia,
sendo apenas um pintinho, com um pai que só pensava em galinhas
e uma mãe que estava mais preocupada em fugir dele, o dono do sítio
vendeu a mim e mais uma centena de pintos, na vila.
- Ôrra, meu! Seu pai
era uma fera, hein?
- Ele dava bem conta do
recado. Ciscou e bobeou, lá estava o velho conferindo...O que tinha
de galinha grávida no terreiro, não tá no gibi!
Enquanto o abestado aqui
ficou imaginando como seria uma galinha grávida, o frango continuou:
- Bem, pra encurtar a história,
fui comprado por um senhor e dado de presente para seu filho, um garotinho
de uns oito anos de idade. Ele então foi quem começou a me
chamar de “Cacáti”, e o nome pegou. A gente conviveu juntos por
um ano, e eu aprendi muita coisa com o garoto. Até a ler história-em-quadrinhos,
que era uma paixão dele. Ele chegava da escola e a gente almoçava
juntos. Ele, com o prato, e eu empoleirado na mesa, beliscando na beirada
do prato. A mãe dele não gostava muito, dizia que eu estava
ficando mal acostumado, mas ele não ligava. Depois ele sentava-se
no assoalho da sala e ia ler seus gibis, e eu, empoleirado em suas pernas,
ia olhando as figuras. Era um barato!
O franguinho estava fazendo
uma “viagem ao passado”, literalmente, e estava tão empolgado em
suas recordações, que o deixei tagarelar à vontade,
sem interferir, a não ser quando eu quis saber como ele tinha vindo
parar em São Paulo.
- Ah, foi meio inacreditável!
- Pois conte, uai! – Disse
eu, que àquela altura poderia acreditar até em discos-voadores.
- A família do garoto
mudou-se para São Paulo, e o pai dele insistiu que não dava
pra trazer um frango numa mudança tão longe. O garoto, chorando
desesperado, não querendo deixar-me para trás, me pôs
sob seus bracinhos e foi sentar-se num morro próximo à sua
casa, onde passava a linha da Maria Fumaça. E como o trem
passava bem devagarinho ali, ele teve a idéia de me colocar em um
dos vagões-cargueiro, dizendo que a gente se encontraria em São
Paulo.
- Puxa! – Foi só
o que consegui balbuciar, ouvindo a inacreditável história.
- É puxa, mesmo...Ninguém
sabe o que se passa na cabeça de uma criança. É dificílimo,
pois uma criança raciocina com o coração, e não
com o cérebro.
- É verdade...é
verdade. – Concordei meio que pensativo, e tasquei logo a pergunta final:
- E daí? O plano
dele deu certo? Vocês voltaram a se encontrar?
- Necas de piriquitiba!
Isso já faz dois anos e eu nunca mais vi o garotinho.
- Então foi assim
que você veio parar aqui...assombroso! – Comentei. E estava sendo
sincero.
Logo depois chegava em casa.
Coloquei o carro na garagem, passei a mão no frango e fui pra cozinha.
- Pô, meu, tá
com fome, hein? Já vai me depenar? – Quis saber o frango, meio que
preocupado.
- Calma, amigo. Só
vou deixar você aqui na cozinha e vou tomar um banho.
Dito isso, deitei
água numa vasilha e milho em outra, e coloquei frente ao frango.
- Vai se virando aí,
enquanto eu pego uma ducha, tá legal?
- Legal...obrigado. – Agradeceu
o frango, me parecendo meio incrédulo com minha gentileza. Aliás,
nem eu acreditava. Já debaixo do chuveiro eu lembrava abestado que
havia chamado o frango de “amigo”. Deve ser a maldita solidão, pensei.
E realmente era um fato. Desde que perdera meus pais, eu morava sozinho.
Primeiro em pensões, as famosas “cabeças-de-porcos”, até
conseguir um bom emprego e poder financiar minha casa própria.
Quanto a uma mulher dentro
da casa, não havia nenhuma, a não ser a Dita faxineira, que
vinha uma vez por semana faxinar a casa, lavar e passar minhas roupas.
Fora isso, eu não havia ainda tido a felicidade - ou infelicidade,
de arrumar uma esposa. E antes que passe algum pensamento cretino na cabeça
de vocês, eu também não era gay. Aliás, eu sou
tão feio, que nem para gay serviria...
No meu entender,
mesmo tendo um bom emprego, carro e casa própria e não achar
nenhuma mulher que se interessasse por mim, deveria ser por causa da feiúra.
A única mulher na vida que havia me achado bonito, era minha mãe,
e assim mesmo com algumas ressalvas...
Literalmente eu não
dava sorte com mulheres. Eu tinha uma maldita aptdão para me apaixonar
por mulheres loiras, e estas, por consequência lógica, gostavam
de homens morenos. Uma única vez que me apaixonei por uma morena,
ela acabou me deixando por um mulato. Maldita natureza humana! Além
de ser feio eu ainda tinha de lutar contra preconceitos coloridos. Branquelo,
cabelos castanhos-esquisitos, eu nem uma cor definida tinha, e daí
perdia feio para morenos, negros, mulatos e até para loiros de olhos
azuis, desde que esses fossem bonitinhos...
Afastando os pensamentos
étnicos da cabeça, fechei o chuveiro, me enxuguei, coloquei
uma roupão e fui dar uma olhada no frango. Ele estava esticado no
piso, deitado de costas e sua barriga parecia ter aumentado duas vezes.
- Ei, você está
bem?
Ele apoiou-se na asa direita,
e com um olho meio fechado e outro aberto, dei um arroto, desculpou-se
e respondeu:
- Rapaz, comi feito um frei!
Ajoelhado ao seu lado, dei
uma risada e perguntei:
- Uai, frei come muito?
- Bom, como todo frei que
conheci era gordo, imagino que devem ser bons de garfo!
Dei mais uma risada e ajudei-o
a se por de pé.
- Você não
vai querer me cozinhar agora, né? Sabe...estou com a barriga cheia
e entrar dentro d’água agora pode dar congestão!
Ai não aguentei mais.
Sentei-me no chão e ri à vontade. O frango, esperto como
ele só, começou a rir também, mas sem tirar os olhos
de mim. Então, após passar a crise de riso, percebi que ele
não fazia gracinhas por fazer, ele era realmente espirituoso, e
fazia ou falava as coisas, inconsciente disso.
Porém, o mais
interessante foi que eu, ali sentado no chão da cozinha, com o frango
ao lado, notei também que desde que nos conhecemos, eu não
havia sentido nenhum daqueles sentimentos frustrantes que me perseguiam
em várias ocasiões e praticamente, todos os dias. Nem no
chuveiro, pensando nos meus problemas com as mulheres, não fiquei
deprimido como ficava. E além disso, estava conseguindo rir, livre
e despreocupadamente como não o fazia desde meus bons tempos de
criança.
Como eu havia ficado
quieto, creio eu com um sorriso abestado na cara, pensando em tudo aquilo,
o frango, por sua vez, deve ter imaginado que eu estava já sorrindo
antevendo o belo ensopado que ia fazer com ele. Sua preocupação
foi manifesta em apenas uma palavra:
- Então...
- Então o quê?
- Quando é que vou
para a panela?
Fingi-me pensativo, olhando-o
fixamente. Daí abracei-o, acariciando as penas da sua cabeça,
dei uma risada e disse:
- Sem essa, Cacáti!
Quando é que se manda um amigo pra panela? Não se cozinha
amigos...pelo menos é como deveria ser...Amigos não são
pra jogar numa panela, e sim, pra guardar do lado esquerdo do peito, como
diz o Miltão!
- Que Miltão?
- Milton Nascimento...um
cantor...Depois te explico.
Assim, após meus
já passados 30 anos de idade, eu conseguia ter um amigo de verdade.
Uma coisa um tanto inacreditável, reconheço, mas eu tinha
ali, à minha frente, um sujeito de pouco mais de 20cm de altura,
empenado, e que tinha no lugar da boca, um bico, mas era alguém
que ia bater papo comigo, sem usar de metáforas maliciosas, que
não se preocuparia jamais se era mais bonito ou feio que eu, pois
não tinha vaidade no coração. Aquele novo – e único
amigo, eu tinha certeza, não me decepcionaria como um ser humano
normalmente faz com outro.
Então acertei
os ponteiros com ele, fiz alguns ajustes nos nossos nomes e pronto. No
dia seguinte fui trabalhar super feliz, pois sabia em meu coração
que, além de ter uma casa para voltar, agora eu sempre teria alguém
lá a me esperar. E atravessaríamos as madrugadas, batendo
papo e rindo, sem maldade, sem malícia, sem críticas e nem
falsidades. Coisas pertinentes aos seres humanos, e que eu sabia, jamais
encontraria naquele meu amigo. Achar um amigo de verdade, é como
encontrar um tesouro. E eu havia encontrado o meu, na figura daquele frango
caipira!
Em pensamentos pedi
as bençãos de Deus para o garotinho que havia, sem o saber,
enviado seu amigo para mim. Estivesse ele onde estivesse, desejava que
ele também encontrasse um amigo à altura daquele que ele
havia me enviado, na sua doce inocência e na sua inconsciência
do amanhã.
- Trimmm! Trimmm!
- Pois não? Residência
do sr. Dedé Silva!
- Quem está falando?
- Meu nome é WILLIAM
CATI...sou secretário dele!...
É O FIM!
Foto:
Meninos brincam - Autoria desconhecida
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