Mané Garrincha nasceu em
um minúsculo vilarejo do interior do Rio de Janeiro chamado Pau
Grande, proximo a cidade de Petrópolis. Pertencia a uma familia
paupérrima de 15 irmãos, e recebeu o nome de Manoel dos Santos.
O apelido Garrincha, foi recebido de um tipo de pássaro, comum na
região serrana, que Mané gostava de caçar com seu
bodoque (estilingue). A principal atividade econômica da cidade era
uma fábrica de tecidos (América Fabril) que era de propriedade
de um grupo inglês. Como todos os ingleses, aqueles também
eram fanáticos por futebol, e por isso a fábrica tinha um
time de futebol amador, o Pau Grande Esporte Clube. Aos 15 anos, Mané,
como todo garoto da região, começou a trabalhar na fábrica,
e não tardou a começar a treinar no time. Logo de cara, todos
já perceberam que tinham um craque nas mãos, mas devido à
sua pouca idade, Mané não teve chance de jogar pelo time
logo de cara, já que o técnico Carlos Pinto temia expor o
garoto aos fortes zagueiros dos times adversários durante os jogos
da liga amadora da região.
A estrela começa
a brilhar timidamente
Cansado de não ter uma chance
de jogar, Mané registrou-se por um outro time amador, o Serrano,
da vizinha cidade de Petrópolis e jogou por ele durante quase um
ano. Portanto, o primeiro clube oficial de Mané, não foi
o Pau Grande, como muitos pensam... Depois disso, o técnico Carlos
Pinto se rendeu às evidências de que tinha nas mãos
uma das maiores revelações do futebol amador da região,
e decidiu, após consultar o elenco do Pau Grande, dar uma chance
ao Mané. Ocorre que ele era um daqueles técnicos tipo Parreira,
que se amarram em um joguinho retrancado. Mané, naquela época,
jogava na meia direita, posição ocupada no Pau Grande por
um jogador daqueles tipo Dunga, que era intocável na opinião
do técnico, para manter uma defesa sólida em seu esquema.
Carlos Pinto teria então dito para o Mané: "Se quiser, vai
ter que jogar na ponta". Estava tomada, então, por puro acaso, uma
das decisões mais acertadas de toda a história do futebol.
Com a entrada de Mané na ponta direita, o time do Pau Grande, que
já era respeitadíssimo na região, passou a ser absolutamente
invencível, uma verdadeira lenda. Mané comandava o time,
e os placares eram sempre dilatadíssimos, tipo 7 X 0, 10 X 2 e coisas
do tipo.
A estrela quase apaga
Claro que depois de algum tempo
muita gente começou a encher a cabeça do Mané, dizendo
que ele devia tentar a sorte em algum clube grande da capital. E ele foi.
No Flamengo e no Fluminense, os caras olharam para aquele sujeito de pernas
tortas, e não quiseram nem saber. Passou uma tarde inteira nas Laranjeiras,
e uma tarde inteira na Gávea, e ninguém lhe deu atenção.
No Vasco, quase chegou a treinar, mas na última hora algum antepassado
do Eurico Miranda o impediu de fazer o teste, alegando que ele não
havia trazido chuteiras. Depois dessas duas frustrações,
Mané voltou a Pau Grande, desiludido e disposto a não mais
tentar nada no que dizia respeito a futebol profissional. Até que
um dia apareceu em um dos jogos do Pau Grande, um desconhecido que se identificou
apenas como seu Orlando, e dizia que era sócio-proprietário
do Botafogo.
O misterioso "seu" Orlando
O tal seu Orlando insistiu de todas
as formas para que Mané fosse fazer um teste no time da Estrela
Solitária e chegou até a oferecer ao craque o dinheiro para
a passagem. Mané dizia o tempo todo que não queria saber
mais dessa história de fazer testes nos times da capital, mas o
sujeito não desistiu, até que o técnico Carlos Pinto
pegou o dinheiro e tranquilizou o homem: "Pode ficar tranquilo, ele vai
estar lá". Aqui vai o fato mais curioso: a reportagem da Placar
não dá detalhes, mas me lembro de ter ouvido em um programa
de TV, que o tal seu Orlando não apareceu em General Severiano no
dia combinado, e sua identidade permanece até hoje um dos maiores
mistérios da história do futebol brasileiro. Eu acho que
se existiu algum dia um anjo da guarda para o futebol brasileiro, e para
o Botafogo em particular, foi ele. Seja como for, Mané apareceu
em General Severiano no dia do teste, acompanhado pelo técnico Carlos
Pinto e pelo presidente do Pau Grande, Roberto Leite. Este último,
preocupado com a total falta de preocupação do craque diante
dessa que podia ser a maior chance de sua vida, tentou chamá-lo
à realidade: "Você sabe quem vai te marcar hoje, Mané
? É o Nilton Santos". "Não tem importância, não",
respondeu o jogador, "em Pau Grande o João também me marca".
A referência de Mané ao zagueiro central do time do Pau Grande
(João Berruga), acabou servindo como identificação
para todos aqueles que tentaram neutralizá-lo pelos campos do mundo
afora.
O grande Nilton Santos
frente a frente com a estrela
Nilton Santos foi apenas o primeiro
a sentir na pele a dura vida de um João. Pode se dizer que Garrincha
foi um jogador democrático: seus dribles nao reconheciam craques
ou pernas de pau. Quando a bola estava em seus pés, todos eram iguais,
e atendiam pelo nome de João. Quando viu Mané pela primeira
vez, com aquelas pernas tortas, Nilton Santos mesmo admite que não
levou fé. Dizem as más linguas, aliás, que ele teria
virado para um companheiro e dito: "Olha ai, quando a maré não
está boa, até aleijado vem tentar a sorte". Logo na primeira
bola que recebeu, Mané parou à frente de Nilton Santos. Balançou
o corpo para a esquerda, e meteu-lhe a bola no meio das pernas, enquanto
disparava em direção à linha de fundo. Isso foi apenas
o começo. Durante todo o treino, Nilton Santos não viu a
cor da bola. Tomou mais bola entre as pernas, dribles pelo meio, por fora,
drible da vaca, e saiu de campo sem entender o que estava acontecendo.
No fim do treino, ninguém mais tinha dúvidas de que Mané
tinha de ser contratado, e rápido. Só que o técnico
do Bota, Gentil Cardoso, não estava em General Severiano naquela
manhã, e não era esperado naquele dia. O treino tinha ficado
sob a responsabilidade de seu filho Newton, médico do clube, que
estava receoso de assumir a contratação do jogador sem o
aval do pai.
E a estrela volta a brilhar
Só que mais uma vez, a estrela
do Botafogo voltou a brilhar, pois quando todos os jogadores já
estavam no vestiário se trocando, Gentil Cardoso apareceu por lá.
Newton imediatamente, virou para o pai e falou, apontando para o Mané:
"Tem um garoto ai que é craque". "Quem ?" - Perguntou Gentil, "Aquele
aleijado? Não acredito". Quando acabou de falar isso, Nilton Santos
apareceu e falou: "Gentil, tá vendo aquele garoto? Contrata logo,
pelo amor de Deus, senão eu nunca mais vou poder dormir sossegado.
Ainda cético, Gentil Cardoso tirou todo mundo do chuveiro, e mandou
que voltassem para o campo, só para ver o Mané jogar. Depois
de mais uns vinte minutos de desespero para Nilton Santos e para o resto
da defesa do Bota, Gentil se convenceu e deu o aval para a contratação
de Mané. A lenda começava ai...
Marginal da lógica
JOSÉ
LINO GRUNEWALD
Especial
para a Folha - 1995
O que se entende por intuição
em alguns dos seus momentos mais luminosos, Garrincha e a bola o sabiam.
Lá ia ele com ela, como um herói daqueles filmes ou histórias
de capa e espada, driblando, esgrimindo contra guardas ou bandidos. Lá
estava o arco à sua espera, embaixo dele, um goleiro em pânico
diante das redes. Ou lá ia ele rumo à linha de fundo, de
onde sempre saem os centros mais perigosos, quando a pelota pode encontrar
um atacante de frente para o gol.
Alegria de viver, alegria de jogar.
Tudo sob o perfume da inocência materializada naquelas pernas tortas,
ambas arqueadas na mesma direção.
Para Nelson Rodrigues, era Seu Mané
``a única sanidade mental do país´´. E por quê?
Porque ``não precisava pensar´´. Ou, segundo Armando
Nogueira, ``um herói pícaro brasileiríssimo´´
- aquele mesmo que não hesitou um segundo em fazer passar a bola
por entre as pernas da cadeira que o técnico Zezé Moreira
havia colocado em campo, perto da entrada da área, a fim de que
os jogadores, ao ultrapassá-la, chutassem em gol. Essa candura não
impedia que fosse um jogador frio. Não tremia. É a santa
irresponsabilidade do inocente, quando um lance sempre será apenas
um lance, na pelada em terreno baldio ou diante das multidões, numa
Copa do Mundo.
Os Joões
Todos que apareciam à sua
frente a fim de barrá-lo, na lei ou na marra, seriam os eternos
``joões´´ das várzeas ou dos estádios.
E também os laterais-esquerdos, alguns de grande eficiência,
que tinham de enfrentá-lo regularmente nos campeonatos regionais,
deixaram seu depoimento, como por exemplo, Jordan (do Flamengo), Coronel
(do Vasco) e Altair (do Fluminense e da seleção brasileira).
Os dois últimos chegaram a dizer que não dormiam direito
nas vésperas de partida contra o Botafogo, ou seja, Seu Mané.
Além deles, seu próprio companheiro de clube (e de seleção),
o campeoníssimo Nilton Santos -outro lateral-esquerdo- falava das
facilidades que ele possuía de despachar seu marcador. Surgiu até
a expressão idiomática -marcador do Garrincha- para designar
pessoas em dificuldade ou, em certos locais, marido de mulher fogosa.
Atemporal
O guerrilheiro, o mago, o mágico,
o marginal da lógica. Mas, muitos perguntam se, no futebol de hoje,
com maior correria, maior preparo físico, melhores sistemas de cobertura,
defesas mais compactas evitando-se o confronto individual, haveria espaço
para as artes de Mané Garrincha. Da dança de incredulidades,
emergem pelo menos duas vozes das mais autorizadas, além daquela
do já citado Nilton Santos: Telê e Didi -ambos grandes jogadores
e grandes técnicos. Telê, dono de objetividade e bom senso,
declarou que ele ``jogaria antes, hoje e depois´´. Didi com
sua frieza - não de inocência, mas de raciocínio- disse
que deveríamos esperar cem anos para termos um outro Mané.
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Se há um deus que regula o
futebol, esse deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha
foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios.
Mas, como é também um deus cruel, tirou do estonteante Garrincha
a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi
um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar
suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há
outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente
o sonho. - Carlos Drummond de Andrade
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Afinidades
As invocações líricas
e as comparações não poderiam faltar nesse carrossel
de saudade e memórias desfechado pelo mito. Logo de saída,
o nome de Charles Chaplin foi lembrado, em face de afinidades e analogias
com o personagem de Carlitos. Tudo certo: aquilo que Chaplin exprimiu no
âmbito da estética cinematográfica se casa em fundo
e forma com as piruetas futebolísticas do Garrincha. E não
esquecer que o mesmo Chaplin, quando tira a máscara de inocência
do vagabundo e faz Monsieur Verdoux, dá um derradeiro drible geral
e depois, de propósito, entrega-se a polícia -ou seja, seus
eternos marcadores.
No mesmo sentido lírico, vem outro
grande -Vinicius de Moraes- quando compõe ``O Anjo de Pernas Tortas´´.
Sobre Mané, ainda Paulo Mendes Campos e muitos outros derramaram
seu verbo.
A cantora Elza Soares, sua antiga companheira,
cantou a ``alegria do povo em flor/ no gramado do meu coração´´.
E comparou a sua pureza com água de uma correnteza.
Enfim, correndo noutra raia, o finado
locutor Oduvaldo Cozzi (um dos maiores em sua profissão) comparou-o
ao cavalo Gualicho, que, pela época, chegou a ser campeão
das pistas brasileiras.
``Mané, até hoje o meu peito
se expande´´. Assim começava uma música de carnaval,
em 1959, celebrando o feito do jogador, uma das peças básicas
para a primeira conquista do campeonato mundial de futebol pelo Brasil,
lá na Suécia, no ano anterior de 1958.
Fintas
Aqui, a nação virou
festa e, lá, os suecos, a gargalhar e sorrir, mal podiam torcer
por sua pátria, siderados que estavam pelos dribles daquele desengonçado
ponta-direita. E, para ganhar sua posição de titular da seleção,
teve também que driblar técnico, chefe da delegação,
psicólogo e -quem sabe?- o dentista. Valeu-lhe o apoio de outros
companheiros, especialmente Didi e Nilton Santos.
Depois, no Mundial de 1962, com
o afastamento de Pelé contundido, tornou-se estrela absoluta do
êxito de nosso escrete. Então, a glória o aureolou.
Era um benfeitor público, ``Alegria do Povo´´, como
clamava o filme de Joaquim Pedro de Andrade.
Em 1966, foi de novo convocado.
Mas, foi assim, alquebrado, que chegou na Inglaterra. Apesar de tudo, além
do gol anulado contra a Hungria, fez um belo gol de falta contra a Bulgária.
Tal como, grande batedor, outros fizera. Dez anos atrás, seu primeiro
gol de falta foi contra o Bonsucesso. E vale lembrar seus gols feitos entrando
pelo meio da área: ``Eu sempre joguei de meia-direita, aqui embaixo
é que me botaram na ponta´´.
Veio a decadência, a doença,
a piedade alheia. Vítima da violência de marcadores, da ganância
dos cartolas, das drogas e ``tratamentos´´ para entrar em campo.
Vítima de si mesmo, daquela inocência pagã com que
se atirava ao álcool. Até porque, em sua intuição,
sabia que o bar é o lugar onde pode o humanismo despontar em seus
instantes mais elevados. Se o mito traduz a concretização
de uma ``verdade coletiva´´, aí está, no esporte,
o de Garrincha. A verdade do prazer; o prazer de competir. Olimpicamente.
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