"Seus sonhos foram frustrados
e ele foi mal amado e traido. Então passou a ser
apenas um homem que vagava
pelo sertão na solidão da sua amargura e, sem que ele quisesse,
foi eleito líder dos miseráveis e inimigo dos poderosos"
- S.Ferraz
A única foto conhecida
de Antônio Conselheiro, místico rebelde e líder espiritual
do
arraial de Canudos (1893-1897),
tirada 2 semanas após sua morte, pelo fotógrafo
Flávio de Barros,
a serviço do Exército
Antônio Vicente
Mendes Maciel nasceu na Vila do Campo Maior, Quixeramobim, Ceará,
em 13 de março de 1830 e morreu em Canudos, Bahia, em 22 de setembro
de 1897. Ele poderia ter sido apenas um pobre nordestino a mais, vivendo
de maneira miserável, acossado pela seca e pelos donos do poder,
mas já estava escrito que ele ficaria conhecido na História
do Brasil como Antônio Conselheiro, um dos maiores líderes
sociais brasileiro.
Figura carismática,
como só os que ousam levantar a cabeça diante dos poderosos
pode ser, adquiriu uma dimensão messiânica ao liderar o arraial
de Canudos, um pequeno vilarejo no sertão da Bahia, que atraiu milhares
de sertanejos, entre camponeses, índios e escravos recém-libertos,
e que foi destruído pelo Exército da República na
chamada Guerra de Canudos em 1897.
Para a mídia
da época, como também muitos historiadores, Conselheiro foi
apenas um louco, fanático religioso e contra-revolucionário
monarquista perigoso. Eles somente esqueceram de acrescentar a palavra
profeta, já que a frase de que o sertão iria virar mar, creditada
a ele, acabou se concretizando. O sertão realmente virou mar...mas
mar de sangue.
O arraial, no desolação
do sertão, alvo fácil para os ataques
Mas como se forma um
líder? Nunca é por acaso. Sempre há algo a mais por
trás da história de todos os líderes já nascidos,
tanto no Brasil como em outras terras. Praticamente, todo o líder
tem uma história de sofrimento ou de injustiça, que o leva
a fazer o que tem que fazer. Essa, certamente, deve ser a maior luta de
todo líder, pois é uma luta espiritual. Antônio Conselheiro
não fugiu à regra.
Nascido menos miserável
como grande parte do povo nordestino, pois teve condições
de estudar, seus pais queriam que o menino seguisse a carreira sacerdotal,
pois entrar para a igreja católica na época, era a única
maneira viável, tangente e segura de fugir da pobreza e ascender
na escala social. Mas com a morte de sua mãe em 1836, a meta de
transformar o garoto Antônio Vicente Mendes Maciel em padre, é
esquecida e seu pai casa-se novamente. Fatos da época indicam que
a madrasta maltratava severamente o menino, então com apenas 6 anos
de idade.
Em 1855, morre seu
pai, e ele é obrigado a abandonar os estudos e assumir o comércio
da família aos 25 anos de idade. Malogram de vez quaisquer sonhos
sacerdotais. Os negócios iam mal e mais tarde o futuro líder
seria processado pela não quitação de suas dívidas.

Dois anos após
a morte do pai, Antônio Conselheiro, que ainda não era conhecido
assim, casa-se com Brasilina Laurentina de Lima, fogosa e bela jovem filha
de um tio do mesmo. No ano seguinte, o jovem casal muda-se para Sobral,
onde Antônio passa a viver como professor do primário,
dando aulas para os filhos dos comerciantes e fazendeiros da região
e, mais tarde, como advogado prático, defendendo os pobres e desvalidos
a título de pequena remuneração. Passa a mudar-se
constantemente, em busca de melhores mercados para seus ofícios.
Muda-se primeiro para Campo Grande (atual Guaraciaba do Norte), depois
Santa Quitéria e finalmente Ipu, então um pequeno povoado
localizado bem na divisa entre os sertões pecuaristas e a fértil
Serra da Ibiapaba.
Mas uma personalidade
não forma-se da noite para o dia. Às vezes é preciso
andar por longos e tortuosos caminhos vida à fora, para ela se consolidar.
Em 1861, Antônio apanha sua mulher o traindo com um sargento de polícia
em sua própria residência, na Vila do Ipu Grande. Envergonhado,
humilhado e abatido, abandona o Ipu e vai procurar abrigo nos sertões
do Cariri, já naquela época um pólo de atração
para penitentes e flagelados. Ali ele iniciaria uma vida de peregrinações
pelos sertões do nordeste. Estava se consolidando de vez a personalidade
do líder.
A partir de 1874,
o jornal O Rabudo, do Sergipe, traz a primeira menção pública
de Antônio Conselheiro como penitente conhecido nos sertões:
Dizia a maldosa matéria: "Há seis meses que por todo o centro
desta Província e da Provincia da Bahia, chegado, diz ele, do Ceará,
infesta um aventureiro santarrão que se apelida por Antônio
dos Mares. O que, a vista dos aparentes e mentirosos milagres que dizem
ter ele feito, tem dado lugar a que o povo o trate por Santo Antônio
dos Mares. Esse misterioso personagem, trajando uma enorme camisa azul
que lhe serve de hábito, à forma de um sacerdote, pessimamente
suja, cabelos mui espessos e sebosos entre os quais se vê claramente
uma espantosa multidão de bichos (piolhos), distingue-se pelo ar
misterioso, olhos baços, tez desbotada e de pés nus, o que
tudo concorre para o tornar a figura mais degradante do mundo."
Esta primeira matéria
sobre Antônio Conselheiro de que se tem notícia, foi publicada
pelo jornal sergipano em 22 de Novembro de 1874. Mas, como já aconteceu
inúmeras vezes, o tiro da mídia quase sempre sai pela culatra
e, ao invés de espantar as pessoas com a humilhante narrativa sobre
o misterioso personagem, o jornal acabou atraindo a curiosidade sobre ele.
Assim, em 1876, ele já era famoso como "homem santo" e peregrino
e já havia sido "batizado" como Antônio Conselheiro.
Com isso, começaram
a aparecer seus seguidores e ele passa a ser visado - e perseguido, pelas
autoridades. Foi primeiro preso nos sertões da Bahia, através
de boato gerado pelos que já viam nele um perigo, de que ele teria
matado mãe e esposa.
Antônio Conselheiro
então é levado para o Ceará, onde se conclui que não
há
nenhum indício contra
a sua pessoa: sua mãe havia morrido quando ele tinha 6 anos. Antônio
Conselheiro é posto em liberdade e retorna à Bahia. Não
mais o Antônio Vicente Mendes Maciel, não mais o peregrino
miserável, mas já o líder formado. E, se não
pela sua vontade, os próprios acontecimentos parecem empurrá-lo
para isso. Em
1877 o Nordeste passa por
uma das mais calamitosas secas de sua história. Levas de flagelados
perambulam famintos pelas estradas em busca de socorro governamental ou
de ajuda divina. O socorro jamais chegou e nem chegaria; e a ajuda divina
continuaria a ser esperada. Bandos armados de criminosos e flagelados promovem
justiça social com as próprias mãos assaltando fazendas
e pequenos lugarejos, pois pela ética dos desesperados, roubar para
matar a fome não é crime.
A partir desse caos
social, cresce ainda mais a notoriedade da figura de Antônio Conselheiro
entre os sertanejos pobres; para eles, Antônio Conselheiro, ou o
“Bom Jesus”, como também passa a ser chamado, seria uma figura santa,
um profeta enviado por Deus para socorrê-los.
E o que fazer um
homem, sem lar, sem nada a perder, mas com uma cultura que o fazia sobrepujar
aqueles miseráveis que buscavam sua ajuda? E, para elevar ainda
mais a liderança de Conselheiro, em 1888, com o fim da escravidão,
muitos ex-escravos, libertos e expulsos das fazendas onde trabalhavam,
sem ter agora nenhum meio de subsistência, partem em busca de sua
ajuda.
Acima, desenho de Cunha,
retratando o Conselheiro. Na foto ao lado, Canudos, já com suas
casas completamente arrasadas pelos canhões e depois, pelo fogo.
Cinco anos depois,
em 1893, vamos encontrar um homem já cansado de tanto peregrinar
pelos sertões e agora sendo um “fora da lei”, pois sobre ele caia
a culpa de sediciar todo aquele povo que o seguia. Foi assim que Conselheiro
decidiu se fixar numa fazenda abandonada às margens do rio Vaza
Barris, de nome Canudos. Nasce ali uma experiência extraordinária,
como 40 anos depois iria ocorrer no Caldeirão, com beato Lourenço
e seus seguidores.
Em Belo Monte (ou
Monte Santo, as histórias divergem no nome), como Antônio
Conselheiro rebatizou a vila, os desabrigados do sertão e as vítimas
da seca eram recebidas de braços abertos pelo peregrino. Era uma
comunidade onde todos tinham acesso à terra e ao trabalho sem sofrer
as agruras dos capatazes das fazendas tradicionais. Um "lugar santo”, segundo
os seus adeptos. Mas os grandes e gananciosos fazendeiros e o clero (líderes
locais da igreja católica), sentem que o poder deles está
sendo ameaçado, e começam a se articular em busca de uma
solução do "problema".
O episódio
que desencadeou a sangrenta, cruel e indígna Guerra dos Canudos,
ocorreu em 1896. No dia 24 de novembro daquele ano, é enviada a
primeira expedição militar contra Canudos, mas a tropa é
massacrada em Uauá, pelos seguidores de Antônio Conselheiro.
Um mês depois, em 29 de dezembro de 1896, tem início uma segunda
expedição militar contra Canudos. Assim como a primeira,
esta expedição foi facilmente debelada pelos Conselheiristas.
Finalmente, no ano
seguinte, começa a terceira expedição contra Canudos,
desta feita comandada pelo capitão Antônio Moreira César,
conhecido como “O Corta-Cabeças”, por suas façanhas bárbaras
na Revolução Federalista, no Rio Grande do Sul. Mas, acostumado
aos combates tradicionais, Moreira César não estava preparado
para eliminar Canudos, e foi abatido por tiros certeiros de homens leais
a Antônio Conselheiro. A tropa foge em debandada, deixando para trás
armamentos e munição. Para os Conselheiristas, trata-se de
uma prova cabal da "santidade" do beato de Belo Monte.
Mas o poder real
estava nas mãos dos políticos, religiosos e fazendeiros,
que exigiram o extermínio de Antônio Conselheiro e seus seguidores.
Assim, em 5 de abril de 1897, inicia-se a quarta e última expedição
contra Canudos. Desta vez o cerco foi implacável. Até muitos
dos que se rendiam foram mortos, pois após três derrotas impostas
pelos habitantes do arraial, que só ali estavam procurando uma pacífica
sobrevivência, eliminar Canudos e seus “fanáticos habitantes”
tornou-se uma questão de honra para o Exército.
O Exército,
com cerca de 5 mil homens, fortemente armados e até com canhões,
marchou avassaladoramente sobre os moradores do arraial em 22 de setembro
de 1897. Antônio Conselheiro é morto nessa data, não
se sabendo ao certo até hoje como foi sua morte. Para alguns, ele
morreu por ferimentos causados por uma granada; e outra versão,
talvez maldosa, é que o líder teria morrido por causa de
uma infecção nos intestinos. Quase um mês depois o
Exército termina sua "heróica" batalha contra os miseráveis
de Canudos, matando em 5 de outubro de 1897 os últimos defensores
de Canudos. O arraial é destruído totalmente. O cadáver
de Antônio Conselheiro é encontrado enterrado no Santuário
de Canudos (foto ao alto), e sua cabeça é cortada e levada
até a Faculdade de Medicina de Salvador, pois para a ciência
da época, "a loucura, a demência e o fanatismo" estariam estampados
na mistura de raças e nos traços faciais característicos
do "monstro dos sertões". A ciência e o Exército se
deram as mãos nessa ignomínia...
Os poucos sobreviventes,
mulheres e crianças, poupados
na chacina, são vigiados
por jagunços, ao fundo.
Após a vergonhosa
ação militar (que tal como no Caldeirão, é
infelizmente uma nódoa na história do Exército), e
a demência da medicina, a cabeça do líder de Canudos
fica exposta à mórbida curiosidade pública, até
que um incêndio ocorrido em 03 de março de 1905 na antiga
Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, em Salvador (BA), destrói
as dependências e consome a cabeça de Antônio Conselheiro,
tal como se as chamas, em sua violência, fossem mais misericordiosas
que os homens que fizeram o sertão virar um mar de sangue...
NE: Em Quixeramobim, onde nasceu o Conselheiro, existe
hoje o Memorial Antônio Conselheiro, onde está narrada a história
do líder. O memorial está situado no centro da cidade, próximo
ao Banco do Brasil.
O Memorial construído
na cidade abriga uma mostra arqueológica com o material resgatado
durante as pesquisas arqueológicas. Na foto à esquerda, memorial
em memória dos combatentes seguidores de Antônio Conselheiro.
Mais de seis mil sertanejos foram mortos. Todas as casas que sobraram do
bombardeio, foram queimadas após o bombardeio. O conflito é
retratado também no livro "Os Sertões" de Euclides da Cunha,
que o testemunhou como repórter do jornal O Estado de S. Paulo.
AS
IMAGENS DE CANUDOS
O fotógrafo Flávio
de Barros, a serviço das forças militares, documentou a fase
final da campanha de Canudos, estando presente à ofensiva final
e fotografando o cadáver do beato Antonio Conselheiro. As quatro
fotos em p&b ao alto, são dele. Flávio de Barros viveu
o extraordinário privilégio de documentar com uma câmera
fotográfica a Guerra de Canudos. Ele chegou a Canudos em 26 de setembro
de 1897, acompanhando a Divisão de Artilharia Canet.
De suas fotografias originais
são conhecidas três coleções que pertencem ao
Museu da República, no Rio de Janeiro (72 fotos), ao Instituto Geográfico
e Histórico da Bahia (68 fotos, que desapareceram) e à Casa
de Cultura Euclides da Cunha de São José do Rio Pardo (24
fotos).
Fontes: Enciclopédia
Abril - 1978, Instituto do Patrimônio Cultural da Bahia, Itaú
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