De todas as tropas internacionais
da atualidade, certamente uma das menos mencionadas é aquela dos
soldados gurcas, verdadeiros "samurais" de nossos dias, secularmente aliados
dos ingleses, a quem tratam como verdadeiros amos.
Estes pequenos guerreiros de pele
marrom notabilizaram-se como uma das mais terríveis tropas de assalto
do exército britânico muito mais por sua tenacidade nata do
que por eventuais equipamentos que empreguem. Na formação
de um combatente gurca, o primeiro princípio a ser incutido em sua
mente é a total e irrestrita fidelidade a seu chefe militar: como
no Bushido (o código de honra dos samurais), sem um comandante não
podem existir os soldados!
Entretanto, o mais fascinante de
tudo isto e que - não obstante uma aliança quase centenária
entre os gurcas e os ingleses e também uma crescente sofisticação
nos equipamentos da guerra moderna que fazem o embate corpo a corpo cada
vez menos possível - ainda recentemente na Guerra das Malvinas a
simples menção do nome desses pequeninos guerreiros levou
terror e pânico aos soldados argentinos.
Mais conhecidos pela estranha faca
que portam, os pequenos e bronzeados gurcas são também temidos
pelos soldados modernos dada sua filosofia guerreira, a qual abomina completamente
qualquer medo relativo ao combate ou a própria morte, desde a mais
tenra idade, como ocorre na formação dos samurais.
Embora sejam soldados de infantaria,
normalmente lotados em regimentos de fuzileiros dentro do exército
inglês, esses soldados de verdadeira elite militar odeiam essa definição:
eles apreciam mesmo é serem chamados simplesmente de gurcas, entendendo
que este termo já os defina completamente.
AS
ORIGENS
Os gurcas são de descendência
hindu-mongol e vivem nos sopés das montanhas do Himalaia, no Nepal.
Seus ancestrais foram as tribos, Raijput e Brahmin, as quais dirigiram-se
para fora da India no século XVI.
Ainda vivendo como tribos, miscigenaram-se
com os mongóis dando início a dos Gorhalis, que terminou
por conquistar as demais, unindo-as e entrando numa guerra contra pequenos
bandos das colinas na área.
Em 1776, Prithwui Narayan, então
rei dos gurcas, investiu contra os nepaleses e - após dois anos
de guerra - terminou por conquistá-los, iniciando-se aí uma
paulatina expansão de domínios. Quando beiraram as fronteiras
da India, fatalmente defrontaram-se com a possessão britânica
e, após diversas escaramuças, uma guerra oficial foi declarada
em 1814.
Após dois anos de brutais
combates corpo a corpo, a tenacidade e a galanteria gurca terminaram por
contagiar elementos da tropa inglesa. Uma das muitas histórias dessa
época conta que, estando ferido por uma bala no queixo, um valente
gurca deixado para trás levantou bandeira branca; após os
devidos cuidados médicos e a recuperação, o comandante
inglês o deixou retornar às suas linhas, pois isto já
havia ocorrido de forma contrária recentemente!
Finalmente, com a recuperação
de parte do território conquistado, os ingleses sentiram-se à
vontade para um acordo de paz com os gurcas, já notórios
por terem lutado bravamente embora em inferioridade numérica e de
armamento. Assim, o Nepal permaneceu como um reino independente e respeitado,
o que culminou com o reconhecimento de sua condição de nação
independente apenas em 1923.
Aquela guerra de gurcas contra ingleses
produziu uma estranha relação em ambos os lados da contenda,
algo tremendamente mais importante do que o simples domínio de terras:
revelou uma mútua admiração militar. Os gurcas apaixonaram-se
pelos vistosos uniformes britânicos do período, pelas armas
sofisticadas e pela organização em combate; os ingleses tinham
em alta conta a bravura e galanteria dos pequenos soldados de tez marrom.
A
CORAGEM E A FACA
A política expansionista inglesa
do século passado previa o uso de tropas nativas dos domínios
britânicos, como uma forma de integração militar e,
assim, inicialmente guerreiros gurcas selecionados passaram a atuar como
mercenários junto a tropas na Índia.
Particularmente, um soberano gurca,
Bahadur Shah, como grande admirador dos britânicos, encorajou seus
soldados a treinarem (e até atuarem) junto a tropas inglesas.
Durante o motim de Sepoy, em 1857, quando tropas rebeldes do exército
da Índia quase expulsaram os ingleses, esse rei enviou 10.000 homens
excepcionalmente treinados em auxílio dos soldados de sua maiestade.
Unidades gurcas atreladas ao exército
britânico muitas vezes significaram a diferença entre a derrota
e a vitória nos campos de batalha da 1a e 2a Guerra Mundiais. A
famosa coragem gurca fez com que - quando a Índia tornou-se independente
em 1948 - o alto comando militar Inglês fizesse questão de
manter diversos regimentos desses combatentes estacionados em Hong-Kong,
lotando-os nos corpos de fuzileiros.
Uma parte dessas tropas, em contra-partida,
decidiu integrar-se definitivamente ao exército da Índia,
onde ainda são extremamente respeitadas.
Embora atualmente dotados de modemíssimas
armas de fogo, os soldados gurcas, quer lotados no exército inglês
ou da Índia, não dispensam o treinamento no manuseio das
facas "kukri", o qual lhes é ministrado por instrutores habitualmente
de idade avançada, cuja técnica foi obtida de ancestrais.
A "kukri" é uma faca de desenho
fora do convencional, normalmente de médias para grandes dimensões
(cerca de 25 a 40 cm de lâmina), curvada para dentro e, normalmente,
forjada a mão. Uma sólida empunhadura de madeira nativa da
Índia e mais o fato de que o fio é também curvo, são
os principais fatores que intensificam a energia aplicada a golpes com
essas facas.
Atualmente considerada pelos próprios
gurcas apenas como uma arma de última chance, a faca "kukri" foi
no passado o principal instrumento pelo qual essas tropas adquiriram uma
aura de terror: esses soldados as utilizavam para, aproximando-se silenciosamente
de seus inimigos, deceparem-lhe a veia jugular, causando morte quase imediata.
No corpo a corpo, a faca era empunhada com a ponta para cima, possibilitando
assim terríveis e mortais golpes nos inimigos.
Uma das ações militares
gurcas que ficaram registradas nos anais da Segunda Guerra, aconteceu em
Tavoleto, sul da Itália. O pequeno vilarejo era estratégico
para o avanço dos aliados em solo italiano e era protegido por um
forte contingente de soldados alemães e ainda franco-atiradores.
Ao primeiro sinal de aproximação de soldados inimigos, os
alemães, bem posicionados, os aniquilavam.
Parecia não haver meios de
se tomar o vilarejo, até que chegou o 7o Regimento Gurca. O capitão
gurca Rai Jitbahader, comandante do 9o Pelotão, na noite de 2 para
3 de setembro de 1944, conseguiu infiltrar toda uma patrulha gurca dentro
de Tavoleto. Em poucas horas, ocultos pelas sombras, os gurcas degolaram
a maioria dos franco-atiradores e sentinelas alemães. Às
6 horas da manhã do dia 3 de setembro a moral dos soldados alemães
estava acabada e as tropas inglesas tomaram o lugar. Esse episódio
ficou conhecido como "A noite do horror"...
Em 1982, na chamada Guerra das Malvinas,
os gurcas também participaram, mas apenas para remoção
de despojos das tropas inimigas. Mas, mesmo assim, acabaram ajudando na
conquista do Monte Willians na batalha final para manter Port Stanley.
Entre os soldados ingleses corre
a história - que certamente virará lenda, de que os soldados
argentinos ficavam aterrorizados ao ouvir o grito de guerra dos ferozes
gurcas: Aio Gurcali!...
Fonte: revista Commando
- 1990
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