Entre os “hippies” há um fator comum,
facilmente identificável: a vida familiar infeliz no passado. Muitos
deles vestem simplesmente seus casacos de couro, calças de zuarte,
botas ou sandálias, e saem de casa para nunca mais voltar. Optaram
por uma nova ordem, recusam o compromisso, a obediência, as normas
sociais. Quando eles fogem de casa, rompem com tudo. Ou pensam que romperam.
Na foto ao lado, hippies no final dos anos 60, em San Francisco, EUA.
A
fuga
Arthur Rimbaud (1854 – 1891) foi
no século passado o hippie típico que foge de casa e sai
pelo mundo sem saber bem à procura do que. Aos dezesseis anos, já
havia escrito a maior parte das poesias que o tornariam famoso tempos depois.
Ensaia então sua primeira fuga: vende os livros ganhos em prêmios
escolares, compra uma passagem para Bohon, perto da cidade natal de Charleville,
França, mas fica no trem até Paris. É o verão
da Guerra Franco-Prussiana e Rimbaud vai imaginando assistir à queda
do governo imperial. Ao desembarcar em Paris, ou paga à companhia
ferroviária os 13 francos que deve ou então vai para a cadeia.
Como não tem dinheiro, é encarcerado. Escreve a um amigo,
que vai tirá-lo da prisão, e acaba voltando a Charleville.
Dez dias depois, foge de novo de casa, desta vez a pé para a Bélgica,
na esperança de conseguir emprego na redação de um
jornal.
Sua mãe o traz de volta a
Charleville e o jovem poeta assiste aos bombardeios de Mezieres e de Charleville
pelos soldados do Kaiser. No começo de 1871, Rimbaud passa uns tempos
lendo tudo o que pode na biblioteca da sua cidade. Mas em fins de fevereiro
não resiste mais: vende seu relógio de prata e toma o trem
para Paris. Vagabundeia alguns dias pelas ruas da cidade, quase sem dinheiro,
e acaba voltando a pé para Charleville, através das linhas
inimigas, fazendo-se passar por franco-atirador junto aos camponeses que
o hospedam. de volta a Charleville, a cidade familiar o sufoca cada vez
mais. Rimbaud interpela os padres na rua e rabisca “Morte a Deus!” nos
bancos das praças públicas. No fim do ano, ele volta a Paris,
desta vez ao encontro do poeta Verlaine, levando os manuscritos de seus
poemas.
Mesmo a amizade de Verlaine não
lhe traz sossego. Novas viagens: Bélgica, Inglaterra, de novo Bélgica,
onde decide romper com Verlaine, e este o fere no braço com um tiro
de revólver. Rimbaud tranca-se num celeiro e termina Une Saison
en Enfer. Tem dozenove anos e nunca mais voltará a escrever. Começa
em sua vida o ciclo da fuga maior – não mais de casa, da cidade,
mas do próprio País, em busca de horizontes mais amplos.
Emprega-se como professor em Stuttgart, Alemanha, mas semanas depois deixa
Stuttgart a pé, a caminho de Brindisi, mas desmaia na estrada (insolação)
e é repatriado pelo cônsul francês em Livorno. Chegando
a Marselha, tenta alistar-se no exército, mas acaba desistindo.
Passa o inverno de 1875 (agora ele tem 21 anos) em casa de sua família
estudando italiano, espanhol, árabe, grego moderno e holandês.
No ano seguinte, na Holanda, engaja-se por seis anos no exército
colonial holandês. Embarca com um contigente e chega a Java. Três
semanas depois, deserta. Engaja-se num veleiro inglês que o traz
de volta à Europa. Desembarca em Bordeaux e volta a pé para
Charleville. Consegue dinheiro emprestado da mãe e viaja para Viena;
é roubado por assaltantes e, expulso pela polícia austríaca,
volta a pé a Charleville.
Ainda a pé atravessa Holanda
e chega a Hamburgo, onde consegue emprego de interprete num circo itinerante.
De Estocolmo é repatriado para a França e semanas depois
está em Marselha, de onde embarca para Alexandria. Doente, é
desembarcado em Civita-Vecchia; daí segue a Roma e volta a Charleville,
onde passa o inverno. Agora é a busca do Oriente: “Só posso
viver nos países quentes”, diz a um amigo em 1879. Novas viagens
(Suiça, Itália, Grécia, Egito), novas doenças
(febre tifóide, subnutrição), novos retornos à
casa dos pais em Charleville.
Escreve Henry Miller em O Tempo dos Assassinos:
- Em todas essas fugas e investidas
está sempre sem dinheiro, sempre a pé e geralmente de estômago
vazio. Em Civita-Vecchia é acometido de uma febre gástrica,
conseqüência de uma inflamação das paredes do
estômago causada pela fricção das costelas contra o
abdome. Excesso de andar a pé. Na Abissínia, é o excesso
de cavalgar. Tudo em excesso. Ele trata a si mesmo de maneira desumana.
O objetivo está sempre mais além.
Rimbaud não escreve mais
– só cartas. Mas alguns amigos gravam suas frases e opiniões.
O Rimbaud dessa fase antiliterária já começou sua
“revolução cultural” um século antes dos hippies.
Diz no verão de 1879 (tem 24 anos de idade) a um amigo:
- Comprar livros, principalmente deste
tipo, é uma besteira completa! Você tem uma bola sobre os
ombros que deve substituir inteiramente todos os livros. Os livros, alinhados
nas estantes, só devem servir para dissimular as leprosidades das
velhas paredes.
Garoto ainda, Rimbaud é um hippie
dos mais cabeludos e chama a atenção dos burgueses na ruas
de sua cidade. Um dia, jovens caixeiros de um loja jogam-lhe alguns vinténs:
“Toma aqui, menino, vai cortar o cabelo”. Rimbaud ri e, por sua vez, vai
gastar o dinheiro em tabaco. Ele é o hippie que se opõe à
sociedade burguesa:
- Há destruições
necessárias... Há velhas árvores que é preciso
cortar e sombras seculares cujo costume amável perdemos. Esta sociedade
mesmo: é preciso submetê-la a machados, picaretas e rolos
compressores.
A educação, para ele, era
toda errada:
- Que trabalho! Tudo ainda por varrer
da minha cabeça! Ah, como é feliz a criança abandonada
num canto de rua, educada ao acaso, chegando à idade adulta sem
qualquer idéia inculcada por professores ou pela família;
nova, limpa, sem princípios nem preconceitos – pois tudo o que nos
ensinam é farsa! – livre, livre de tudo.
Mas há um preço para esta
liberdade – o marginalismo social e a miséria – que Rimbaud está
disposto a pagar:
- Estarei bem aqui, - diz ele, no seu
refúgio campestre de 1871. – Tragam-me todo dia um pedaço
de pão. Não preciso de mais nada. Assim serei livre!
Com
as drogas, nasce a filosofia psicodélica
Drogas que deformam a percepção,
falseiam o ímpeto criador, distorcem os sentidos. Do seu uso, nasce
uma nova filisofia: o psicodelismo dos “hippies”. Na procura de uma pseudoverdade
interior, eles recorrem aos estimulantes, aos psicotrópicos. O álcool
já não os satisfaz; só os alucinógenos, como
a maconha e o LSD. Querem fugir, buscam perigosos paraísos artificiais.
Thomas
De Quincey
Órfão aos sete anos
de idade, fugitivo da escola aos dezoito, um ano e meio de vagabundagem
pelo País de Gales e em Londres – os caminhos de Thomas De Quincey
(1785 – 1859) são os de um autêntico hippie até mesmo
na busca de sensações mórbidas através dos
alucinógenos. Em março de 1804 (aos dezoito anos), De Quincey
tomou ópio pela primeira vez para aliviar as dores de uma nevralgia
facial aguda. Tomou e gostou: a partir de 1813 é “um tomador de
ópio regular e convicto”. É a época em que nas tardes
de sábado, em Manchester e outras cidades da Inglaterra, os balcões
das drogarias ficam cobertos de pílulas para atender à intensa
demanda noturna de ópio.
Essa experiência, De Quincey
a descreve nas Confissões de um Tomador de Ópio Inglês.
O texto do livro sofreu várias alterações e se, na
edição de 1822, o autor adverte os leitores contra os perigos
de ópio, na edição de 1856 De Quincey – que tomou
ópio até o fim de sua vida – ocupa-se mais do valor medicinal
da droga. Mas, escrevendo de uma perspectiva já distorcida, confessa
que o ópio era para ele “a mais potente de todas as receitas contra
a irritação nervosa e contra a formidável maldição
do taedium vitae”. De Quincy compara-o com as bebidas alcoólicas:
- Enquanto o vinho desorganiza as faculdades
mentais, o ópio, pelo contrário, introduz nestas faculdades
a mais deliciosa ordem, legislação e harmonia ... comunicando-lhes
serenidade e equilíbrio.
De Quincey, no começo do século
XIX, esboçou uma doentia “filosofia do ópio”; o poeta francês
Charles Baudelaire (1821-1867) aprofunda em meados do mesmo século
essa busca anormal de Paraísos Artificiais – título de um
livro de ensaios de 1860, em que ele estuda o vinho, o haxixe, a cocaína,
o ópio, a cicuta islandesa, a beladona e outros meios de multiplicação
da individualidade”. O sentido de “viagem” na procura do que chama “o gosto
do Infinito” é tão itenso em Baudelaire que a imagem hippie
transparece em várias poesias suas, particularmente em Le Voyage,
quando chega ao extremo de exaltar “os amantes da demência”. Mais
tarde seria parodiado pelos Beatles em “Happiness is warm gun” = “A felicidade
é uma arma fumegante”, isto é, “uma seringa cheia de tóxico”).
Ele exalta a droga:
- Eis a felicidade – na capacidade de
uma pequenina colher! A felicidade com todas as suas loucuras ...
Baudelaire fixou a maior parte de
seus estudos no haxixe (Cannabis indica), versão árabe da
marijuana dos hippies, através da qual se pode atingir “o que os
orientais chamam o kief (termo largamente empregado hoje pelos hippies),
a felicidade absoluta”. Como fumar o haxixe? Baudelaire explica:
- Sempre que possível, é
preciso um belo apartamento ou uma bela paisagem, um espírito livre
e descomprometido, e alguns cúmplices cujo temperamento intelectual
esteja próximo do nosso; um pouco de música também
ajuda.
O poeta descreve as emoções
malsãs encontradas nos “paraísos farmacêuticos”:
- É uma beatitude calma e imóvel.
Todos os problemas filosóficos estão resolvidos. Todas as
questões complexas com que se esgrimem os teólogos e que
fazem o desespero da humanidade pensante aparecem límpidas e claras.
Toda contradição tornou-se unidade.
Baudelaire descreve as sensações
do haxixe com a mesma intensidade embriagada do homo psychodelicus hippie:
entram no cérebro com uma violência vitoriosa. Delicadas,
medíocres ou mesmo más, as pinturas dos tetos se revestirão
de uma vida extraordinária; os mais grosseiros papéis de
parede que cobrem os quartos dos albergues se abrirão como esplêndidos
dioramas. As ninfas de carnes fartas nos encaram com grandes olhos, mais
profundos e mais límpidos que o céu e a água;
os personagens da antiguidade, envoltos em seus trajes sacerdotais ou militares,
trocam com a gente, apenas pelo olhar, confidências solenes. A sinuosidade
das linhas é uma linguagem definitivamente clara onde lemos a agitação
e o desejo das almas.
Da descrição das sensações,
Baudelaire parte para as implicações filosóficas do
uso dos alucinógenos.
- Não devemos aqui falar de coisas
mais graves? Das modificações dos sentimentos humanos e,
uma palavra, da moral do haxixe?
Mesmo a própria linguagem sofrerá
uma subversão e um enriquecimento na mente intoxicada do fumante
de haxixe.
- A gramática, até a árida
gramática, torna-se algo como uma feitiçaria evocativa; as
palavras ressuscitam, revestidas de carne e osso , o substantivo, na sua
majestade substancial, o adjetivo, roupa transparente que o veste e colore
como um verniz, e o verbo, o anjo do movimento, que dá o ritmo à
frase.
A busca atormentada de um falso Nirvana,
o sentido pervertido de comunhão com a natureza que os hippies procuram
na religião oriental e no zen-budismo aparecem também
em Baudelaire, pioneiro dessa psicologia atribulada:
- A gente empresta inicialmente à
árvore nossas paixões, nosso desejo ou nossa melancolia;
os gemidos da árvore e suas oscilações tornam-se nossos
e em pouco tempo somos árvore. Igualmente, o pássaro que
plana no fundo do azul representa inicialmente o desejo imortal de planarmos
acima das coisas humanas; mas então já somos o próprio
pássaro.
E nesta imagem oriental:
- Os sons têm uma cor, as cores
tem uma música. As notas musicais são números e resolvemos
com um rapidez espantosa cálculos prodigiosos de aritmética,
à medida que a música se desenvolve em nossos ouvidos. Estamos
sentados e fumamos; acreditamos que fumamos o cachimbo; é o cachimbo
que nos fuma; e somos nós mesmos aquilo que exalamos na forma de
nuvens azuladas.
Henry
Murger
- A Boêmia – escreveu um geógrafo
anônimo de meados do século passado – é um distrito
no departamento do Sena limitado ao norte pelo frio, a oeste pela fome,
ao sul pelo amor e a leste pela esperança.
Ele descrevia aquela parte de Paris, à
margem esquerda do Sena, conhecida desde a Idade Média pelo nome
de Quartier Latin, Bairro Latino, porque os estudantes medievais que fequentavam
suas universidades só falavam latim entre si. A classe de artistas,
escritores, estudantes e marginais que ali se instalou começou a
receber, por volta de 1830, o nome de “boêmios”. Muita gente, é
claro, procurava aqueles velhos quarteirões de Paris para “brincar
de artistas pobres no meio de artistas de verdade e pobres de verdade”.
Mas o verdadeiro boêmio, reflatário aos valores burgueses
da época, sofria de fome e frio e acabava morrendo cedo, geralmente
de tuberculose. O seu mundo apareceu descrito e sistematizado pela primeira
vez no romance clássico de Henry Murger, Cenas da Vida Boêmia:
um grupo de amigos, todos artistas, passa por uma série de aventuras
para sobreviver, arrancando o dinheiro da sociedade burguesa pelos expedientes
mais complicados e engenhosos. As cenas de comédia e a alegre camaradagem
vão terminar em tragédia com a morte de Mimi, tuberculosa,
e a tristeza de Rodolfo, seu amante. Mas o enrêdo é apenas
um pretexto para que Murger (1822-1861) descreva um mundo conhecido seu.
Filho de um zelador de prédio, ele passou a juventude em extrema
pobreza, na companhia de artistas e escritores paupérrimos, em busca
do seu caminho. Numa tentativa de classificação dos boêmios,
Murger analisa o “heroísmo insensato” dos que morrem “dizimados
por esta doença à qual a ciência não ousa dar
seu verdadeiro nome – a miséria”. O dilema dos hippies, entre o
sonho medíocre da aposentadoria e a marginalidade, é o mesmo
dos boêmios de Murger:
- Se quisessem, muitos poderiam escapar
a esse desfecho fatal. Bastariam apenas algumas concessões feitas
às duras leis da necessidade, ou seja, saber descobrir sua
natureza em dois seres: o poeta, sempre sonhando com os altos cumes; e
o homem, proletário de sua vida, sabendo conquistar o pão
de todo dia. Mas esse dualismo não existe na maioria desses jovens
que o orgulho, um orgulho bastardo, tornou invulneráveis a todos
os conselhos da razão.
Outros, que ele chama “boêmios
amadores”, encontram nesse tipo de vida “uma existência cheia de
seduções: não jantar todos os dias, deitar-se debaixo
das estrelas ou das lágrimas das noites chuvosas e vestir roupas
leves de algodão no inverno parece-lhes o paraíso da felicidade
humana e por isso eles desertam, este da casa familiar, aquele dos estudos
que conduzem a uma meta certa”. Tudo isso para quê? – pergunta Murger.
Para terem depois a “satisfação de contar aos outros sua
miséria de artista com o mesmo entusiasmo com que um viajante relata
uma caça ao tigre”.
Murger viu também nos boêmios
outra característica do hippie e do marginal:
- A Boêmia fala entre si uma linguagem
particular, mistura de conversa de atelier, jargão de bastidores
teatrais e termos das redações de jornais. Todos os ecletismos
de estilo encontram-se nesse idioma fora do comum onde as frases apocalípticas
aparecem lado a lado com a linguagem comum, onde a ruda gíria popular
se alia a períodos de imensa extravagância... Esse vocabulário
do boêmio é o inferno de retórica e o paraíso
do neologismo.
A publicação das Cenas da
Vida Boêmia, em 1849, trouxe alguma fama e sucesso a Murger,
que pode assim viver mais confortavelmente. Mas, como bom boêmio,
não abandonou as rodas de amigos e as noitadas nos cafés
de Paris, morrendo antes de completar quarenta anos de idade.
Sem
destino
Somente no século XX, entre
as décadas de 60 e 70, os hippies voltariam a ter destaque, não
individualmente, como os acima citados, mas em grupos, também com
o mesmo preconceito contra a burguesia, também exaltando as drogas,
como De Quincey...Mas eles tinham como meta, além da vida livre,
do amor livre (a época do Faça Amor, não Faça
Guerra), que usaram como mote contra a Guerra do Vietnam, eles queriam
viver em comunidades, plantando e colhendo, numa vida mais chegada para
a anarquia, do que para a liberdade literal.
O movimento hippie da era moderna
- assim como o dos malucos dos séculos passados, a grosso modo,
não deu em nada, ficando apenas, como símbolo dessa era,
a fenomenal reunião hippie no festival de Woodstock e Jack Kerouac,
autor hippie de Pé na Estrada, que deu origem ao filme Sem Destino,
com Peter Fonda, que também virou cult entre a moçada. |