Ambição,
Injustiça, Violência,
Traição
e Morte...

Nascido em 1898, no
Sítio Passagem das Pedras, em Serra Talhada, Pernambuco, Virgulino
Ferreira da Silva viria a transformar-se no mais lendário fora-da-lei
do Brasil. O cangaço nasceu no Nordeste em meados do século
18, através de José Gomes, conhecido como Cabeleira, mas
só iria se tornar mais conhecido, como movimento marginal e até
dando margem a amplos estudos sociais, após o surgimento, em 1920,
do cangaçeiro Lampião, ou seja, o próprio Virgulino
Ferreira da Silva. Ele entrou para o cangaço junto com três
irmãos, após o assassinato do pai. Com 1,79m de altura, cabelos
longos, forte e muito inteligente, logo Virgulino começou a sobressair-se
no mundo do cangaço, acabou formando seu próprio bando e
tornou-se símbolo e lenda das histórias do cangaço.
Tem muitas lendas a respeito do apelido Lampião, mas a mais divulgada
é que alguns companheiros ao ver o cano do fuzil de Virgulino até
vermelho, após tantos tiros trocados com a volante (polícia),
disseram que parecia um lampião. E o apelido ficou e o jovem Virgulino
transformou-se em Lampião, o Rei do Cangaço. Mas ele gostava
mesmo era de ser chamado de Capitão Virgulino.
Lampião era praticamente
cego do olho direito, que fôra atingido por um espinho, num breve
descuido de Lampião, quando andava pelas caatingas, e ele também
mancava, segundo um dos seus muitos historiadores, por conta de um tiro
que levou no pé direito. Destemido, comandava invasões a
sítios, fazendas e até cidades. Dinheiro, prataria, animais,
jóias e quaisquer objetos de valor eram levados pelo bando. "Eles
ficavam com o suficiente para manter o grupo por alguns dias e dividiam
o restante com as famílias pobres do lugar", diz o historiador Anildomá
Souza. Essa atitude, no entanto, não era puramente assistencialismo.
Dessa forma, Lampião conquistava a simpatia e o apoio das comunidades
e ainda conseguia aliados.
Os ataques do rei do cangaço
às fazendas de cana-de-açúcar levaram produtores e
governos estaduais a investir em grupos militares e paramilitares. A situação
chegou a tal ponto que, em agosto de 1930, o Governo da Bahia espalhou
um cartaz oferecendo uma recompensa de 50 contos de réis para quem
entregasse, "de qualquer modo, o famigerado bandido". "Seria algo como
200 mil reais hoje em dia", estima o historiador Frederico Pernambucano
de Mello. Foram necessários oito anos de perseguições
e confrontos pela caatinga até que Lampião e seu bando fossem
mortos. Mas as histórias e curiosidades sobre essa fascinante figura
continuam vivas.
Uma delas faz referência
ao respeito e zelo que Lampião tinha pelos mais velhos e pelos pobres.
Conta-se que, certa noite, os cangaceiros nômades pararam para jantar
e pernoitar num pequeno sítio - como geralmente faziam. Um dos homens
do bando queria comer carne e a dona da casa, uma senhora de mais de 80
anos, tinha preparado um ensopado de galinha. O sujeito saiu e voltou com
uma cabra morta nos braços. "Tá aqui. Matei essa cabra. Agora,
a senhora pode cozinhar pra mim", disse. A velhinha, chorando, contou que
só tinha aquela cabra e que era dela que tirava o leite dos três
netos. Sem tirar os olhos do prato, Lampião ordenou ao sujeito:
"Pague a cabra da mulher". O outro, contrariado, jogou algumas moedas na
mesa: "Isso pra mim é esmola", disse. Ao que Lampião retrucou:
"Agora pague a cabra, sujeito". "Mas, Lampião, eu já paguei".
"Não. Aquilo, como você disse, era uma esmola. Agora, pague."
Criado com mais sete irmãos
- três mulheres e quatro homens -, Lampião sabia ler e escrever,
tocava sanfona, fazia poesias, usava perfume francês, costurava e
era habilidoso com o couro. "Era ele quem fazia os próprios chapéus
e alpercatas", conta Anildomá Souza. Enfeitar roupas, chapéus
e até armas com espelhos, moedas de ouro, estrelas e medalhas foi
invenção de Lampião. O uso de anéis, luvas
e perneiras também. Armas, cantis e acessórios eram transpassados
pelo pescoço. Daí o nome cangaço, que vem de canga,
peça de madeira utilizada para prender o boi ao carro.
Em 1927, após uma
malograda tentativa de invadir a cidade de Mossoró, no Rio Grande
do Norte, Lampião e seu bando fugiram para a região que fica
entre os estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco e Bahia. O objetivo era
usar, a favor do grupo, a legislação da época, que
proibia a polícia de um estado de agir além de suas fronteiras.
Assim, Lampião circulava pelos quatro estados, de acordo com a aproximação
das forças policiais.
Numa dessas fugas, foi para
o Raso da Catarina, na Bahia, região onde a caatinga é uma
das mais secas e inóspitas do Brasil. Em suas andanças, chegou
ao povoado de Santa Brígida, onde vivia Maria Bonita, a primeira
mulher a fazer parte de um grupo de cangaceiros. A novidade abriu espaço
para que outras mulheres fossem aceitas no bando e outros casais surgiram,
como Corisco e Dadá e Zé Sereno e Sila. Mas nenhum tornou-se
tão célebre quanto Lampião e Maria Bonita, que em
algumas narrativas é chamada de Rainha do Sertão. Da união
dos dois, nasceu Expedita Ferreira, filha única do lendário
casal. Logo que nasceu, foi entregue pelo pai a um casal que já
tinha onze filhos. Durante os cinco anos e nove meses que viveu até
a morte dos pais, só foi visitada por Lampião e Maria Bonita
três vezes. "Eu tinha muito medo das roupas e das armas", conta.
"Mas meu pai era carinhoso e sempre me colocava sentada no colo pra conversar
comigo", lembra dona Expedita, hoje com 75 anos e vivendo em Aracaju, capital
de Sergipe, Estado onde seus pais foram mortos.
Na madrugada de 28 de julho
de 1938, o sol ainda não tinha nascido quando os estampidos ecoaram
na Grota do Angico, na margem sergipana do Rio São Francisco. Depois
de uma longa noite de tocaia, 48 soldados da polícia de Alagoas
avançaram contra um bando de 35 cangaceiros. Apanhados de surpresa
- muitos ainda dormiam -, os bandidos não tiveram chance. Combateram
por apenas 15 minutos. Entre os onze mortos, o mais temido personagem que
já cruzou os sertões do Nordeste: Virgulino Ferreira da Silva,
mais conhecido como Lampião.
Mesmo 70 anos depois
da sua morte, Virgulino Ferreira da Silva, aquele menino do sertão
nordestino que se transformou no temido Lampião, ainda não
foi esquecido. E sua extraordinária história leva a crer
que nunca o será.
Matéria baseada na
edição 135 da revista Os Caminhos da Terra, por David Santos
Jr.
e em relatos de Gervásio
Aristides da Silva (Pernambuco), Rosalvo Joaquim (Sergipe)
E Lampião, Rei do
Cangaço, de Eduardo Barbosa (fotos).
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