Lampião teve um processo
tramitando na justiça de Pernambuco por quase 70 anos, onde ele
e seu bando eram acusados da morte de 3 pessoas em 1925. O processo foi
instaurado em 1928 e, mesmo após a morte do Rei do Cangaço,
não foi julgado, extinto ou arquivado. E o processo,
por mais incrível que possa parecer, mostrando o quanto é
complicado o labirinto do nosso Judiciário, continuou aberto no
fórum de Flores, cidade próxima a Serra Talhada, onde nasceu
Lampião. De acordo com o juiz da cidade, na época, não
foram apresentados os atestados de óbito dos réus, como exige
a lei. (Isso é que é seguir um manual! - NE).
Somente em 1997, 69 anos após
a abertura do processo, o juiz Clóvis Mendes, de Serra Talhada,
julgou a prescrição da ação com base
no fim do prazo legal de 20 anos...Então, finalmente, o processo
contra Lampião e seu bando foi arquivado! Se estive vivo, o capitão
Virgulino certamente diria: " A justiça (dos homens) tarda...e falha!"
Lampião e Maria Bonita tiveram
uma filha, Expedita, que lhes deu 3 netos: Cleyse Mary, Djair e Vera Lucia,
a jornalista que já há anos vem lutando para preservar a
memória dos avós e corrigir algumas injustiças feitas
aos dois, diante de tantas lendas surgidas sobre os dois, sobrepujando
os fatos. Os dados e fotos dos netos (ainda crianças), constam do
livro Lampião, Rei do Cangaço, de Eduardo Barbosa, de onde
foram extraidas algumas das fotos mostradas aqui.
Lampião teve três irmãos
ao lado dele no cangaço: Antonio, Livino e Ezequiel, de apelido
Pente Fino. Todos os três morreram antes de Lampião, em combate
com as volantes.
O primeiro a rotular Maria Bonita
como a Rainha do Cangaço, foi o cangaceiro e cantador Zabelê,
do bando de Lampião, claro. Zabelê sobreviveu à emboscada
de Angicos (veja abaixo porque) e ainda escreveu um livro sobre Lampião.
Como escrevi acima, as lendas sobrepujaram
até o próprio Rei do Cangaço. Verdade ou não,
elas ficaram, recheando a verdadeira história de Lampião
com fatos engraçados e muitas versam também sobre o lado
justiceiro de Lampião. Além da história da cabra da
velhinha, na página anterior, tem também a do sal, que é
meio semelhante: Lampião e seu bando foram acolhidos por uma senhora,
também de idade avançada, e ele pediu a ela para preparar
um jantar para o bando. A velhinha, não tendo quase nada em casa,
teve que fazer um caldeirão de sopa às pressas para os famintos
cangaçeiros. Com a pressa e o medo, ela acabou esquecendo de colocar
sal na sopa...
A sopa foi servida e todos começaram
a sorvê-la, sem problemas, mas um dos cabras, novato no bando, para
talvez fazer bonito diante de Lampião ou por idiotice mesmo, começou
a gritar com a pobre velha sobre a falta de sal. Lampião terminou
sua sopa sem nada dizer. Depois, tranquilamente, perguntou ao bando se
alguém sentiu falta de sal. Exceto o tal reclamante, o restante,
que não era besta, disse que não, que a sopa estava ótima!
Então Lampião perguntou à velhinha se tinha mais
sal em casa. Ela disse que sim e ele então mandou ela trazer um
quilo! Ela correu a obedecer. Quando veio com o sal, Lampião mandou
ela despejá-lo no prato do sujeito que havia reclamado, e ordenou:
- Você reclamou da falta de sal, cabra, pois agora tem aí
bastante sal, e você vai comê-lo até limpar o prato!
Apesar dos lamentos do homem, Lampião
o obrigou a comer todo o sal do prato e, quando ele pedia água,
Lampião não deixava que ele bebesse. E assim foi. Quando
o cangaçeiro, até verde de tanto comer sal, sentindo suas
entranhas em brasa, terminou, Lampião o expulsou, mandando que o
mesmo sumisse de sua frente, ameaçando que, se o encontrasse novamente,
iria sangrá-lo. É claro que o tal sumiu até hoje...Saindo
da casa, já um pouco distante, Lampião parou, olhou para
trás, coçou a cabeça e comentou com um cangaçeiro
próximo a ele: - E num é que aquela sopa tava uma disgraçeira
de insôssa? - E o cabra ao seu lado, concordou imediatamente: - Tumém
achei, capitão. Tumém achei...
Já do apelido Lampião,
tem a lenda narrada na página anterior e uma outra que é
sobre uma noite em que Virgulino (que ainda não era Lampião)
e seu bando estavam numa bodega (tipo de hospedaria à beira da estrada),
e um dos homens deixou cair o cigarro. O vento havia apagado o candieiro,
então Virgulino falou que ia disparar seu fuzil para fazer um clarão,
até o sujeito achar o cigarro. E a cada tiro que dava, ele gritava:
acende, lampião! Acende, lampião! E assim surgiu o famoso
e temido apelido.
Os grandes chefes de cangaceiros,
antes de Virgulino entrar no cangaço, eram: Antonio Quelé,
Casemiro Honório, Né Pereira e Antonio Silvino, foi nos bandos
destes últimos que Virgulino iniciou-se na senda de crimes.
Abraão Benjamim, judeu ou
árabe naturalizado brasileiro, o autor Eduardo Barbosa não
especifica. No livro ele é chamado de Turcão, o que torna
mais difícil saber sua descendência. Ele foi o primeiro e
último homem a filmar Lampião. Ele acompanhou os cangaceiros
durante 6 meses, nos acampamentos e nas batalhas com as volantes, e são
da autoria dele o filme real sobre Lampião e centenas de fotos do
cangaçeiro, de Maria Bonita e do bando. Benjamim foi assassinado
logo após esse trabalho de grande valor jornalístico, com
52 facadas em Vila Bela, por desafetos de Lampião.
Zabelê, sanfoneiro e repentista
oficial do bando, disse em depoimento que foi o próprio Lampião
quem fez a letra e música de Mulher Rendeira.
Lampião reinou absoluto no
cangaço nordestino por 20 anos. E mesmo antes de ser enganado pelas
autoridades, recebendo a patente de capitão e a garantia de anistia
para ele e todo o bando, para enfrentar a Coluna Prestes, fato que foi
testemunhado pelo seu próprio padrinho o Padre Cícero Romão,
outra lenda do Nordeste, sempre manteve um status quo de comandante
de um exército. Seu bando, composto por mais de 100 homens, tinha
um tipo de “estado-maior”, formado pelos homens de mais confiança.
Então, normalmente, para confundir as volantes, Lampião dividia
o bando em 3 grupos, sendo um liderado por ele próprio e os outros
2, pelos seus “lugares-tenentes”. Foi por causa dessa estratégia
que alguns do bando escaparam à emboscada em Angicos, como Zabelê
e Corisco, chamado também de Diabo Loiro, que segundo autores de
relatos sobre o cangaço, foi quem vingou a morte de Lampião.
Corisco foi morto pelas volantes 2 anos depois.
Mas, assim como Napoleão,
que errou na estratégia da guerra por não contar com os elementos
da natureza e Hitler, que sacrificou boa parte de seus homens por não
contar em sua estratégia de dominação com as geladas
estepes russas, Lampião também, apesar de usar estratégias
de guerrilha, errou ao armar acampamento numa ravina e sem colocar sentinelas.
Esse foi seu grande erro em Angicos.
Também, ao que parece uma
sina de todo grande guerreiro, o fator traição pesou mais
que tudo. Zumbi foi traido e morto; Tiradentes foi traido e morto; Beckman
foi traido e morto; Zapata, herói mexicano, foi traido e morto;
o rei Leônidas, de Esparta, foi traido e morto; Jesse James, traido
e morto; e Lampião, como que fechando a sina, em 1938, é
traido e morto.
Nos registros sobre os pertences
de Lampião, feitos pela polícia militar de Alagoas, consta
a famigerada pistola Parabellum, alemã, 9mm, fabricada em 1918,
número de série 97.
Através de um exame de DNA
realizado nos EUA, foi descoberto em 1994 o segundo filho de Lampião
e Maria Bonita. Trata-se de João Ferreira da Silva, conhecido por
João Peitudo, 62 anos, que morreu de morte natural no dia 26 de
junho de 2000, em Juazeiro do Norte, a 563 quilômetros de Fortaleza.
O filho de Lampião deixou
cinco filhos, mas apenas um (Francisco Ferreira da Silva), morava com ele
no bairro Pirajá, em Juazeiro. Os outros quatro residem em São
Paulo.
Nascido em 1938, segundo a mídia,
João Peitudo foi deixado com 42 dias de vida na casa de dona Aurora
da Conceição, em Juazeiro, durante a passagem do bando de
Lampião pela região do Cariri. Lampião furou as orelhas
do filho com um punhal com o objetivo de deixar uma marca para reconhecê-lo
quando voltasse para pegar. Nunca retornou. João Peitudo era funcionário
aposentado da Prefeitura de Juazeiro. Com a morte de João Peitudo,
a única herdeira viva de Lampião é Expedita Ferreira
Nunes, filha do casal de cangaceiros, e que mora em Sergipe.
* Mais trabalhos
sobre Lampião:
Lampião, Rei do Cangaço,
de Eduardo Barbosa
Almas de Lama e Aço, de
Gustavo Barroso
Bandoleiros das Caatingas, de Melchíades
da Rocha
Lampião em Mossoró,
de Raimundo Nonato
Na Terra de Lampião, de
Alexandre Zabelê – O sanfoneiro, testemunha viva da história
de Lampião.
Lampião, de Ranulfo Prata
Heróis e Bandidos, de Gustavo
Barroso
Lampião, de Optato Gueirós
– Major da polícia pernambucana e ex-comandante das Volantes – Também
testemunha viva. |