Lampião
- Parte 3
versos
de Zabelê
Mantivemos os documentos
em sua forma ortográfica original,
como os encontramos na pesquisa
Para
pegar Lampião
Zabelê
Para pegá Lampião, nem o
ezerço e a marinha, nenhuma tropa de linha
Nem o bataião navá, nem
a força federá arrodeada a canhão
Onde anda Lampião, sordado nenhum
vai lá
Para pegá Lampião, nem baiano
mandiguero, nem o Rio de Janero
Com toda a gente de lá mais os
navio do má
E todos seus avião. Onde canta
Lampião, só pode um galo cantá
Para pegá Lampião, nem o
nosso Gois Montero,que é bicho escopetero
Nem mesmo treis marechá com treis
e treis pachá
Muita tropa e munição. Quem
mexê cum Lampião tem que a mortáia aprontá
Para pegá Lampião, nenhum
brabo ainda nasceu. Se hove argum, já morreu
Sem tê chegado a mamá. Morreu
de tanto apanhá
De cascudo e bofetão. Só
falá de Lampião, já é pecado mortá
Para pegá Lampião, nem o
mais feroz jaguá, nem os tubarão do má
Nem a cobra sucurí, nem um bando
de lião
Acabá cum Lampião é
istória pra boi drumi
Para pegá Lampião, valente
que nem a peste
Todas tropa do Nordeste, da Bahia ao Ceará
Não chega nem pra lhe dá
os aperto dum beliscão
Quando elas vem, Lampião espia
e vai se deitá
Para pegá Lampião, nem as
tropa da Alemanha, nem o Armirante Sardanha
E nem o Mina Gerá. Nem cinquenta
generá cum cinquenta divisão
Quem possa cum Lampião, num naceu,
nem nacerá
Para pegá Lampião, caboco
desassombrado, que tem o corpo fechado
Mais duro que pedra preta, que num morre
de careta, nem tem medo de oração
Para pegá Lampião, só
vindo doutro praneta
Para pegá Lampião, que veve
de deo em deo, nem os castigo do céu
Nem veneno, nem mocó, nem o fogo
corredô
Nem curisco ou zelação.
Nos oio de Lampião isso tudo já passô
Para pegá Lampião, nem as
arma doutro mundo, nem as astuça do imundo
Nem as treição do destino,
fantasma, agoro de sino
Istoras de assombração.
Na vorta de Lampião, é brinquedo de menino
Para pegá Lampião, que leva
tudo na cheta, nem os podê do capeta
Do brabo, do maiorá, que dentro
da taboca
Dá carta e joga de mão.
Para pegá Lampião, Berzebu vai se inroscá
Para pegá Lampião, nem frade
de boa vida, nem cem muié inxirida
Nem as prosas dos doutô, nem vinte
gunvernadô
Nem o bamba da nação. Para
pegá Lampião, só mesmo Nosso Sinhô.
Minha
vó...
E Zabelê, com sua veia criativa
fazia também, no improviso, versos
brincalhões, para alegrar aquele
bando de almas perdidas sob o
abrasador sol que castigava homens
e animais em toda a Caatinga.
Os versos ao lado, sob sua
fictícia avó, é mostra
de um
desses versos alegres e
descontraidos. Porém, em todos
eles
dá pra se notar que Zabelê
era muito
esperto, colocando sempre em seu
trabalho alguma referência ao chefe,
à Maria Bonita ou a Corisco, braço-
direito de Lampião.
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