Você
quer saber se existe vida em outros mundos? O velho Artaxerxes poderá
lhe contar...ou não. Ele é um sábio, e os sábios
na maioria das vezes vivem no silêncio de sua sabedoria...
E assim era Madeira
de Leite
Se você, viajante,
turista, aventureiro, vendedor ou vagabundo, um dia passar numa certa estrada
a norte do Rio Grande do Sul, a sul do Ceará, a leste de Pernambuco
e a oeste de Minas Gerais, verá uma placa de madeira, já
carcomida pelo tempo, mas aonde ainda dá para se ler: bem-vindo
a Madeira de Leite. Indo um pouco mais adiante, há outra placa,
também de madeira e tão castigada quanto a outra, avisando:
Madeira de Leite a um tirinho de espingarda. É ai. Você estará
chegando no local onde outrora existia uma vila chamada Madeira de Leite.
A cidade era bem pequena.
Tão pequena que nem constava no mapa do Brasil. Madeira de Leite
nem era uma cidade e sim, um povoado, uma vila. A comunidade era formada
por apenas 300 almas, entre homens, mulheres e crianças. A vila
era realmente tão pequena que nem a igreja católica conhecia.
Portanto, lá não havia igreja. Mas assim mesmo o povo de
Madeira de leite era muito religioso.
A biblioteca da vila
tinha apenas uns poucos livros. Entre eles, a Bíblia e um
livro ensebado, já até sem capa, que versava sobre as antigas
civilizações. Havia também a Divina Comédia,
de Dante, um livro da História do Brasil e um catálogo da
lista telefônica do Ceará. Além destes cinco, considerados
pela comunidade como os mais importantes, o restante do acervo da biblioteca
era formado por umas duas ou três revistas O Cruzeiro. Como o livro
sagrado e esses outros livros e revistas havia chegado a Madeira de Leite,
ninguém sabia. Era um mistério. Mas havia os livros, as revistas
e a lista telefônica do Ceará, e era através deles
que a comunidade de Madeira de Leite era educada, advindo daí a
cultura e religiosidade do povo, além da mania de misturar nomes
gregos com Severinos e outros, que eles achavam nos ditos livros e na lista
telefônica, e colocar esses nomes nos filhos. Por causa disso, mesmo
se não houvesse grau de parentesco, todos os moradores de Madeira
de Leite tinham o sobrenome Silva. Já que era o que mais havia na
lista telefônica, todos eles adotavam tal sobrenome.
Além do mais,
já que era um pequeno povoado, lá não havia prefeito
e, consequentemente, não havia Prefeitura e, não havendo
Prefeitura, todos eram donos das terras de Madeira de Leite e ninguém
era dono de nada ao mesmo tempo, pois não havia cartório
de registro de imóveis. Assim, ninguém em Madeira de leite
pagava impostos e, dessa maneira, já que a cidade desconhecia políticos,
todos trabalhavam para sua própria sobrevivência.
O sábio
Artaxerxes
Artaxerxes era o morador
mais antigo da vila. Ninguém sabia ao certo sua idade, já
que Madeira de Leite também não tinha cartório de
registro de nascimento. O povo em geral concordava que o velho Artaxerxes
tinha mais de 150 anos de idade, e o respeitava como ancião e pela
sua sabedoria. Ele era o único que sabia diferenciar, por exemplo,
o sexo dos sapos. Quando alguém tinha dúvidas, era só
levar o batráquio até o velho Artaxerxes, que ele, cofiando
a longa barba branca e com um dos olhos fechados, em atitude de concentração,
logo dizia se era sapo ou perereca.
Mas tinha também
a velha Severina, que fumava seu castigado cachimbo e arrastava seus surrados
chinelos pela empoeirada e única rua de Madeira de Leite, há
bem uns 100 anos, calculavam os moradores mais antigos.
Severina era parteira,
benzedeira e curandeira da cidade. E tinha tanta prática em partos,
que mal uma mocinha acabava de casar, ela só olhando as ancas da
jovem já dizia quantos filhos ia ter, e passando seus olhinhos pequenos
e já sem brilho pelo corpo do marido da ex-virgem, como lá
chamavam as mocinhas recém-casadas, a velha já dizia se a
predominância do casal seria de ter filhos ou filhas.
Assim era Madeira
de Leite, uma feliz comunidade que teve um fim mais misterioso do que ela
própria. Platão da Silva, que depois do velho Artaxerxes,
era a pessoa mais respeitada da vila pelos seus conhecimentos gerais, informava
impávido, quando algum visitante passava por lá coisa que
acontecia de década em década, que Madeira de Leite tinha
altitude, pois era situada a oeste de Minas Gerais, e por isso era montanhosa
e bem acima do nível do mar; e, segundo Platão, a vila também
tinha amplitude, já que fazia fronteira com os pampas infindáveis
e as caatingas nordestinas. Mas assegurava, do alto da sua cultura geográfica,
que Madeira de Leite não tinha latitude, pois lá não
havia cachorros, portando, sem latidos...
Platão
da Silva, a bandeira de Madeira de Leite e os 7 mares
Platão nunca
pôs os pés numa escola. É...Madeira de Leite também
não tinha escola. Mas como ele era o sujeito que mais lia, ele mesmo
se auto-proclamou professor das crianças da comunidade. Platão
lia e relia os poucos livros da biblioteca, e o fazia tantas vezes que
o pessoal a boca pequena dizia sobre seu temor de que Platão comesse
os livros e deixasse a biblioteca vazia.
Mas o temor era infundado.
Platão realmente comia livros, mas não literalmente. Ele
já havia decorado até as vírgulas dos livros e revistas
da biblioteca, de tanto lê-los e relê-los. Ele só não
se interessava pela lista telefônica, pois de acordo com ele, era
um livro enfadonho, com muitos personagens mas sem nenhuma história...
Um dia Platão
descobriu num dos livros sobre um espanhol chamado Miguel de Cervantes
e sobre o personagem Dom Quixote, criado por ele. Não deu outra:
a partir de então, Platão acrescentou ao seu nome também
o nome do famoso personagem, e fez de tudo para ser chamado por Dom Platão
Quixote da Silva. Mas a coisa não pegou e ficou mesmo Platão
da Silva, pois era assim que o povo o conhecia desde menino.
Platão, como
não podia deixar de ser, considerava Madeira de Leite como uma cidade
no sentido literal da palavra e, por isso, foi o criador da bandeira de
Madeira de Leite. A bandeira era retangular, como todas o são, e,
para não desagradar ninguém, ele colocou nela todas as cores
do arco-íris. Ao centro, um círculo branco, que segundo ele
era o símbolo de unidade do povo e da paz. Dentro do círculo,
havia o desenho de uma árvore com apenas dois galhos laterais e,
no tronco, sobressaiam dois enormes seios. Bem, como Platão fazia
questão de chamar a vila de cidade, vamos fazer sua vontade e também
iremos nos referir a a Madeira de Leite, a partir de agora, como cidade.
Mas voltando à
bandeira, como o povo ficou meio sem entender, Aristóteles da Silva,
o desenhista oficial da cidade, contratado por Platão, e seguindo
à risca suas orientações, explicou que o tronco simbolizava
o povo; os dois galhos laterais, eram braços abertos em sinal de
boas-vindas aos visitantes; a copa era o cabelo da mulher de Madeira de
Leite; e toda a feminilidade do desenho, incluindo as duas enormes tetas,
simbolizavam num todo a cidade e a fertilidade da sua gente e de suas terras.
O povo não
entendeu nada, mas aceitou de bom grado a bandeira. Algumas mulheres pediram
que fosse desenhado um surtian sobre os seios desnudos, mas foram logo
convencidas por Platão, que alegou que nenhuma mulher dava leite
a seus rebentos através de um surtian, assim, Madeira de Leite oferecia,
sem pudor, já que não há malícia na maternidade,
suas suculentas tetas aos seus filhos, ou seja, o povo!
E assim a bandeira
foi oficializada, além da própria identidade do natural de
Madeira de Leite, que ganhou também uma definição
de Platão:
- Povo de Madeira de Leite,
escutai-me. Doravante, a partir dessa gloriosa data neste ano de Nosso
Senhor Jesus Cristo, quando os ventos dos sete mares soprarem alegremente
ao desfraldar desta bandeira, hoje postada ao alto desse magnífico
pau-de-sebo, se alguém doutras pragas vos perguntar donde sois,
vós, orgulhosamente respondereis: - Somos madeira-leitosa, naturais
da culta e progressista cidade de Madeira de Leite!
O povo, como da maioria
das vezes, nada entendeu da oratória de Platão da Silva.
Afinal, nem mar havia por ali, e ele falava de sete mares? Onde ele foi
arranjar tanto mar, era o que a maioria não perguntava verbalmente,
mas o fazia pelos olhares de soslaio entre eles. Apenas um, o senhor Praxedes,
dono da única venda do local, responsável pelo suprimento
de cereais, leite, pães, carne seca, lingüiça, como
também cimento e tijolos, pois em sua venda de tudo se encontrava
um pouco, arriscou uma tímida observação:
- Hamm...com licença,
seu Platão, mas, madeira-leitosa...Isso tá me parecendo coisa
de manteiga ou sei lá...algo meio que indefinido. Porque não
madeirense, por exemplo, e só?
Platão, do alto do
caixote de bacalhau, improvisado como palanque, tirou o óculos,
limpou-o no colete mais ensebado que as lentes do óculos, voltou-o
sobre o nariz, e retrucou:
- Caro Praxedes, é
vossa observação arrazoada, pois és um grande empresário,
responsável pela demanda econômica desta pequena metrópole,
porém, digo-vos, à guisa de resposta que, em Portugal, aquele
povo dominador, que nos subjugou por 200 longos anos e retirou as maiores
riquezas das entranhas da nossa terra e as espalhou por toda a Europa,
pois bem, naquele país de trás dos montes, existe uma ilha
chamada Madeira e, por isso, todo o natural daquele local é chamado
de madeirense ou pé de árvore. Assim, para não copiarmos
de maneira vergonhosa algo que pertence ao outrora infame dominador, eu
optei pelo madeira-leitosa. E, aleia jacta est!
Praxedes ficou na mesma,
mas não quis causar uma polêmica com tão culta figura
e tampouco diante do povo, que se acotovelava para ouvir Platão
parlamentar de sobre seu caixote de bacalhau.
O sábio
e a polenta da Zulmira
E assim era Madeira
de Leite e sua gente. Todos eram amigos de todos, todos cuidavam de sua
própria vida e, se houvesse alguma demanda, seja por terras, seja
por antipatia ou entre marido e mulher, o velho Artaxerxes era quem julgava
o caso. Mal tais fatos não constavam dos anais da história
da cidade. Aliás, houve um apenas, ocorrido há muito,
muito tempo, quando Artaxerxes era um jovem de 90 anos de idade...mais
ou menos.
Um casal o procurou
para aconselhamento. Eles estavam brigando muito ultimamente, por que,
segundo o marido, a mulher estava fazendo a polenta muito salgada, e ela,
se defendendo, disse que colocava a quantidade de sal que sempre colocou
e, chorosa, reclamava que o marido não gostava mais da polenta dela.
Artaxerxes então
pediu a ela que preparasse uma polenta e lhe levasse um prato, para ele
chegar a um justo veredito. E, ao marido, ele inquiriu qual era o tempo
do casamento deles.
Assim, sentado frente
à sua simples casinha, toda pintada de branco e cercada por frondosos
pés de manga, Artaxerxes não mais pensou no caso. Sua casa
era a última (ou a primeira, dependendo da direção)
da única rua da cidade.
Divertido, enquanto
rodopiava a desgastada bengala entre as mãos, ele admirava o verde
das árvores, se encantava com o canto de um bem-te-vi empoleirado
num galho de uma das mangueiras e em seguida olhava as montanhas distantes,
recortando o azul do céu. Depois, seu olhar ainda perfeito, apesar
da idade, mirava as brancas nuvens que se deslocavam silenciosa e calmamente
pelo firmamento. Então, para um ouvido mais aguçado, daria
para ouvir ele murmurar entre a longa barba branca:
- Quantas maravilhas, Senhor...quantas
maravilhas!
Artaxerxes somente saiu
daquele estado contemplativo quando a mulher, acompanhada do marido reclamão,
chegou trazendo às mãos um prato coberto por um guardanapo
carinhosamente bordado, onde se lia dentro da figura de um coração:
Zulmira e Nicolau.
A mulher retirou
o guardanapo e passou ao ancião, com um sorriso de satisfação,
um belo, transbordante e ainda quente prato de polenta.
Com sua sabedoria,
Artaxerxes, tendo o prato a um meio palmo do rosto, sentiu o aroma da comida
de olhos fechados e logo em seguida, arregalando bem os olhos, como um
criança diante de um doce, disse:
- Que lindo prato de polenta,
dona Zulmira! E parece deliciosa!
Apoiando-se na bengala,
ele fez menção de levantar de seu banquinho de taquara.
- Vou pegar uma colher para
provar já essa iguaria!
A esposa do homem, encantada
com aquela pré-aprovação do velho sábio, solícita
disse:
- Não precisa se
dar ao trabalho, seu Artaxerxes...eu trouxe-lhe uma colher também!
Artaxerxes agradeceu e atacou
o prato de polenta, tirando um grande naco e levando-o à boca. O
marido da mulher permanecia quieto ao lado dos dois, talvez esperando que,
à primeira colheirada o velho cuspisse a polenta, dizendo que realmente
tinha muito sal.
Mas logo ficou de olhar
arregalado quando o velho, saboreando a polenta, disse, sorrindo:
- Dona Zulmira, sua polenta
é uma delícia!
A mulher embevecida, olhou
para o marido com um olhar tipo: você viu, seu chato? Só você
reclama da minha polenta!
O marido, ainda abestado,
disse para a mulher ir à frente, que ele ia jogar um pouco de conversa
fora com o velho.
- Ah, sim...- Emendou. -
...Desculpe-me por ter reclamado de sua polenta...
Zulmira ouviu o que
desejava. Satisfeita, olhinhos faiscantes de felicidade por se considerar
a rainha da polenta, ela voltou para casa.
Quando ela já
estava à uma boa distância, o marido se acocorou ao lado do
velho e perguntou, incrédulo:
- Seu Artaxerxes, realmente
o senhor gostou da polenta? Não achou meio salgada?
O velho, como só
os sábios sabem fazer, ficou calado. Quando terminou de comer o
prato de polenta, entregou-o ao homem, passou as costas da mão pelo
local que, entre toda aquela barba, se deduzia estar sua boca, e só
então respondeu:
- Você me disse que
vocês já estão casados há 15 anos, certo?
- Certo...
- Você lembra como
era, no início do casamento?
- Cla...claro...era lindo.
A gente estava apaixonado...e ela não fazia polenta salgada!
- E não faz Garantiu
Artaxerxes Você é quem está salgando o relacionamento
de vocês.
- Co...como?!
- Simples...e não
precisa ficar acabrunhado, pois isso acontece em quase todos os casamentos.
No começo, é eu te amo, não posso viver sem você,
flores para a amada e até a comida que ela faz, esteja salgada ou
insôssa, não importa. Vocês querem mais é amar
um ao outro...Não é assim?
- Sim, meu velho...
Nicolau pegou um
graveto e, pensativo, com um meio sorriso nos lábios, começou
a traçar rabiscos na terra fôfa. Era nítido que ele
estava rememorando o início do casamento, os primeiros filhos, Zulmira,
bonita, zelosa e trabalhadora, sempre a seu lado nos momentos bons ou difíceis.
E enquanto ele se quedava a pensar, o velho continuou:
- Passados alguns anos,
esquecem dos bons tempos do namoro, o marido já não elogia
os belos olhos da esposa e esta, chateada, vai deixando os carinhos de
lado. Assim, meu filho, o casamento vai esfriando como uma noite de inverno
e você começa a achar a polenta dela, que antes era tão
deliciosa, salgada. E ela vai acabar salgando a comida mesmo, pois você
deixou de lhe dirigir palavras carinhosas, como no começo. E onde
não há carinho, o que é que vai acabando?...
Artaxerxes deixou
a pergunta no ar, como uma frase a ser terminada por Nicolau, enquanto
remexia no bolso da camisa à procura do isqueiro para acender seu
cigarro de palha.
Então ele
olhou para o homem, pois sabia qual seria sua resposta e sabia que já
estava quase terminada sua sábia missão.
Nicolau levantou-se
sem procurar esconder do velho a lágrima que escorria por sua face.
Então disse, suavemente.
- O amor, meu velho...eu
entendi. Sem carinho e sem respeito entre o casal, o amor se acaba.
- Corretíssimo, meu
filho. A polenta que sua esposa preparou para mim, foi feita com amor,
pois ela queria me agradar e, consequentemente, ter minha aprovação.
E, por isso, ela fez a polenta mais deliciosa que eu já comi até
hoje!
O homem, contente
e feliz, como sua esposa à pouco, só faltou beijar o velho.
Tomando a mirrada mão direita dele entre suas fortes mãos,
disse, sorrindo:
- A benção,
meu velho...e obrigado. Eu aprendi sua lição!
- Vá com Deus, meu
filho, e nunca se esqueça que não existe maior e nem melhor
tempero do que o amor!
E lá se foi
Nicolau, feliz, propondo em seu coração fazer o seu casamento
tal como era no começo. Artaxerxes ficou olhando-o até sua
figura ir sumindo na longa e poeirenta rua de Madeira de Leite. Então,
acendeu sossegadamente seu cigarro de palha, soltou uma baforada e virou-se
para o bem-te-vi que parecia ter parado de cantar para prestar atenção
na conversa, e agora agitava as asas e soltava seus característicos
gorgeios:
- Olha, meu amiguinho, realmente
a polenta da Zulmira estava um pouco salgada...mas agora ela vai começar
a acertar a mão de novo!
E levantando-se do seu banquinho,
entrou para a casa, dando risadinhas que só os sábios sabem
como e quando devem dar...
E assim era e assim
continuava a vida em Madeira de Leite. Tão tranquila e sossegada
como a água espelhada da lagoa que existia há uns 200 metros
fora da cidade, onde os madeira-leitosa se espreguiçavam sobre a
relva às suas margens nas tardes de sábado e domingo e onde
a molecada nadava nos ensolarados dias de verão, claro, sob a supervisão
do professor Platão, que também era técnico aquático,
como ele mesmo dizia.
O Mal aparece
em Madeira de Leite
Mas num dia terrível,
quando uma tempestade se abateu sobre a cidade, deixando o dia escuro como
breu e lançando relâmpagos sobre a terra, como se a quisesse
fender, o mal apareceu em Madeira de Leite, na figura de Lúcio Fer,
um empresário riquíssimo, dono de empresas, terras e homens.
Platão, que
olhava o pé d´água pela ensebada vidraça da
biblioteca, foi o primeiro a avistar o enorme carro preto, que jogando
lama para todos os lados, avançou velozmente pela rua da cidade,
vindo parar justamente perto do prédio onde ele estava. O motor
do carro, mesmo parado, continuou ligado, com seu ronco irritante.
Os vidros do carro
eram escuros e não se podia ver quem estava dentro dele. Platão
já estava cansando os olhos de tanto olhar o carro, enquanto sua
mente dava saltos de curiosidade. De repente, quando um trovão pareceu
sacudir a biblioteca e a Platão pareceu que os raios se concentraram
sobre o carro, uma figura imponente, toda vestida de negro e semi envolta
por uma capa vermelha, saiu do carro e, impassível à chuva,
postou-se de pé no meio da rua. O homem tinha uma bengala dourada
nas mãos, mas que devia ser só para compor sua tétrica
figura, já que ele, analisou Platão à medida que o
clarão dos relâmpagos mostravam seu rosto, não devia
ter mais de 40 anos de idade e, portanto, não precisava de bengala.
O homem plantado
no meio da lamaçenta rua, capa e cabelos fustigados pelo vento e
ainda a presença do carro preto a seu lado, fizeram com que Platão
de repente se arrepiasse da raiz dos cabelos à unha encravada do
seu pé.
O professor, mesmo
sentindo em seu coração que aquele temporal feio e fora de
época e mais aquela aparição, como se surgida do nada,
do homem e seu carro, ambos assustadores, traziam perigo à Madeira
de Leite, não conseguia desgrudar os olhos da janela. E ele poderia
jurar que o homem lá no meio da rua e da tempestade, também
olhava para ele.
O que aconteceu em
minutos, pareceu a Platão durar horas. O homem então levantou
a mão direita, e o carro foi desligado. Platão sentiu o coração
disparar quando viu que o homem, a passos largos, firmes e decididos, rumou
para a biblioteca, justamente onde ele se encontrava. Platão se
benzeu, fazendo o sinal da cruz e esperou, engolindo em seco. As portas
da biblioteca foram escancaradas, como se uma mão invisível
as tivesse aberto violentamente, e a estranha e amedrontadora figura se
avolumou na entrada.
O homem, um sorriso
maldoso nos finos lábios contornados por uma pequena e bem cuidada
barbicha, caminhou em direção ao professor. Este sentiu o
cabelo arrepiar ainda mais ao ver que os pés do homem não
deixavam nenhuma marca da lama da rua, como era de se esperar, e nem suas
roupas estavam molhadas!
- S-sim, senhor...em que
posso ajudá-lo? Balbuciou Platão, fazendo o maior esforço
para não sair correndo dali.
- Boa tarde, meu jovem.
Meu nome é Lúcio Fer e o seu, deduzo, é Platão
da Silva, não?
- Si...Simmm...Mas, como
o senhor sabe?
- Sou bem informado, meu
amigo.
Dizendo isto, o homem
que parecia não dar a mínima para o apavorado Platão,
puxou uma cadeira e sentou-se. Impassível, colocou sua bengala sobre
a mesa e em seguida acendeu um charuto. Deu uma longa baforada e então
disse ao petrificado Platão:
- Quero lhe apresentar o
deputado Nico Demo dos Prazeres.
Platão, tal
era seu estupor ante o misterioso personagem, nem percebeu quando
o outro homem adentrou a biblioteca. Virou-se e deu de cara com um sujeito
gordo, bem-vestido e perfumado, que estendeu-lhe a mão acompanhada
de um sorriso cínico.
- Olá, professor
Platão!
- O-olá...prazer...
O segundo homem,
observou Platão, parecia mais normal, pois pelo menos estava com
as roupas molhadas e os antes reluzentes sapatos, enlameados. Ele também
sentou-se sem cerimônias e sua conversa direta e objetiva, tirou
o assustado professor da sua aparente letargia, fazendo seu sangue circular
mais rápida e furiosamente pelas veias.
O que o deputado
disse foi que as terras de Madeira de Leite, cujo dono era o governo, tinham
sido doadas ao empresário Lúcio Fer, que ia fazer no local
um complexo de hotéis e cassinos, tal como o de Las Vegas.
Platão não
conhecia Las Vegas e muito menos seus cassinos, mas sabia muito bem o que
aquilo significava: o fim da inocência e da paz para os habitantes
de Madeira de Leite, ou seja, Madeira de Leite simplesmente iria acabar!
- Mas, data vênia,
vossa excelência não pode fazer isso!...Aqui moram 300 almas,
tranquilas e felizes. Uma construção dessas vai acabar com
nossa cidade! E o nosso povo, o que será dele?
- Meu caro professor, toda
esta terra já foi mapeada pelo governo e é uma terra improdutiva.
Por isso, diante da solicitação do grande empresário
Lúcio Fer, aqui presente, o governo decidiu ceder a terra para que
ele a explore da maneira proposta.
- Mas como improdutiva?
Praticamente gritou o agora aflito Platão. Nosso povo trabalha
esta terra há centenas de anos e cuida bem dela, pois é através
dela que todos se alimentam. Não é pasto que existe aqui
para engordar bois, é terra trabalhada e produtiva, sim senhor!
- Olha, meu amigo... Retrucou
o deputado Não me interessam seus argumentos. Já está
decidido. Passamos aqui apenas para notificá-lo que seu povo terá
uma semana para desocupar a terra. Após isso, as máquinas
vão entrar em ação, derrubando casas e árvores
e o que mais estiver à frente, para limpar a área para a
construção do complexo turístico! É isso! Alea
jacta ste, caro Platão! Passar bem!
Sem que Platão
pudesse esboçar qualquer outro argumento, os dois homens se levantaram.
O deputado apenas lhe deu as costas e rumou para a saída da biblioteca.
O homem de negro colocou a mão branca e esquálida no ombro
do professor, trazendo-lhe de volta os arrepios, e disse, com um sorriso
ainda mais cínico que o dado pelo deputado:
- Tem uma coisa boa nisso
tudo, senhor Platão: os mais jovens, se quiserem, poderão
ficar para trabalhar nas obras. Adeus!
Falando isso, Lúcio
Fer também saiu da biblioteca e as portas, estranhamente, fecharam-se
atrás dele...
Platão correu
até a janela e ainda deu para ver o carro preto arrancar velozmente
e aos poucos sumir na escuridão do final da rua. Tão rápida
como veio, a chuva parou. A claridade do dia foi voltando aos poucos e,
na rua, somente a lama cortada pelos pneus do carro ficou como prova do
temporal que há pouco tinha se abatido sobre Madeira de Leite e
da nefasta presença dos dois homens.
O general Platão
Um desesperado Platão
fechou a biblioteca e, saltando pela rua para evitar pisar as poças,
dirigiu-se rapidamente para a casa do velho Artaxerxes. Em menos de cinco
minutos ele chegou até a casinha branca e, arfando, não de
cansaço, mas de violenta preocupação, subiu os dois
degraus de madeira, tirou os sapatos enlameados e, quando ia bater à
porta, o velho já a abria e o convidava a entrar. Platão,
apesar dos seus ruins sentimentos causados pela vinda dos dois homens à
cidade, notou que o ancião não mostrava um semblante alegre,
como era habitual.
- O senhor já sabe...
Arriscou Platão, conhecedor dos dons do sábio ancião.
- Sim, meu filho...Venha
sentar-se.
O velho dirigiu-se à
cozinha e Platão sentou-se numa das duas únicas cadeiras
de madeira que havia na sala. Sentou-se, levantou em seguida, rodopiou
pela sala e voltou a sentar, alisando nervosamente a vasta cabeleira ruiva.
O velho Artaxerxes logo voltou, trazendo na mão uma fumegante xícara
de chá.
- Tome este chá de
erva cidreira, filho. Você precisa, pois seu espírito está
muito aflito.
O professor, ainda sentindo
leves arrepios e tremores, tomou a xícara das mãos do ancião,
sorveu um bom gole e desatou a falar:
- Como pode isso acontecer,
meu velho? De repente homens representando um governo que nem conhecemos,
vêem até nossa cidade e simplesmente nos expulsam? Onde a
compaixão? Onde a justiça nisso tudo?
- Bem, Platão, vou
começar pelas suas perguntas finais...No mundo que há por
trás de nossas montanhas, tais palavras foram aos poucos esquecidas.
As verdadeiras compaixão e justiça são pérolas
que emanam do Senhor Deus e de Seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto,
além das fronteiras de Madeira de Leite, não espere encontrar
tais virtudes.
E, voltando ao início
da sua indagação, eu vi o temporal e vi o carro preto passar
pela rua. De imediato percebi em meu espírito que o mal, finalmente,
chegara a Madeira de Leite. O temporal foi tão somente uma inútil
maneira da natureza tentar limpar da nossa cidade a presença do
mal. O dia escuro e o temporal não vieram com eles, como você
deve ter imaginado, mas vieram por causa deles!
O mal maior é
simbolizado pelo empresário; o político é apenas uma
peça no diabólico jogo de xadrez dele. O único mal
do político é a falta de caráter. Por isso ele vendeu
sua alma ao demônio. Agora ele é apenas seu auxiliar!
Platão, absorto
com as palavras do velho, esqueceu-se por instantes da tragédia
que já tinha data marcada para se abater sobre o povo de Madeira
de Leite. Ele pensava com os botões do seu surrado colete como o
velho sabia de tudo, se apenas ele, Platão, vira e conversara com
os dois homens. Mas, como era inteligente, sabia que não ficaria
bem inquirir ao sábio os comos e por quês que giravam em seu
cérebro. Bebeu mais um pouco de chá, enquanto Artaxerxes,
acendendo calmamente seu cigarro de palha, continuou sua sábia explanação:
- Você se lembra da
história do Jardim do Éden?
- Claro, seu Artaxerxes!
E como poderia esquecê-la?
- Pois bem. Lá no
Jardim do Éden, nossos primeiros pais, sem malícia, foram
enganados pelo demônio e acabaram desobedecendo o Todo Poderoso e
trazendo grandes males sobre todo habitante da Terra. Nós, de Madeira
de Leite, não fomos enganados diretamente pelo demônio, mas
pecamos por olvidarmos que dalém das nossas fronteiras existe um
mundo mau, repleto de ambição e crueldade. E o maior pecador
fui eu, pois em todos estes anos, procurando preservar a felicidade deste
povo, omiti isso, deixando-o viver em sua inocência e sem condições
de enfrentar de igual por igual o mal que está por vir.
Platão, acabando
de ouvir isso, saltou da cadeira, não mais trêmulo e inseguro,
mas como o mesmo Platão de antes, erguendo o braço, como
se empunhasse uma espada, e bradou:
- Meu bom velho, estás
coberto de razão, como sempre, e eu entendi perfeitamente sua preleção,
mas ainda há tempo de nos unirmos para a luta contra o inimigo!
Somos trezentos, assim como trezentos eram os do exército de Esparta,
comandados pelo grande general Leônidas! Vou conclamar nosso povo,
homens, mulheres e crianças à luta!
Platão calou-se e
ficou ainda por segundos com o braço erguido, talvez esperando palmas
ou elogios do velho Artaxerxes. Mas o sorriso no rosto do velho diante
da cena quixotesca de Platão, mostrava que ele não era nem
contra e nem a favor de uma luta, mas sim que essa seria inglória
e fadada à derrota.
Platão abaixou
o braço meio que desalentado e buscando alguma resposta no rosto
do ancião, sentou-se novamente e perguntou, indeciso:
- O senhor acha que não
dará certo?
- Não dará
filho. Lembre-se que o valente rei Leônidas e seus valorosos soldados
foram derrotados...
- Porque foram traídos!
Apressou-se a justificar Platão.
- Sim, que seja. Mas, mesmo
sem o temor da traição, onde você arranjará
armas para enfrentar o governo, que conta com milhares de soldados e grande
aparato bélico?
- Lutaremos com paus, enxadas,
facões e até com talheres, se preciso for!
O velho levantou-se, como
dando a conversa por encerrada, e disse:
- Olha, Platão. O
mal está sobre os habitantes da Terra, e Madeira de Leite está
na Terra, portanto, estava sujeita a que um dia ou outro o mal se abatesse
também sobre ela. E é o que está acontecendo a partir
de hoje. Não vou estimular e nem desestimular seu ímpeto
de luta. Acho louvável sua disposição, podemos dizer,
heróica. Somente posso avisar que muito sangue será derramado...Lembre-se
de Canudos!
Enquanto o velho falava,
dirigia-se à porta acompanhado por um pensativo Platão, que
tomado da síndrome de Brancaleone, do qual ele nunca ouvira falar,
já se via conduzindo um exército de valentes e furiosos madeira-leitosas
pela empoeirada rua de Madeira de Leite.
Ele desceu os dois
degraus da casa e o velho Artaxerxes postou à porta, apoiado em
sua inseparável bengala e finalizou, já percebendo em sua
centenária sabedoria que o jovem professor já não
lhe daria ouvidos:
- Você deve fazer
o que seu coração mandar fazer, mas eu acho que antes você
deveria consultar sua razão. De uma forma ou outra, não sei
quanto a você, meu jovem, mas eu, da minha parte, vou orar
para que Nosso Senhor Jesus Cristo tenha piedade deste povo.
Platão despediu-se
do velho e saiu apressadamente pela rua. Em sua cabeça misturavam-se
fervilhantes as peripécias de Dom Quixote, a história dos
guerreiros espartanos e a bravura do jovem Davi, quando enfrentou o gigante
Golias. Ele acreditava que iria achar uma maneira de levar o povo a lutar
em defesa da cidade e de suas próprias vidas...
Ao ancião,
sem necessidade de usar sua sabedoria e seus dons proféticos, era
óbvio o que ia acontecer, e por isso, quando ergueu os olhos acima
das copas dos mangueirais, acima das montanhas, fitando diretamente as
nuvens mescladas das várias e lindas cores do pôr-do-sol,
as lágrimas escorreram-lhe pela face e umideceram a branca barba.
Os pássaros,
alheios ao que estava para acontecer ao povo da cidade, gorgeavam alegremente
voltando aos seus ninhos entre as ramagens das árvores. O ancião
parou de fitar o céu com olhar suplicante e prestou atenção
às aves. Uma brisa fresca soprou delicadamente, remexendo seus cabelos
tão brancos quanto a barba e trazendo o perfume de árvores
e flores. Então o velho sorriu um sorriso de felicidade, como só
os sábios sabem fazê-lo, pois conseguem ver além da
aparente desgraça. Ele voltou a olhar o céu, desta vez alegre
e aparentemente agradecendo.
O que aconteceu naquele
breve momento, jamais vamos saber, pois quando o coração
fala no peito de um homem, só ele pode ouvir e entender.
Platão, no
dia seguinte e nos que se sucederam, antes da fatídica data imposta
pelo deputado, apesar da sua grande eloquência, não conseguiu
adeptos para sua gloriosa batalha. O povo, inocente e sem malícia,
não quis acreditar em tamanha maldade e que uma desgraça
anunciada por dois homens desconhecidos poderia se abater sobre Madeira
de Leite. Afinal, os habitantes da cidade não tinham feito nenhum
mal para serem castigados.
O ânimo
do sábio, o desânimo do professor e a fé do rei Josafá
Agora, literalmente
tomado de puro desespero, Platão voltou à casa do velho Artaxerxes.
Entre filho. Já
sabia que você viria Disse o velho, sorrindo.
Platão não
estranhou o velho dizer que sabia de sua vinda, pois isso já lhe
era natural. Mas o sorriso no rosto do velho o surpreendeu. Para dizer
a verdade, ele chegou a ficar com raiva ao ver o ancião assim, enquanto
o fim de Madeira de Leite se aproximava.
Mas sua decepção
com seu povo era maior, e ele, sentando-se na sala da casa, desatou a reclamar
do povo, chamando-o inclusive de covarde.
O velho ouviu seu
destempero pacientemente e fez um aparte na hora apropriada, como só
os sábios sabem fazer, impedindo que a raiva motivada pelo desespero
de Platão contaminasse todo o ambiente.
- O povo não é
covarde, Platão. Ele é apenas ingênuo e inocente. Como
já disse, eles jamais foram preparados para o mal. Em toda a existência
da nossa cidade, até hoje, somente o bem esteve presente, graças
a Deus!
- Graças a Deus?!
Graças a Deus?...Como o senhor pode dar graças a Deus se
Ele está permitindo essa injustiça e crueldade contra nós?
- Não fale assim,
meu filho. Quem disse que o Senhor vai permitir?
O velho sorriu novamente
e Platão calou-se, sem resposta.
- Quantos dias nos restam?
Platão, que tinha
os olhos fixos no assoalho de madeira, pareceu ser assaltado novamente
pelo desespero ao responder:
- Dois, seu Artaxerxes!
Somente dois dias e eles vão invadir nossa cidade e nos expulsar
das nossas casas!
O ancião calmamente
colocou a mão sobre o ombro de Platão, e disse:
- Então está
bom. Agora peço a você que volte para sua casa e se acalme.
Apanhe a Sagrada Escritura lá na biblioteca, leve com você,
e leia a história do rei Josafá, que está no Velho
Testamento, nos livros de...
- Eu sei onde a história
se encontra, meu velho. Pode deixar que vou fazer o que o senhor mandou.
Respondeu Platão, não mais nervoso, mas tristonho, tomado
de um desânimo avassalador. Mas mesmo vendo ele assim, o ancião
sabia que Platão ia lhe obedecer.
No outro dia, bem
de manhã, enquanto em sua cabeça latejava a certeza de que
no dia seguinte Madeira de Leite poderia não existir mais, Platão
levou o livro sagrado de volta à biblioteca e em seguida dirigiu-se
à casa do velho Artaxerxes.
De longe Platão
viu o ancião sentado no banquinho à frente da casa. E enquanto
ia se aproximando, o jovem notava que o velho olhava o céu de uma
ponta à outra, até quando este parecia se fundir com o horizonte.
A Platão pareceu nitidamente que o velho sábio sondava alguma
coisa no céu.
Será que ele está
esperando que marcianos venham do espaço para nos socorrer? Perguntou
a sí mesmo, em pensamento. Artaxerxes, ao sentir sua aproximação,
saiu do seu estranho estado contemplativo e cumprimentou o jovem.
Platão respondeu
ao cumprimento sem muito ânimo e sentou-se no degrau da escada. O
velho olhou-o por segundos e perguntou:
- Então, leu a história?
- A do rei Josafá?
- Sim.
- Li, meu velho. Li sim.
- E então?
- Bem, o clímax da
história é quando três grandes exércitos vão
atacar Judá e o rei Josafá ora a Deus, dizendo que não
tinha como enfrentar os inimigos e nem sabia o que fazer...
- E o que aconteceu?
- Bem, Deus respondeu através
de um profeta que estava entre o povo que havia se agrupado diante do Templo
de Salomão, junto com o rei. Deus disse para Josafá que ninguém
ali iria precisar lutar contra o inimigo, pois Ele próprio iria
combater os exércitos.
- E o Senhor fez isso?
- Claro! Ele mesmo foi contra
os exércitos que marchavam contra Judá e acabou com todos
eles!
- Muito bem! Aprovou o
ancião E você notou na história do povo de Judá
alguma semelhança com a nossa?
- Claro que notei, meu velho.
Mas isso é coisa dos tempos bíblicos, e é referente
ao povo de Deus. Hoje Ele não fala mais com os homens, como outrora,
e nem sai mais por aí lutando contra exércitos!
- Você está
redondamente enganado, filho. O Senhor Deus é o mesmo, desde quando
criou o Universo, até hoje, e sempre será o mesmo. Deus é
imutável.
- Tá bom... Respondeu
Platão, desanimadamente. E o senhor acha que Ele virá nos
defender?
- Eu não sei...Quem
sabe? Foi assim a resposta do ancião, como as respostas que só
os sábios sabem dar. Uma resposta vaga, seguida de uma pergunta
que não dava lugar a resposta, pois era apenas especulativa.
Platão, repentinamente,
num ato de fé ou de desespero, ficou de joelhos e, olhando o céu,
procurou repetir, mesmo desordenamente e sem muita consistência,
as poucas palavras que lembrou da oração do rei Josafá:
- Senhor, olha aí
dos Céus, onde o Senhor habita e vê o grande mal que vem contra
nós amanhã. Como o povo de Judá, na época do
rei Josafá, nós também não temos como combater
esse mal e nem sabemos o que fazer. Nos ajuda, Senhor!
Artaxerxes prepara
o povo
Terminando, Platão
levantou-se, batendo o pó dos joelhos, e olhando, viu Artaxerxes
sorrindo. Não sabia o por quê e nem tinha o que falar. Mas
foi o velho quem falou.
- Você fez muito bem,
filho. O velho apoiou-se na bengala e, se levantando, aproximou-se de
Platão que já desistira de entendê-lo, e disse, olhando-o
fixamente nos olhos:
- Vá até ao
povo da cidade, de casa em casa e fale a eles para apanharem tudo que lhes
for mais necessário, como roupas, utensílios domésticos
e ferrramentas e que, junto com seus filhos, venham todos aqui para minha
casa. Mas diga a eles para fazer isso com urgência!
- Platão, mesmo sem
entender nada, rodopiou nos calcanhares e foi rapidamente fazer o que o
velho ordenara. Ele procurou não arrazoar nada, pois em seu coração
algo lhe dizia que o velho Artaxerxes sabia o que estava fazendo. E o povo,
por sua vez, também não perguntou a razão daquilo.
Se era o querido e sábio ancião quem mandara, eles iam obedecer.
Isso para Platão pareceu muito bom, pois evitava que ele tivesse
que dar explicações que ele mesmo desconhecia...
O misterioso desaparecimento
de Madeira de Leite
No dia seguinte, o
dia marcado para ser a desgraça do povo de Madeira de Leite, já
bem cedo podia-se ouvir o barulho de caminhões, tratores e outras
grandes máquinas que chegavam para começar as obras do grande
complexo de hotéis e cassinos sobre a cidade de Madeira de Leite.
Frente às barulhentas máquinas e caminhões com as
carrocerias cheias de trabalhadores, ia o grande e brilhante carro preto
e, logo a seu lado, dois caminhões de cor verde-oliva ( a cor do
Exército), traziam um pelotão de soldados, mandados pelo
governo para agir em caso de uma possível revolta.
O carro preto parou
e do seu interior, como era de se esperar, desceram o gordo deputado e
o empresário Lúcio Fer. Os demais veículos e máquinas
também pararam e, a um quase imperceptível gesto da mão
de Lúcio Fer, os barulhentos motores foram desligados. Um
silêncio mais pesado que 100 elefantes abateu-se sobre todos. Os
trabalhadores, apesar de sentirem que algo estava errado, de nada sabiam,
mas Lúcio Fer e o deputado, à frente de todo o enorme grupo
de homens, olhavam perplexos para o nada!
Há cerca de
uns 150 metros deles, havia uma caminhonete Chevrolet e um homem já
de meia idade, acompanhado de uma rapazola, que por certo era seu filho,
olhando para o fundo de alguma coisa onde, até o dia de ontem, estava
a pequenina Madeira de Leite.
- Você está
brincando comigo ou estamos no local errado? Perguntou de sopetão
Lúcio Fer.
- Mas que brincando o que?!!
Praticamente berrou o apavorado deputado, que não só sentia,
mas tinha certeza que algo dera errado. A vila ficava aqui. O local está
certo. E na semana passada isso tudo aqui era repleto de árvores,
de casas e gente!...Onde foi parar tudo?
- É o que eu gostaria
que me explicasse... Atalhou Lúcio Fer, com um timbre de voz assustador,
mas frio e cortante que um iceberg.
O local, que antes
tinha uma temperatura agradável, estava tomado por um calor infernal.
O deputado, suando por todos os poros, rodopiava o olhar abestado por toda
a região ao redor do local em que ficava a vila. Onde antes havia
verde, flores e vida em abundância, como ele mesmo dissera, agora
era um local deserto e horrível, sem uma planta sequer. O solo estava
enegrecido e dele emanava um calor anormal, como se tivesse um vulcão
em erupção sob ele. Tal era seu desespero, que o gordo deputado
moveu-se numa agilidade que não lhe era peculiar, e logo aproximou-se
do homem e do garoto. Eles deveriam ter alguma explicação,
pensava consigo mesmo.
- O que aconteceu aqui?
Perguntou, forçando um sorriso que não conseguia esconder
a aflição em seu rosto. Mas, antes que algum dos dois respondesse,
o deputado olhou para o local onde eles estavam e quase teve um ataque
cardíaco. No local onde antes se encontravam a vila, havia apenas
um grande e profundo buraco. No fundo, há uns calculados 30 metros,
havia um enorme meteoro. O choque fora tão violento que a pedra,
que deveria ter o tamanho de Madeira de Leite, criara a enorme cratera,
rompendo lençóis d`água e abrindo inúmeras
rachaduras num raio de quase um quilômetro. Como o meteoro estancara
a água subterrânea, esta jorrava pelas rachaduras, transformando
a terra queimada ao redor em algo semelhante a um pântano.
Nico Demo observou tudo
isso em segundos, postado ao lado dos dois homens à beira do precipício.
O homem mais velho, respondendo a pergunta feita à pouco, explicou:
- A gente não sabe
ao certo, moço, mas ontem, por volta das 7 horas da noite, ouvi
da minha fazenda, que fica a 50 quilômetros daqui, um barulho muito
grande, como se uns mil aviões estivessem descendo sobre nossas
cabeças...Não é filho?
O jovem balançou
a cabeça, concordando com o pai, e este continuou.
- Saimos todos para o terreiro
e vimos um grande facho de luz aqui neste local, onde ficava Madeira de
Leite. O barulho também parecia vir daqui. Mas logo a luz sumiu
e o barulho cessou. Mas lá pelas 4 horas da madrugada, quando a
gente se levantou e estava se preparando para levar a boiada para a invernada,
vimos um novo clarão de luz no céu. Só que este era
diferente. A primeira luz estava parada sobre este local, mas a outra descia
rasgando a noite e no instante seguinte ouvimos um grande estrondo. Até
lá na fazenda a terra tremeu. Então a gente largou o gado,
pegamos a caminhonete e viemos pra cá e encontramos isso que o senhor
está vendo. Parece que aquela grande pedra lá no fundo foi
que caiu do céu e sepultou todos os coitados dos moradores da vila
neste maldito buraco!
Sem mais explicações,
o homem fez um sinal para o filho, voltaram para a caminhonete e foram
embora.
O deputado Nico Demo
ficou ainda ali, meio que petrificado, olhando para o fundo do precipício
formado pelo meteoro. De repente, o susto com a voz de Lúcio Fer
atrás dele, o tirou daquele estado de perplexidade.
O empresário,
acompanhado pelo tenente, comandante do pelotão do Exército,
postou-se a seu lado e disse, não escondendo a raiva em suas palavras:
- Então era este
belo lugar que o senhor e aquela gente lá de Brasília queriam
me dar para construir meus cassinos?
Sem se virar, temendo olhar
de frente o empresário, o deputado retrucou:
- Mas você viu na
semana passada como era aqui, Lúcio! Não havia nada disso.
Era um local bonito, com casas e cheio de bosques...
- Eu não vi nada.
Naquele temporal e com aquela escuridão, apenas vi aquela casinha
que você disse ser a biblioteca. Você e sua gentalha tentaram
me enganar! Para fazer algo aqui, é preciso milhares de caminhões
de terra e concreto, o que irá encarecer e atrasar a obra. Eu vou
construir meus cassinos no Uruguai. Passar bem, seu merda!
Lúcio Fer virou-se
e começou a se afastar. O deputado, vendo todo seu projeto de abocanhar
muito dinheiro do rico empresário indo por água à
baixo, virou-se num repente, na tentativa de pará-lo para lhe oferecer
outras terras. Mas a terra, que não estava firme à beira
da cratera, cedeu sob seus pés e ele, completamente desequilibrado,
despencou para o fundo do buraco, emitindo um pavoroso grito de terror.
Lúcio Fer
e o tenente aproximaram-se da borda da cratera. Lá embaixo, apesar
da fumaça quente que emanava do local, dava para ver o corpo do
deputado arrebentado sobre a dura superfície do meteoro.
- Que pena... Lastimou-se
Lúcio Fer.
- Vocês eram muito
amigos? Quis saber o militar.
- Não. Respondeu
Lúcio com um sorriso diabólico Eu disse que pena, pois
ele me tirou o prazer de matá-lo com minhas próprias mãos!
E assim é
Madeira de Leite!
Daqui há alguns
anos, se você, viajante, vendedor, turista, aventureiro ou vagabundo,
puder passar pelas milhares de galáxias no espaço, talvez
possa ver em alguma estrela uma placa onde se lê: bem-vindo a Madeira
de Leite. E, indo um pouco além, poderá ver outra placa,
onde está escrito: Madeira de leite a um tiquinho de anos luz. É
ali que se encontra Madeira de Leite. A mesma vila que desapareceu misteriosamente
há algumas décadas, como se a terra a tivesse engolido ou
o céu a tivesse aspirado. O local é tão pequeno, que
nenhum astrônomo conseguiu descobrí-lo até hoje. Ali
vivem 300 felizes almas entre lindas árvores, pássaros e
uma cristalina lagoa a uns 200 metros da vila, onde as crianças
se banham sob a supervisão do professor Platão da Silva,
técnico aquático, e os adultos se esticam preguiçosamente
sobre a relva às suas margens nas tardes de sábados e domingos.
Madeira de leite
tem apenas uma rua, sem asfalto, pois para o povo nada melhor e gostoso
do que sentir a terra fôfa sob os pés. As pessoas são
as mesmas. Tem a velha Severina com seu velho cachimbo, parteira, benzedeira
e de idade indefinida, que arrasta seus surrados chinelos levantando poeira
da rua, e tem também o velho sábio Artaxerxes, também
de idade indefinida, que é o homem mais respeitado na comunidade
de Madeira de leite.
Artaxerxes vive numa
casa toda pintada de branco, no começo da rua ou no fim dela,
dependendo da direção de quem entra na vila. Ao lado de sua
casinha tem belos pés de manga e um bem-te-vi que todas as manhãs
e tardes vem cantar e encantar o ancião.
Artaxerxes, sentado
no banquinho em frente sua casa, sente, de olhos fechados, a brisa acariciando
seus cabelos e barba, brancos como neve. Ele rodopia sua desgastada bengala
entre as mãos e, por um momento, relembra tudo o que ocorreu. Nem
o povo e nem mesmo o culto Platão, sabem o que aconteceu. Para eles,
Madeira de Leite está no mesmo lugar e as coisas são como
sempre foram. Sem lembrança do passado, eles vivem felizes, sem
medo ou preocupações.
Somente o velho Artaxerxes
sabe tudo o que aconteceu lá na Terra, mas ele jamais irá
contar a ninguém, pois como todo grande sábio, ele conhece
segredos e mistérios e sabe que alguns, mesmo revelados, não
serão compreendidos, e outros não podem ser revelados, pois
nós, simples e limitados mortais, não estamos ainda preparados
para conhecê-los...
FIM
Sérgio Rodrigues
Ferraz - Copyright 2008-2010
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