Você
quer saber se existe vida em outros mundos? O velho Artaxerxes poderá
lhe contar...ou não. Ele é um sábio, e os sábios
na maioria das vezes vivem
no silêncio
de sua sabedoria...
E
assim era Madeira de Leite
Se você, viajante, turista,
aventureiro, vendedor ou vagabundo, um dia passar numa certa estrada a
norte do Rio Grande do Sul, a sul do Ceará, a leste de Pernambuco
e a oeste de Minas Gerais, verá uma placa de madeira, já
carcomida pelo tempo, mas aonde ainda dá para se ler: bem-vindo
a Madeira de Leite. Indo um pouco mais adiante, há outra placa,
também de madeira e tão castigada quanto a outra, avisando:
Madeira de Leite a um tirinho de espingarda. É ai. Você estará
chegando no local onde outrora existia uma vila chamada Madeira de Leite.
A cidade era bem pequena. Tão
pequena que nem constava no mapa do Brasil. Madeira de Leite nem era uma
cidade e sim, um povoado, uma vila. A comunidade era formada por apenas
300 almas, entre homens, mulheres e crianças. A vila era realmente
tão pequena que nem a igreja católica conhecia. Portanto,
lá não havia igreja. Mas assim mesmo o povo de Madeira de
leite era muito religioso.
A biblioteca da vila tinha apenas
uns poucos livros. Entre eles, a Bíblia e um livro ensebado,
já até sem capa, que versava sobre as antigas civilizações.
Havia também a Divina Comédia, de Dante, um livro da História
do Brasil e um catálogo da lista telefônica do Ceará.
Além destes cinco, considerados pela comunidade como os mais importantes,
o restante do acervo da biblioteca era formado por umas duas ou três
revistas O Cruzeiro. Como o livro sagrado e esses outros livros e revistas
havia chegado a Madeira de Leite, ninguém sabia. Era um mistério.
Mas havia os livros, as revistas e a lista telefônica do Ceará,
e era através deles que a comunidade de Madeira de Leite era educada,
advindo daí a cultura e religiosidade do povo, além da mania
de misturar nomes gregos com Severinos e outros, que eles achavam nos ditos
livros e na lista telefônica, e colocar esses nomes nos filhos. Por
causa disso, mesmo se não houvesse grau de parentesco, todos os
moradores de Madeira de Leite tinham o sobrenome Silva. Já que era
o que mais havia na lista telefônica, todos eles adotavam tal sobrenome.
Além do mais, já
que era um pequeno povoado, lá não havia prefeito e, consequentemente,
não havia Prefeitura e, não havendo Prefeitura, todos eram
donos das terras de Madeira de Leite e ninguém era dono de nada
ao mesmo tempo, pois não havia cartório de registro de imóveis.
Assim, ninguém em Madeira de leite pagava impostos e, dessa maneira,
já que a cidade desconhecia políticos, todos trabalhavam
para sua própria sobrevivência.
O
sábio Artaxerxes
Artaxerxes era o morador mais antigo
da vila. Ninguém sabia ao certo sua idade, já que Madeira
de Leite também não tinha cartório de registro de
nascimento. O povo em geral concordava que o velho Artaxerxes tinha mais
de 150 anos de idade, e o respeitava como ancião e pela sua sabedoria.
Ele era o único que sabia diferenciar, por exemplo, o sexo dos sapos.
Quando alguém tinha dúvidas, era só levar o batráquio
até o velho Artaxerxes, que ele, cofiando a longa barba branca e
com um dos olhos fechados, em atitude de concentração, logo
dizia se era sapo ou perereca.
Mas tinha também a velha Severina,
que fumava seu castigado cachimbo e arrastava seus surrados chinelos pela
empoeirada e única rua de Madeira de Leite, há bem uns 100
anos, calculavam os moradores mais antigos.
Severina era parteira, benzedeira
e curandeira da cidade. E tinha tanta prática em partos, que mal
uma mocinha acabava de casar, ela só olhando as ancas da jovem já
dizia quantos filhos ia ter, e passando seus olhinhos pequenos e já
sem brilho pelo corpo do marido da ex-virgem, como lá chamavam as
mocinhas recém-casadas, a velha já dizia se a predominância
do casal seria de ter filhos ou filhas.
Assim era Madeira de Leite, uma
feliz comunidade que teve um fim mais misterioso do que ela própria.
Platão da Silva, que depois do velho Artaxerxes, era a pessoa mais
respeitada da vila pelos seus conhecimentos gerais, informava impávido,
quando algum visitante passava por lá coisa que acontecia de década
em década, que Madeira de Leite tinha altitude, pois era situada
a oeste de Minas Gerais, e por isso era montanhosa e bem acima do nível
do mar; e, segundo Platão, a vila também tinha amplitude,
já que fazia fronteira com os pampas infindáveis e as caatingas
nordestinas. Mas assegurava, do alto da sua cultura geográfica,
que Madeira de Leite não tinha latitude, pois lá não
havia cachorros, portando, sem latidos...
Platão
da Silva, a bandeira de Madeira de Leite e os 7 mares
Platão nunca pôs os
pés numa escola. É...Madeira de Leite também não
tinha escola. Mas como ele era o sujeito que mais lia, ele mesmo se auto-proclamou
professor das crianças da comunidade. Platão lia e relia
os poucos livros da biblioteca, e o fazia tantas vezes que o pessoal a
boca pequena dizia sobre seu temor de que Platão comesse os livros
e deixasse a biblioteca vazia.
Mas o temor era infundado. Platão
realmente comia livros, mas não literalmente. Ele já havia
decorado até as vírgulas dos livros e revistas da biblioteca,
de tanto lê-los e relê-los. Ele só não se interessava
pela lista telefônica, pois de acordo com ele, era um livro enfadonho,
com muitos personagens mas sem nenhuma história...
Um dia Platão descobriu
num dos livros sobre um espanhol chamado Miguel de Cervantes e sobre o
personagem Dom Quixote, criado por ele. Não deu outra: a partir
de então, Platão acrescentou ao seu nome também o
nome do famoso personagem, e fez de tudo para ser chamado por Dom Platão
Quixote da Silva. Mas a coisa não pegou e ficou mesmo Platão
da Silva, pois era assim que o povo o conhecia desde menino.
Platão, como não
podia deixar de ser, considerava Madeira de Leite como uma cidade no sentido
literal da palavra e, por isso, foi o criador da bandeira de Madeira de
Leite. A bandeira era retangular, como todas o são, e, para não
desagradar ninguém, ele colocou nela todas as cores do arco-íris.
Ao centro, um círculo branco, que segundo ele era o símbolo
de unidade do povo e da paz. Dentro do círculo, havia o desenho
de uma árvore com apenas dois galhos laterais e, no tronco, sobressaiam
dois enormes seios. Bem, como Platão fazia questão de chamar
a vila de cidade, vamos fazer sua vontade e também iremos nos referir
a a Madeira de Leite, a partir de agora, como cidade.
Mas voltando à bandeira,
como o povo ficou meio sem entender, Aristóteles da Silva, o desenhista
oficial da cidade, contratado por Platão, e seguindo à risca
suas orientações, explicou que o tronco simbolizava o povo;
os dois galhos laterais, eram braços abertos em sinal de boas-vindas
aos visitantes; a copa era o cabelo da mulher de Madeira de Leite; e toda
a feminilidade do desenho, incluindo as duas enormes tetas, simbolizavam
num todo a cidade e a fertilidade da sua gente e de suas terras.
O povo não entendeu nada,
mas aceitou de bom grado a bandeira. Algumas mulheres pediram que fosse
desenhado um surtian sobre os seios desnudos, mas foram logo convencidas
por Platão, que alegou que nenhuma mulher dava leite a seus rebentos
através de um surtian, assim, Madeira de Leite oferecia, sem pudor,
já que não há malícia na maternidade, suas
suculentas tetas aos seus filhos, ou seja, o povo!
E assim a bandeira foi oficializada,
além da própria identidade do natural de Madeira de Leite,
que ganhou também uma definição de Platão:
- Povo de Madeira de Leite, escutai-me.
Doravante, a partir dessa gloriosa data neste ano de Nosso Senhor Jesus
Cristo, quando os ventos dos sete mares soprarem alegremente ao desfraldar
desta bandeira, hoje postada ao alto desse magnífico pau-de-sebo,
se alguém doutras pragas vos perguntar donde sois, vós, orgulhosamente
respondereis: - Somos madeira-leitosa, naturais da culta e progressista
cidade de Madeira de Leite!
O povo, como da maioria das vezes, nada
entendeu da oratória de Platão da Silva. Afinal, nem mar
havia por ali, e ele falava de sete mares? Onde ele foi arranjar tanto
mar, era o que a maioria não perguntava verbalmente, mas o fazia
pelos olhares de soslaio entre eles. Apenas um, o senhor Praxedes, dono
da única venda do local, responsável pelo suprimento de cereais,
leite, pães, carne seca, lingüiça, como também
cimento e tijolos, pois em sua venda de tudo se encontrava um pouco, arriscou
uma tímida observação:
- Hamm...com licença, seu Platão,
mas, madeira-leitosa...Isso tá me parecendo coisa de manteiga ou
sei lá...algo meio que indefinido. Porque não madeirense,
por exemplo, e só?
Platão, do alto do caixote de bacalhau,
improvisado como palanque, tirou o óculos, limpou-o no colete mais
ensebado que as lentes do óculos, voltou-o sobre o nariz, e retrucou:
- Caro Praxedes, é vossa observação
arrazoada, pois és um grande empresário, responsável
pela demanda econômica desta pequena metrópole, porém,
digo-vos, à guisa de resposta que, em Portugal, aquele povo dominador,
que nos subjugou por 200 longos anos e retirou as maiores riquezas das
entranhas da nossa terra e as espalhou por toda a Europa, pois bem, naquele
país de trás dos montes, existe uma ilha chamada Madeira
e, por isso, todo o natural daquele local é chamado de madeirense
ou pé de árvore. Assim, para não copiarmos de maneira
vergonhosa algo que pertence ao outrora infame dominador, eu optei pelo
madeira-leitosa. E, aleia jacta est!
Praxedes ficou na mesma, mas não
quis causar uma polêmica com tão culta figura e tampouco diante
do povo, que se acotovelava para ouvir Platão parlamentar de sobre
seu caixote de bacalhau.
O
sábio e a polenta da Zulmira
E assim era Madeira de Leite e sua
gente. Todos eram amigos de todos, todos cuidavam de sua própria
vida e, se houvesse alguma demanda, seja por terras, seja por antipatia
ou entre marido e mulher, o velho Artaxerxes era quem julgava o caso. Mal
tais fatos não constavam dos anais da história da cidade.
Aliás, houve um apenas, ocorrido há muito, muito tempo,
quando Artaxerxes era um jovem de 90 anos de idade...mais ou menos.
Um casal o procurou para aconselhamento.
Eles estavam brigando muito ultimamente, por que, segundo o marido, a mulher
estava fazendo a polenta muito salgada, e ela, se defendendo, disse que
colocava a quantidade de sal que sempre colocou e, chorosa, reclamava que
o marido não gostava mais da polenta dela.
Artaxerxes então pediu a
ela que preparasse uma polenta e lhe levasse um prato, para ele chegar
a um justo veredito. E, ao marido, ele inquiriu qual era o tempo do casamento
deles.
Assim, sentado frente à sua
simples casinha, toda pintada de branco e cercada por frondosos pés
de manga, Artaxerxes não mais pensou no caso. Sua casa era a última
(ou a primeira, dependendo da direção) da única rua
da cidade.
Divertido, enquanto rodopiava a
desgastada bengala entre as mãos, ele admirava o verde das árvores,
se encantava com o canto de um bem-te-vi empoleirado num galho de uma das
mangueiras e em seguida olhava as montanhas distantes, recortando o azul
do céu. Depois, seu olhar ainda perfeito, apesar da idade, mirava
as brancas nuvens que se deslocavam silenciosa e calmamente pelo firmamento.
Então, para um ouvido mais aguçado, daria para ouvir ele
murmurar entre a longa barba branca:
- Quantas maravilhas, Senhor...quantas
maravilhas!
Artaxerxes somente saiu daquele estado
contemplativo quando a mulher, acompanhada do marido reclamão, chegou
trazendo às mãos um prato coberto por um guardanapo carinhosamente
bordado, onde se lia dentro da figura de um coração: Zulmira
e Nicolau.
A mulher retirou o guardanapo e
passou ao ancião, com um sorriso de satisfação, um
belo, transbordante e ainda quente prato de polenta.
Com sua sabedoria, Artaxerxes, tendo
o prato a um meio palmo do rosto, sentiu o aroma da comida de olhos fechados
e logo em seguida, arregalando bem os olhos, como um criança diante
de um doce, disse:
- Que lindo prato de polenta, dona Zulmira!
E parece deliciosa!
Apoiando-se na bengala, ele fez menção
de levantar de seu banquinho de taquara.
- Vou pegar uma colher para provar já
essa iguaria!
A esposa do homem, encantada com aquela
pré-aprovação do velho sábio, solícita
disse:
- Não precisa se dar ao trabalho,
seu Artaxerxes...eu trouxe-lhe uma colher também!
Artaxerxes agradeceu e atacou o prato
de polenta, tirando um grande naco e levando-o à boca. O marido
da mulher permanecia quieto ao lado dos dois, talvez esperando que, à
primeira colheirada o velho cuspisse a polenta, dizendo que realmente tinha
muito sal.
Mas logo ficou de olhar arregalado quando
o velho, saboreando a polenta, disse, sorrindo:
- Dona Zulmira, sua polenta é uma
delícia!
A mulher embevecida, olhou para o marido
com um olhar tipo: você viu, seu chato? Só você reclama
da minha polenta!
O marido, ainda abestado, disse
para a mulher ir à frente, que ele ia jogar um pouco de conversa
fora com o velho.
- Ah, sim...- Emendou. - ...Desculpe-me
por ter reclamado de sua polenta...
Zulmira ouviu o que desejava. Satisfeita,
olhinhos faiscantes de felicidade por se considerar a rainha da polenta,
ela voltou para casa.
Quando ela já estava à
uma boa distância, o marido se acocorou ao lado do velho e perguntou,
incrédulo:
- Seu Artaxerxes, realmente o senhor gostou
da polenta? Não achou meio salgada?
O velho, como só os sábios
sabem fazer, ficou calado. Quando terminou de comer o prato de polenta,
entregou-o ao homem, passou as costas da mão pelo local que, entre
toda aquela barba, se deduzia estar sua boca, e só então
respondeu:
- Você me disse que vocês
já estão casados há 15 anos, certo?
- Certo...
- Você lembra como era, no início
do casamento?
- Cla...claro...era lindo. A gente estava
apaixonado...e ela não fazia polenta salgada!
- E não faz Garantiu Artaxerxes
Você é quem está salgando o relacionamento de vocês.
- Co...como?!
- Simples...e não precisa ficar
acabrunhado, pois isso acontece em quase todos os casamentos. No começo,
é eu te amo, não posso viver sem você, flores para
a amada e até a comida que ela faz, esteja salgada ou insôssa,
não importa. Vocês querem mais é amar um ao outro...Não
é assim?
- Sim, meu velho...
Nicolau pegou um graveto e, pensativo,
com um meio sorriso nos lábios, começou a traçar rabiscos
na terra fôfa. Era nítido que ele estava rememorando o início
do casamento, os primeiros filhos, Zulmira, bonita, zelosa e trabalhadora,
sempre a seu lado nos momentos bons ou difíceis. E enquanto ele
se quedava a pensar, o velho continuou:
- Passados alguns anos, esquecem dos bons
tempos do namoro, o marido já não elogia os belos olhos da
esposa e esta, chateada, vai deixando os carinhos de lado. Assim, meu filho,
o casamento vai esfriando como uma noite de inverno e você começa
a achar a polenta dela, que antes era tão deliciosa, salgada. E
ela vai acabar salgando a comida mesmo, pois você deixou de lhe dirigir
palavras carinhosas, como no começo. E onde não há
carinho, o que é que vai acabando?...
Artaxerxes deixou a pergunta no
ar, como uma frase a ser terminada por Nicolau, enquanto remexia no bolso
da camisa à procura do isqueiro para acender seu cigarro de palha.
Então ele olhou para o homem,
pois sabia qual seria sua resposta e sabia que já estava quase terminada
sua sábia missão.
Nicolau levantou-se sem procurar
esconder do velho a lágrima que escorria por sua face. Então
disse, suavemente.
- O amor, meu velho...eu entendi. Sem
carinho e sem respeito entre o casal, o amor se acaba.
- Corretíssimo, meu filho. A polenta
que sua esposa preparou para mim, foi feita com amor, pois ela queria me
agradar e, consequentemente, ter minha aprovação. E, por
isso, ela fez a polenta mais deliciosa que eu já comi até
hoje!
O homem, contente e feliz, como
sua esposa à pouco, só faltou beijar o velho. Tomando a mirrada
mão direita dele entre suas fortes mãos, disse, sorrindo:
- A benção, meu velho...e
obrigado. Eu aprendi sua lição!
- Vá com Deus, meu filho, e nunca
se esqueça que não existe maior e nem melhor tempero do que
o amor!
E lá se foi Nicolau, feliz,
propondo em seu coração fazer o seu casamento tal como era
no começo. Artaxerxes ficou olhando-o até sua figura ir sumindo
na longa e poeirenta rua de Madeira de Leite. Então, acendeu sossegadamente
seu cigarro de palha, soltou uma baforada e virou-se para o bem-te-vi que
parecia ter parado de cantar para prestar atenção na
conversa, e agora agitava as asas e soltava seus característicos
gorgeios:
- Olha, meu amiguinho, realmente a polenta
da Zulmira estava um pouco salgada...mas agora ela vai começar a
acertar a mão de novo!
E levantando-se do seu banquinho, entrou
para a casa, dando risadinhas que só os sábios sabem como
e quando devem dar...
E assim era e assim continuava a
vida em Madeira de Leite. Tão tranquila e sossegada como a água
espelhada da lagoa que existia há uns 200 metros fora da cidade,
onde os madeira-leitosa se espreguiçavam sobre a relva às
suas margens nas tardes de sábado e domingo e onde a molecada nadava
nos ensolarados dias de verão, claro, sob a supervisão do
professor Platão, que também era técnico aquático,
como ele mesmo dizia.
O
Mal aparece em Madeira de Leite
Mas num dia terrível, quando
uma tempestade se abateu sobre a cidade, deixando o dia escuro como breu
e lançando relâmpagos sobre a terra, como se a quisesse fender,
o mal apareceu em Madeira de Leite, na figura de Lúcio Fer, um empresário
riquíssimo, dono de empresas, terras e homens.
Platão, que olhava o pé
d´água pela ensebada vidraça da biblioteca, foi o primeiro
a avistar o enorme carro preto, que jogando lama para todos os lados, avançou
velozmente pela rua da cidade, vindo parar justamente perto do prédio
onde ele estava. O motor do carro, mesmo parado, continuou ligado, com
seu ronco irritante.
Os vidros do carro eram escuros
e não se podia ver quem estava dentro dele. Platão já
estava cansando os olhos de tanto olhar o carro, enquanto sua mente dava
saltos de curiosidade. De repente, quando um trovão pareceu sacudir
a biblioteca e a Platão pareceu que os raios se concentraram sobre
o carro, uma figura imponente, toda vestida de negro e semi envolta por
uma capa vermelha, saiu do carro e, impassível à chuva, postou-se
de pé no meio da rua. O homem tinha uma bengala dourada nas mãos,
mas que devia ser só para compor sua tétrica figura, já
que ele, analisou Platão à medida que o clarão dos
relâmpagos mostravam seu rosto, não devia ter mais de 40 anos
de idade e, portanto, não precisava de bengala.
O homem plantado no meio da lamaçenta
rua, capa e cabelos fustigados pelo vento e ainda a presença do
carro preto a seu lado, fizeram com que Platão de repente se arrepiasse
da raiz dos cabelos à unha encravada do seu pé.
O professor, mesmo sentindo em
seu coração que aquele temporal feio e fora de época
e mais aquela aparição, como se surgida do nada, do homem
e seu carro, ambos assustadores, traziam perigo à Madeira de Leite,
não conseguia desgrudar os olhos da janela. E ele poderia jurar
que o homem lá no meio da rua e da tempestade, também olhava
para ele.
O que aconteceu em minutos, pareceu
a Platão durar horas. O homem então levantou a mão
direita, e o carro foi desligado. Platão sentiu o coração
disparar quando viu que o homem, a passos largos, firmes e decididos, rumou
para a biblioteca, justamente onde ele se encontrava. Platão se
benzeu, fazendo o sinal da cruz e esperou, engolindo em seco. As portas
da biblioteca foram escancaradas, como se uma mão invisível
as tivesse aberto violentamente, e a estranha e amedrontadora figura se
avolumou na entrada.
O homem, um sorriso maldoso nos
finos lábios contornados por uma pequena e bem cuidada barbicha,
caminhou em direção ao professor. Este sentiu o cabelo arrepiar
ainda mais ao ver que os pés do homem não deixavam nenhuma
marca da lama da rua, como era de se esperar, e nem suas roupas estavam
molhadas!
- S-sim, senhor...em que posso ajudá-lo?
Balbuciou Platão, fazendo o maior esforço para não
sair correndo dali.
- Boa tarde, meu jovem. Meu nome é
Lúcio Fer e o seu, deduzo, é Platão da Silva, não?
- Si...Simmm...Mas, como o senhor sabe?
- Sou bem informado, meu amigo.
Dizendo isto, o homem que parecia
não dar a mínima para o apavorado Platão, puxou uma
cadeira e sentou-se. Impassível, colocou sua bengala sobre a mesa
e em seguida acendeu um charuto. Deu uma longa baforada e então
disse ao petrificado Platão:
- Quero lhe apresentar o deputado Nico
Demo dos Prazeres.
Platão, tal era seu estupor
ante o misterioso personagem, nem percebeu quando o outro homem adentrou
a biblioteca. Virou-se e deu de cara com um sujeito gordo, bem-vestido
e perfumado, que estendeu-lhe a mão acompanhada de um sorriso cínico.
- Olá, professor Platão!
- O-olá...prazer...
O segundo homem, observou Platão,
parecia mais normal, pois pelo menos estava com as roupas molhadas e os
antes reluzentes sapatos, enlameados. Ele também sentou-se sem cerimônias
e sua conversa direta e objetiva, tirou o assustado professor da sua aparente
letargia, fazendo seu sangue circular mais rápida e furiosamente
pelas veias.
O que o deputado disse foi que
as terras de Madeira de Leite, cujo dono era o governo, tinham sido doadas
ao empresário Lúcio Fer, que ia fazer no local um complexo
de hotéis e cassinos, tal como o de Las Vegas.
Platão não conhecia
Las Vegas e muito menos seus cassinos, mas sabia muito bem o que aquilo
significava: o fim da inocência e da paz para os habitantes de Madeira
de Leite, ou seja, Madeira de Leite simplesmente iria acabar!
- Mas, data vênia, vossa excelência
não pode fazer isso!...Aqui moram 300 almas, tranquilas e felizes.
Uma construção dessas vai acabar com nossa cidade! E o nosso
povo, o que será dele?
- Meu caro professor, toda esta terra
já foi mapeada pelo governo e é uma terra improdutiva. Por
isso, diante da solicitação do grande empresário Lúcio
Fer, aqui presente, o governo decidiu ceder a terra para que ele a explore
da maneira proposta.
- Mas como improdutiva? Praticamente
gritou o agora aflito Platão. Nosso povo trabalha esta terra há
centenas de anos e cuida bem dela, pois é através dela que
todos se alimentam. Não é pasto que existe aqui para engordar
bois, é terra trabalhada e produtiva, sim senhor!
- Olha, meu amigo... Retrucou o deputado
Não me interessam seus argumentos. Já está decidido.
Passamos aqui apenas para notificá-lo que seu povo terá uma
semana para desocupar a terra. Após isso, as máquinas vão
entrar em ação, derrubando casas e árvores e o que
mais estiver à frente, para limpar a área para a construção
do complexo turístico! É isso! Alea jacta ste, caro Platão!
Passar bem!
Sem que Platão pudesse esboçar
qualquer outro argumento, os dois homens se levantaram. O deputado apenas
lhe deu as costas e rumou para a saída da biblioteca. O homem de
negro colocou a mão branca e esquálida no ombro do professor,
trazendo-lhe de volta os arrepios, e disse, com um sorriso ainda mais cínico
que o dado pelo deputado:
- Tem uma coisa boa nisso tudo, senhor
Platão: os mais jovens, se quiserem, poderão ficar para trabalhar
nas obras. Adeus!
Falando isso, Lúcio Fer
também saiu da biblioteca e as portas, estranhamente, fecharam-se
atrás dele...
Platão correu até
a janela e ainda deu para ver o carro preto arrancar velozmente e aos poucos
sumir na escuridão do final da rua. Tão rápida como
veio, a chuva parou. A claridade do dia foi voltando aos poucos e, na rua,
somente a lama cortada pelos pneus do carro ficou como prova do temporal
que há pouco tinha se abatido sobre Madeira de Leite e da nefasta
presença dos dois homens.
O
general Platão
Um desesperado Platão fechou
a biblioteca e, saltando pela rua para evitar pisar as poças,
dirigiu-se rapidamente para a casa do velho Artaxerxes. Em menos de cinco
minutos ele chegou até a casinha branca e, arfando, não de
cansaço, mas de violenta preocupação, subiu os dois
degraus de madeira, tirou os sapatos enlameados e, quando ia bater à
porta, o velho já a abria e o convidava a entrar. Platão,
apesar dos seus ruins sentimentos causados pela vinda dos dois homens à
cidade, notou que o ancião não mostrava um semblante alegre,
como era habitual.
- O senhor já sabe... Arriscou
Platão, conhecedor dos dons do sábio ancião.
- Sim, meu filho...Venha sentar-se.
O velho dirigiu-se à cozinha e
Platão sentou-se numa das duas únicas cadeiras de madeira
que havia na sala. Sentou-se, levantou em seguida, rodopiou pela sala e
voltou a sentar, alisando nervosamente a vasta cabeleira ruiva. O velho
Artaxerxes logo voltou, trazendo na mão uma fumegante xícara
de chá.
- Tome este chá de erva cidreira,
filho. Você precisa, pois seu espírito está muito aflito.
O professor, ainda sentindo leves arrepios
e tremores, tomou a xícara das mãos do ancião, sorveu
um bom gole e desatou a falar:
- Como pode isso acontecer, meu velho?
De repente homens representando um governo que nem conhecemos, vêem
até nossa cidade e simplesmente nos expulsam? Onde a compaixão?
Onde a justiça nisso tudo?
- Bem, Platão, vou começar
pelas suas perguntas finais...No mundo que há por trás de
nossas montanhas, tais palavras foram aos poucos esquecidas. As verdadeiras
compaixão e justiça são pérolas que emanam
do Senhor Deus e de Seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, além
das fronteiras de Madeira de Leite, não espere encontrar tais virtudes.
E, voltando ao início da sua indagação,
eu vi o temporal e vi o carro preto passar pela rua. De imediato percebi
em meu espírito que o mal, finalmente, chegara a Madeira de Leite.
O temporal foi tão somente uma inútil maneira da natureza
tentar limpar da nossa cidade a presença do mal. O dia escuro e
o temporal não vieram com eles, como você deve ter imaginado,
mas vieram por causa deles!
O mal maior é simbolizado
pelo empresário; o político é apenas uma peça
no diabólico jogo de xadrez dele. O único mal do político
é a falta de caráter. Por isso ele vendeu sua alma ao demônio.
Agora ele é apenas seu auxiliar!
Platão, absorto com as palavras
do velho, esqueceu-se por instantes da tragédia que já tinha
data marcada para se abater sobre o povo de Madeira de Leite. Ele pensava
com os botões do seu surrado colete como o velho sabia de tudo,
se apenas ele, Platão, vira e conversara com os dois homens. Mas,
como era inteligente, sabia que não ficaria bem inquirir ao sábio
os comos e por quês que giravam em seu cérebro. Bebeu mais
um pouco de chá, enquanto Artaxerxes, acendendo calmamente seu cigarro
de palha, continuou sua sábia explanação:
- Você se lembra da história
do Jardim do Éden?
- Claro, seu Artaxerxes! E como poderia
esquecê-la?
- Pois bem. Lá no Jardim do Éden,
nossos primeiros pais, sem malícia, foram enganados pelo demônio
e acabaram desobedecendo o Todo Poderoso e trazendo grandes males sobre
todo habitante da Terra. Nós, de Madeira de Leite, não fomos
enganados diretamente pelo demônio, mas pecamos por olvidarmos que
dalém das nossas fronteiras existe um mundo mau, repleto de ambição
e crueldade. E o maior pecador fui eu, pois em todos estes anos, procurando
preservar a felicidade deste povo, omiti isso, deixando-o viver em sua
inocência e sem condições de enfrentar de igual por
igual o mal que está por vir.
Platão, acabando de ouvir isso,
saltou da cadeira, não mais trêmulo e inseguro, mas como o
mesmo Platão de antes, erguendo o braço, como se empunhasse
uma espada, e bradou:
- Meu bom velho, estás coberto
de razão, como sempre, e eu entendi perfeitamente sua preleção,
mas ainda há tempo de nos unirmos para a luta contra o inimigo!
Somos trezentos, assim como trezentos eram os do exército de Esparta,
comandados pelo grande general Leônidas! Vou conclamar nosso povo,
homens, mulheres e crianças à luta!
Platão calou-se e ficou ainda por
segundos com o braço erguido, talvez esperando palmas ou elogios
do velho Artaxerxes. Mas o sorriso no rosto do velho diante da cena quixotesca
de Platão, mostrava que ele não era nem contra e nem a favor
de uma luta, mas sim que essa seria inglória e fadada à derrota.
Platão abaixou o braço
meio que desalentado e buscando alguma resposta no rosto do ancião,
sentou-se novamente e perguntou, indeciso:
- O senhor acha que não dará
certo?
- Não dará filho. Lembre-se
que o valente rei Leônidas e seus valorosos soldados foram derrotados...
- Porque foram traídos! Apressou-se
a justificar Platão.
- Sim, que seja. Mas, mesmo sem o temor
da traição, onde você arranjará armas para enfrentar
o governo, que conta com milhares de soldados e grande aparato bélico?
- Lutaremos com paus, enxadas, facões
e até com talheres, se preciso for!
O velho levantou-se, como dando a conversa
por encerrada, e disse:
- Olha, Platão. O mal está
sobre os habitantes da Terra, e Madeira de Leite está na Terra,
portanto, estava sujeita a que um dia ou outro o mal se abatesse também
sobre ela. E é o que está acontecendo a partir de hoje. Não
vou estimular e nem desestimular seu ímpeto de luta. Acho
louvável sua disposição, podemos dizer, heróica.
Somente posso avisar que muito sangue será derramado...Lembre-se
de Canudos!
Enquanto o velho falava, dirigia-se à
porta acompanhado por um pensativo Platão, que tomado da síndrome
de Brancaleone, do qual ele nunca ouvira falar, já se via conduzindo
um exército de valentes e furiosos madeira-leitosas pela empoeirada
rua de Madeira de Leite.
Ele desceu os dois degraus da casa
e o velho Artaxerxes postou à porta, apoiado em sua inseparável
bengala e finalizou, já percebendo em sua centenária sabedoria
que o jovem professor já não lhe daria ouvidos:
- Você deve fazer o que seu coração
mandar fazer, mas eu acho que antes você deveria consultar sua razão.
De uma forma ou outra, não sei quanto a você, meu jovem, mas
eu, da minha parte, vou orar para que Nosso Senhor Jesus Cristo tenha
piedade deste povo.
Platão despediu-se do velho e saiu
apressadamente pela rua. Em sua cabeça misturavam-se fervilhantes
as peripécias de Dom Quixote, a história dos guerreiros espartanos
e a bravura do jovem Davi, quando enfrentou o gigante Golias. Ele acreditava
que iria achar uma maneira de levar o povo a lutar em defesa da cidade
e de suas próprias vidas...
Ao ancião, sem necessidade
de usar sua sabedoria e seus dons proféticos, era óbvio o
que ia acontecer, e por isso, quando ergueu os olhos acima das copas dos
mangueirais, acima das montanhas, fitando diretamente as nuvens mescladas
das várias e lindas cores do pôr-do-sol, as lágrimas
escorreram-lhe pela face e umideceram a branca barba.
Os pássaros, alheios ao
que estava para acontecer ao povo da cidade, gorgeavam alegremente voltando
aos seus ninhos entre as ramagens das árvores. O ancião parou
de fitar o céu com olhar suplicante e prestou atenção
às aves. Uma brisa fresca soprou delicadamente, remexendo seus cabelos
tão brancos quanto a barba e trazendo o perfume de árvores
e flores. Então o velho sorriu um sorriso de felicidade, como só
os sábios sabem fazê-lo, pois conseguem ver além da
aparente desgraça. Ele voltou a olhar o céu, desta vez alegre
e aparentemente agradecendo.
O que aconteceu naquele breve momento,
jamais vamos saber, pois quando o coração fala no peito de
um homem, só ele pode ouvir e entender.
Platão, no dia seguinte
e nos que se sucederam, antes da fatídica data imposta pelo deputado,
apesar da sua grande eloquência, não conseguiu adeptos para
sua gloriosa batalha. O povo, inocente e sem malícia, não
quis acreditar em tamanha maldade e que uma desgraça anunciada por
dois homens desconhecidos poderia se abater sobre Madeira de Leite. Afinal,
os habitantes da cidade não tinham feito nenhum mal para serem castigados.
O
ânimo do sábio, o desânimo do professor e a fé
do rei Josafá
Agora, literalmente tomado de puro
desespero, Platão voltou à casa do velho Artaxerxes.
Entre filho. Já sabia que você
viria Disse o velho, sorrindo.
Platão não estranhou o velho
dizer que sabia de sua vinda, pois isso já lhe era natural. Mas
o sorriso no rosto do velho o surpreendeu. Para dizer a verdade, ele chegou
a ficar com raiva ao ver o ancião assim, enquanto o fim de Madeira
de Leite se aproximava.
Mas sua decepção com
seu povo era maior, e ele, sentando-se na sala da casa, desatou a reclamar
do povo, chamando-o inclusive de covarde.
O velho ouviu seu destempero pacientemente
e fez um aparte na hora apropriada, como só os sábios sabem
fazer, impedindo que a raiva motivada pelo desespero de Platão contaminasse
todo o ambiente.
- O povo não é covarde,
Platão. Ele é apenas ingênuo e inocente. Como já
disse, eles jamais foram preparados para o mal. Em toda a existência
da nossa cidade, até hoje, somente o bem esteve presente, graças
a Deus!
- Graças a Deus?! Graças
a Deus?...Como o senhor pode dar graças a Deus se Ele está
permitindo essa injustiça e crueldade contra nós?
- Não fale assim, meu filho. Quem
disse que o Senhor vai permitir?
O velho sorriu novamente e Platão
calou-se, sem resposta.
- Quantos dias nos restam?
Platão, que tinha os olhos fixos
no assoalho de madeira, pareceu ser assaltado novamente pelo desespero
ao responder:
- Dois, seu Artaxerxes! Somente dois dias
e eles vão invadir nossa cidade e nos expulsar das nossas casas!
O ancião calmamente colocou a mão
sobre o ombro de Platão, e disse:
- Então está bom. Agora
peço a você que volte para sua casa e se acalme. Apanhe a
Sagrada Escritura lá na biblioteca, leve com você, e leia
a história do rei Josafá, que está no Velho Testamento,
nos livros de...
- Eu sei onde a história se encontra,
meu velho. Pode deixar que vou fazer o que o senhor mandou. Respondeu
Platão, não mais nervoso, mas tristonho, tomado de um desânimo
avassalador. Mas mesmo vendo ele assim, o ancião sabia que Platão
ia lhe obedecer.
No outro dia, bem de manhã,
enquanto em sua cabeça latejava a certeza de que no dia seguinte
Madeira de Leite poderia não existir mais, Platão levou o
livro sagrado de volta à biblioteca e em seguida dirigiu-se à
casa do velho Artaxerxes.
De longe Platão viu o ancião
sentado no banquinho à frente da casa. E enquanto ia se aproximando,
o jovem notava que o velho olhava o céu de uma ponta à outra,
até quando este parecia se fundir com o horizonte. A Platão
pareceu nitidamente que o velho sábio sondava alguma coisa no céu.
Será que ele está esperando
que marcianos venham do espaço para nos socorrer? Perguntou a sí
mesmo, em pensamento. Artaxerxes, ao sentir sua aproximação,
saiu do seu estranho estado contemplativo e cumprimentou o jovem.
Platão respondeu ao cumprimento
sem muito ânimo e sentou-se no degrau da escada. O velho olhou-o
por segundos e perguntou:
- Então, leu a história?
- A do rei Josafá?
- Sim.
- Li, meu velho. Li sim.
- E então?
- Bem, o clímax da história
é quando três grandes exércitos vão atacar Judá
e o rei Josafá ora a Deus, dizendo que não tinha como enfrentar
os inimigos e nem sabia o que fazer...
- E o que aconteceu?
- Bem, Deus respondeu através de
um profeta que estava entre o povo que havia se agrupado diante do Templo
de Salomão, junto com o rei. Deus disse para Josafá que ninguém
ali iria precisar lutar contra o inimigo, pois Ele próprio iria
combater os exércitos.
- E o Senhor fez isso?
- Claro! Ele mesmo foi contra os exércitos
que marchavam contra Judá e acabou com todos eles!
- Muito bem! Aprovou o ancião
E você notou na história do povo de Judá alguma
semelhança com a nossa?
- Claro que notei, meu velho. Mas isso
é coisa dos tempos bíblicos, e é referente ao povo
de Deus. Hoje Ele não fala mais com os homens, como outrora, e nem
sai mais por aí lutando contra exércitos!
- Você está redondamente
enganado, filho. O Senhor Deus é o mesmo, desde quando criou o Universo,
até hoje, e sempre será o mesmo. Deus é imutável.
- Tá bom... Respondeu Platão,
desanimadamente. E o senhor acha que Ele virá nos defender?
- Eu não sei...Quem sabe? Foi
assim a resposta do ancião, como as respostas que só os sábios
sabem dar. Uma resposta vaga, seguida de uma pergunta que não dava
lugar a resposta, pois era apenas especulativa.
Platão, repentinamente, num ato
de fé ou de desespero, ficou de joelhos e, olhando o céu,
procurou repetir, mesmo desordenamente e sem muita consistência,
as poucas palavras que lembrou da oração do rei Josafá:
- Senhor, olha aí dos Céus,
onde o Senhor habita e vê o grande mal que vem contra nós
amanhã. Como o povo de Judá, na época do rei Josafá,
nós também não temos como combater esse mal e nem
sabemos o que fazer. Nos ajuda, Senhor!
Artaxerxes
prepara o povo
Terminando, Platão levantou-se,
batendo o pó dos joelhos, e olhando, viu Artaxerxes sorrindo. Não
sabia o por quê e nem tinha o que falar. Mas foi o velho quem falou.
- Você fez muito bem, filho. O
velho apoiou-se na bengala e, se levantando, aproximou-se de Platão
que já desistira de entendê-lo, e disse, olhando-o fixamente
nos olhos:
- Vá até ao povo da cidade,
de casa em casa e fale a eles para apanharem tudo que lhes for mais necessário,
como roupas, utensílios domésticos e ferrramentas e que,
junto com seus filhos, venham todos aqui para minha casa. Mas diga a eles
para fazer isso com urgência!
- Platão, mesmo sem entender nada,
rodopiou nos calcanhares e foi rapidamente fazer o que o velho ordenara.
Ele procurou não arrazoar nada, pois em seu coração
algo lhe dizia que o velho Artaxerxes sabia o que estava fazendo. E o povo,
por sua vez, também não perguntou a razão daquilo.
Se era o querido e sábio ancião quem mandara, eles iam obedecer.
Isso para Platão pareceu muito bom, pois evitava que ele tivesse
que dar explicações que ele mesmo desconhecia...
O
misterioso desaparecimento de Madeira de Leite
No dia seguinte, o dia marcado para
ser a desgraça do povo de Madeira de Leite, já bem cedo podia-se
ouvir o barulho de caminhões, tratores e outras grandes máquinas
que chegavam para começar as obras do grande complexo de hotéis
e cassinos sobre a cidade de Madeira de Leite. Frente às barulhentas
máquinas e caminhões com as carrocerias cheias de trabalhadores,
ia o grande e brilhante carro preto e, logo a seu lado, dois caminhões
de cor verde-oliva ( a cor do Exército), traziam um pelotão
de soldados, mandados pelo governo para agir em caso de uma possível
revolta.
O carro preto parou e do seu interior,
como era de se esperar, desceram o gordo deputado e o empresário
Lúcio Fer. Os demais veículos e máquinas também
pararam e, a um quase imperceptível gesto da mão de Lúcio
Fer, os barulhentos motores foram desligados. Um silêncio mais pesado
que 100 elefantes abateu-se sobre todos. Os trabalhadores, apesar de sentirem
que algo estava errado, de nada sabiam, mas Lúcio Fer e o deputado,
à frente de todo o enorme grupo de homens, olhavam perplexos para
o nada!
Há cerca de uns 150 metros
deles, havia uma caminhonete Chevrolet e um homem já de meia idade,
acompanhado de uma rapazola, que por certo era seu filho, olhando para
o fundo de alguma coisa onde, até o dia de ontem, estava a pequenina
Madeira de Leite.
- Você está brincando comigo
ou estamos no local errado? Perguntou de sopetão Lúcio
Fer.
- Mas que brincando o que?!! Praticamente
berrou o apavorado deputado, que não só sentia, mas tinha
certeza que algo dera errado. A vila ficava aqui. O local está
certo. E na semana passada isso tudo aqui era repleto de árvores,
de casas e gente!...Onde foi parar tudo?
- É o que eu gostaria que me explicasse...
Atalhou Lúcio Fer, com um timbre de voz assustador, mas frio e
cortante que um iceberg.
O local, que antes tinha uma temperatura
agradável, estava tomado por um calor infernal. O deputado, suando
por todos os poros, rodopiava o olhar abestado por toda a região
ao redor do local em que ficava a vila. Onde antes havia verde, flores
e vida em abundância, como ele mesmo dissera, agora era um local
deserto e horrível, sem uma planta sequer. O solo estava enegrecido
e dele emanava um calor anormal, como se tivesse um vulcão em erupção
sob ele. Tal era seu desespero, que o gordo deputado moveu-se numa agilidade
que não lhe era peculiar, e logo aproximou-se do homem e do garoto.
Eles deveriam ter alguma explicação, pensava consigo mesmo.
- O que aconteceu aqui? Perguntou, forçando
um sorriso que não conseguia esconder a aflição em
seu rosto. Mas, antes que algum dos dois respondesse, o deputado olhou
para o local onde eles estavam e quase teve um ataque cardíaco.
No local onde antes se encontravam a vila, havia apenas um grande e profundo
buraco. No fundo, há uns calculados 30 metros, havia um enorme meteoro.
O choque fora tão violento que a pedra, que deveria ter o tamanho
de Madeira de Leite, criara a enorme cratera, rompendo lençóis
d`água e abrindo inúmeras rachaduras num raio de quase um
quilômetro. Como o meteoro estancara a água subterrânea,
esta jorrava pelas rachaduras, transformando a terra queimada ao redor
em algo semelhante a um pântano.
Nico Demo observou tudo isso em segundos,
postado ao lado dos dois homens à beira do precipício. O
homem mais velho, respondendo a pergunta feita à pouco, explicou:
- A gente não sabe ao certo, moço,
mas ontem, por volta das 7 horas da noite, ouvi da minha fazenda, que fica
a 50 quilômetros daqui, um barulho muito grande, como se uns mil
aviões estivessem descendo sobre nossas cabeças...Não
é filho?
O jovem balançou a cabeça,
concordando com o pai, e este continuou.
- Saimos todos para o terreiro e vimos
um grande facho de luz aqui neste local, onde ficava Madeira de Leite.
O barulho também parecia vir daqui. Mas logo a luz sumiu e o barulho
cessou. Mas lá pelas 4 horas da madrugada, quando a gente se levantou
e estava se preparando para levar a boiada para a invernada, vimos um novo
clarão de luz no céu. Só que este era diferente. A
primeira luz estava parada sobre este local, mas a outra descia rasgando
a noite e no instante seguinte ouvimos um grande estrondo. Até lá
na fazenda a terra tremeu. Então a gente largou o gado, pegamos
a caminhonete e viemos pra cá e encontramos isso que o senhor está
vendo. Parece que aquela grande pedra lá no fundo foi que caiu do
céu e sepultou todos os coitados dos moradores da vila neste maldito
buraco!
Sem mais explicações,
o homem fez um sinal para o filho, voltaram para a caminhonete e foram
embora.
O deputado Nico Demo ficou ainda
ali, meio que petrificado, olhando para o fundo do precipício formado
pelo meteoro. De repente, o susto com a voz de Lúcio Fer atrás
dele, o tirou daquele estado de perplexidade.
O empresário, acompanhado
pelo tenente, comandante do pelotão do Exército, postou-se
a seu lado e disse, não escondendo a raiva em suas palavras:
- Então era este belo lugar que
o senhor e aquela gente lá de Brasília queriam me dar para
construir meus cassinos?
Sem se virar, temendo olhar de frente
o empresário, o deputado retrucou:
- Mas você viu na semana passada
como era aqui, Lúcio! Não havia nada disso. Era um local
bonito, com casas e cheio de bosques...
- Eu não vi nada. Naquele temporal
e com aquela escuridão, apenas vi aquela casinha que você
disse ser a biblioteca. Você e sua gentalha tentaram me enganar!
Para fazer algo aqui, é preciso milhares de caminhões de
terra e concreto, o que irá encarecer e atrasar a obra. Eu vou construir
meus cassinos no Uruguai. Passar bem, seu merda!
Lúcio Fer virou-se e começou
a se afastar. O deputado, vendo todo seu projeto de abocanhar muito dinheiro
do rico empresário indo por água à baixo, virou-se
num repente, na tentativa de pará-lo para lhe oferecer outras terras.
Mas a terra, que não estava firme à beira da cratera, cedeu
sob seus pés e ele, completamente desequilibrado, despencou para
o fundo do buraco, emitindo um pavoroso grito de terror.
Lúcio Fer e o tenente aproximaram-se
da borda da cratera. Lá embaixo, apesar da fumaça quente
que emanava do local, dava para ver o corpo do deputado arrebentado sobre
a dura superfície do meteoro.
- Que pena... Lastimou-se Lúcio
Fer.
- Vocês eram muito amigos? Quis
saber o militar.
- Não. Respondeu Lúcio
com um sorriso diabólico Eu disse que pena, pois ele me tirou
o prazer de matá-lo com minhas próprias mãos!
E
assim é Madeira de Leite!
Daqui há alguns anos, se você,
viajante, vendedor, turista, aventureiro ou vagabundo, puder passar pelas
milhares de galáxias no espaço, talvez possa ver em alguma
estrela uma placa onde se lê: bem-vindo a Madeira de Leite. E, indo
um pouco além, poderá ver outra placa, onde está escrito:
Madeira de leite a um tiquinho de anos luz. É ali que se encontra
Madeira de Leite. A mesma vila que desapareceu misteriosamente há
algumas décadas, como se a terra a tivesse engolido ou o céu
a tivesse aspirado. O local é tão pequeno, que nenhum astrônomo
conseguiu descobrí-lo até hoje. Ali vivem 300 felizes almas
entre lindas árvores, pássaros e uma cristalina lagoa a uns
200 metros da vila, onde as crianças se banham sob a supervisão
do professor Platão da Silva, técnico aquático, e
os adultos se esticam preguiçosamente sobre a relva às suas
margens nas tardes de sábados e domingos.
Madeira de leite tem apenas uma
rua, sem asfalto, pois para o povo nada melhor e gostoso do que sentir
a terra fôfa sob os pés. As pessoas são as mesmas.
Tem a velha Severina com seu velho cachimbo, parteira, benzedeira e de
idade indefinida, que arrasta seus surrados chinelos levantando poeira
da rua, e tem também o velho sábio Artaxerxes, também
de idade indefinida, que é o homem mais respeitado na comunidade
de Madeira de leite.
Artaxerxes vive numa casa toda
pintada de branco, no começo da rua ou no fim dela, dependendo
da direção de quem entra na vila. Ao lado de sua casinha
tem belos pés de manga e um bem-te-vi que todas as manhãs
e tardes vem cantar e encantar o ancião.
Artaxerxes, sentado no banquinho
em frente sua casa, sente, de olhos fechados, a brisa acariciando seus
cabelos e barba, brancos como neve. Ele rodopia sua desgastada bengala
entre as mãos e, por um momento, relembra tudo o que ocorreu. Nem
o povo e nem mesmo o culto Platão, sabem o que aconteceu. Para eles,
Madeira de Leite está no mesmo lugar e as coisas são como
sempre foram. Sem lembrança do passado, eles vivem felizes, sem
medo ou preocupações.
Somente o velho Artaxerxes sabe
tudo o que aconteceu lá na Terra, mas ele jamais irá contar
a ninguém, pois como todo grande sábio, ele conhece segredos
e mistérios e sabe que alguns, mesmo revelados, não serão
compreendidos, e outros não podem ser revelados, pois nós,
simples e limitados mortais, não estamos ainda preparados para conhecê-los...
FIM
Sérgio Rodrigues
Ferraz
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