Os 300 de Madeira de Leite

Você quer saber se existe vida em outros mundos? O velho Artaxerxes poderá lhe contar...ou não. Ele é um sábio, e os sábios na maioria das vezes vivem no silêncio de sua sabedoria...

E assim era Madeira de Leite

 Se você, viajante, turista, aventureiro, vendedor ou vagabundo, um dia passar numa certa estrada a norte do Rio Grande do Sul, a sul do Ceará, a leste de Pernambuco e a oeste de Minas Gerais, verá uma placa de madeira, já carcomida pelo tempo, mas aonde ainda dá para se ler: bem-vindo a Madeira de Leite. Indo um pouco mais adiante, há outra placa, também de madeira e tão castigada quanto a outra, avisando: Madeira de Leite a um tirinho de espingarda. É ai. Você estará chegando no local onde outrora existia uma vila chamada Madeira de Leite.
 A cidade era bem pequena. Tão pequena que nem constava no mapa do Brasil. Madeira de Leite nem era uma cidade e sim, um povoado, uma vila. A comunidade era formada por apenas 300 almas, entre homens, mulheres e crianças. A vila era realmente tão pequena que nem a igreja católica conhecia. Portanto, lá não havia igreja. Mas assim mesmo o povo de Madeira de leite era muito religioso.
  A biblioteca da vila tinha apenas uns poucos livros. Entre eles,  a Bíblia e um livro ensebado, já até sem capa, que versava sobre as antigas civilizações. Havia também a Divina Comédia, de Dante, um livro da História do Brasil e um catálogo da lista telefônica do Ceará. Além destes cinco, considerados pela comunidade como os mais importantes, o restante do acervo da biblioteca era formado por umas duas ou três revistas O Cruzeiro. Como o livro sagrado e esses outros livros e revistas havia chegado a Madeira de Leite, ninguém sabia. Era um mistério. Mas havia os livros, as revistas  e a lista telefônica do Ceará, e era através deles que a comunidade de Madeira de Leite era educada, advindo daí a cultura e religiosidade do povo, além da mania de misturar nomes gregos com Severinos e outros, que eles achavam nos ditos livros e na lista telefônica, e colocar esses nomes nos filhos. Por causa disso, mesmo se não houvesse grau de parentesco, todos os moradores de Madeira de Leite tinham o sobrenome Silva. Já que era o que mais havia na lista telefônica, todos eles adotavam tal sobrenome.
  Além do mais, já que era um pequeno povoado, lá não havia prefeito e, consequentemente,  não havia Prefeitura e, não havendo Prefeitura, todos eram donos das terras de Madeira de Leite e ninguém era dono de nada ao mesmo tempo, pois não havia cartório de registro de imóveis. Assim, ninguém em Madeira de leite pagava impostos e, dessa maneira, já que a cidade desconhecia políticos, todos trabalhavam para sua própria sobrevivência.

O sábio Artaxerxes

  Artaxerxes era o morador mais antigo da vila. Ninguém sabia ao certo sua idade, já que Madeira de Leite também não tinha cartório de registro de nascimento. O povo em geral concordava que o velho Artaxerxes tinha mais de 150 anos de idade, e o respeitava como ancião e pela sua sabedoria. Ele era o único que sabia diferenciar, por exemplo, o sexo dos sapos. Quando alguém tinha dúvidas, era só levar o batráquio até o velho Artaxerxes, que ele, cofiando a longa barba branca e com um dos olhos fechados, em atitude de concentração, logo dizia se era sapo ou perereca.
Mas tinha também a velha Severina, que fumava seu castigado cachimbo e arrastava seus surrados chinelos pela empoeirada e única rua de Madeira de Leite, há bem uns 100 anos, calculavam os moradores mais antigos.
  Severina era parteira, benzedeira e curandeira da cidade. E tinha tanta prática em partos, que mal uma mocinha acabava de casar, ela só olhando as ancas da jovem já dizia quantos filhos ia ter, e passando seus olhinhos pequenos e já sem brilho pelo corpo do marido da ex-virgem, como lá chamavam as mocinhas recém-casadas, a velha já dizia se a predominância do casal seria de ter filhos ou filhas.
  Assim era Madeira de Leite, uma feliz comunidade que teve um fim mais misterioso do que ela própria. Platão da Silva, que depois do velho Artaxerxes, era a pessoa mais respeitada da vila pelos seus conhecimentos gerais, informava impávido, quando algum visitante passava por lá – coisa que acontecia de década em década, que Madeira de Leite tinha altitude, pois era situada a oeste de Minas Gerais, e por isso era montanhosa e bem acima do nível do mar; e, segundo Platão, a vila também tinha amplitude, já que fazia fronteira com os pampas infindáveis e as caatingas nordestinas. “Mas – assegurava, do alto da sua cultura geográfica, que “Madeira de Leite não tinha latitude, pois lá não havia cachorros, portando, sem latidos...”

Platão da Silva, a bandeira de Madeira de Leite e os 7 mares

  Platão nunca pôs os pés numa escola. É...Madeira de Leite também não tinha escola. Mas como ele era o sujeito que mais lia, ele mesmo se auto-proclamou “professor” das crianças da comunidade. Platão lia e relia os poucos livros da biblioteca, e o fazia tantas vezes que o pessoal a boca pequena dizia sobre seu temor de que Platão comesse os livros e deixasse a biblioteca vazia. 
  Mas o temor era infundado. Platão realmente “comia” livros, mas não literalmente. Ele já havia decorado até as vírgulas dos livros e revistas da biblioteca, de tanto lê-los e relê-los. Ele só não se interessava pela lista telefônica, pois de acordo com ele, era um livro enfadonho, com  muitos personagens mas sem nenhuma história...
  Um dia Platão descobriu num dos livros sobre um espanhol chamado Miguel de Cervantes e sobre o personagem Dom Quixote, criado por ele. Não deu outra: a partir de então, Platão acrescentou ao seu nome também o nome do famoso personagem, e fez de tudo para ser chamado por Dom Platão Quixote da Silva. Mas a coisa não pegou e ficou mesmo Platão da Silva, pois era assim que o povo o conhecia desde menino.
  Platão, como não podia deixar de ser, considerava Madeira de Leite como uma cidade no sentido literal da palavra e, por isso, foi o criador da bandeira de Madeira de Leite. A bandeira era retangular, como todas o são, e, para não desagradar ninguém, ele colocou nela todas as cores do arco-íris. Ao centro, um círculo branco, que segundo ele era o símbolo de unidade do povo e da paz. Dentro do círculo, havia o desenho de uma árvore com apenas dois galhos laterais e, no tronco, sobressaiam dois enormes seios. Bem, como Platão fazia questão de chamar a vila de cidade, vamos fazer sua vontade e também iremos nos referir a a Madeira de Leite, a partir de agora, como cidade. 
  Mas voltando à bandeira, como o povo ficou meio sem entender, Aristóteles da Silva, o desenhista oficial da cidade, contratado por Platão, e seguindo à risca suas orientações, explicou que o tronco simbolizava o povo; os dois galhos laterais, eram braços abertos em sinal de boas-vindas aos visitantes; a copa era o cabelo da mulher de Madeira de Leite; e toda a feminilidade do desenho, incluindo as duas enormes tetas, simbolizavam num todo a cidade e a fertilidade da sua gente e de suas terras. 
  O povo não entendeu nada, mas aceitou de bom grado a bandeira. Algumas mulheres pediram que fosse desenhado um surtian sobre os seios desnudos, mas foram logo convencidas por Platão, que alegou que “nenhuma mulher dava leite a seus rebentos através de um surtian, assim, Madeira de Leite oferecia, sem pudor, já que não há malícia na maternidade, suas suculentas tetas aos seus filhos, ou seja, o povo!”
  E assim a bandeira foi oficializada, além da própria identidade do natural de Madeira de Leite, que ganhou também uma definição de Platão:
- Povo de Madeira de Leite, escutai-me. Doravante, a partir dessa gloriosa data neste ano de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando os ventos dos sete mares soprarem alegremente ao desfraldar desta bandeira, hoje postada ao alto desse magnífico pau-de-sebo, se alguém doutras pragas vos perguntar donde sois, vós, orgulhosamente respondereis: - Somos madeira-leitosa, naturais da culta e progressista cidade de Madeira de Leite!
O povo, como da maioria das vezes, nada entendeu da oratória de Platão da Silva. Afinal, nem mar havia por ali, e ele falava de sete mares? Onde ele foi arranjar tanto mar, era o que a maioria não perguntava verbalmente, mas o fazia pelos olhares de soslaio entre eles. Apenas um, o senhor Praxedes, dono da única venda do local, responsável pelo suprimento de cereais, leite, pães, carne seca, lingüiça, como também cimento e tijolos, pois em sua venda de tudo se encontrava um pouco, arriscou uma tímida observação:
- Hamm...com licença, seu Platão, mas, madeira-leitosa...Isso tá me parecendo coisa de manteiga ou sei lá...algo meio que indefinido. Porque não madeirense, por exemplo, e só?
Platão, do alto do caixote de bacalhau, improvisado como palanque, tirou o óculos, limpou-o no colete mais ensebado que as lentes do óculos, voltou-o sobre o nariz, e retrucou:
- Caro Praxedes, é vossa observação arrazoada, pois és um grande empresário, responsável pela demanda econômica desta pequena metrópole, porém, digo-vos, à guisa de resposta que, em Portugal, aquele povo dominador, que nos subjugou por 200 longos anos e retirou as maiores riquezas das entranhas da nossa terra e as espalhou por toda a Europa, pois bem, naquele país de trás dos montes, existe uma ilha chamada Madeira e, por isso, todo o natural daquele local é chamado de madeirense ou pé de árvore. Assim, para não copiarmos de maneira vergonhosa algo que pertence ao outrora infame dominador, eu optei pelo madeira-leitosa. E, aleia jacta est!
Praxedes ficou na mesma, mas não quis causar uma polêmica com tão culta figura e tampouco diante do povo, que se acotovelava para ouvir Platão parlamentar de sobre seu caixote de bacalhau.

O sábio e a  polenta da Zulmira

  E assim era Madeira de Leite e sua gente. Todos eram amigos de todos, todos cuidavam de sua própria vida e, se houvesse alguma demanda, seja por terras, seja por antipatia ou entre marido e mulher, o velho Artaxerxes era quem julgava o caso. Mal tais fatos não constavam dos anais da história da cidade. Aliás, houve um apenas, ocorrido  há muito, muito tempo, quando Artaxerxes era um jovem de 90 anos de idade...mais ou menos. 
 Um casal o procurou para aconselhamento. Eles estavam brigando muito ultimamente, por que, segundo o marido, a mulher estava fazendo a polenta muito salgada, e ela, se defendendo, disse que colocava a quantidade de sal que sempre colocou e, chorosa, reclamava que o marido não gostava mais da polenta dela.
  Artaxerxes então pediu a ela que preparasse uma polenta e lhe levasse um prato, para ele chegar a um justo veredito. E, ao marido, ele inquiriu qual era o tempo do casamento deles.
 Assim, sentado frente à sua simples casinha, toda pintada de branco e cercada por frondosos pés de manga, Artaxerxes não mais pensou no caso. Sua casa era a última (ou a primeira, dependendo da direção) da única rua da cidade.
 Divertido, enquanto rodopiava a desgastada bengala entre as mãos, ele admirava o verde das árvores, se encantava com o canto de um bem-te-vi empoleirado num galho de uma das mangueiras e em seguida olhava as montanhas distantes, recortando o azul do céu. Depois, seu olhar ainda perfeito, apesar da idade, mirava as brancas nuvens que se deslocavam silenciosa e calmamente pelo firmamento. Então, para um ouvido mais aguçado, daria para ouvir ele murmurar entre a longa barba branca: 
- Quantas maravilhas, Senhor...quantas maravilhas!
Artaxerxes somente saiu daquele estado contemplativo quando a mulher, acompanhada do marido reclamão, chegou trazendo às mãos um prato coberto por um guardanapo carinhosamente bordado, onde se lia dentro da figura de um coração: Zulmira e Nicolau. 
  A mulher retirou o guardanapo e passou ao ancião, com um sorriso de satisfação, um belo, transbordante e ainda quente prato de polenta.
 Com sua sabedoria, Artaxerxes, tendo o prato a um meio palmo do rosto, sentiu o aroma da comida de olhos fechados e logo em seguida, arregalando bem os olhos, como um criança diante de um doce, disse:
- Que lindo prato de polenta, dona Zulmira! E parece deliciosa!
Apoiando-se na bengala, ele fez menção de levantar de seu banquinho de taquara.
- Vou pegar uma colher para provar já essa iguaria!
A esposa do homem, encantada com aquela pré-aprovação do velho sábio, solícita disse:
- Não precisa se dar ao trabalho, seu Artaxerxes...eu trouxe-lhe uma colher também!
Artaxerxes agradeceu e atacou o prato de polenta, tirando um grande naco e levando-o à boca. O marido da mulher permanecia quieto ao lado dos dois, talvez esperando que, à primeira colheirada o velho cuspisse a polenta, dizendo que realmente tinha muito sal.
Mas logo ficou de olhar arregalado quando o velho, saboreando a polenta, disse, sorrindo:
- Dona Zulmira, sua polenta é uma delícia!
A mulher embevecida, olhou para o marido com um olhar tipo: você viu, seu chato? Só você reclama da minha polenta!
 O marido, ainda abestado, disse para a mulher ir à frente, que ele ia jogar um pouco de conversa fora com o velho.
- Ah, sim...- Emendou. - ...Desculpe-me por ter reclamado de sua polenta...
 Zulmira ouviu o que desejava. Satisfeita, olhinhos faiscantes de felicidade por se considerar a rainha da polenta, ela voltou para casa.
 Quando ela já estava à uma boa distância, o marido se acocorou ao lado do velho e perguntou, incrédulo:
- Seu Artaxerxes, realmente o senhor gostou da polenta? Não achou meio salgada?
  O velho, como só os sábios sabem fazer, ficou calado. Quando terminou de comer o prato de polenta, entregou-o ao homem, passou as costas da mão pelo local que, entre toda aquela barba, se deduzia estar sua boca, e só então respondeu:
- Você me disse que vocês já estão casados há 15 anos, certo?
- Certo...
- Você lembra como era, no início do casamento?
- Cla...claro...era lindo. A gente estava apaixonado...e ela não fazia polenta salgada!
- E não faz – Garantiu Artaxerxes – Você é quem está salgando o relacionamento de vocês. 
- Co...como?!
- Simples...e não precisa ficar acabrunhado, pois isso acontece em quase todos os casamentos. No começo, é eu te amo, não posso viver sem você, flores para a amada e até a comida que ela faz, esteja salgada ou insôssa, não importa. Vocês querem mais é amar um ao outro...Não é assim?
- Sim, meu velho...
  Nicolau pegou um graveto e, pensativo, com um meio sorriso nos lábios, começou a traçar rabiscos na terra fôfa. Era nítido que ele estava rememorando o início do casamento, os primeiros filhos, Zulmira, bonita, zelosa e trabalhadora, sempre a seu lado nos momentos bons ou difíceis. E enquanto ele se quedava a pensar, o velho continuou:
- Passados alguns anos, esquecem dos bons tempos do namoro, o marido já não elogia os belos olhos da esposa e esta, chateada, vai deixando os carinhos de lado. Assim, meu filho, o casamento vai esfriando como uma noite de inverno e você começa a achar a polenta dela, que antes era tão deliciosa, salgada. E ela vai acabar salgando a comida mesmo, pois você deixou de lhe dirigir palavras carinhosas, como no começo. E onde não há carinho, o que é que vai acabando?...
  Artaxerxes deixou a pergunta no ar, como uma frase a ser terminada por Nicolau, enquanto remexia no bolso da camisa à procura do isqueiro para acender seu cigarro de palha.
  Então ele olhou para o homem, pois sabia qual seria sua resposta e sabia que já estava quase terminada sua sábia missão.
 Nicolau levantou-se sem procurar esconder do velho a lágrima que escorria por sua face. Então disse, suavemente.
- O amor, meu velho...eu entendi. Sem carinho e sem respeito entre o casal, o amor se acaba.
- Corretíssimo, meu filho. A polenta que sua esposa preparou para mim, foi feita com amor, pois ela queria me agradar e, consequentemente, ter minha aprovação. E, por isso, ela fez a polenta mais deliciosa que eu já comi até hoje!
  O homem, contente e feliz, como sua esposa à pouco, só faltou beijar o velho. Tomando a mirrada mão direita dele entre suas fortes mãos, disse, sorrindo:
- A benção, meu velho...e obrigado. Eu aprendi sua lição!
- Vá com Deus, meu filho, e nunca se esqueça que não existe maior e nem melhor tempero do que o amor!
 E lá se foi Nicolau, feliz, propondo em seu coração fazer o seu casamento tal como era no começo. Artaxerxes ficou olhando-o até sua figura ir sumindo na longa e poeirenta rua de Madeira de Leite. Então, acendeu sossegadamente seu cigarro de palha, soltou uma baforada e virou-se para o bem-te-vi que parecia ter parado de cantar  para prestar atenção na conversa, e agora agitava as asas e soltava seus característicos gorgeios:
- Olha, meu amiguinho, realmente a polenta da Zulmira estava um pouco salgada...mas agora ela vai começar a acertar a mão de novo!
E levantando-se do seu banquinho, entrou para a casa, dando risadinhas que só os sábios sabem como e quando devem dar... 

  E assim era e assim continuava a vida em Madeira de Leite. Tão tranquila e sossegada como a água espelhada da lagoa que existia há uns 200 metros fora da cidade, onde os madeira-leitosa se espreguiçavam sobre a relva às suas margens nas tardes de sábado e domingo e onde a molecada nadava nos ensolarados dias de verão, claro, sob a supervisão do professor Platão, que também era técnico aquático, como ele mesmo dizia.

O Mal aparece em Madeira de Leite

  Mas num dia terrível, quando uma tempestade se abateu sobre a cidade, deixando o dia escuro como breu e lançando relâmpagos sobre a terra, como se a quisesse fender, o mal apareceu em Madeira de Leite, na figura de Lúcio Fer, um empresário riquíssimo, dono de empresas, terras e homens.
  Platão, que olhava o pé d´água pela ensebada vidraça da biblioteca, foi o primeiro a avistar o enorme carro preto, que jogando lama para todos os lados, avançou velozmente pela rua da cidade, vindo parar justamente perto do prédio onde ele estava. O motor do carro, mesmo parado, continuou ligado, com seu ronco irritante. 
  Os vidros do carro eram escuros e não se podia ver quem estava dentro dele. Platão já estava cansando os olhos de tanto olhar o carro, enquanto sua mente dava saltos de curiosidade. De repente, quando um trovão pareceu sacudir a biblioteca e a Platão pareceu que os raios se concentraram sobre o carro, uma figura imponente, toda vestida de negro e semi envolta por uma capa vermelha, saiu do carro e, impassível à chuva, postou-se de pé no meio da rua. O homem tinha uma bengala dourada nas mãos, mas que devia ser só para compor sua tétrica figura, já que ele, analisou Platão à medida que o clarão dos relâmpagos mostravam seu rosto, não devia ter mais de 40 anos de idade e, portanto, não precisava de bengala.
  O homem plantado no meio da lamaçenta rua, capa e cabelos fustigados pelo vento e ainda a presença do carro preto a seu lado, fizeram com que Platão de repente se arrepiasse da raiz dos cabelos à unha encravada do seu pé.
  O professor, mesmo sentindo em seu coração que aquele temporal feio e fora de época e mais aquela aparição, como se surgida do nada, do homem e seu carro, ambos assustadores, traziam perigo à Madeira de Leite, não conseguia desgrudar os olhos da janela. E ele poderia jurar que o homem lá no meio da rua e da tempestade, também olhava para ele.
  O que aconteceu em minutos, pareceu a Platão durar horas. O homem então levantou a mão direita, e o carro foi desligado. Platão sentiu o coração disparar quando viu que o homem, a passos largos, firmes e decididos, rumou para a biblioteca, justamente onde ele se encontrava. Platão se benzeu, fazendo o sinal da cruz e esperou, engolindo em seco. As portas da biblioteca foram escancaradas, como se uma mão invisível as tivesse aberto violentamente, e a estranha e amedrontadora figura se avolumou na entrada.
  O homem, um sorriso maldoso nos finos lábios contornados por uma pequena e bem cuidada barbicha, caminhou em direção ao professor. Este sentiu o cabelo arrepiar ainda mais ao ver que os pés do homem não deixavam nenhuma marca da lama da rua, como era de se esperar, e nem suas roupas estavam molhadas!
- S-sim, senhor...em que posso ajudá-lo? – Balbuciou Platão, fazendo o maior esforço para não sair correndo dali.
- Boa tarde, meu jovem. Meu nome é Lúcio Fer e o seu, deduzo, é Platão da Silva, não?
- Si...Simmm...Mas, como o senhor sabe?
- Sou bem informado, meu amigo.
  Dizendo isto, o homem que parecia não dar a mínima para o apavorado Platão, puxou uma cadeira e sentou-se. Impassível, colocou sua bengala sobre a mesa e em seguida acendeu um charuto. Deu uma longa baforada e então disse ao petrificado Platão:
- Quero lhe apresentar o deputado Nico Demo dos Prazeres.
  Platão, tal era seu estupor ante o misterioso personagem,  nem percebeu quando o outro homem adentrou a biblioteca. Virou-se e deu de cara com um sujeito gordo, bem-vestido e perfumado, que estendeu-lhe a mão acompanhada de um sorriso cínico.
- Olá, professor Platão!
- O-olá...prazer...
  O segundo homem, observou Platão, parecia mais normal, pois pelo menos estava com as roupas molhadas e os antes reluzentes sapatos, enlameados. Ele também sentou-se sem cerimônias e sua conversa direta e objetiva, tirou o assustado professor da sua aparente letargia, fazendo seu sangue circular mais rápida e furiosamente pelas veias. 
  O que o deputado disse foi que as terras de Madeira de Leite, cujo dono era o governo, tinham sido doadas ao empresário Lúcio Fer, que ia fazer no local um complexo de hotéis e cassinos, tal como o de Las Vegas.
  Platão não conhecia Las Vegas e muito menos seus cassinos, mas sabia muito bem o que aquilo significava: o fim da inocência e da paz para os habitantes de Madeira de Leite, ou seja, Madeira de Leite simplesmente iria acabar!
- Mas, data vênia, vossa excelência não pode fazer isso!...Aqui moram 300 almas, tranquilas e felizes. Uma construção dessas vai acabar com nossa cidade! E o nosso povo, o que será dele?
- Meu caro professor, toda esta terra já foi mapeada pelo governo e é uma terra improdutiva. Por isso, diante da solicitação do grande empresário Lúcio Fer, aqui presente, o governo decidiu ceder a terra para que ele a explore da maneira proposta.
- Mas como improdutiva? – Praticamente gritou o agora aflito Platão. – Nosso povo trabalha esta terra há centenas de anos e cuida bem dela, pois é através dela que todos se alimentam. Não é pasto que existe aqui para engordar bois, é terra trabalhada e produtiva, sim senhor!
- Olha, meu amigo... – Retrucou o deputado – Não me interessam seus argumentos. Já está decidido. Passamos aqui apenas para notificá-lo que seu povo terá uma semana para desocupar a terra. Após isso, as máquinas vão entrar em ação, derrubando casas e árvores e o que mais estiver à frente, para limpar a área para a construção do complexo turístico! É isso! Alea jacta ste, caro Platão! Passar bem!
  Sem que Platão pudesse esboçar qualquer outro argumento, os dois homens se levantaram. O deputado apenas lhe deu as costas e rumou para a saída da biblioteca. O homem de negro colocou a mão branca e esquálida no ombro do professor, trazendo-lhe de volta os arrepios, e disse, com um sorriso ainda mais cínico que o dado pelo deputado:
- Tem uma coisa boa nisso tudo, senhor Platão: os mais jovens, se quiserem, poderão ficar para trabalhar nas obras. Adeus!
  Falando isso, Lúcio Fer também saiu da biblioteca e as portas, estranhamente, fecharam-se atrás dele...
  Platão correu até a janela e ainda deu para ver o carro preto arrancar velozmente e aos poucos sumir na escuridão do final da rua. Tão rápida como veio, a chuva parou. A claridade do dia foi voltando aos poucos e, na rua, somente a lama cortada pelos pneus do carro ficou como prova do temporal que há pouco tinha se abatido sobre Madeira de Leite e da nefasta presença dos dois homens.

O general Platão

 Um desesperado Platão fechou a biblioteca  e, saltando pela rua para evitar pisar as poças, dirigiu-se rapidamente para a casa do velho Artaxerxes. Em menos de cinco minutos ele chegou até a casinha branca e, arfando, não de cansaço, mas de violenta preocupação, subiu os dois degraus de madeira, tirou os sapatos enlameados e, quando ia bater à porta, o velho já a abria e o convidava a entrar. Platão, apesar dos seus ruins sentimentos causados pela vinda dos dois homens à cidade, notou que o ancião não mostrava um semblante alegre, como era habitual.
- O senhor já sabe... – Arriscou Platão, conhecedor dos dons do sábio ancião.
- Sim, meu filho...Venha sentar-se. 
O velho dirigiu-se à cozinha e Platão sentou-se numa das duas únicas cadeiras de madeira que havia na sala. Sentou-se, levantou em seguida, rodopiou pela sala e voltou a sentar, alisando nervosamente a vasta cabeleira ruiva. O velho Artaxerxes logo voltou, trazendo na mão uma fumegante xícara de chá. 
- Tome este chá de erva cidreira, filho. Você precisa, pois seu espírito está muito aflito.
O professor, ainda sentindo leves arrepios e tremores, tomou a xícara das mãos do ancião, sorveu um bom gole e desatou a falar:
- Como pode isso acontecer, meu velho? De repente homens representando um governo que nem conhecemos, vêem até nossa cidade e simplesmente nos expulsam? Onde a compaixão? Onde a justiça nisso tudo?
- Bem, Platão, vou começar pelas suas perguntas finais...No mundo que há por trás de nossas montanhas, tais palavras foram aos poucos esquecidas. As verdadeiras compaixão e justiça são pérolas que emanam do Senhor Deus e de Seu Filho, nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, além das fronteiras de Madeira de Leite, não espere encontrar tais virtudes.
E, voltando ao início da sua indagação, eu vi o temporal e vi o carro preto passar pela rua. De imediato percebi em meu espírito que o mal, finalmente, chegara a Madeira de Leite. O temporal foi tão somente uma inútil maneira da natureza tentar limpar da nossa cidade a presença do mal. O dia escuro e o temporal não vieram com eles, como você deve ter imaginado, mas vieram por causa deles!
 O mal maior é simbolizado pelo empresário; o político é apenas uma peça no diabólico jogo de xadrez dele. O único mal do político é a falta de caráter. Por isso ele vendeu sua alma ao demônio. Agora ele é apenas seu auxiliar!

  Platão, absorto com as palavras do velho, esqueceu-se por instantes da tragédia que já tinha data marcada para se abater sobre o povo de Madeira de Leite. Ele pensava com os botões do seu surrado colete como o velho sabia de tudo, se apenas ele, Platão, vira e conversara com os dois homens. Mas, como era inteligente, sabia que não ficaria bem inquirir ao sábio os comos e por quês que giravam em seu cérebro. Bebeu mais um pouco de chá, enquanto Artaxerxes, acendendo calmamente seu cigarro de palha, continuou sua sábia explanação:
- Você se lembra da história do Jardim do Éden?
- Claro, seu Artaxerxes! E como poderia esquecê-la?
- Pois bem. Lá no Jardim do Éden, nossos primeiros pais, sem malícia, foram enganados pelo demônio e acabaram desobedecendo o Todo Poderoso e trazendo grandes males sobre todo habitante da Terra. Nós, de Madeira de Leite, não fomos enganados diretamente pelo demônio, mas pecamos por olvidarmos que dalém das nossas fronteiras existe um mundo mau, repleto de ambição e crueldade. E o maior pecador fui eu, pois em todos estes anos, procurando preservar a felicidade deste povo, omiti isso, deixando-o viver em sua inocência e sem condições de enfrentar de igual por igual o mal que está por vir.
Platão, acabando de ouvir isso, saltou da cadeira, não mais trêmulo e inseguro, mas como o mesmo Platão de antes, erguendo o braço, como se empunhasse uma espada, e bradou:
- Meu bom velho, estás coberto de razão, como sempre, e eu entendi perfeitamente sua preleção, mas ainda há tempo de nos unirmos para a luta contra o inimigo! Somos trezentos, assim como trezentos eram os do exército de Esparta, comandados pelo grande general Leônidas! Vou conclamar nosso povo, homens, mulheres e crianças à luta!
Platão calou-se e ficou ainda por segundos com o braço erguido, talvez esperando palmas ou elogios do velho Artaxerxes. Mas o sorriso no rosto do velho diante da cena quixotesca de Platão, mostrava que ele não era nem contra e nem a favor de uma luta, mas sim que essa seria inglória e fadada à derrota. 
  Platão abaixou o braço meio que desalentado e buscando alguma resposta no rosto do ancião, sentou-se novamente e perguntou, indeciso:
- O senhor acha que não dará certo?
- Não dará filho. Lembre-se que o valente rei Leônidas e seus valorosos soldados foram derrotados...
- Porque foram traídos! – Apressou-se a justificar Platão.
- Sim, que seja. Mas, mesmo sem o temor da traição, onde você arranjará armas para enfrentar o governo, que conta com milhares de soldados e grande aparato bélico?
- Lutaremos com paus, enxadas, facões e até com talheres, se preciso for! 
O velho levantou-se, como dando a conversa por encerrada, e disse:
- Olha, Platão. O mal está sobre os habitantes da Terra, e Madeira de Leite está na Terra, portanto, estava sujeita a que um dia ou outro o mal se abatesse também sobre ela. E é o que está acontecendo a partir de hoje. Não vou  estimular e nem desestimular seu ímpeto de luta. Acho louvável sua disposição, podemos dizer, heróica. Somente posso avisar que muito sangue será derramado...Lembre-se de Canudos!
Enquanto o velho falava, dirigia-se à porta acompanhado por um pensativo Platão, que tomado da síndrome de Brancaleone, do qual ele nunca ouvira falar, já se via conduzindo um exército de valentes e furiosos madeira-leitosas pela empoeirada rua de Madeira de Leite. 
 Ele desceu os dois degraus da casa e o velho Artaxerxes postou à porta, apoiado em sua inseparável bengala e finalizou, já percebendo em sua centenária sabedoria que o jovem professor já não lhe daria ouvidos:
- Você deve fazer o que seu coração mandar fazer, mas eu acho que antes você deveria consultar sua razão. De uma forma ou outra, não sei quanto a você, meu jovem, mas eu,  da minha parte, vou orar para que Nosso Senhor Jesus Cristo tenha piedade deste povo.
Platão despediu-se do velho e saiu apressadamente pela rua. Em sua cabeça misturavam-se fervilhantes as peripécias de Dom Quixote, a história dos guerreiros espartanos e a bravura do jovem Davi, quando enfrentou o gigante Golias. Ele acreditava que iria achar uma maneira de levar o povo a lutar em defesa da cidade e de suas próprias vidas...
  Ao ancião, sem necessidade de usar sua sabedoria e seus dons proféticos, era óbvio o que ia acontecer, e por isso, quando ergueu os olhos acima das copas dos mangueirais, acima das montanhas, fitando diretamente as nuvens mescladas das várias e lindas cores do pôr-do-sol, as lágrimas escorreram-lhe pela face e umideceram a branca barba.
  Os pássaros, alheios ao que estava para acontecer ao povo da cidade, gorgeavam alegremente voltando aos seus ninhos entre as ramagens das árvores. O ancião parou de fitar o céu com olhar suplicante e prestou atenção às aves. Uma brisa fresca soprou delicadamente, remexendo seus cabelos tão brancos quanto a barba e trazendo o perfume de árvores e flores. Então o velho sorriu um sorriso de felicidade, como só os sábios sabem fazê-lo, pois conseguem ver além da aparente desgraça. Ele voltou a olhar o céu, desta vez alegre e aparentemente agradecendo. 
  O que aconteceu naquele breve momento, jamais vamos saber, pois quando o coração fala no peito de um homem, só ele pode ouvir e entender.
  Platão, no dia seguinte e nos que se sucederam, antes da fatídica data imposta pelo deputado, apesar da sua grande eloquência, não conseguiu adeptos para sua gloriosa batalha. O povo, inocente e sem malícia, não quis acreditar em tamanha maldade e que uma desgraça anunciada por dois homens desconhecidos poderia se abater sobre Madeira de Leite. Afinal, os habitantes da cidade não tinham feito nenhum mal para serem castigados.

O ânimo do sábio, o desânimo do professor e a fé do rei Josafá

  Agora, literalmente tomado de puro desespero, Platão voltou à casa do velho Artaxerxes.
– Entre filho. Já sabia que você viria – Disse o velho, sorrindo.
Platão não estranhou o velho dizer que sabia de sua vinda, pois isso já lhe era natural. Mas o sorriso no rosto do velho o surpreendeu. Para dizer a verdade, ele chegou a ficar com raiva ao ver o ancião assim, enquanto o fim de Madeira de Leite se aproximava.
 Mas sua decepção com seu povo era maior, e ele, sentando-se na sala da casa, desatou a reclamar do povo, chamando-o inclusive de covarde.
 O velho ouviu seu destempero pacientemente e fez um aparte na hora apropriada, como só os sábios sabem fazer, impedindo que a raiva motivada pelo desespero de Platão contaminasse todo o ambiente.
- O povo não é covarde, Platão. Ele é apenas ingênuo e inocente. Como já disse, eles jamais foram preparados para o mal. Em toda a existência da nossa cidade, até hoje, somente o bem esteve presente, graças a Deus!
- Graças a Deus?! Graças a Deus?...Como o senhor pode dar graças a Deus se Ele está permitindo essa injustiça e crueldade contra nós?
- Não fale assim, meu filho. Quem disse que o Senhor vai permitir?
O velho sorriu novamente e Platão calou-se, sem resposta.
- Quantos dias nos restam?
Platão, que tinha os olhos fixos no assoalho de madeira, pareceu ser assaltado novamente pelo desespero ao responder:
- Dois, seu Artaxerxes! Somente dois dias e eles vão invadir nossa cidade e nos expulsar das nossas casas!
O ancião calmamente colocou a mão sobre o ombro de Platão, e disse: 
- Então está bom. Agora peço a você que volte para sua casa e se acalme. Apanhe a Sagrada Escritura lá na biblioteca, leve com você, e leia a história do rei Josafá, que está no Velho Testamento, nos livros de...
- Eu sei onde a história se encontra, meu velho. Pode deixar que vou fazer o que o senhor mandou. – Respondeu Platão, não mais nervoso, mas tristonho, tomado de um desânimo avassalador. Mas mesmo vendo ele assim, o ancião sabia que Platão ia lhe obedecer. 

  No outro dia, bem de manhã, enquanto em sua cabeça latejava a certeza de que no dia seguinte Madeira de Leite poderia não existir mais, Platão levou o livro sagrado de volta à biblioteca e em seguida dirigiu-se à casa do velho Artaxerxes.
  De longe Platão viu o ancião sentado no banquinho à frente da casa. E enquanto ia se aproximando, o jovem notava que o velho olhava o céu de uma ponta à outra, até quando este parecia se fundir com o horizonte. A Platão pareceu nitidamente que o velho sábio sondava alguma coisa no céu. 
“Será que ele está esperando que marcianos venham do espaço para nos socorrer?” Perguntou a sí mesmo, em pensamento. Artaxerxes, ao sentir sua aproximação, saiu do seu estranho estado contemplativo e cumprimentou o jovem.
Platão respondeu ao cumprimento sem muito ânimo e sentou-se no degrau da escada. O velho olhou-o por segundos e perguntou:
- Então, leu a história?
- A do rei Josafá?
- Sim.
- Li, meu velho. Li sim.
- E então?
- Bem, o clímax da história é quando três grandes exércitos vão atacar Judá e o rei Josafá ora a Deus, dizendo que não tinha como enfrentar os inimigos e nem sabia o que fazer...
- E o que aconteceu?
- Bem, Deus respondeu através de um profeta que estava entre o povo que havia se agrupado diante do Templo de Salomão, junto com o rei. Deus disse para Josafá que ninguém ali iria precisar lutar contra o inimigo, pois Ele próprio iria combater os exércitos.
- E o Senhor fez isso?
- Claro! Ele mesmo foi contra os exércitos que marchavam contra Judá e acabou com todos eles!
- Muito bem! – Aprovou o ancião – E você notou na história do povo de Judá alguma  semelhança com a nossa?
- Claro que notei, meu velho. Mas isso é coisa dos tempos bíblicos, e é referente ao povo de Deus. Hoje Ele não fala mais com os homens, como outrora, e nem sai mais por aí lutando contra exércitos!
- Você está redondamente enganado, filho. O Senhor Deus é o mesmo, desde quando criou o Universo, até hoje, e sempre será o mesmo. Deus é imutável.
- Tá bom... – Respondeu Platão, desanimadamente. – E o senhor acha que Ele virá nos defender?
- Eu não sei...Quem sabe? – Foi assim a resposta do ancião, como as respostas que só os sábios sabem dar. Uma resposta vaga, seguida de uma pergunta que não dava lugar a resposta, pois era apenas especulativa.
Platão, repentinamente, num ato de fé ou de desespero, ficou de joelhos e, olhando o céu, procurou repetir, mesmo desordenamente e sem muita consistência, as poucas palavras que lembrou da oração do rei Josafá:
- Senhor, olha aí dos Céus, onde o Senhor habita e vê o grande mal que vem contra nós amanhã. Como o povo de Judá, na época do rei Josafá, nós também não temos como combater esse mal e nem sabemos o que fazer. Nos ajuda, Senhor!

Artaxerxes prepara o povo

Terminando, Platão levantou-se, batendo o pó dos joelhos, e olhando, viu Artaxerxes sorrindo. Não sabia o por quê e nem tinha o que falar. Mas foi o velho quem falou.
- Você fez muito bem, filho. – O velho apoiou-se na bengala e, se levantando, aproximou-se de Platão que já desistira de entendê-lo, e disse, olhando-o fixamente nos olhos:
- Vá até ao povo da cidade, de casa em casa e fale a eles para apanharem tudo que lhes for mais necessário, como roupas, utensílios domésticos e ferrramentas e que, junto com seus filhos, venham todos aqui para minha casa. Mas diga a eles para fazer isso com urgência!
- Platão, mesmo sem entender nada, rodopiou nos calcanhares e foi rapidamente fazer o que o velho ordenara. Ele procurou não arrazoar nada, pois em seu coração algo lhe dizia que o velho Artaxerxes sabia o que estava fazendo. E o povo, por sua vez, também não perguntou a razão daquilo. Se era o querido e sábio ancião quem mandara, eles iam obedecer. Isso para Platão pareceu muito bom, pois evitava que ele tivesse que dar explicações que ele mesmo desconhecia... 

O misterioso desaparecimento de Madeira de Leite

  No dia seguinte, o dia marcado para ser a desgraça do povo de Madeira de Leite, já bem cedo podia-se ouvir o barulho de caminhões, tratores e outras grandes máquinas que chegavam para começar as obras do grande complexo de hotéis e cassinos sobre a cidade de Madeira de Leite. Frente às barulhentas máquinas e caminhões com as carrocerias cheias de trabalhadores, ia o grande e brilhante carro preto e, logo a seu lado, dois caminhões de cor verde-oliva ( a cor do Exército), traziam um pelotão de soldados, mandados pelo governo para agir em caso de uma possível revolta. 
  O carro preto parou e do seu interior, como era de se esperar, desceram o gordo deputado e o empresário Lúcio Fer. Os demais veículos e máquinas também pararam e, a um quase imperceptível gesto da mão de Lúcio  Fer, os barulhentos motores foram desligados. Um silêncio mais pesado que 100 elefantes abateu-se sobre todos. Os trabalhadores, apesar de sentirem que algo estava errado, de nada sabiam, mas Lúcio Fer e o deputado, à frente de todo o enorme grupo de homens, olhavam perplexos para o nada!
  Há cerca de uns 150 metros deles, havia uma caminhonete Chevrolet e um homem já de meia idade, acompanhado de uma rapazola, que por certo era seu filho, olhando para o fundo de alguma coisa onde, até o dia de ontem, estava a pequenina Madeira de Leite.
- Você está brincando comigo ou estamos no local errado? – Perguntou de sopetão Lúcio Fer. 
- Mas que brincando o que?!! – Praticamente berrou o apavorado deputado, que não só sentia, mas tinha certeza que algo dera errado. – A vila ficava aqui. O local está certo. E na semana passada isso tudo aqui era repleto de árvores, de casas e gente!...Onde foi parar tudo?
- É o que eu gostaria que me explicasse... – Atalhou Lúcio Fer, com um timbre de voz assustador, mas frio e cortante que um iceberg.
 O local, que antes tinha uma temperatura agradável, estava tomado por um calor infernal. O deputado, suando por todos os poros, rodopiava o olhar abestado por toda a região ao redor do local em que ficava a vila. Onde antes havia verde, flores e vida em abundância, como ele mesmo dissera, agora era um local deserto e horrível, sem uma planta sequer. O solo estava enegrecido e dele emanava um calor anormal, como se tivesse um vulcão em erupção sob ele. Tal era seu desespero, que o gordo deputado moveu-se numa agilidade que não lhe era peculiar, e logo aproximou-se do homem e do garoto. Eles deveriam ter alguma explicação, pensava consigo mesmo.
- O que aconteceu aqui? – Perguntou, forçando um sorriso que não conseguia esconder a aflição em seu rosto. Mas, antes que algum dos dois respondesse, o deputado olhou para o local onde eles estavam e quase teve um ataque cardíaco. No local onde antes se encontravam a vila, havia apenas um grande e profundo buraco. No fundo, há uns calculados 30 metros, havia um enorme meteoro. O choque fora tão violento que a pedra, que deveria ter o tamanho de Madeira de Leite, criara a enorme cratera, rompendo lençóis d`água e abrindo inúmeras rachaduras num raio de quase um quilômetro. Como o meteoro estancara a água subterrânea, esta jorrava pelas rachaduras, transformando a terra queimada ao redor em algo semelhante a um pântano.
Nico Demo observou tudo isso em segundos, postado ao lado dos dois homens à beira do precipício. O homem mais velho, respondendo a pergunta feita à pouco, explicou:
- A gente não sabe ao certo, moço, mas ontem, por volta das 7 horas da noite, ouvi da minha fazenda, que fica a 50 quilômetros daqui, um barulho muito grande, como se uns mil aviões estivessem descendo sobre nossas cabeças...Não é filho?
O jovem balançou a cabeça, concordando com o pai, e este continuou. 
- Saimos todos para o terreiro e vimos um grande facho de luz aqui neste local, onde ficava Madeira de Leite. O barulho também parecia vir daqui. Mas logo a luz sumiu e o barulho cessou. Mas lá pelas 4 horas da madrugada, quando a gente se levantou e estava se preparando para levar a boiada para a invernada, vimos um novo clarão de luz no céu. Só que este era diferente. A primeira luz estava parada sobre este local, mas a outra descia rasgando a noite e no instante seguinte ouvimos um grande estrondo. Até lá na fazenda a terra tremeu. Então a gente largou o gado, pegamos a caminhonete e viemos pra cá e encontramos isso que o senhor está vendo. Parece que aquela grande pedra lá no fundo foi que caiu do céu e sepultou todos os coitados dos moradores da vila neste maldito buraco!
  Sem mais explicações, o homem fez um sinal para o filho, voltaram para a caminhonete e foram embora.
 O deputado Nico Demo ficou ainda ali, meio que petrificado, olhando para o fundo do precipício formado pelo meteoro. De repente, o susto com a voz de Lúcio Fer atrás dele, o tirou daquele estado de perplexidade.
 O empresário, acompanhado pelo tenente, comandante do pelotão do Exército, postou-se a seu lado e disse, não escondendo a raiva em suas palavras:
- Então era este belo lugar que o senhor e aquela gente lá de Brasília queriam me dar para construir meus cassinos?
Sem se virar, temendo olhar de frente o empresário, o deputado retrucou:
- Mas você viu na semana passada como era aqui, Lúcio! Não havia nada disso. Era um local bonito, com casas e cheio de bosques...
- Eu não vi nada. Naquele temporal e com aquela escuridão, apenas vi aquela casinha que você disse ser a biblioteca. Você e sua gentalha tentaram me enganar! Para fazer algo aqui, é preciso milhares de caminhões de terra e concreto, o que irá encarecer e atrasar a obra. Eu vou construir meus cassinos no Uruguai. Passar bem, seu merda!
 Lúcio Fer virou-se e começou a se afastar. O deputado, vendo todo seu projeto de abocanhar muito dinheiro do rico empresário indo por água à baixo, virou-se num repente, na tentativa de pará-lo para lhe oferecer outras terras. Mas a terra, que não estava firme à beira da cratera, cedeu sob seus pés e ele, completamente desequilibrado, despencou para o fundo do buraco, emitindo um pavoroso grito de terror.
  Lúcio Fer e o tenente aproximaram-se da borda da cratera. Lá embaixo, apesar da fumaça quente que emanava do local, dava para ver o corpo do deputado arrebentado sobre a dura superfície do meteoro.
- Que pena... – Lastimou-se Lúcio Fer.
- Vocês eram muito amigos? – Quis saber o militar.
- Não. – Respondeu Lúcio com um sorriso diabólico – Eu disse que pena, pois ele me tirou o prazer de matá-lo com minhas próprias mãos!

E assim é Madeira de Leite!

 Daqui há alguns anos, se você, viajante, vendedor, turista, aventureiro ou vagabundo, puder passar pelas milhares de galáxias no espaço, talvez possa ver em alguma estrela uma placa onde se lê: bem-vindo a Madeira de Leite. E, indo um pouco além, poderá ver outra placa, onde está escrito: Madeira de leite a um tiquinho de anos luz. É ali que se encontra Madeira de Leite. A mesma vila que desapareceu misteriosamente há algumas décadas, como se a terra a tivesse engolido ou o céu a tivesse aspirado. O local é tão pequeno, que nenhum astrônomo conseguiu descobrí-lo até hoje. Ali vivem 300 felizes almas entre lindas árvores, pássaros e uma cristalina lagoa a uns 200 metros da vila, onde as crianças se banham sob a supervisão do professor Platão da Silva, técnico aquático, e os adultos se esticam preguiçosamente sobre a relva às suas margens nas tardes de sábados e domingos.
  Madeira de leite tem apenas uma rua, sem asfalto, pois para o povo nada melhor e gostoso do que sentir a terra fôfa sob os pés. As pessoas são as mesmas. Tem a velha Severina com seu velho cachimbo, parteira, benzedeira e de idade indefinida, que arrasta seus surrados chinelos levantando poeira da rua, e tem também o velho sábio Artaxerxes, também de idade indefinida, que é o homem mais respeitado na comunidade de Madeira de leite.
  Artaxerxes vive numa casa toda pintada de branco, no começo da rua – ou no fim dela, dependendo da direção de quem entra na vila. Ao lado de sua casinha tem belos pés de manga e um bem-te-vi que todas as manhãs e tardes vem cantar e encantar o ancião.
  Artaxerxes, sentado no banquinho em frente sua casa, sente, de olhos fechados, a brisa acariciando seus cabelos e barba, brancos como neve. Ele rodopia sua desgastada bengala entre as mãos e, por um momento, relembra tudo o que ocorreu. Nem o povo e nem mesmo o culto Platão, sabem o que aconteceu. Para eles, Madeira de Leite está no mesmo lugar e as coisas são como sempre foram. Sem lembrança do passado, eles vivem felizes, sem medo ou preocupações.
  Somente o velho Artaxerxes sabe tudo o que aconteceu lá na Terra, mas ele jamais irá contar a ninguém, pois como todo grande sábio, ele conhece segredos e mistérios e sabe que alguns, mesmo revelados, não serão compreendidos, e outros não podem ser revelados, pois nós, simples e limitados mortais, não estamos ainda preparados para conhecê-los...

FIM

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