Arte
milenar
O circo, segundo achados arqueológicos,
parece ter sido a primeira forma de diversão artística que
existiu no mundo. Ele se perde na noite dos tempos. Nem se sabe quando
o circo nasceu. Os vestígios mais antigos são desenhos de
malabaristas e mulheres sobre um cavalo ou um touro - não se sabe
- que encontraram em grutas, no baixo Egito. Esses desenhos datam de 3700
a.C.
Quem sabe quando nasceu o circo?
Se um artista da época pintou no muro esse desenho, é porque
o circo já era desenvolvido. O circo é a arte mais antiga
de todas porque é espontâneo. É como a alma de uma
criança: é simples em sua essência e é
uma criação individual, e não coletiva como o teatro,
por exemplo.
No Império Romano, os mambembes
foram trabalhar para os nobres, na Corte, porque o circo tinha virado uma
luta de animais contra animais, homens contra animais e, depois, homens
contra homens. O imperador Constantino, ao professar o Cristianismo, proibiu
os sangrentos espetáculos. O circo romano não tinha nada
a ver com a poesia do circo nascido em praça pública e que
resistiu ao Império Romano.
Trezentos anos antes, na China,
artistas que se contorciam e se equilibravam sobre cordas já entretinham
imperadores e visitantes estrangeiros. Com o fim do Império Romano
e o início da Idade Média, no século 5, trupes de
mímicos, ventríloquos, ilusionistas e equilibristas, entre
outros, começaram a se apresentar em feiras e praças pela
Europa. Pulavam de cidade em cidade, sobrevivendo de contribuições
espontâneas. Só no século 18 é que organizadores
de espetáculos perceberam que as pessoas pagariam para assistir
a esses artistas do povo. Alguns palcos com entrada paga foram abertos
no continente. Foi nessa época que Philip Astley teve sua grande
sacada.
Um dia o inglês Astley, um
sargento da cavalaria britânica, teve a idéia de juntar, no
mesmo espetáculo, os números com cavalos que ele preparava
para a nobreza britânica e os saltimbancos que trabalhavam na praça
pública. Em 1770 nasceu o primeiro circo moderno, com artistas
e animais. Depois, veio o alemão Hagenberg, que foi o primeiro a
entrar numa jaula com animais ferozes.
O
grande Circo Orlando Orfei
E, já que esta matéria
é sobre a arte circense, não tem como iniciá-la sem
antes falar do mais famoso e tradicional do Brasil e um dos mais conceituados
no mundo: O Circo Orlando Orfei, cujo nome e história se fundem
com seu proprietário: Orlando Orfei (foto ao alto). Artista polivalente,
pois já fez de tudo no picadeiro de um circo, Orlando representa
a quinta geração dos Orfeis. A família, que ainda
trabalha com circos até hoje, se concentra mais na Europa e o Circo
Orlando Orfei está no Brasil desde 1968.
A saga dos Orfei teve início
em 1822, quando um padre italiano (Abelardo Orfei) deixou a batina para
ser músico. Numa apresentação no Conservatório
de Ferrara, na Itália, ele se apaixonou por uma jovem da família
Massari. Ele pediu a mão da moça em casamento, mas os Massaris
se opuseram, o que obrigou os apaixonados a fugirem e a procurarem abrigo
num acampamento cigano. Desse amor, nasceu Paolo Orgei, que seria o patriarca
da arte circense da família. E assim surgiu o Circo Orfei...
E a paixão do circo foi assim,
passando de pai para filho, até Orlando Orfei, representante da
5a geração do casal de apaixonados fugitivos. Até
a data desta matéria, com 88 anos de idade, Orlando Orfei somente
tirou os pés do pó de serra dos picadeiros uma vez, por causa
de um derrame. E já teve problemas cardíacos também.
Hoje, é claro, ele não mais enfrenta leões na jaula,
como domador e muito menos o número como domador de hienas, que
somente Orlando Orfei fez até hoje. Ele também já
não faz números de palhaços ou malabarista, nem de
ciclista acrobático e nem mágicas, pois praticamente tudo
disso ele já fez. Orlando Orfei se dedica a administrar o circo
e a abrir sempre o espetáculo com seu deslumbrante número
da Dança das Águas, um espetáculo que encanta adultos
e crianças já há décadas.
Seus parentes circenses estão
todos na Itália, de onde percorrem a Europa com seus espetáculos.
Nos dois parágrafos abaixo, Orlando Orfei fala de Orlando Orfei
e é o bastante para se aquilatar a grandeza, a garra e o amor desse
homem pelo circo.
“ Nos números com feras,
sempre que eu era ferido, eu fazia um processo mental, analisando o fato.
Eu ficava pensando: "Por que aconteceu? Eu fiz isso, fiz aquilo outro."
No final, via que a culpa era sempre minha, eu não podia dar a culpa
aos animais. Eu continuei trabalhando até nas 63 vezes que fui parar
no hospital, cinco em estado grave, e outras vezes com ferimentos mais
leves. Era o meu trabalho...
O circo, por Orlando Orfei
Fui o único do mundo a trabalhar
com hienas. Tive que aturar aquela hiena que se vê no cinema. Eu
na jaula com um chicote. Fui o único no mundo, agora já passou.
Era rápido, agora estou velho, tenho 88 anos.... Tive um derrame
cerebral anos atrás, que me paralisou totalmente, mas consegui sair
do buraco e trabalhar de novo com as feras. A primeira vez que entrei na
jaula, um ano depois do derrame, eu disse para o público: "Desculpem-me
se os movimentos não estão perfeitos, um derrame me paralisou.
Foram meses na cama e na cadeira de rodas." É quando a vida de um
homem parece não interessar mais. Mas comigo não foi assim.
Foram horas e horas de ginástica, o que demonstra que a derrota
de um homem está só na entrega. Se não se entrega,
não está derrotado”.
Orlando começou a trabalhar
no circo aos 9 anos de idade e só foi estrear aos 14. Ele mesmo
explica: “ Passei cinco anos ensaiando, todo dia, todo dia, todo dia. O
número mais difícil que existe é o malabarismo. O
bom malabarismo, não é? No circo você será um
bom artista se começar antes dos 20 anos. Mas um grande artista,
não. O grande artista tem que ser como a ginasta romena Nadia Comaneci,
que começou quando tinha 4 anos e conseguiu, nas Olimpíadas,
fazer uma coisa nova. É assim no circo também. Se você
não inicia cedo, não faz nada.
Para não fugir à regra
e devido às crises que hoje estão atingindo todos os circos
no Brasil. O Circo Orlando Orfei é o maior e, dos maiores, é
o único que ainda está se aguentando, Orlando desabafa dizendo
que os adolescentes de hoje já não ligam mais para o circo,
pois, segundo ele, os maiores de 10 anos e os menores de 40 não
amam mais tanto o circo. “Pensam que o circo é uma diversão
para as crianças. Mas não é só isso. O circo
é diversão para crianças e também para quem
já foi criança. Eles não entendem que o circo está
baseado na habilidade e na beleza de nossos filhos, que estudaram 10, 15
anos para fazer um número que, na frente do nosso respeitável
público, durará cinco minutos. Dez anos de sacrifício
por cinco minutos de trabalho. Isso é o circo.
O circo é assistido por
pessoas sensíveis e inteligentes, que compreendem nossos sacrifícios.
Passam os anos e o adolescente, quando vira adulto, volta ao circo para
trazer as crianças. E sairá mais entusiasmado que as crianças
e voltará sempre, até que, um certo dia, virá junto
com seus netos àquele circo onde, no passado, transcorreram momentos
de alegria.
Quando o público aplaude,
quando ri, isso dinheiro nenhum no mundo pode pagar. Só os artistas
provam essa experiência de dar alguma coisa, alguma alegria ao público.
Charles Chaplin disse que os momentos mais felizes de sua vida eram aqueles
em que via surgir um sorriso nos lábios de uma criança. Eu,
Orlando Orfei, agradeço aos meus pais por terem me feito nascer
em um circo, porque vi milhões de crianças sorridentes e
pais felizes pela alegria despertada nos filhos. O papa João XXIII
disse que o circo é um apostolado de paz. Eu me sinto orgulhoso
de ter dedicado a minha vida a essa diversão pura”.
As polêmicas sobre
circos
Quanto à polêmica no
Brasil de se ter numeros com animais, Orlando Orfei é categórico:
“São sonhadores, porque um circo sem animais não é
circo. Salve o Cirque du Soleil, que, com a ajuda do governo canadense,
gasta milhões para fazer um número que não é
nada. É um show de fantasia que dura vinte minutos. Minha mulher
foi ver o Soleil, uma coisa grandiosa em termos de figurino, mas adormeceu.
Você foi ver o meu circo? Isso é que é circo: veloz,
rápido. O restante para mim é um show da moda, que pode continuar
ou desaparecer. O circo clássico, como o meu, é eterno, nunca
morrerá.
E os animais de circo são
também como nós, gerações e gerações
que já nascem dentro de um circo. Eles não conheceram a selva
e, portanto, ninguém sente falta de uma coisa que não conhece.
Quando eu era menino, não tinha geladeira e não sofria; não
tinha forno elétrico e não me interessava. Quero dizer com
isso que você não sofre por uma coisa que não conhece.
Duvido que Júlio César sofresse porque não tinha carro.
Os nossos animais não são presos na selva, onde os animais
se massacram todo dia, um come o outro. Nossos animais comem a carne do
açougue. Eles não são capturados na selva, onde estavam
livres, e postos na prisão, que seria a jaula. Nossos animais são
de gerações e gerações que nascem no circo.
Sua jaula não é a prisão, é a toca onde comem,
bebem, brincam, fazem amor, têm amigos. Eles não conhecem
a falta de liberdade, pois nasceram na jaula. Não é verdade
que sofram pela falta da liberdade, porque não se sofre por aquilo
que não se conhece. Os nossos animais não conhecem a liberdade.
Um pássaro que você pega e põe na gaiola, esse, sim,
sofre”.
Já sobre a proliferação
de circos, que surgiram e desapareceram nas últimas décadas
anteriores a 1990, Orlando Orfei diz que é uma grande dano aos grandes
e tradicionais circos do mundo. No Brasil, cita ele, surgiram os circos
de Beto Carreiro, Beto Pinheiro, do ator Marcos Frota e outros, sem a tradição
de um verdadeiro circo. E isso causou danos a circos como o Vostok, que
acabou fechando e, recentemente, ao Grand Circo Garcia, que encerrou suas
atividades no Brasil em 2003. Eu também, com meu circo, a bem da
verdade, estou em crise. Mas pode morrer um circo, mas não o Circo.
Este é imortal!
Mister
M
“O Mister M é um pobre coitado
que pensou em ganhar dinheiro prejudicando o símbolo de fantasia
dos magos. O que ele fez, a gente esquece. E com a propaganda que foi feita
talvez se tenha falado de mágicos mais do que em qualquer outro
momento. Mas Mister M não é nada. Ganhou dinheiro prejudicando
uma categoria e, por isso, para mim, não é um bom homem.
Deveria fazer dinheiro com sua habilidade de mágico, não
desvendando truques inteligentes. Conhece o truque da pantera? É
uma coisa interessantíssima: a mulher entra dentro de uma jaula
e, ao se levantar o manto, em vez da mulher, está um leopardo. Se
eu digo para você como se faz, acaba tudo, acaba todo o fascínio...
Porque milagre não é, certo? É Cristo quem faz milagres.
A magia é um truque feito tão bem que o público gosta
e se pergunta: "Mas como? Como é feito? Que fantástico!"
Concluindo, Orlando Orfei, cristão
convícto, foi condecorado pelo Governo Italiano como Cavalheiro
Oficial da República. No Rio de Janeiro, São Paulo e Goiânia
é cidadão honorário. Recebeu o título de Cidadão
Carioca pelo município do Rio de Janeiro e foi recebido também
pelos papas Pio XII, Paulo XVI e João Paulo II. Mas foi o papa João
XXIII, que ao recebê-lo 5 vezes disse-lhe, - Orlando, o seu trabalho
é um apostolado de paz, continua a levar ao mundo e às famílias
cristãs a alegria.
Para ser artista de circo
é preciso nascer dentro de um
Enfatizando não acreditar
em “escolas” circenses, pois segundo sua experiência profissional
e de vida, disse nunca ter visto um artista verdadeiro, digno dessa palavra,
que saiu de uma escola dessas, Orlando Orfei garante que a melhor e verdadeira
escola é o circo que tem o pai com o filhos, irmãos com irmãos,
onde um pai trabalha 5, 6, 7 anos para fazer um número com o filho
que dura cinco minutos. E, quanto ao pedido de João XXIII, para
ele continuar levando alegria ao mundo, Orlando tem o costume de, além
de fazer espetáculos gratuitos para deficientes, idosos e crianças
carentes, ele também faz questão de distribuir ingressos
gratuitos aos presidiários, para que estes os dêem aos familiares
para irem assistir ao maior e mais tradicional circo da história
do Brasil: Orlando Orfei!
Moira
Orfei
A
Família Orfei, originária da Itália, com sangue de
pó de serra dos picadeiros correndo nas veias, é enorme,
e praticamente toda ela dedicada à arte circense.
Moira Orfei é
uma das grandes representantes, entre outros Orfeis não menos famosos
na Europa. Mas quem é Moira Orfei? Ela é a chamada “Mãe
do Circo”! Uma famosa atriz que trabalhou em quarenta e sete filmes e,
desses, também trabalhou com o grande astro do cinema italiano
Marcello Mastroianni. Ela também participou do filme Casonova e,
seu maior trabalho foi em Perfume de Mulher, 1965, contracenando com ninguém
mais, ninguém menos que o genial Vittorio Gasmann. Este filme teve
um remaque em 2000 com Al Pacino.
Moira
Orfei no filme Perfume de Mulher; em 1965, já com o circo; e em
2009, num cartaz do circo
Mas, acima
de tudo ela é a diretora do circo italiano Moira Orfei, que celebrou
em 2009 seu quinquagésimo aniversário! Um circo que foi fundado
em 1959 e viaja por toda a Europa, levando seus espetáculos às
velhas e novas gerações nesses incríveis 50 anos de
sucesso.
O Circo Moira
Orfei tem em sua trupe, além de grandes e formidáveis artistas
e dos talentos da própria família Orfei, o mundialmente
famoso palhaço David Larible, galardoado em Monte Carlo, China e
Estados Unidos e o talentoso mágico Vladik! Ao todo, são
mais de 170 artistas e 100 animais que trabalham no circo, além
dos funcionários, caminhões e um comboio especial, o que
forma oitenta caravanas. Um universo onde impera a magia, a cor e o riso,
tudo sob a direção de Moira, que segundo ela mesma, o segredo
do seu sucesso é que ela se considera única! E isso, para
bom entendedor, quer dizer, sem chance de concorrência!

Picadeiro de trapezistas - Circo
Orlando Orfei
|

Circo Vostok - O grande que
baixou as lonas
|

Sr.Orlando e seu amigo, pe.
Anselmo
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Circo Orfei - Darix Martini
- Itália
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Circo Nando Orfei - Itália
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Alfredo Montemagno e seus cães
amestrados
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Circo Paolo Orfei
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Circo Federico Orfei
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Stefano Orfei e seu tigre siberiano
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Cartaz do Paolo Orfei, na Europa
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Outros
grandes circos

Beto Carreiro 1992
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Circo Di Roma
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Circo Garcia
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Circo Robattini, acima, e Circo
Sarrasane
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Na foto ao lado, o circo
Garcia no apogeu em meados do século passado e sua dona, Carola
Boets e seus amigos chimpanzés.
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Fecham-se
as cortinas do Circo Garcia
O Circo Garcia,
o quarto maior do mundo e o mais famoso do Brasil fechou as portas depois
de 74 anos de sucesso. Além do desemprego para os artistas, a crise
gerou outro drama: o que fazer com os animais? Quem cuida deles e quem
paga o custo da alimentação? Só no ano passado, sessenta
leões foram parar nas mãos do Ibama por conta da falência
dos circos no Brasil.
No local onde
ficava o picadeiro, os chimpanzés fizeram a última exibição.
Lonas, mastros, cadeiras, nada mais será usado. A trupe não
consegue esconder as lágrimas.
Foram 74 anos
de espetáculos no Brasil e no exterior. O Circo Garcia chegou a
ser considerado o quarto maior circo do mundo. Agora, com dívidas
que chegam a quase um milhão de reais, não há mágicas
nem malabarismos que os donos possam fazer.
“Em 22 de abril
fariam 50 anos que eu estou no circo. Se eu pudesse viver dez vidas, viveria
dez outras vezes em circo, que é a melhor vida do mundo” – disse
a proprietária Carola Boets.
Não
foi só para o Circo Garcia que os ventos mudaram. Segundo o Ministério
da Cultura, dos dois mil circos em atividade no país nos anos 80
restaram apenas 300.
Vender os animais
é uma dura saída para o Garcia tentar saldar as dívidas.
Segundo a proprietária, os tigres valem R$ 20 mil cada. As elefantas
que foram compradas durante uma turnê na Tailândia valem R$
300 mil.
Circo
Garcia desce em definitivo suas lonas
As cortinas
do espetáculo se fecharam. Para sempre. Atolado em dívidas
que chegam à casa dos R$ 800 mil, o Circo Garcia, o mais antigo
do Brasil, encerrou as suas atividades. Fundada em Campinas, em 1928, a
companhia circense chegou a figurar, na década de 70, entre as quatro
maiores do mundo.
Seu fundador
foi Antolim Garcia, paulistano, filho de imigrantes espanhóis, que
conduziu o Circo Garcia ao sucesso no Exterior. O apogeu aconteceu entre
1954 e 1964, quando os espetáculos, com cinco lonas e cerca de 200
artistas contratados, viajaram por 72 países do mundo.
Desde a década
de 80, o Garcia enfrentou crises financeiras sucessivas. A arte circense
já encarava a concorrência da televisão, que passou
a oferecer diversão sem que as pessoas precisassem sair de casa.
Muitas lonas foram baixadas, no Brasil inteiro. Mas a instabilidade econômica
atual foi decisiva.
A alta do
dólar tornou inviável o pagamento de artistas internacionais,
com remunerações atreladas à moeda norte-americana.
O Garcia chegou a pagar US$ 2,7 mil por semana a trapezistas mexicanos.
Quase toda a dívida atual é referente a salários atrasados.
Além
disso, diversas leis passaram a proibir, em determinados municípios,
a presença de animais no picadeiro. E, para o Garcia, não
existem espetáculos sem animais. Era um dos únicos circos
do mundo onde era realizada a procriação deles.
Mas alguns
acontecimentos marcaram, de maneira particular, a derrocada do Garcia.
Antolim morreu em 1987. Desde aquele ano, o grupo era administrado por
sua mulher, Carola Boets, e pelo filho dele, Rolando Garcia, que faleceu
em 2002.
Foi por meio
de uma proposta de trabalho que Carola Boets, uma belga criada na Suécia,
veio com a família para o Brasil no início da década
de 1950. Para apresentar o número musical "Ascandales", ela assinou
contrato por apenas um ano, mas acabou se apaixonando pelo dono do circo,
com quem se casou em 1953, e nunca mais foi embora.
Agora Carola
passa os dias olhando velhas fotografias e álbuns montados com recortes
de jornais estrangeiros. São reportagens elogiosas ao circo. E,
ao lado das pastas, fica o cinzeiro, lotado de bitucas de Carlton, que
ela fuma sem parar.
Matéria
do Circo Garcia publicada pelo Correio Popular
Campinas
– 07 de janeiro de 2003
|
Cuidado
se alguém o chamar de "gracioso"
Segundo consta
nos relatos de Pero Vaz de Caminha, uma das naus portuguesas que aportaram
no Brasil trouxe um "homem gracioso" chamado Diogo Dias. Depois de dançar
com os índios ele "fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão,
e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito". Para
a pesquisadora Alice Viveiros de Castro, Diogo Dias foi o primeiro palhaço
a pisar em solo brasileiro: "O termo ‘gracioso’ era utilizado, nessa época,
para designar os atores cômicos. Os dicionários mais antigos
indicam histrião e bobo como sinônimos de gracioso, ou seja,
palhaço", explica Alice. Ela afirma que o "salto real" era equivalente
ao salto-mortal, e as voltas ligeiras seriam possivelmente acrobacias,
voltas de mão e rondadas, muito comuns nas apresentações
de saltimbancos da época.
Aos palhaços
sempre coube a função de fazer rir grandes e diversificadas
platéias. René Mauro, cômico que ganhou o apelido de
Soneca quando trabalhava, entre bocejos, como bilheteiro do circo, diz
o seguinte: "O palhaço deve contar uma piada já pensando
na próxima, não pode perder o pique do espetáculo.
É como um jogador de futebol: se não correr em campo, ele
perde o jogo". Além disso, precisa atuar sem se preocupar com provocações,
embora nem sempre isso seja possível. Certa vez, Soneca contou uma
piada e alguém resmungou: "Essa é velha". Sem perder tempo,
ele respondeu: "A educação é velha e você não
aprendeu".
No Brasil,
há basicamente três tipos de palhaço: o clown, ou "escada",
que, nas entradas cômicas e intervalos entre apresentações,
auxilia o "excêntrico", e o toni de soirée, uma espécie
de "faz-tudo". Segundo Roger Avanzi, um dos fundadores da Academia Piolin
de Artes Circenses (1978), o "excêntrico" é o palhaço
de sapato grande, roupas coloridas, que fala muito e conta piadas. Já
o clown faz um sujeito normal, instruído, poliglota, elegantemente
trajado. Numa sátira da sociedade, juntam-se os dois personagens,
e o clown tenta provar a ignorância de seu parceiro, "mas, no frigir
dos ovos, o excêntrico lhe dá uma rasteira, já que
na vida nem todo mundo sabe tudo. O bobão é mais simpático
e o outro ganha vaia da platéia". Já o faz-tudo, como o nome
diz, é o palhaço que entre um número e outro ou mesmo
durante o número, quando o artista precisa de "um fôlego"
para continuar, ele entra e faz o mesmo que o artista, mas de maneira atrapalhada,
chamando a atenção e o riso da platéia, enquanto o
artista se recupera.
Na
ilustração acima, o palhaço Bozo, importado dos EUA
pelo SBT e que fez relativo sucesso na tevê brasileira. Os palhaços
brasileiros de mais destaque foram Carequinha, Piolim, Pururuca e Torrresmo
e Arrelia e Pimentinha |
O
selvagem show do lendário Buffalo Bill

Um dos cartazes do Circo Buffalo
Bill, em espanhol
Na sequência da Família
Orfei, que começou em 1822, do outro lado do Atlântico, os
Estados Unidos viveriam sua era de ouro do circo no século 19. Na
década de 1830, o equilibrista inglês Thomas Taplin Cooke
criara seu próprio show – que, após encantar o rei William
IV, passara a ser chamado Circo Real de Cooke. Com o estrondoso sucesso,
em 1836 ele juntou sua companhia de 120 pessoas (um terço delas
membros da família) e embarcou para Nova York – foi o primeiro homem
de que se tem notícia a cruzar o Atlântico com um circo inteiro.
Estabelecidos na América, muitos dos Cooke se casaram com membros
de outras famílias circenses, fazendo do clã um dos mais
importantes das famílias de picadeiro. “Em 1897, havia mais de 200
descendentes diretos de Thomas Taplin Cooke, a maioria envolvida com o
circo. O circo era, e ainda é, uma comunidade fechada”, diz Peter
Verney em Here Comes the Circus (“Aí vem o circo”, inédito
em português).
Na época, um sapateiro americano
resolveu arriscar a sorte ao criar o próprio espetáculo.
Aron Turner usou uma tenda desmontável, novidade que acabara de
dar os primeiros primeiros passos na Europa – até então,
o circo tinha uma estrutura fixa. O Circo Turner rodou o país agitando
cidades com uma invenção de seu fundador, as paradas de rua.
O espetáculo com estrutura móvel fez sucesso.
Na Europa, a itinerância também
agradava. George Sanger fazia turnês de nove meses, passando por
200 lugares. Na Rússia, os espetáculos apresentavam-se desde
o fim do século 17, incentivados pelo czar Pedro, o Grande, e formaram
a base de uma das escolas mais respeitadas no mundo do circo.
Em 1883, no Nebraska, Estados Unidos,
William Cody iniciou um fenômeno que virou moda por décadas:
o Velho Oeste. Com elencos enormes, que incluíam mais de 100 índios
e perseguições a cavalo, Cody tornou-se uma lenda, lembrada
até hoje por seu nome artístico: Buffalo Bill. Na mesma época
Phineas Taylor Barnum, famoso pelo chamado “Circo dos Horrores”, e James
Bailey, exibiam-se dentro e fora dos Estados Unidos com o show O Maior
Espetáculo da Terra, nome que deu origem ao filme estrelado por
Charlton Heston e Tony Curtis na década de 60 e que usamos também
para dar título a esta matéria. Coincidentemente, o grande
ator Heston personificaria também Buffalo Bill em outro filme.
William F. "Buffalo Bill" Cody,
nasceu em Le Claire, Iowa, em 1846 e faleceu em 1917 quando visitava
sua irmã em Denver. Após ter organizado seu Wild West Show,
Bill tinha o costume de visitar Denver e o Colorado muitas vezes. A essa
altura, entre 1886 e 1916, ele já havia feito 35 temporadas com
seu show apenas no Colorado.
No Brasil surgiria, na garupa da
fama do circo criado por Cody, o também Circo Búfalo Bill,
mas que nada tinha do show do velho-oeste do verdadeiro circo americano.
Em 1965, época áurea dos circos no Brasil, o Circo Bufalo
Bill (brasileiro) e também o Circo Garcia, estiveram em Rio Claro,
SP, em tournês de enorme sucesso.

Na foto, o lendário Bill
Cody e índios de verdade, que participavam do show.
No circo, é claro,
também havia a cavalaria e os cowboys
|
Matéria baseada em
dados e notícias da Enciclopédia Abril-1967, Jornais Tribuna
de
Santos, Correio Popular
e Jornal da Barra e revista Problemas Brasileiros,
além de entrevistas
com artistas do circo Paolo Orfei no Brasil.
|
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