O Maior Espetáculo
da Terra - 2

O Mundo Mágico do Circo


Circo Paolo Orfei

 No dia 15 de março comemora-se o Dia do Circo, no Brasil. O que esse círculo coberto por uma lona, cheio de pó de serra no chão tem de especial? Qual é a magia que encanta crianças e adultos, desde a época das civilizações mais antigas? Nossa reportagem passou 3 dias convivendo com os artistas do “Circo Paolo Orfei”. 
 Nos potentes amplificadores é executado a ária Som da Liberdade, da ópera Nabuco, de Giuzeppi Verdi, aumentando ainda mais as emoções. Alguém anuncia: “Respeitável público, o espetáculo vai começar!”.
 O circo é arte e história. O início do circo, da maneira que o conhecemos hoje, teve origem na Inglaterra, quando um capitão de cavalaria da rainha montou uma estrutura circular com chapas de alumínio, dentro do palácio. Após muitos anos, surgiu um circo lendário em todo o mundo, o “Circo Buffalo Bill”, criado pelo próprio Bill Coddy. No entanto, as maiores raízes do circo estão na Europa, de onde surgiu a família Orfei, como vimos na página anterior.
 


 
 
 

  Segundo Elizabeth Orfei (foto), proprietária e administradora do circo Paolo Orfei, as famílias Garcia e Orfei foram as únicas que colocaram seu próprio nome em um circo e obtiveram êxito. “Existem muitos circos com nome fantasia; nós temos orgulho de dar o nome de nossa família para o circo, como pessoa física. Não pode haver blefe ou malogro da nossa parte, pois qualquer coisa, qualquer crítica, envolverá o nome da família”, explica ela.
 No mundo do circo, quase todo mundo é parente. É raro acontecer um casamento fora do círculo de artistas. Elizabeth praticamente nasceu no picadeiro. Ela é sobrinha de dona Carola Boets, proprietária do “Circo Garcia”, um dos mais antigos do Brasil, e que terminou tristemente em 2003.
 Quando acontece algum casamento onde um dos noivos seja de fora do meio artístico circense, geralmente o “forasteiro” passa a integrar a grande família após o enlace. Foi assim com Nestor Maturana, o domador de tigres. Sua esposa não era de circo, e hoje vive com a trupe do Paolo, onde apresenta um número com cães amestrados.

Uma grande família

 Elizabeth foi casada com Federico Orfei, que representa a sexta geração da família. Federico casou-se com Elizabeth e deu o nome do patriarca da família ao seu filho caçula, criando o “Circo Paolo Orfei” no mesmo ano. Assim, tanto o pequeno Paolo tem 08 anos de idade, assim como o circo Paolo Orfei no Brasil, na data desta matéria.
 Antes de fundar o próprio circo, Federico trabalhou com seu tio Orlando, o mais famoso dos Orfei no Brasil. Orlando Orfei chegou ao Brasil em 1968 e foi o responsável pelo resgate da categoria circense na América Latina.
 Em fins de 1994, Federico perdeu a vida em um acidente automobilístico no Paraná, deixando para a jovem esposa a missão de cuidar dos três filhos e administrar o circo, que contava, na época, com cerca de 50 pessoas, e dezenas de animais. 
 O fato que chama a atenção é que, além de Elizabeth, em todo mundo existem apenas mais 4 mulheres no comando de circos tradicionais: Carola, no Circo Garcia, Moira, Miranda e Miralda Orfei, em circos da Itália. “Muitos empresários, com os quais mantemos contato, acham que é fácil administrar um circo”, comenta Elizabeth, “só que o que eles enfrentam mensalmente com o pagamento do pessoal, a gente enfrenta toda semana, pois, no circo, o pagamento é semanal. Além disso, um funcionário comum de uma empresa bate o seu cartão e vai para casa. No circo, a gente convive 24 horas por dia. São pessoas de todo tipo e raça, costumes e idéias diferentes”.
 Elizabeth disse ainda que são muitos os problemas a serem resolvidos na trupe: “São doenças, brigas de casais, dentadas de cachorros...(risos)”. Ela garante que, no circo, não existem segredos, todos sabem da vida de todos e ajudam-se mutuamente. “Não é somente uma empresa, é, antes de tudo, uma grande família”.

Estrutura

 Outra dificuldade, segundo Elizabeth, é que no Brasil e em outros países sul-americanos, não existe uma infra-estrutura própria para se receber um circo, como acontece na Europa, onde os circos usam transporte ferroviário e as plataformas de trens são próximas do terreno onde vão se instalar. “Normalmente, os terrenos são providos de água, eletricidade, esgoto, enfim, toda infra-estrutura”, afirma Elizabeth, completando que “no Brasil, você usa um terreno e, quando volta àquela cidade, anos depois, no lugar já foi construído um prédio”. Ela garante que na Europa não é bem assim: “Lá o circo é considerado arte, cultura, mas, infelizmente, aqui, ainda não pensam assim”. 
 O circo enfrenta muitas outras dificuldades, principalmente no que se refere ao preconceito com a “gente de circo”. Além disso, levam uma vida bastante agitada, pois precisam justificar votos na época de eleição, prestar contas com o Serviço Militar, as crianças precisam estudar em várias escolas de cidades diferentes, e vai por aí afora. No caso de endereço, os artistas utilizam o do proprietário do circo, que, normalmente, possue residência fixa. O contrato de trabalho é anual e o salário é pago à família. Cada um contribui como autônomo para a Previdência Social.
 
 

Mesmo em terrenos ruins, o circo leva em média 48 horas para ser montado.

Religião

 Conforme Elizabeth, uma das maiores dificuldades do artista de circo é no âmbito religioso. “É difícil casar, batizar, pois as igrejas colocam muitos obstáculos a tudo isso”. Pensando nesse problema, o padre italiano Renato Russo criou a Pastoral dos Nômades, que passou a atender circos, parques e ciganos. No Brasil, D. Paulo Moreto é o responsável por essa pastoral. Graças à pastoral, quando um circo fica mais tempo numa cidade, o proprietário pode pedir ao pároco local a realização de missas.
 “No circo, temos budistas, espíritas, ateus, entre outros, mas todos eles, ao entrar no picadeiro, costumam fazer o sinal da cruz”, comenta Elizabeth. Ela mesma faz parte da Terceira Ordem dos Franciscanos e o seu marido Federico podia até servir hóstia aos artistas. Elizabeth conta que, há três anos, foi consagrado Calon, um padre cigano, e, há quatro meses, foram batizadas cerca de 20 pessoas no “Circo Paolo Orfei”. Para o final do ano, está programado um casamento no picadeiro.

Vida no circo

 Uma pessoa que não nasceu no circo, precisa amá-lo muito para se adaptar ao ritmo de vida circense, morando em trailers apertados, enfrentando terrenos acidentados, intempéries, deslocamentos freqüentes de um local para outro, e uma série de outras dificuldades.
 Essa adaptação não foi necessária para Elizabeth Orfei Forlani, 32 anos, de descendência belga. Elizabeth, além de sobrinha de Carola Boets, é neta de Elizabeth Josephin Gallemaert, uma artista que chegou ao Brasil muitos anos atrás para se apresentar em circos com o famoso Trio Chabery. A história de dona Gallemaert acabou virando um programa da televisão belga, em 2005.
 
 

“A magia do circo está no desejo da pessoa ser um artista de circo. Quantas pessoas já não desejaram fugir com um circo? Nós vendemos essa fantasia real, viva. O artista de circo estuda, se sacrifica durante anos, para fazer um espetáculo de cinco minutos. Aí está a magia. A única fantasia viva do mundo é o circo!” Elizabeth Orfei

Domador deixou filhos no Chile

 Nestor Maturana, 37, faz parte da terceira geração de uma família de domadores de feras. Seu avô, alemão, começou a domar feras em um circo europeu, mais tarde, seu pai também ingressou na profissão.


Os "bichinhos de estimação" de Nestor - Foto: Sergio Ferraz

  Hoje Nestor segue a tradição, mas não se preocupa em mantê-la: seus filhos estão no Chile, sua terra natal, freqüentando escola. “Primeiro quero assegurar um bom futuro para meus filhos, através dos estudos, depois vou respeitar a opção que cada um fizer. Se algum deles quiser ser domador terei o maior prazer em prepará-lo para isso.”
 Nestor estava em um circo dos Estados Unidos, quando foi procurado por Federico para unir-se a sua trupe e trabalhar com tigres siberianos. “O Circo Paolo Orfei é o único que possui esses animais, comprados na Holanda e na Rússia”, afirmou Nestor. Com a procriação, no próprio circo, já são sete os tigres. 
  O chileno tinha muita vontade de conhecer o Brasil e não hesitou em entrar para a família Orfei. Nestor é o funcionário mais antigo do circo. O que ele considera mais difícil em sua vida, não é enfrentar os tigres em três espetáculos diários, mas viver longe dos filhos, que ele e a esposa só vêem nas férias.

E o palhaço o que é?



 
 

 No circo, existe uma trilogia básica, formada pelos trapezistas, os animais e os palhaços. Fala-se em circo e as primeiras imagens que vêm à mente são eles, principalmente o palhaço.
 Essa figura é a mais conhecida do picadeiro, mas ninguém reconhece o seu verdadeiro rosto, se está triste ou alegre. Quando pintado, ele só transmite alegria, sempre da forma mais pura, terna e infantil possível, não importando quem está por trás da pintura.
 Granual Galegheto (foto), 60, é um homem comum, meio reservado, quieto, mas é só pintar o rosto e transforma-se como que por encanto no engraçado “Graveto”. Como sugere o seu nome do palhaço, esse senhor pega fogo no picadeiro e faz coisas que muitos jovens não conseguem.
 “Graveto” existe há 20 anos e está há cinco no “Circo Paolo Orfei”. Galegheto segue a tradição do pai, também palhaço. Mas, antes de decidir a seguir a profissão do pai, ele se dedicou às funções de trapezista e equilibrista. Achava que não tinha jeito para ser palhaço. Um dia pintou a cara para ver no que dava e, a partir de então, transforma-se no “Graveto”, todos os dias de espetáculo.
“Não basta fazer gracinhas na rua para ser um palhaço de circo, é preciso muita coragem para enfrentar uma platéia e, o que é mais difícil, fazê-la rir”, disse ele.
 

“Há pessoas que preferem enfrentar uma situação perigosa a ter que enfrentar uma platéia. O artista de circo enfrenta o perigo e a platéia”.  Sergio Ferraz

“Respeitável público, fecham-se as cortinas e chega-se ao fim de mais um espetáculo”. No entanto, a magia do circo jamais se encerrará.

Livros e filmes falam do circo

 O jornalista Eduardo Pelegrenni está, há um ano, convivendo com artistas de circo para coletar material para um livro cujo tema central é o cotidiano circense.
A magia do circo rendeu bons filmes e ótimas bilheterias para os estúdios de Hollywood. Quem não se lembra de filmes como “O Maior Espetáculo da Terra”, estrelado por Chalton Heston, tantas vezes reprisado nas tardes da Globo? E também merecem ser citados os filmes “O Trapézio”, com Burt Lancaster e o singelo “O Circo”, de Charles Chaplin. Ambos também já exibidos pela emissoras de televisão. Quem tiver interesse pode procurar por tais filmes na Internet.

NE - Nas pesquisas e entrevistas para esta matéria, aconteceram alguns desencontros de informações e, como fazemos no GNT, não omitimos nenhuma informação, em respeito aos nossos leitores. Assim, em outra versão, o nome do padre que deu início à família Orfei, é Paolo e não Abelardo. E em outra versão, seu nome nem é citado.
 02 - Por perdermos contato com os entrevistados, não sabemos se o circo Paolo Orfei na Itália é o que esteve no Brasil, ou vice-versa.
 03 - Numa das pesquisas, o nome da proprietária do Circo Garcia, Carola Boets, aparece como Carola Guths e, em outra, como Carlota Boets.
 04 - Por fim, noutra versão, foi o próprio Abelardo Orfei quem criou o primeiro Circo Orfei, e não seu filho Paolo, como consta na versão que publicamos.

 
 
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