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O homem por trás
do mito

Em 1969, a França
comemorou o segundo centenário do nascimento de Napoleão
Bonaparte: o estadista, o imperador, o general, o mito. Por trás
deste gênio militar, que se confunde com a própria história
da França e da Europa, surge agora o homem, que em agosto do ano
que vem completará 240 anos da data de seu nascimento.
O mundo sabe tudo
a respeito de Napoleão Bonaparte – mas parece que nada conseguiu
saber sobre o homem que ele foi. É como se ele se tivesse esforçado
por cobrir-nos de informações para melhor se esconder, como
um criminoso astuto que quer enganar a polícia.
No entanto, alguns aspectos
seus são familiares, a começar pela figura: pupilas fixas,
penetrantes, um olhar de céu de inverno atrás de supercílios
negros e bem desempenhados, queixo firme, nariz adunco, um rosto com algo
de nobre, triste e austero.
Conhecemos também
suas pequenas manias. A mais famosa: enfiar a mão esquerda sob o
casaco, à altura do fígado. Sem que ninguém possa
perceber, essa mão executa uma série de exorcismos sempre
que seu dono encontra um padre ou um cachorro preto. Napoleão é
supersticioso.
E há seu modo de
falar. Brilhante em italiano, medíocre em francês, ao qual
ele freqüentemente acrescenta expressões de sua terra natal,
a Córsega. Confunde palavras: diz anistia em vez de armistício.
As circunstâncias o desculpam: menino ainda, antes de entrar como
bolsista na escola militar de Brienne, só teve três meses
para aprender o francês, ensinado por um padre da Borgonha.
Finalmente, o tamanho. O
soldados do Exército italiano apelidaram-no o pequeno cabo. O marceneiro
da ilha de Santa Helena, encarregado de tirar-lhe as medidas para o caixão
mortuário, anotou 1,68m. Por causa da cabeça grande demais
e do pescoço curto demais, Napoleão sempre pareceu menor
do que era.
A infância
pobre daquele que seria o imperador da Europa
Infância, quase
não teve. Nascido, em 15 de agosto de 1769, aos nove anos fecham-se
atrás dele as portas do severo colégio de Brienne, onde ficará
outros sete anos, pobre bolsista sem tostão entre tantos colegas
metidos a janotas. Assim que chega, põem-lhe um apelido humilhante,
“la paille au nez” (a palha no nariz), imitando a pronúncia com
a qual ele diz seu nome – “Nappoilloné”. Um dia, o garoto escreve
para casa, ao pai: “Estou farto de aparentar indigência e de ver
os sorrisos insolentes dos colegas que, de melhor do que eu, só
têm a fortuna. Tira-me de Brienne!”
Mas as coisas iriam ainda
piorar. Bonaparte, pai, cansado de carregar sua miséria altiva,
morre num hospital. Deixa uma viúva. Letícia, com sete órfãos
(quatro meninos e três meninas) para cuidar. A única esperança
da família é Napoleão, que aos dezesseis anos recebe
as insígnias de oficial do rei. É agora subtenente, com um
magro soldo, a maior parte do qual serve para sustentar a mãe e
os irmãos, na Córsega.
A pobreza e a solidão
fizeram-no inimigo da monarquia e adepto dos ideais de liberdade e igualdade.
Mas, nos anos vindouros, sua posição permanecerá ambígua:
ao povo, Napoleão poderá mostrar, simbolicamente, as solas
furadas de seus sapatos; aos aristrocratas, seu diploma de oficial do rei.
Sua primeira tarefa leva-o
a morar na cidade de Valença. Aí, seu jantar resumia-se a
fatias de pão molhadas no leite. Aos domingos, ele próprio
cozinhava uma sopa e se regalava em companhia do irmão Luís,
a quem sustentava e educava. Moravam num quarto pegado a um salão
de bilhar. Enquanto Luís dormia e o bilhar se aquietava, Napoleão
trabalhava numa monumental história da Córsega. Ele esperava
que a revolução republicana lhe assegurasse um grande destino
na ilha em que nascera.
O mito começa
a ser esboçado
Em Valença,
durante a revolução, Bonaparte encontra um general republicano,
Carteaux, que vinha de Paris para amotinar o Sul da França. O general
fica muito feliz em juntar às suas tropas esse artilheiro também
revoltado. Não se engana: os canhões de Bonaparte abrem-lhe
as portas da cidade de Avignon, depois Beaucaire, finalmente Toulon, o
grande porto.
Diante de Toulon, toda branca,
Napoleão é um soldado da fortuna, disponível, feroz
e confuso. Constrói a seu redor uma pequena corte, quase um bando.
Manda que um de seus ajudantes escreva, com sua melhor letra, um cartaz:
“Bateria dos Homens Sem Medo”. E vai colocá-lo, pessoalmente, ao
lado de suas peças de artilharia, ao abrigo dos rochedos, mas sob
fogo inimigo. Toulon cai dois dias depois. Como recompensa, Napoleão
ganha as divisas de general-de-brigada e o comando da Artilharia das Costas
e do exército da Itália, cujo quartel-general fica em Nice.
Em Nice, o recém-promovido
general torna-se amigo do representante da Convenção – o
Parlamento Revolucionário -, que se chama Augustin Robespierre,
irmão de Maximiliano, o poderoso incorruptível. Augustin
recomenda a Maximiliano o “patriota” Bonaparte. Entretanto, os azares da
revolução conduzem Robespierre à guilhotina e Napoleão,
suspeito, é recolhido à prisão.
Solto depois de algum tempo,
volta às suas batalhas, já que a situação nas
fronteiras estava longe ainda de se acalmar. Suas vitórias começam
a ser cantadas pelos cronistas da época, mas isso não comove
os homens do Comitê de Salvação Pública, para
quem o protegido de Robespierre continua a não merecer confiança.
Napoleão é exonerado, posto em disponibilidade, sem comando.
O jovem general
se apaixona
O jovem militar de
orelhas de cachorro, com seu cinto tricolor um tanto desbotado, seguido
por três homens fiéis – seu “Estado-Maior” -, toma o caminho
de Paris. Em meados de maio de 1795, os quatro homens chegam a uma Paris
escandalosa, primaveril, frívola, festiva. Para Napoleão,
parente pobre e à margem dessa festa, é o tempo da “miséria
de asas douradas”.
Ele e seus homens famintos
arranjam acomodação num quartinho miserável no Hotel
da Liberdade, depois de pechinchar muito. Na penúria, Napoleão
faz planos: seu futuro é o único capital de grupo.
Começa a percorrer
as antecâmaras dos ministérios. Em vão: está
caido em desgraça. Finalmente, alguém lhe oferece o comando
do Batalhão de Infantaria na Vendéia. É pegar ou largar.
Napoleão recusa: infante, jamais – seria a desonra total. Correndo
todos os riscos, decide ficar em Paris.
Ocupa os dias com leituras
na Biblioteca Nacional e toma aulas de astronomia no Observátorio.
Mas, Paris é tão linda e o amor está na ordem
do dia. Napoleão namora Désirée – depois esposa
do General Bernadotte -, escreve um romance no qual os dois são
os principais personagens e envia-lhe cartas insistentes e apaixonadas.
Freqüenta a única
família que conhece na capital, os Permon. Laura Permon, a filha
do casal, diria mais tarde que esse estranho amigo “andava pelas ruas,
caminhando com passos incertos, tendo um chapéu velho, redondo,
afundado até os olhos e deixando escapar suas orelhas, que caíam
sobre a gola de sua casaca cinza-ferro”.
O velho Permon estava muito
doente e Napoleão, pupilo agradecido, dedicava-se a ele, passando
todos os dias para saber notícias e, muitas vezes, deixando-se convidar
para o jantar. “Certa feita”, conta Laura. “meu pai sentiu-se muito mal.
Eram dez horas da noite. Nessa época, era impossível fazer
que um criado saísse de casa depois das nove. Bonaparte não
disse nada. Desceu as escadas correndo e foi buscar o médico,
a quem trouxe, apesar de seus protestos, sob uma chuva terrível.
Bonaparte não encontrara nenhum "fiacre" e seu uniforme ficou ensopado”.
Tal dedicação
vale-lhe uma apresentação à influente sra. Tallien,
que recomenda “seja entregue ao chefe-de-brigada de artilharia Bonaparte
uma peça de tecido de lã para casaca, sobrecasaca, colete
e calças de uniforme”.
Aos poucos, a situação
melhora. O novo encarregado da condução da guerra, Pontecoulant,
simpatiza com o artilheiro e lhe dá um cargo - adido do Departamento
de Topografia do Comitê de Salvação Pública.
Ainda não é tempo de vitórias mas de prepará-las
meticulosamente para outros.
O guerreiro está
pronto!
Napoleão conhece
muito bem seu serviço. Onde um poeta vê um vale, ele enxerga
uma carga de cavalaria; onde um romancista contempla um pôr de sol,
ele instala uma bateria. Mesmo que nunca tenha visto a paisagem, vale-se
de sua extraordinária capacidade imaginativa.
No plano afetivo, uma decepção:
Désirée não responde às suas loucas declarações,
o romance que começara a escrever parece-lhe agora sem sal. Uma
noite, porém, ao estrear seu novo uniforme numa festa na casa da
Sra. Tallien, Napoleão encontra, pela primeira vez, a viúva
Beauharnais, Josefina. Na ocasião, o encontro fortuito nada significou.
Mas seria um sinal de que o destino de Bonaparte estava para mudar.
E eis que a insurreição
estoura em Paris. A nova Constituição retirara do povo muitas
conquistas dos anos precedentes e a Convenção estava nos
estertores. Os homens no poder em crise precisam urgentemente de alguém
capaz de impedir a sublevação. Nas conferências palacianas
menciona-se um nome: Napoleão. E alguém decide: “vão
buscá-lo”.
No Hotel da Liberdade, Bonaparte
é despertado no meio da noite. Oferecem-lhe o segundo comando do
Exército da Convenção. Ele hesita. Dão-lhe
três minutos para pensar. Quando responde, usa palavras precisas,
inquietantes:
- Aceito. Mas previno: depois
que tiver tirado esta espada da bainha, não tornarei a guardá-la
enquanto a ordem não for estabelecida.
A ordem foi mesmo restabelecida
e Napoleão, aos 26 anos, passa do semi-anonimato para o proscênio
da vida militar e política. Promovido a general-de-divisão,
deixa por fim o hotelzinho barato e, com seus três fiéis,
muda-se para o quartel-general. Seu nome aparece nos jornais. Escrevem-no
Buonaparte e não sabem pronunciá-lo. Ainda não é
um herói, mas quase. Basta, apenas, afrancesar a ortografia.
A sorte não o apanha
desprevinido. Ele resiste à embriaguez, às miragens. Treinou
durante muito tempo para o impossível e agora foge ao sucesso como
um espartano. Procura não mudar o estilo de bom republicano, cidadão
dedicado, montanhês incorruptível. Nada toma para si. Mas
é generoso com sua família. A 31 de dezembro de 1795, escreve
ao irmão José:
“Não é preciso
que você se preocupe com os nossos. Jérôme (um irmão)
chegou ontem. Vou pô-lo num colégio. Estou enviando uns 50
000 ou 60 000 francos, prata, papel-moeda, tecidos. Você será
nomeado cônsul onde lhe convier...”
Josefina e o general
É então
que um sabre vai levá-lo a seu destino. Responsável pela
manutenção da ordem em Paris, napoleão iniciaria o
desarmamento sistemático da população. Suas patrulhas
revistam casa por casa em busca de armas. Um dia, um jovem indignado entra
em seu gabinete:
- Seus esbirros tomaram
o sabre que pertencera a meu pai. Ele morreu na guilhotina, mas sua honra
me é preciosa e essa espada é tudo o que me resta.
O rapaz chama-se Eugênio,
filho do General De Beauharnais, Napoleão é sensível
à sua linguagem:
- Mandarei devolvê-lo.
Noites depois, numa recepção,
Josefina, viúva do general, aproxima-se de Napoleão:
- É uma mãe
que lhe agradece. Com o sabre do pai, o senhor devolveu o sorriso a Eugênio.
Imediatamente, ele se apaixona.
Josefina é o que procura: uma viúva lânguida, com dois
filhos já grandes. De fato, aos 32 anos, ela é um mulher
extremamente sedutora. Napoleão não é seu tipo, socialmente
falando, porém, é um bom partido. Como duvidar de seu futuro?
Josefina resolve atirar a isca. Manda um bilhete a Bonaparte: “O senhor
jamais vem visitar a amiga que tanto lhe quer. Esqueceu-a inteiramente.
Faz muito mal, pois ela está presa ao senhor. Até breve”.
Não era preciso mais
nada. Napoleão passa a freqüentar a casa de Josefina. Escreve-lhe
cartas tórridas: “Acordo envolvido por ti. A inebriante noite de
ontem não deu repouso aos meus sentidos. Doce e incomparável
Josefina, que efeito bizarro você faz em meu coração.
Um milhão de beijos, mio dolce amore, mas não os dê
demais: eles queimam meu sangue”.
A 24 de outubro de 1795,
Napoleão é nomeado general-em-chefe do Exército do
Interior. E Josefina, o que acha disso? Sua resposta é sempre a
mesma: “Esse Bonaparte é divertido”. Na verdade, os ardores de Napoleão
não fazem subir muito a temperatura da noiva. No entanto, ela se
casará com ele. Quanto a ele, casando-se com Josefina, se casará
também com o regime.
O casamento e sua nomeação
para comandante-em-chefe do Exército da Itália ocorreram
ao mesmo tempo. As bodas realizaram-se no dia 9 de março de 1796,
ás 10 horas da noite. Ao amanhacer do dia 11, Napoleão parte
para assumir o novo posto. A lua de mel, portanto, só dura um dia.
O líder
assume
O Exército da
Itália. Um título pomposo demais para 40 mil homens em farrapos,
agarrados aos cumes nevados dos Alpes. O General Bonaparte sabe o que fazer.
Escreve ao Diretório, em Paris: “Os Senhores desejam que eu faça
milagres, mas não sei fazê-los... Os senhores não têm
idéia do que seja um exército sem pão, sem disciplina...
Não obstante tudo isso, nós iremos”.
À noite, administra.
Durante o dia, está em toda parte. Primeiro, precisa impor-se à
tropa. Ele o consegue, enfeitiça seus subordinados. Todos acham
que o seguem rumo à glória. Mas a maior parte, sem
o saber, marcha é para a morte. E as mortes não tardam. Batalha
após batalha. Às viúvas dos oficiais, escreve comoventes
cartas de condolências.
Quanto a si próprio,
ele está convencido de que a morte o poupará sempre. Acredita
que uma espécie de “gênio tutelar” o protege. Essa certeza
dá-lhe alento para sonhar alto. Fala aos soldados:
- Vocês estão
mal alimentados. O Governo lhes deve muito e não pode deixar de
lhes dar algo. A coragem que demonstram é admirável, mas
não lhes traz glória alguma. Quero conduzi-los às
mais férteis planícies do mundo. Ricas províncias,
grandes cidades serão de vocês. Lá encontrarão
honras, glórias e riquezas.
A passos de gigante, coleciona
vitórias. Na Itália, luta como Julio César, de quem
reteve a arte de surpreender e manter a iniciativa, de andar depressa,
de esmagar o inimigo antes que ele perceba o ataque. Diz, num relatório:
“As legiões romanas faziam 24 milhas por dia. As nossas fazem 30
e, nos intervalos, lutam”.
Napoleão preenche
seus intervalos com a lembrança de Josefina. Todas as noites escreve-lhe
cartas que choram um amor infeliz. “Eu lhe escrevo sempre, minha amiga,
e você, pouco. Suas cartas são frias. Você é
má, preguiçosa e leviana. Será que um terno amante
deve perder seus direitos por estar longe, cheio de desejo, cansaço
e tristeza?”.
Obstinada, ela se nega a
acompanhá-lo pelos caminhos do mundo. Prefere sua boutiques, seus
salões, sua alcova. E quando, enfim, uma vez ela parte para Milão,
é pior. Enquanto Bonaparte viaja para se encontrar com ela, Josefina
segue até Gênova, onde há um baile. Ele já não
pode ignorar que ela se entende bem com alguns daqueles bonitos rapazes
que a cercam.
Josefina à parte,
Napoleão encontrou seu estilo de vida. Nos 24 primeiros dias de
comando, depois de uma semana de imobilidade em Nice, fez seu QG
mudar doze vezes de lugar. Ganhou três batalhas decisivas. Agora
segue rumo ao mar Adriático, em marcha para leste. Em Ancona, pequena
cidade portuária, decide-se pelo oriente. Seu alvo é o Egito.
Na primavera seguinte, tudo
está pronto para a expedição que é militar
mas também científica, ficando essa parte a cargo de uma
comitiva de sábios. Depois de sucessivas vitórias, culminando
com a de Aboukir, Napoleão ouvirá o elogio entusiasmado de
um de seus generais.
- Você é grande
como o mundo!
Bonaparte, porém,
está com o coração em Paris, onde Josefina o trai
publicamente. Ele resolve voltar. E o faz como se fugisse, levando consigo
apenas seis de seus homens. O mito daquele que volta será uma constante
na epopéia napoleônica. A volta, em farrapos, da Rússia.
A volta, prodigiosa, de Elba. E a volta, esperada quase para além
da morte, de Santa Helena – que não houve.
A cena política
francesa arde com problemas quando Napoleão desembarca em Fréjus,
mas não é isso que o preocupa. Ele segue direto à
casa de Josefina. Não acha ninguém. Pois a mulher, num gesto
raro, partira a seu encontro, por uma estrada diferente. Quando ela volta.
Napoleão está instalado – e as portas trancadas. Josefina
passará a noite inteira do lado de fora até que ele se decida
a permitir-lhe a entrada.
Enquanto isso, conspira-se
para acabar com a Convenção. Paris entra em estado de sítio.
Os generais cercam o prédio em que se reúnem os deputados.
Espera-se resistência, mas estes fogem, deixando nas moitas do parque
de Saint-Cloud pedaços rasgados de suas roupas purpúreas.
Bonaparte, a quem se oferece o poder absoluto, fica só, vencedor,
com os ouvidos ainda cheios dos gritos: “Morte ao tirano!” “Abaixo
César!” é o golpe do 18 Brumário.
Mas Napoleão não
está satisfeito. Há dez anos, o tribuno Mirabeu dissera:
“Estamos aqui pela vontade do povo e só sairemos pela força
das baionetas”. Pois bem, eles sairam, pelas baionetas de Bonaparte. Este
esperava ser recebido em aclamação pelos convencionais. Encontrou
um clima de indignação.
Finalmente, o
estadista
Na manhã seguinte
ao golpe, ao acordar na Palácio de Luxemburgo, Napoleão faz
força para não pensar mais nisso. Está com trinta
anos, senhor absoluto de um país à espera da reconstrução.
Um novo século vai começar e será preciso recebê-lo
de rosto novo também, um rosto que jamais olha para trás.
A 1º de janeiro de 1800, tudo deve ser como uma página em branco.
De fato, é um novo
personagem que surge: botas de cano dobrado, calças de casimira
branca, casaca transpassada sobre o uniforme, uma figura roliça
de chapeuzinho e gravata. O artilheiro corso metamorfoseara-se em francês
médio.
Às 7 da manhã,
seu criado de quarto vem acordá-lo. Encontra, invariavelmente, a
maior desordem; roupas no chão, chapéu jogado sobre um móvel,
espada sobre o tapete coalhado de mapas, jornais desfeitos, livros e uma
grande écharpe tricolor caindo do leito. Não há luxos:
o único que Napoleão se permite ao levantar é ter
o fogo aceso, mesmo no verão. Gosta de sentir calor.
Agora, vestindo as calças
e um robe em tecido branco, ainda com a touca com a qual dormira, ele mesmo
se barbea diante do espelho que o criado segura. Depois veste a farda de
primeiro-cônsul e entra no gabinete de trabalho, onde o secretário
o espera, secundado por cinco ou seis escriturários, cada qual tentando
registrar as ordens que partem em todas as direções. O clima
é o de uma classe de alunos aplicados.
Às 10 horas, mais
ou menos, servem-lhe o almoço: feijão em salada com azeite
de oliva, ovos “ao espelho” (fritos na água, sem gordura), queijo
parmesão, um copo de vinho. Nada de sobremesa. A refeição
toda consome dez minutos, no máximo quinze. A seguir, cantarolando,
Napoleão atravessa o palácio em direção aos
aposentos de Josefina.
Apesar de todos os atritos,
acima de ciúmes e traições, o casal partilha uma extraordinária
cumplicidade, uma inextinguível ternura. Conquistaram o poder, de
braços dados. Continuavam, se bem que a passos diferentes, pelos
mesmos caminhos.
Josefina está fazendo
a toalete, cercada de mulheres. Napoleão belisca-lhe o pescoço
e as faces,diz o que acha de seu penteado, toma-a nos braços, beija-a
(estragando-lhe a pintura), chama-a de “bicho gordo”, brinca de esconder
seus objetos. Enfim, é a águia disfarçada de galo
no galinheiro.
É sábido que
ele mantinha relações com muitas outras mulheres. No entanto,
Josefina era seu único amor. Há um grande mistério
nesse apego recíproco, que se baseia no desentendimento físico.
Aparentemente levam vidas à parte, mas à noite, depois de
um jantar tão frugal quanto o almoço, ela é quem faz
questão de lhe servir o café. Ele não gosta de permanecer
no salão além do tempo estritamente necessário. Esquiva-se
dos convidados. Deita cedo. Às vezes manda chamar Josefina. Ela
é quem o faz adormecer, a cabeça no ângulo de seu braço.
“Quando Napoleão
queria passar a noite com sua mulher”, conta seu criado, “trocava de roupa
em seu quarto, de onde saía vestido de robe e touca. Eu ia na frente,
com um candelabro na mão. No fim do corredor, uma escada de quinze
ou dezesseis degraus. Depois, o apartamento de Josefina. Ela apresentava
muita alegria ao receber a visita do marido. Na manhã seguinte,
o palácio inteiro ficava sabendo: Josefina se encarregava de contar”.
Brigam por causa de dinheiro.
Ele diminui seus recursos, mas jamais consegue que ela modere seus gastos.
Mesmo na época do bloqueio continental, quando os produtos ingleses
estão proibidos na França, ela só usa musselina
e caxemira, conseguidas através de contrabandistas.
Primeiro-cônsul, Napoleão
continua a ser bolsista faminto de Brienne. Cuida do próprio
guarda-roupa, faz listas: 5 roupas militares, a 360 francos; 2 roupas para
caça, a preços variados; uma roupa burguesa, a 200 francos
(duração prevista: 3 anos); 48 camisas de flanela (uma por
semana), 4 dúzias de lenços (uma dúzia por semana),
6 toucas (uma a cada dois meses). E assim por diante, incluindo guardanapos,
meias de seda, sapatos, perfumaria, artigos de limpeza.
Nas altas rodas da política
fala-se em restaurar a monarquia, Luís XVIII escreve a Napoleão:
“É tempo de que eu mostre as esperanças que depositei no
senhor... A glória o espera e estou impaciente por devolver a paz
ao meu povo”. Napoleão demorará a responder. Antes,
há que enfrentar os austríacos no campo de batalha. E a situação
não é das melhores para as tropas francesas na tarde de 14
de junho de 1800, nos campos de Marengo. Seus homens recuam. O gênio
tutelar de Napoleão parece tê-lo abandonado. Os adversários
já cantam vitória.
Eis que o gênio reaparece,
na figura do General Desaix, comandando 5 mil homens, que romperam o cerco
inimigo. Bonaparte exulta. Nunca irá esquecer aquela tarde. Três
dias antes de morrer, em Santa Helena, gritaria, em delírio: “Desaix!
Desaix! A vitória é nossa !” Nas derradeiras escaramuças,
uma bala atravessa o coração do general salvador. À
noite, em seu QG, o vitorioso Napoleão está sombrio e silencioso.
Alguém pergunta se não está satisfeito com o
resultado da batalha. “Sim”, responde. “Mas, Desaix ! Se eu tivesse podido
abraçá-lo antes da batalha, este seria um belo dia”.
A vitória em Marengo
fora decisiva. Napoleão impunha-se à França como o
guardião das fronteiras nacionais. Pode agora, responder a Luís
XVIII:
“Recebi vossa carta,
monsieur. Agradeço pelas coisas honestas que me dizeis. Não
deveis pensar em vossa volta à França: seria preciso caminhar
sobre 100 mil cadáveres. Sacrificai vosso interesse pelo repouso
e a felicidade da França. A história o levará em conta”.
Napoleão é
soberano. O novo século pertence-lhe inteiramente. Chegou a hora
de esculpir um novo país. Põe fim à guerra civil,
instala a paz. Cria outra organização administrativa para
a França. Define as atribuições do Estado, as relações
com a Igreja. Paris merece um destino especial: Napoleão faz dela
uma cidade – a cidade – por excelência: monumental, acadêmica,
pontilhada de vastas perspectivas. Digna de um imperador, como ele.
A cena da coroação
é famosa. Depois de trazer Josefina imperatriz. Napoleão
coloca a coroa sobre a própria cabeça, num gesto que seria
magnífico se seus braços não fossem um tanto curtos
e se os ombros não estivessem escondidos por um manto de veludo
carmesim, rematado por um arminho sobrecarregado de abelhas e bolotas de
ouro.
Sai o imperador
e volta o guerreiro
No dia 15 de agosto
de 1805, quando Napoleão festeja seus 36 anos, a França está
em plena guerra com a Inglaterra. É uma guerra marítima e
Napoleão não se dá bem com o mar. Seu talento terrestre
ignora o capricho dos ventos, as velas enfunadas, a visibilidade nula,
as complicadas manobras necessárias para virar a estibordo em vés
de bombordo. Napoleão, por fim, desiste do desembarque em solo britânico.
Irritado, impaciente, cansado pela longa permanência nos rochedo,
ordena, de repente, uma genial meia-volta.
Sete corpos do exército
francês põem-se em marcha sobre uma Europa que ouve, espantada,
o troar dos canhões. Napoleão ainda tem tempo de passar por
Paris e dar adeus à vida civil. Josefina o acompanhará até
certo ponto. Em frente, está o grande cenário militar; é
Napoleão em campanha, saindo em disparada de seu vagão, deitando-se
na palha ou tomando palácios, atingindo como o raio antes mesmo
que se ouça o trovão, prodigioso e infatigável.
E pontual também
nos bilhetes a Josefina, enviados por um correio particular – dez brigadas
de treze cavalos com cavaleiros extremamente habilidosos, sempre dispostos.
Aonde quer que chegue, assim qua sua tenda é montada. Bonaparte
escreve à mulher. São bilhetes rápidos, “Estou bem,
só o tempo está medonho. Tenho que mudar de roupa duas vezes
por dia”, “Estou cansado. Oito dias ao ar livre e noites frias”, “Durmo
às oito e levanto à meia-noite. Às vezes penso que
você ainda não deverá estar deitada”, “Minha amiga,
fiz belas manobras contra os prussianos”.
O que essas cartas não
contam é o sofrimento épico da guerra, a cor dos céus
de batalha, as vitórias ao amanhecer, as tempestades de neve, os
feridos que gemem, as longas vigílias nas tendas de campanha, as
marchas de 40 mil cavalos, o imperador que confraterniza de madrugada com
soldados rasos e ajuda até empurrar os canhões entre os rochedos.
O começo
do fim
Depois, seria o divórcio
de Josefina, em obediência a razões acima de tudo políticas.
Josefina significava um mundo que se tornara insuficiente a Bonaparte.
A mera legalidade já não lhe bastava. Ele necessitava da
legitimidade – e esta só obteria aliando-se ao velho regime monárquico.
Tudo foi feito de noite,
na intimidade da câmara imperial. Josefina recebeu a notícia,
caiu desmaiada. O administrador do palácio e o próprio imperador
– um segurando-a pelas pernas, outro pela cabeça – tiveram
que descê-la pela escadaria secreta, como a uma assasinada. Era o
fim de um dos mais lindos romances de amor da História.
Uma nova mulher é
necessária aos palcos de Napoleão, uma arquiduquesa como
Maria Luísa, da casa dos Habsburgos, sobrinha de Maria Antonieta,
que faça correr nas veias de seu filho, misturado a seu sangue,
vermelho demais, o azul real.
É quase a demência.
Napoleão quer fundar uma estirpe, aliada aos sistemas monárquicos
europeus. Esse projeto delirante é que o arrastará inexoravelmente
para o abismo. E no entanto, no mapa secreto de sua insanidade, tudo se
dá com uma implacável lógica de pesadelo: no plano
temporal, o objetivo é levar o Santo Império Romano-Germânico
a Paris, capital da Europa, cujas principais cidades seriam Viena, Berlim
e Varsóvia: arruinar a Inglaterra mercantil até o dia em
que for possível disputar-lhe os mares; expulsar a Rússia
da Europa. No plano espiritual, para afastar qualquer concorrência,
instalar Roma às margens do Sena e o Vaticano num anexo do palácio
imperial.
Com tais idéias na
cabeça, não é de surpreender que os desastres futuros
sejam superlativos, como foram os triunfos do passado. Napoleão
exagerava sempre, em todos os sentidos. Ele vai superar-se a si mesmo na
tragédia.
Diante de Maria Luísa,
Napoleão, aos quarenta anos, é repentinamente atacado por
uma espécie de moléstia primaveril. A juventude que lhe faltou
sobe-lhe agora à garganta. Conta à Rainha Catarina, sua jovem
cunhada: “Para provar a que ponto o imperador se preocupa por sua futura
esposa, basta dizer que mandou vir o alfaiate e o sapateiro, para se vestir
com o maior cuidado possível, e está aprendendo a valsar.
Coisas que ninguém teria imaginado..”
Segundo o protocolo, Napoleão
deve dormir na chancelaria enquanto aguarda o casamento religioso,
deixando o palácio para a nova imperatriz. Nisso também o
protocolo será quebrado. Lembra um criado: “Ele entrou em seu quarto,
perfumou-se com água-de-colônia e, vestindo apenas um robe,
voltou secretamente para junto de Maria Luísa. Na manhã seguinte,
enquanto fazia o toalete, o imperador perguntou-me se alguém notara
o acréscimo que fizera ao programa oficial”.
Enquanto isso, a situação
econômica da França começa a se deteriorar. A inflação
aumenta tanto quanto o número de pessoas que todas as manhãs
fazem fila para ter direito à sopa dos pobres, distribuída
gratuitamente. Aquela Paris bondosa, que o antigo primeiro-cônsul
havia decorado com móveis sólidos, já não compreende
seu chefe. Aonde ele quer chegar? Por que aprisionar o papa? Por que dar
ao filho o título de rei de Roma? Por que requisitar tantos novos
soldados? Napoleão nada ouve, nada enxerga. O chapéu enterrado
até as sobrancelhas, ele avança rumo às nuvens, sem
perceber que seus pés já não pisam a terra firme.
Chegou o momento de considerar
o grande império napoleônico. Por terra, estende-se até
o rio Vistula, na Polônia, mas do lado marítimo tem apenas
algumas braças de praia. Comporta o reino de Nápoles, mas
para junta-lo à vizinha ilha de Capri, é toda uma guerra.
Ao menor estreito, como o de Messina, tudo acaba. A Inglaterra controla
a Sicília, a Sardenha, todas as ilhas, todas as praias, todas as
passagens para todos os portos.
Aquele vasto território
é administrado por prefeitos e subprefeitos, mas à cabeça
de cada reinado está um membro da família Bonaparte: irmãos,
irmãs, cunhados, sobrinhos, sobrinhas. O primeiro cuidado familiar
de Napoleão foi casar os irmãos. A mania de formar e separar
casais chega a ser fanática. Ele gosta principalmente dos casamentos
em que nascem filhos, muitos filhos.
Enquanto Napoleão
mergulha nos négocios familiares e faz a guerra na longínqua
Rússia, as conspirações contra ele multiplicam-se
na França. Uma delas, baseada no boato de que Napoleão morrera
às portas de Moscou, quase deu certo, não fosse a fidelidade
do ministro da Guerra. Os conspiradores foram executados dias após
a malograda tentativa, mas, graças ao affaire, Paris pode saber
que a campanha na Rússia ia de mal a pior. E – dado importante –
a notícia da “morte” de Napoleão foi acolhida com alívio
mais do que com qualquer outra coisa.
Não obstante, um
ano antes, Bonaparte parecia firme. Podia acreditar-se, mais do que nunca,
imperador dos franceses. Via-se, a curto prazo, dono do mundo inteiro.
Mas ele espreguiçou-se demais nos terraços, brincou muito
de mimar sua arquiduquesa resfriada, bancou demais o pai coruja. E, quando
se decidiu pela guerra com a Rússia, estava confiante.
É para leste que
agora são enviados os recrutas de 130 departamentos do Império,
além dos contingentes suplementares, fornecidos pelos reinados-satélites.
Na primavera de 1812, a formidável máquina militar está
pronta e Napoleão põe-se a caminho. Até Dresden, na
Alemanha, é um desfile triunfal: até mesmo o imperador da
Áustria vem cumprimentar o conquistador.
Depois, a Rússia.
O silêncio, a primavera, as casas desertas. De vez em quando, o som
de uma canhonada e, de novo, a estrada reta, toda livre, por onde as tropas
francesas avançam. É um passeio, não uma conquista.
Apesar disso, o medo infiltra-se entre os soldados.
E então, Moscou.
Tempo de parar. O inimigo já disputa a Napoleão o direito
de batizar as batalhas. A vanguarda do exército consegue entrar
na cidade deserta. À noite, um inimigo devastava tudo. Napoleão
é vencedor, pois está no Kremlin com sua água-de-colônia,
seus secretários, seus mapas. Mas não há ninguém
a quem ditar condições de paz. Suas mensagens ao czar
ficam sem resposta. Seus marechais erram pelas esplanadas vazias. A 13
de outubro, cai a primeira nevada. Napoleão olha por uma janela
do Kremlin. Aquela coisa branca, impalpável, implacável,
que cobre docemente todas as coisas, é o sudário do Grande
Exército. Depois, será a retirada.
Dos brilhantes
campos de glória para as sombras de Santa Helena
Todos sabem o que foi
a retirada da Rússia, as mortes por frio, fome. Finalmente, Napoleão
volta às terras francesas. Em Paris, ninguém está
avisado. Acredita-se que ele está ainda a mais de 100 léguas.
A 18 de dezembro, quando o relógio soa o último quarto antes
da meia-noite, ele e seus auxiliares diretos chegam às Tulherias.
A princípio os vigias pensam tratar-se de estafarias. Até
que alguém reconhece: “É o imperador!”
Depressa acendem-se os lustres,
um fogo de lenha crepita na lareira, os escribas apresentam-se com suas
penas. Entretanto, mesmo no coração de Paris, Napoleão
sente-se como num palácio deserto, como o Kremlin. Josefina não
está à sua espera.
E a Europa recusa-se à
sujeição. O rei da Prússia proclama uma guerra santa
contra Bonaparte. Este vai em pessoa enfrentar a nova coalizão,
obtém vitórias inesperadas. Mesmo estas, porém, têm
um gosto amargo. Seus melhores amigos vão morrendo, um a um – fatais
presságios para a batalha que se travará em Leipzig, a Batalha
das Nações, que, para toda a Europa, terá significado
de uma batalha de libertação. Em vão Bonaparte fecha-se
com seus mapas e entrevê saídas geniais: o coração
já não participa. Os soldados já não compreendem
– e reservam-se para defender, amanhã, não mais um imperador,
mas uma França em perigo.
Napoleão é
obrigado a recuar, de batalha em batalha. Com seus soldados imberbes, procura
atrair os inimigos para dentro do território, para então
melhor combatê-los. Assim, volta a Paris. Aí, a grande surpresa:
estendem-lhe um papel para assinar. A abdicação, Elba é
o passo seguinte.
Elba significa para Napoleão
uma espécie de repouso forçado, num clima que é seu
clima natal, tão perto de sua ilha que lhe reconhece o odor quando
o vento é favorável. Essa temporada em Elba tem, entretanto,
aspectos de humor negro. O imperador, subitamente transformado em guarda-campestre,
baixa decretos contra as cabras que atravessam sua cerca.
Aqui poderia terminar sua
história não fosse por uma coisa: Napoleão é
capaz de aceitar uma derrota, mas não a desonra, não ser
chamado “usurpador” pelos próprios concidadãos. Ele precisa
voltar para mostrar a seus detratores que o povo, em especial a classe
média, continua a seu lado. A volta seria como um plebiscito, definitivo,
esmagador.
É o vôo da
águia, o último ato que a França esperava com impaciência.
Nem bem um ato, antes um epílogo. Pois tudo de fato termina quando
o imperador volta às Tulheiras pela porta principal e Luís
XVIII foge pela porta de serviço. Quando Napoleão entreabre
a legendária casaca cinzenta para mostrar o coração
aos soldados:
- Se entre vós existe
alguém que queira matar seu imperador, ei-lo aqui.
Novamente dono da França,
Napoleão é, não obstante, o espectro de si mesmo:
Maria Luísa traíra-o despudoramente. Josefina morrera. E
muito em breve haverá Waterloo.
Derrotado pelos ingleses,
Napoleão volta a Paris, de cabeça baixa. Espera que um novo
governo provisório lhe dê um passaporte para emigrar. Percorre
mais uma vez a cidade cujas ruas exibem o nome de suas vitórias
e cujos bulevares tem o nome de seus generais. No fim da Avenida Champs-Elysées,
uma grande construção ergue seus andaimes: o Arco do Triunfo.
Napoleão sonhou passar por ele.
Dia 14 de outubro
de 1815, a bordo do Northumberland, Napoelão Bonaparte vê
surgir as ondas de uma ilhota enfadonha, chamada Santa Helena. Aqui ele
ficará esperando inutilmente - enquanto vai sendo sistematicamente
envenenado com arsênico, um visto para os Estados Unidos e relendo
uma biografia de George Washington. À noite, o vento traz para dentro
de casa um perfume de rosas, a lembrança de Josefina. Em Santa Helena
Napoleão reencontra seu dolce amore, para além de todas as
brigas, para além do absurdo divórcio que lhe custou tão
caro, para além dessa morte tão leve que se diria “ela ainda
há de aparecer”. Ali, com os braços repletos de rosas. Ela
foi sua única estrela. Será também, sua última
palavra...
(Nota do Editor) - Para publicar
a matéria sobre Bonaparte, tomamos por base informações
de matérias feitas nas décadas de 60 e 70, quando era dada
como certa a tesa de que o imperador havia sido envenenado. Mantivemos
as informações. Mas, para proporcionar informações
mais recentes aos nossos leitores, publicamos as notas abaixo, para que
cada um forme sua própria opinião.
Após
as teses de assassinato e doença como causas da morte de Napoleão
Bonaparte, agora um estudo dos EUA reivindica que o imperador francês
morreu devido a um erro médico. A pesquisa que será
publicada na revista britânica New Scientist confirma a tese divulgada
em 2002, na qual se eliminava a possibilidade de assassinato por arsênico,
porque os restos da substância que estava no cabelo de Napoleão
eram de origem exógena. Eram, portanto, de cola, pintura ou armas
de fogo e não foram ingeridos.
O coordenador da pesquisa,
Steven Karch, afirma que o imperador morreu por excesso de zelo de seus
médicos, que lhe aplicavam doses fortes do medicamento composto
de potássio e antimônio contra a dor da úlcera. O remédio
induz ao vômito e pode provocar problemas cardíacos e de irrigação
do cérebro. Os arquivos mostram que, às vésperas de
sua morte, 05/05/1821, na Ilha de Santa Helena, aplicavam-lhe 600 mg do
medicamento cinco vezes ao dia. Isso aumentou seus níveis de potássio
e o matou em 5 de maio de 1821, aos 51 anos. (artigo do Jornal do Brasil
23/07/04)
NE - Concordando
com a tese americana - A polêmica tese do assassinato de Napoleão
Bonaparte (1769-1821) com arsênico foi derrubada pelo Instituto Italiano
de Física Nuclear, ao anunciar que a concentração
de veneno encontrada nos cabelos do célebre imperador Napoleão
nada tinha de excepcional na época.
"O ambiente no qual viviam
as pessoas no início do século XIX levava à evidência
de ingestão de quantidades de arsênico que consideraríamos,
hoje, perigosa", precisam os cientistas que chegaram a essa conclusão
após analisar mostras dos cabelos de Napoleão e de seus familiares.
"Não foi o envenenamento
com arsênico que matou Napoleão quando estava na ilha de Santa
Helena", assegurou em comunicado a instituição italiana,
que submeteu a "exames meticulosos" os cabelos de Napoleão. (Revista
Il Nuovo Saggiatore).
NE 2 - Nos perguntaram o
autor da linda tela acima e, infelizmente, nós desconhecemos.
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