O Tigre e o Caçador
Sergio Ferraz - 2003/2010 - Dedicado aos guerreiros do Greenpeace

  O caçador entrou na selva disposto a matar ou a morrer. Mas, em seu coração ele descartava a segunda hipótese. A arma potente, a bala certeira e a certeza de um belo troféu enfeitando a parte de cima da lareira.   Boas conversas regadas por um bom vinho, atravessariam a madrugada. Os amigos, olhos brilhantes de bebida e admiração, ouviriam embevecidos ele contar a façanha.  E ele, encrustrado em sua poltrona favorita, relataria a caçada, o disparo, o corpo do animal ensangüentado e sem vida e, finalmente, o troféu da coragem do caçador. 
  Enquanto seu cérebro emoldurava sua glória, ele deparou-se com o feroz tigre. Não o pêlo brilhante e colorido envolvendo o corpo ágil e musculoso. Não o tamanho impressionante da fera, mas seus olhos. Eles sim, impressionaram o caçador. 
- O que fazes em meu lar, homem? - Perguntou o tigre, num ensurdecedor rosnado. Sem se abalar, dedo firme no gatilho, o caçador respondeu: 
- Venho matar-te! 
- Por que? Que mal  te fiz eu? 
- Nenhum mal me fizeste. Vou matar-te porque representas o troféu da minha glória de caçador! 
- Que glória há em tirar uma vida? 
- Ora...veja só quem assim diz! Tu és um caçador, assim como eu. Teus olhos frios são prova disso. 
- Tens razão. Realmente sou um caçador, porém, entre tu e eu há um abismo. Eu caço para comer e não em busca de glórias ou troféus. Outra diferença entre nós é que eu uso as minhas garras e as presas, armas que a natureza me deu. Tu, no entanto, usas uma carabina, contra a qual nenhum animal pode se defender. 
- Também não deixas de ter razão - Concordou o homem. - Mas devo lembrar-te que somos inimigos. Se posso, te mato; se podes, devora-me! 
- Sinto discordar, mas novamente estás enganado. Nós, os animais, permanecemos no lar que Deus nos deu. Não saimos daqui para ir até tua selva de pedra fazer-te mal. Tu sim, tu vem até nossa casa nos agredir. Se porventura minha e desgraça tua, tu fores estraçalhado por minhas garras, teu sangue não me será imputado como culpa, pois apenas estarei me defendendo. 
  O caçador desengatilhou a arma e com ela seus sonhos de glória. Colocando a carabina no chão, sentou-se numa pedra, cabisbaixo e pensativo. 
- Conseguiste me convencer.  Arrependo-me com vergonha do meu mesquinho sonho de glória. - Disse o caçador por fim. 
- Nada fiz. A nobreza de tua alma é que deu ressonância às minhas palavras. Não tens do que te envergonhar, pois nenhum mal fizeste. 
- Gostaria de conhecer mais o teu mundo, tigre, pois assim eu poderei dar razão às minhas ponderações quando mostrar aos outros homens a futilidade da caça sem razão. 
- Com prazer eu o mostrarei, meu bom homem. Contudo, asseguro-te que este não é o meu mundo e sim de todas as criaturas que aqui habitam. A selva abriga desde o pequeno inseto ao grande elefante, sendo portanto o lar de todos nós. Mas, deves saber que tanto os animais da selva, quanto as aves do céu e também os que habitam as águas, estão sob o domínio do maior animal do planeta, ou seja, o homem! Nós fazemos parte da cadeia do equilíbrio ecológico e a matança indiscriminada de qualquer um de nós, seja por caça esportiva ou predatória, seja em nome do progresso, colocará em risco esse equilíbrio, que é fundamental para a sobrevivência dos da tua raça! 
- Como tu sabes tudo o que seria pertinente ao homem saber, já que depende desse equilíbrio que citaste? 
- Eu sou parte desse equilíbrio e por isso é meu dever conhecê-lo. O homem não o desconhece, mas talvez pelo fato de ser o animal mais poderoso sobre a face da Terra, ele desdenhe esse conhecimento. Talvez o homem acredite que seu conhecimento possa assegurar sua sobrevivência. 
  E selva à dentro os dois foram conversando. O homem sentia cada vez mais a onipotência da natureza e, diante de tanta beleza, inteligência e magnitude, ele percebia que o poder do homem só seria pleno quando ele se integrasse naquele ciclo ecológico. 
- Quão tolo tem sido o nosso caminho! - Concluiu em pensamento. 
  E o caçador não mais falou. Ele apenas observou, admirou e ponderou, até voltar à clareira onde havia se encontrado com o tigre. 
- Nobre animal, realmente estou maravilhado com tudo que vi e ouvi. No entanto, em defesa dos da minha raça, posso também mostrar-te muitas maravilhas. Muito me honraria se aceitasses vir conhecer o local onde moro. 
  E assim o tigre acompanhou o caçador até a cidade. Orgulhoso, o homem ia mostrando as conquistas da civilização. 
- Vês aquilo, tigre? É um automóvel! Sua função é transportar pessoas e acelerar o progresso! 
- Deveras interessante, bom homem...Eu gostaria de saber porque ao longo das trilhas onde passam esses veículos tem tantas placas, pedindo para usar cinto de segurança, para o motorista não beber, não ultrapassar 80 km por hora, ter cuidado com as crianças... 
  O caçador nada explicou, limitando-se a mostrar a beleza dos prédios. 
- Vê, tigre! Nesses prédios as pessoas moram e trabalham! 
- Puxa! Como elas fazem para subir tão alto? 
- Oh,oh,oh!...Existem cômodos e seguros elevadores subindo e descendo diariamente. 
- Não há perigo de uma casa grande assim, desabar? Não há perigo de alguém cair lá de cima? E no caso de um incêndio, esses tais elevadores transportarão todas as pessoas em segurança para baixo? 
  Abismado com os prédios, o animal encheu o homem de perguntas, mas este nada respondeu. Continuaram caminhando pela rua. 
- Porque as pessoas andam tão depressa e nem se cumprimentam? - Quis saber o tigre. 
- É a pressa do progresso. 
- Porque o céu da cidade é tão cinzento? 
- Isso é causado por uma coisa chamada  poluição. Infelizmente é uma praga que acompanhou o progresso. Vês essas pessoas pálidas, tossindo, de olhos lacrimejantes? É por causa dessa poluição. Ela faz muito mal ao homem. 
- Terrível! - Exclamou o tigre. - E quem é responsável por essa praga? 
- O homem. 
  O tigre não fez nenhuma observação. Apenas pensativo, acompanhou o caçador até uma hidrelétrica. Ele olhava admirado o asfalto por onde caminhavam. Então disse: 
- Desculpe, caçador, mas devo fazer-te mais uma pergunta...desde que entrei em tua selva de cimento ví raríssimas plantas e não senti o cheiro da terra...essa coisa negra e dura onde pisamos é que impede o nascimento das plantas e o perfume da terra?
- Sim. Isso se chama asfalto e é outra maravilha da civilização moderna. Por ele transitam centenas de milhares de velozes veículos, sem problemas de buracos, poeira ou barro. Isso é o progresso! Antigamente as estradas de terra tornavam lento o movimento dos veículos. Uma viagem que tempos atrás demorava uma semana, hoje é feita em apenas um dia! 
- Muito bom. Contudo, não há perigo das pessoas se ferirem correndo tanto? 
O caçador permaneceu calado. Pouco depois ele abriu um largo sorriso e apontou em direção à gigantesca hidrelétrica. 
- Admire essa construção, tigre! Sem ela, mesmo com todos os veículos, o progresso seria inexistente! 
- Para que ela serve, caçador? 
- Aqui é gerada a energia elétrica que movimenta as máquinas das indústrias, bancos, e escritórios. Além disso ela garante o funcionamento de milhares de milhares de aparelhos eletrônicos e ainda dá vida noturna às cidades! 
- E como isso acontece? 
- Bem, técnicos da empresa responsável pela energia elétrica, procuram um local apropriado para represar um rio. Feita a represa, a potência de suas águas movimenta enormes turbinas que por sua vez geram a energia elétrica, que depois é distribuida por esses fios para todas as cidades. 
  O tigre olhou admirado aquelas coisas parecidas com cipós, que o caçador chamou de fios... 
- E essa hidrelétrica, pelo que pude entender, não causa mal a ninguém... 
- Correto. Alguns peixes morrem, a fauna e a flora de toda uma região ficam submersas e às vezes uma cidade inteira tem que ser abandonada por seus moradores, para dar lugar à essa maravilha do progresso! 
- Mas isso é ruim! 
- Sim, concordo. Mas, os da nossa raça, prevendo que no futuro não haverá tantos rios para gerar mais e mais energia elétrica, de acordo com as necessidades do crescente progresso, estão criando grandes usinas nucleares. Essas usinas irão suprir a falta da energia elétrica. 
- As usinas nucleares serão melhores que as hidrelétricas... 
- Não, serão piores! Elas colocam em risco a vida do homem e da natureza. Porém, será um mal necessário!... 
  O tigre, cabisbaixo, ficou algum tempo calado, apenas absorto em suas silenciosas ponderações. Após um longo tempo assim, observou: 
- Acho que já ví o suficiente, caçador. Onde outrora havia verdes matas, céu azul e água para matar a sede e o calor, o poderoso homem chegou, trazendo sua civilização e progresso. As terras foram cobertas pelo negro asfalto; o céu azul se acinzentou com a poluição; e a água foi transformada em elemento gerador de energia elétrica, sem a qual os da tua raça não viveriam. 
- É mais ou menos isso. 
- Até onde o homem pretende chegar com esse progresso? Até onde vocês querem ir? 
- Bom...deixe ver. À lua nós já fomos. Agora, falta conquistar...conquistar...não sei dizer! 
- Saúde? 
- Bem que é necessário... 
- Segurança? 
- É...faz falta. 
- Paz? 
- É difícil. 
- Felicidade? 
- Ah, não tem como! No mundo moderno não há tempo pra se pensar nisso! 
- Mas se vocês já conseguiram ir à lua, creio que pelo menos já criaram meios de se proteger contra terremotos, vendavais ou outras calamidades da natureza... - Ponderou o tigre. 
- Não, o homem ainda não tem esse poder. Contudo, infelizmente, ele tem poder para criar meios de destruição maiores que os terremotos, vendavais ou outras calamidades da natureza! 
- Cite um. 
- A bomba nuclear! 
  Mais tarde o tigre voltou à selva. Ele olhou as altas e seguras árvores e viu que elas eram melhores que os cinzentos e inertes prédios dos homens. Com sede, ele lambeu a água fresca e não conseguiu imaginar uso melhor para ela do que aplacar sua sede. O animal cheirou a terra cheia de vida e procurou esquecer a visão do asfalto escuro, quente e apavorador. 
  Ao entardecer ele ouviu o coaxar dos sapos e o canto das cigarras e dos grilos e agradeceu pela melodia da natureza, muito diferente do barulho infernal da civilização. À  noite ele não precisaria de energia elétrica, pois o Criador o provera de olhos noturnos. Pensando em todas essas coisas, ele foi caminhando selva à dentro, até encontrar vários animais olhando embevecidos o brilho da lua. 
- Hoje eu fui até o lar do homem e tomei conhecimento do seu progresso. Ele me disse que já foi até a lua! 
  Os animais olharam para o tigre muito admirados. Se o homem tinha tal poder, melhor mesmo para eles era continuar temendo-o. 
- O homem é realmente muito poderoso, - continuou o tigre. - mas não consegui entendê-lo. Seu poder é conflitante. 
- Como assim? - Quis saber o curioso macaco. 
- Um insignificante inseto pode matar o homem com uma picada, e no entanto, o homem tem poder para destruir a Terra! 
- Mas se ele destruir a Terra, também morrerá junto com ela! - Observou a raposa. 
- É inteligente tua conclusão, astuta raposa! Porém, o homem na insanidade do seu poder, não atenta para isso. Se ele continuar agredindo o meio ambiente como tem feito, justificando-se em nome do progresso, talvez ele nem precise da bomba atômica! 
- E o que poderemos fazer, tigre? - Sondou o javali. 
- Vamos continuar fazendo o que até agora fizemos. Continuaremos a ser o equilíbrio da natureza contra o desequilíbrio do homem. 
- Existe algum bem no homem? - Perguntou a grande águia. 
- Sim. Pelo que pude observar conversando com o caçador, o homem tem o coração dividido em duas partes, as quais podemos chamar de construção e destruição. Na primeira estão alojados o amor, solidariedade, amizade, idealismo, altruismo, bondade e outros bens; na segunda parte estão o egoismo, ambição, ódio, ganância, intolerância e outros grandes males. Infelizmente o homem tem usado mais a segunda parte do seu coração!... 
- Vamos pedir ao Grande Pai que faça o homem encontrar a primeira parte do seu coração. - Sugeriu o rinoceronte. 
  Os animais então abaixaram as cabeças, silenciosos, fazendo suas preces subirem ao trono do Criador do Universo, o único que tinha poder para fazer o homem encontrar a primeira parte do seu coração. A suave brisa noturna passou por entre as folhagens das árvores da floresta, soprando uma doce melodia para acompanhar as preces dos animais.
  De repente, um grande clarão iluminou a noite. Um cheiro acre chegou até os animais. Apavorados, eles dispararam floresta à dentro, enquanto labaredas assassinas consumiam o verde das árvores. O incêndio transformou a calma noite da selva num pavoroso espetáculo de destruição. De manhã uma brisa serena visitou as árvores queimadas e chorou sobre os corpos dos animais mortos. 
  Pouco mais tarde um barulho ensurdecedor foi se fazendo ouvir, crescendo de intensidade a cada segundo. Era um potente trator que avançava pelo campo negro, onde há poucas horas existia uma luxuriante mata. 
  O trator parou e dele saltou o poderoso homem. Cheirando o ar ainda enfumaçado, o homem correu o olhar por toda a extensão da destruição e disse, num largo sorriso: 
- Logo aqui irá surgir um grande e espetacular shopping center! 

FIM 

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