Hoje passei em frente
a loja Pernambucanas de Barra Bonita. Dentro de um design moderno,
repleta de confecções e ofertas de eletrodomésticos,
vi os vendedores correndo de um lado para outro, no afã de bem atender
a clientela. Olhei a cena por alguns minutos, corri os olhos pela
moderna fachada da loja, e, sem querer, meu pensamento voltou a um passado
distante.
Sentindo uma tristeza enchendo
o coração, deixo minha alma, através da memória,
regressar ao passado...E como num passe de mágica, estou em Minas
Gerais, na cidade de Alto Jequitibá. Meu pai me chama, dando leves
puxões em meu braço. Salto da cama contente. O dia está
amanhecendo. Lá da cozinha vem o cheiro delicioso do café
que minha mãe preparava.
Pouco depois, meu pai, após
receber de minha mãe uma pedaço de papel onde estava escrito
o que ela queria, chamou meu irmão, e lá fomos nós,
pé na estrada, em direção a Manhumirim, a cidade mais
próxima do Alto Jequitibá. Caminhávamos paralelos
à linha do trem, e meu pai parava de vez em quando para me apressar,
pois eu ficava entretido, ora apreciando a passarada que fazia algazarra
entre a luxuriante vegetação, ora parando para catar uma
pedrinha que tinha achado bonita ou às vezes eu fazia corpo
mole mesmo, pois com meus oito anos de idade, para cada passada do meu
pai e do meu irmão, eu tinha de dar duas - ou três, dependendo
da pressa deles.
- Não podemos demorar, filho, pois
temos de chegar até às dez horas em Manhumirim, comprar o
que sua mãe mandou e pegar a Maria Fumaça de volta. Ou você
quer voltar à pé?
Mas nem pensar! Respondi, em pensamento.
Além de minhas condições físicas não
darem para isso, jamais iria desperdiçar a chance de andar
na Maria Fumaça. Era apenas uma ou duas vezes por ano, e talvez
por isso mesmo para mim aquele momento era de uma felicidade indescritível.
No meio do caminho já dava
pra se ouvir ao longe o barulho ensurdecedor da cachoeira. Ali, envoltos
pelo cantarolar das águas que nunca paravam, sentamos sobre algumas
pedras, para comer o lanche que minha mãe havia preparado. Descansamos
um pouco, e depois voltamos a caminhar.
Mesmo dando sofridos tropeções,
já que não olhava por onde pisava, eu continuava admirando
a paisagem, ainda ouvindo a música agora já distante
novamente, da cachoeira. Ainda há uns bons quilômetros da
cidade de Manhumirim, meus olhos inquietos se fixaram numa porteira. Já
havia visto muitas porteiras, mas aquela me chamou a atenção,
pois tinha umas letras brancas escritas. Com apenas um ano de alfabetização,
tive de soletrar...C, a...Ca...esse, a, esse...sas...Casas. Na sequência,
tive mais dificuldade, mas meu irmão, mais velho e mais estudado,
me socorreu:
- Pernambucanas, Sérgio!
Puxa! Casas Pernambucanas! Que
legal! - Pensei , admirando a sonoridade do nome. - É nas Casas
Pernambucanas que vamos comprar os panos que sua mãe pediu,
filho. - Explicou meu pai. - Lá tem tudo que é pano, bem
baratinho, e é com esses panos que sua mãe faz nossas calças
e camisas - Concluiu.
Meu pai, meu irmão, a estrada,
a porteira onde estava escrito Casas Pernambucanas...Jamais iria me esquecer
daquilo. Mais tarde chegamos a Manhumirim e fomos direto para as Casas
Pernambucanas.
A loja era imensa, cheia de tecidos
pra tudo que era canto, e um vendedor solícito, com uma régua
esquisita e uma tesourinha, ia cortando os tecidos de acordo
com a metragem que meu pai pedia. Fiquei fascinado com a loja, com os tecidos
e mais ainda com o vendedor e sua tesourinha. Como é que ele podia
cortar o pano tão rápido e tão retinho, me perguntava.
Saimos da loja e fomos para a estação
do trem. Logo o delicioso apito avisava que a barulhenta Maria Fumaça
estava chegando. Embarcamos na segunda classe. Meu pai colocou o punhado
de pacotes das compras em um dos bancos de madeira e eu me apossei da janela,
de onde podia ir saboreando a paisagem da minha querida Minas Gerais. Meu
irmão, por sua vez, fazia questão de ir nos degraus do vagão,
para dizer que era valentão.
Meu pai, meu irmão,
a estrada, a porteira com o nome Casas Pernambucanas destacando-se em branco
sobre a verde paisagem, o vendedor e sua tesourinha que cortava o tecido
macia e certeiramente, minha mãe sentada em sua velha máquina
Singer, costurando novas roupas para nós. Jamais vou me esquecer
disso, pois simplesmente não dá para esquecer...
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