Rex e Zadig
Uma história de amizade e liberdade
Inimizade natural. Amizade circunstancial.
Por isso, amigos, amigos. Inimigos à parte!



 
 
 

  Está caindo um temporal feio. Os relâmpagos riscam o céu negro, e são seguidos pelo estrondo dos trovões que parecem fazer a terra estremecer. Eu estou paralisado de medo mas a água encharcando meus pelos, e o frio terrível que sinto, me fazem procurar abrigo sob as folhas do mandiocal. Mas não é somente a chuva que me deixou apavorado. Eu estou assim há muitas horas, pra ser exato, desde que meus donos me deixaram neste terreno baldio. Me lembro que cheguei a fazer xixi na hora em que eles me abandonaram aqui. Afinal, eu tenho apenas 6 meses de idade, e nunca havia saido do aconchegante e seguro quintal da casa onde morava. 
  O pavor do desconhecido me paralisou, e não arredei pé um centímetro sequer do local aonde me deixaram. Meu aguçado sentido felino havia me avisado do temporal que estava por desabar, mas, qual o quê ... não senti ânimo e nem coragem para procurar um abrigo. Agora, movido pelo frio que parece me congelar os ossos, é que resolvi me embrenhar por entre os frágeis pés de mandiocas. Meus donos, quando me deixaram aqui, tinham a esperança que eu fosse simpaticamente miar em outra casa, onde um garotinho se encantasse com meus ternos olhos verdes, e ficasse comigo. Não fizeram por mal, eu compreendo. 
  Meus ex-donos, posso assim dizer, são pobres, e a conversa fiada das vizinhas deles, dizendo que gato só faz porquices, fez com que eles se livrassem de mim. Meu dono sabia que poderia mandar fazer uma operação em mim, para que eu não fecundasse nenhuma gata ou ainda mandar aplicar injeções em mim,para evitar isso. Mas, além de não ter dinheiro para tal, ele era contra interferir no ciclo natural das coisas. Para ele a castração é uma maldade, e resolveu então me deixar aqui, para que alguma alma boa e em boas condições financeiras, me acolhesse. 
  Agora estou com sono. Acho que a emoção de ter sido abandonado afetou meus instintos. Não me preocupo com a água que escorre lamaçenta sob meu corpo. Sinto apenas sono, vindo da vontade de ficar imóvel, sem pensar em mais nada. Quero apenas fechar os olhos e esquecer, não pensar em meu destino... 
  A noite passou rápida. O sol da manhã, como um presente do Céu, veio aquecer a terra, secando o solo úmido e dando uma gostosa sensação de calor aos meus pelos. Timidamente esgueirei-me de sob as ramas dos pés de mandiocas e corri o olhar pelo vasto terreno à minha frente. Pra onde ir? Um terreno e uma estreita rua que um humano cruzaria com poucas largas passadas , para mim parecia um mundo. Um estranho e enorme mundo. 
  Devagar, escolhendo bem o lugar onde punha minhas patinhas, e com o olhar e os demais sentidos tensos, esperando um possível sinal de perigo, fui caminhando até um alto e descascado muro. Atrás do muro deveria ter uma casa , claro, com crianças carinhosas e, quem sabe, um tapetinho aconchegante aonde eu pudesse ronronar em paz, como fazia na casa dos meus ex-donos. 
  Enquanto os humanos sonham com carrões, viagens, mansões com piscina e uma 
gorda conta no banco, nós, gatos, nos contentamos apenas com uma casa sossegada, uma tigela de leite e um tapete velho. Aliás, no lugar do tapete pode ser um fogão à lenha, pois para nós não há nada no mundo mais gostoso do que um fogão à lenha. 
  Agora, o principal mesmo é o carinho dos humanos. A casa pode ser um casebre e nem ter o tapete ou a tigela de leite , mas tem de ter carinho. Isso é o mais importante! 
  Com estes pensamentos na cabeça, preparei-me para saltar o enorme muro. Nisso um gato é campeão , mesmo com pouca idade como eu. Um gato pode não entender de economia de mercado, de energia alternativa, cotação do dólar, informática e coisas assim, mas em escalar muros, não existem especialistas como nós. 
  Saltei para cima do velho muro e fiquei decepcionado. Ali não havia nenhuma casa como a instantes eu imaginara. Era apenas um depósito de sucatas. Desnorteado, tentando entender como um grande sonho às vezes pode findar do outro lado de um simples muro, deitei-me sobre as patas, cerrei os olhos e resolvi curtir os acariciantes raios de sol, já que não tinha nada melhor a fazer em cima daquele muro. 
  De repente um vozeirão proferindo todo tipo de palavrão, me colocou de sobressalto. Olhei para o ferro-velho e vi um grandalhão barbudo chutando um pobre cachorro. Eu detesto cachorro, como todo gato que se preze. Minha mãe havia me dito que cães e gatos são inimigos, pois a mãe dela já havia dito isso, pois também ouvira minha tataravó dizer o mesmo. E assim, caso eu tivesse meus filhotes, também deveria dizer a eles que cães e gatos são inimigos... 
  Eu nunca procurara analisar o porquê de tal inimizade. Agora, raciocinando sobre isso, não acho em minha memória nenhuma lembrança sobre alguma maldade que um cachorro tenha feito a mim. 
  Gozado , né? Será que com os homens também acontecia isso? De repente você notar que odeia alguém por que um outro alguém disse que aquela pessoa era inimiga. Acho que isso é o tal preconceito do qual os humanos falam. Acho que é por isso que soldados se matam numa guerra...Eu nunca tinha vivido uma, mas sei como é, pois assistia a muitos filmes de guerra pela tevê. Deixando de lado os filosóficos pensamentos, tratei de prestar atenção à cena no ferro-velho. 
-Vira-lata imprestável! Vai, some daqui, antes que eu lhe arrebente essa cabeça pulguenta! 
O sujeito, irascível, ainda deu mais um pontapé no pobre animal, que de cabeça baixa, ganindo dolorido, saiu pelo portão e veio se abrigar do lado de fora do muro, bem embaixo de onde eu estava! 
  Olhei o cão, olhei o sujeito, que ainda colérico, deu um chute na carcaça de algo que parecia ter sido um automóvel, acabando por machucar o pé. Eu achei bem-feito, e teria gritado isso lá de cima do muro, se soubesse falar ‘humanês’. Voltei minha atenção para o cachorro lá embaixo. O infeliz se deitara, cabeça entre as patas, e parecia tão depressivo quanto eu, na noite anterior. Saltei do muro procurando cair pelo menos uns três metros longe dele.    Calculadamente, em caso de um ataque, eu teria espaço e tempo para me safar. O cão me olhou e não deu a miníma. Seus olhos tristes e lacrimejantes demonstravam que mesmo sendo um leão que tivesse saltado ali, a reação seria a mesma, ou seja, nenhuma. 
  Ronronando nervoso, os pelos semi-eriçados e a cauda bailando agitada, eu me aproximei cautelosamente. Ainda nenhuma reação do cão. Apesar de instintivamente eu ficar mais e mais ouriçado, eu me aproximei ainda mais. Agora era aquela maldita curiosidade de gato que me impulsionava pra frente. Porque o cão estava tão triste? Porque a falta de reação? O que ele ia fazer agora, após ter sido escorraçado pelo dono? Eu tinha minhas supostas respostas, mas queria saber as dele. 
-Pode se aproximar, gatinho...Eu não vou lhe fazer mal. 
Quando o cão ganiu, me pegou no contra-pé. Assustado, dei um salto para trás, na defensiva. Mas o cão apenas fechou os olhos e ficou impassível. De longe então, ronronei, guaguejando: 
-V-você não va-vai me atacar?... Pela regra, cães e gatos são inimigos! 
- As regras, já disse alguém, foram feitas para serem quebradas! - Respondeu ele, e 
continuou: 
- Se você não me fez nenhum mal, porque eu vou ter raiva de você? 
-É ...faz sentido. - Balbuciei. E então, sem que me desse conta, estava sobre as patas traseiras, bem ao lado do cachorro. 
- Eu vi o que aconteceu lá dentro. Seu dono é mesmo ruim, heim? - Comentei. 
O cachorro continuou silencioso, de olhos fechados. Eu já estava aflito de tanta curiosidade, mas, para obter respostas, é necessário um diálogo e, pelo jeito, ali só haveria monólogos . 
- Ele não é meu dono. - Respondeu meu taciturno e provável amigo, após um longo silêncio. A vontade que me deu foi de atacar de comadre, perguntando: Ah, é ? Se ele não é seu dono, quem é então? E o que você fazia ali ? Conta, conta!...Mas, como minha mãe dizia que a gente deve dançar conforme a música, procurei deixar a conversa rolar como o cão parecia gostar, ou seja, uma pergunta de um minuto, meia hora pra vir a resposta. 
- Meu dono bateu com as dez, e o irmão dele, dono desse ferro- velho, me trouxe pra cá, como cão de guarda. 
  Quando ele respondeu, eu já havia até me esquecido da pergunta feita. O nosso papo, desse jeito, duraria o dia inteiro, pensei com meus bigodes. Contudo, pra quê a pressa? Eu não tinha lugar nenhum para ir, e nem ele tampouco. Resignado, dei uma lambida na minha patinha esquerda e me lembrei de um par de velhos que eu vi certa vez, sentados no banco do jardim que fica em frente à minha perdida residência . Os velhos ficaram toda a manhã sentados ali, trocaram meia dúzia de palavras, e depois foram embora, cada qual para seu lado. 
  Na época eu me perguntei o motivo que faz com que os humanos corram atabalhoadamente durante boa parte da vida, pra depois, velhos e cansados, sentarem num banco de jardim, sem pressa nenhuma. 
-Escuta, cachorro, o que é ‘bater com as dez’? 
-Puxa! Demorou a perguntar, hein? 
  Dei um sorrisinho sádico, sentindo prazer em mostrar ao cachorro como era chato esperar meia hora pra dar sequência a uma conversa. 
  E parece que ele entendeu, pois dali em diante nossos diálogos sofreriam intervalos de apenas quinze minutos... 
-Bater com as dez é ir pra terra dos pés- juntos, dobrar o cabo da boa esperança, vestir o paletó de madeira, etc, etc, entendeu? 
- S-Sim!... 
  Eu não havia entendido nada, mas não quis bancar o ignorante, pois parecia que eu tinha arranjado um amigo muito culto. Ele então voltou à irritante posição de silêncio total. 
-Sabe, gatinho, eu não sou um cão de guarda. 
-Siimm? - Animei-me com a retomada da conversação 
- Não sou nenhum doberman furioso. Sou apenas um vira-lata velho e cansado. 
  Fiquei na expectativa, pois sabia que ali vinha desabafo, e talvez as respostas das minhas perguntas feitas horas atrás. 
-Ontem entrou um ladrão no ferro-velho e parece que roubou algum traste. Com aquela chuva, e já sem bons faro e audição, eu não percebi nada. Agora de manhã, o irmão do meu falecido dono quis descontar o prejuizo em mim. 
-É ... eu vi tudo. 
-Infelizmente isso não acontece só comigo. Existem muitos pobres cães por aí que 
depois de ficarem velhos e doentes, são simplesmente ignorados. Eles não dão 
mais a nossa comida na hora certa, não se preocupam com a nossa saúde, não 
brincam mais e nem têm mais paciência com a gente. O que alguns fazem é arranjar um bonito e fofinho filhote, esquecendo até que a gente existe, e que um dia foi o leal amigo deles. 
- Puxa, isso é horrivel! - Exclamei indignado, pois devido à minha pouca idade, quase nada conhecia dos humanos. 
-Isso não é nada gatinho. Os humanos também fazem isso com os de sua própria raça. Velho, para eles, é tão somente um estorvo. 
  Decididamente eu nunca ia querer ser um cão, e muito menos um humano. Se bem que eu não sabia o que acontecia com os gatos velhos. Eu nasci em uma família de cinco gatinhos.Um de meus irmãos, todo preto de listras brancas, ou branco com listras negras - eu nunca soube ao certo, foi levado embora por uma menininha chata e ranhenta; um outro, de cor branca e cinza como eu, foi esmagado por uma porta; e os outros dois seguiram minha desnaturada mãe pelos telhados à fora desse mundão sem eira e nem beira. Então, dos cinco só sobrou eu, que havia demorado mais a desenvolver a agilidade felina e não consegui ganhar os telhados. 
  A casa dos meus antigos donos foi escolhida ao acaso por minha mãe, para dar cria. O dono da casa, como já disse, era um cara legal e deixou minha mãe em paz, até ela ganhar a ninhada. Ajeitou com carinho uma caixa de papelão com panos dentro, e depois que nascemos, cuidou da gente com muito amor em nossos primeiros dias de vida. 
  Quando minha mãe e meus dois irmãos restantes se mandaram e eu fiquei, o pessoal da casa achou que eu tinha ficado por livre e espontânea vontade. Como eram bondosos, eu concordei com a idéia e os adotei como donos. Eles então começaram a me chamar por Zadig. Eu gostei, e o nome ficou. O resto da estória vocês já sabem. Mas, nesse curto período de vida não deu para saber como os gatos envelhecem e nem tampouco como são tratados na terceira idade. 
- Veja só, gatinho... já está entardecendo! Temos de procurar um abrigo. 
O velho e grande cão se levantou com dificuldade, talvez sentindo o peso da idade, talvez ainda sentindo as pancadas que levara de manhã. 
- Se o sujeito do ferro-velho já foi embora, poderemos dormir dentro de um automóvel velho, e ao amanhecer iremos embora. 
- Eu vou dar uma olhada. - Dito isso, pulei de novo sobre o muro e vasculhei a área com o olhar. Não havia nenhum vestígio do barbudo maldoso. - Tá limpo! - Disse ao meu amigo, lá embaixo. 
- Então vamos, gatinho. Tem uma abertura no portão por onde eu poderei passar. 
  Segui logo atrás do meu único e estranho amigo. Ele é um cão de cor cinza, com pequenas pintas brancas espalhadas pelo corpo sujo. Nossa cor se assemelhava, e parece que o destino também. Apesar da velhice e da sujeira do abandono, meu amigo ainda conservava um porte altivo de cão lutador. 
- Como você se chama? - Quis saber ele, após nos instalarmos sobre o banco rasgado de um velho Opala. 
- Zadig. E você? 
- Rex. 
  Na manhã seguinte, assim que o sol raiou, Rex e eu abandonamos o ferro-velho. Se minha mãe, ou mesmo algum outro da minha espécie me visse, ficaria no mínimo entre curioso e indignado. Lado a lado, lá iam um cão e um gato, caminhando sem pressa e nem rumo. 
- Vamos ficar vagando por ai, Rex?- Eu quis saber. 
- Eu vou... quanto a você, eu não sei. 
- Ora, eu não tenho nenhum lugar aonde ir. Portanto, se você deixar, eu vou acompanhá-lo. 
Rex não respondeu. Andei com ele mais uns trinta metros, e perguntei: 
- Qual é o nosso destino? 
- O que nós fizermos. 
  Passamos por uma cerca de arame farpado, e nos embrenhamos por um enorme pomar. As árvores estavam todas floridas e lindas, cada uma querendo ser mais bonita que a outra, com cores vermelhas, amarelas e roxas. Então, ao longe, uma árvore esbranquiçada e solitária me chamou a atenção. 
- Olha que árvore feia, Rex. Ela não está florida como as outras. 
- Você não deve achar nada feio ou bonito, apenas pela aparência, gatinho. 
- Como assim? 
- Normalmente as coisas mais belas não são vistas pelos olhos do corpo. 
  Enquanto conversávamos, fomos nos aproximando da árvore que a pouco eu achara feia. 
- Olhe bem agora, Zadig. - Pediu Rex. 
  Eu olhei e fiquei maravilhado. A árvore também estava florida e era tão linda quanto as outras. Suas flores branquinhas eram tão pequenininhas que não podiam ser vistas de longe. 
- Tudo bem, Rex. Eu me enganei julgando pela aparência. Mas, o que você quis dizer sobre as coisas belas não serem vistas pelos olhos do corpo? 
  Rex parou, deitou-se sobre as folhas secas espalhadas em grandes e fofas camadas pelo chão, como um gigantesco tapete, e explicou: 
- Com os olhos do corpo, meu amiguinho, você está vendo toda esta beleza 
natural de árvores, flores e frutos. Mas antes que estas árvores nascessem, 
florescessem e frutificassem, um lavrador preparou a terra, molhou-a com seu suor, 
colocou a semente, bendisse o sol, rezou pela chuva e pediu ao frio para não 
prejudicar as mudinhas. Esse amor do lavrador pela terra e pelas plantações; a 
sua tristeza com a árvorezinha que sucumbiu e sua alegria com a que resistiu, essas coisas só podemos enxergar com os olhos da alma. Nunca de outra maneira. 
  Eu estava orgulhoso em ter o velho e sábio Rex como amigo. Estava aprendendo muitas coisas com ele. Passei então a falar menos, sem procurar respostas para meras curiosidades, e absorvia assim melhor as palavras de Rex e o conteúdo delas. Ficamos ali até novo entardecer. Um vento gelado começou a soprar por entre as árvores. 
- Vamos procurar outro abrigo, Zadig, pois creio que vai chover e esfriar ainda mais. 
 'Êta cachorro da hora!', pensei, entusiasmado com a sabedoria do meu amigo. Não é que até de meteorologia ele entendia?! Saimos do pomar, atravessamos um pasto e então um barulho foi aumentando de intensidade à medida que caminhávamos.
-Isso é trovoada, Rex? 
-Não, Zadig. Espere um pouco e você já vai saber o que é. 
  Caminhamos mais uma boa meia hora, e então avistei a estrada por onde passavam velozmente muitos veículos barulhentos. Eu já tinha visto aquilo na tevê, mas não imaginava que ao vivo fosse tão aterrador. O ronco dos possantes motores dos caminhões fazia doer meus sensíveis ouvidos. Rex, que já não ouvia tão bem, não se incomodava. 
  Ao lado da rodovia havia uns grandes tubos de concreto, e foi para lá que Rex se dirigiu. 
- Aquela tubulação abandonada vai nos servir de abrigo. 
  Era um lugar razoavelmente aconchegante, apesar de ser duro e frio e também do barulho dos carros na estrada. Paulatinamente a estrada foi ficando opaca, até sumir por completo no horizonte já escuro. Agora só se percebia que alí havia uma estrada pelo barulho e pelos faróis dos carros. Uma chuva fina começou a cair, esfriando ainda mais. Encostei -me bem em meu amigo cachorro, que com seu jeitão de monge chinês parecia não sentir o frio. 
- Será que existe algo pior que o frio, Rex? 
- Existe. - Respondeu ele, atiçando minha curiosidade. 
- O quê? 
- A nudez. 
- E pior do que a nudez? 
- A fome.
  Isso me lembrou que a gente estava o dia todo sem comer. O que eu não daria por um pires de leite! 
- Tem razão, Rex. Acho que não existe mesmo nada pior do que a fome. 
- Existe sim, meu amiguinho. Existe o abandono, a solidão, o viver sem sentir-se amado. Isso é tão ruim que leva alguém até a desejar a morte como companheira! 
- Brrr! Que papo mais baixo astral! Nós nunca iremos nos sentir assim, Rex. Sempre seremos companheiros, né? 
  Ele, como de costume, não respondeu. Também não precisava. O calor do seu corpo era uma prova de que eu não estava sozinho. Cerrei os olhos, tentando esquecer a fome... 
  Os raio do sol entrando sem pedir licença pela tubulação, me despertaram. Nada como um dia depois do outro, a não ser que você tenha dado um cheque pré-datado, como dizia meu antigo dono. Espreguicei-me, espantando os últimos vestígios de sono, e começei a brincar com as orelhas caidas do Rex, para acordá-lo . 
- Ei, acorda, preguiçoso! 
  Rex não se mexeu. Sua respiração estava ofegante, e a cada inspirada um estranho assovio parecia sair dos seus pulmões. Coloquei as duas patinhas no dorso dele e o sacudi com todas as minhas parcas forças. Rex acordou, mas notei que ele sentia dificuldade em levantar-se. 
-Olá, Zadig! Parece que temos um belo dia pela frente! 
Rex quis brincar, mas senti que ele parecia cansado. Saimos do nosso abrigo. Meu amigo estava com as pernas duras, caminhando tropegamente. Ele tinha perdido o porte altivo. 
- Você tá sentindo algo, amigão? 
- Um pouco de dor, Zadig. O corpo todo está dolorido. 
Rex deitou-se novamente, debilitado, e perguntou: 
- Onde estamos? 
- Ora, perto da rodovia! Viemos pra cá ontem, lembra-se? 
Rex olhou ao redor parecendo desnorteado e disse: 
- Estou tentando lembrar. As coisas estão meio embaralhadas em minha cabeça... 
- Isso é fome, Rex! Espere aqui, pois vou arranjar comida para nós! 
  Rex não opinou. Apenas pousou a cabeça sobre as patas , e ficou quieto, pensativo. Só mais tarde eu iria saber que aquilo não era fome somente. Era a inexorável e maldosa velhice, que como um castigo que antecede a morte, vem corroer o corpo e a alma. 
  Sai dali saltitante por sobre a relva, em direção à estrada. Estava decidido a arranjar um pouco de leite e um bom osso, apesar de nem imaginar onde conseguir isso. Na beira do asfalto fiquei aflito ao ver aqueles gigantescos monstros de rodas passando velozmente. Alguma coisa me dizia que aquilo era muito perigoso para mim. Então resolvi esperar o momento propício para atravessar. 
  Enquanto esperava, ia me angustiando nas preocupações. Será que eu, um pobre gatinho abandonado pela mãe e depois, pelos donos, iria arranjar comida? Será que o meu único amigo e companheiro iria pra ‘terra dos pés- juntos’, como seu dono? O que ia ser de nós? Sacudi os pensamentos da cabeça, tentando colocar nela apenas uma coisa que Rex havia me dito: não é bom saber o futuro, pois é uma desgraça angustiar-se sem nada poder remediar. Segundo Rex, fora um tal de Cícero que há muitos, muitos anos, dissera isso. 
  Consegui finalmente atravessar a estrada e logo adiante vi algumas casas. Não sei se era uma vila ou uma cidade. Também não importava. O que eu, como animal doméstico precisava, era encontrar gente, pois minha sobrevivência e a do Rex dependia disso. 
  Numa rua sem asfalto, vi uns garotos brincando com bolinhas de gude. Na minha situação não podia esperar que alguém caisse de amores por mim. Eu tinha de tomar a iniciativa. E foi o que fiz. Fazendo uma carinha triste, aproximei-me de um dos garotos e comecei a miar e a roçar-me em suas pernas. 
-Ei, olha aí, Gê! O gatinho gostou de você! 
  O garoto largou as bolinhas, e eu, de olhos fechados, esperei um carinho. Porém estava redondamente enganado. O moleque pegou-me pela cauda - odeio quando fazem isso, e jogou-me para um lado. 
- Sai pra lá, bicho chato! 
  Sai dali miando tristonho, sem olhar para trás. Então senti mãozinhas pequenas erguendo-me do solo, e logo eu me encontrava aninhado nos braços carinhosos de um loirinho sardento. 
- Puxa, Gê!... Se você não gosta do bichinho, também não precisa maltratar! 
- O gato é seu?
- Não.
- Então porque está me chateando? Pega ele e leva pra você antes que eu dê um pontapé nos dois! 
- Experimenta, se for homem! 
  É...pelo jeito eu acabara de me transformar no pivô de uma briga. O tal do Gê partiu pra cima de nós, babando de raiva. O loirinho me colocou no chão, e depois saiu de lado e esticou a perna. O Gê passou batido, tropeçou no pé do loirinho e foi se estatelar no chão. Levantou-se com a boca cheia de terra e saiu dali chorando, sob as vaias dos demais garotos. Criança consegue ser maldosa à sua maneira...Eu, de minha parte, achei foi muito bem-feito pro tal Gê. E até vaiaria também, se soubesse a lingua deles. 
  Depois disso, o loirinho me levou pra casa dele e logo colocou à minha frente um delicioso e aguardado prato de leite. Eu cai de boca, bigodes e patas, sorvendo ansioso aquele néctar dos deuses. 
  Eu não sabia porque os humanos sempre dão leite pra gente, bastando alguns miados para isso, mas também pouco me importava. O que realmente contava era aquela coisa branca e gostosa, vinda de um saquinho de plástico ou de uma caixinha, estar alí, à frente dos meus olhos alegres e do meu estomago esfaimado. 
  Limpei o prato, lambi os beiços e as patinhas, dei uma roçadinha em sinal de agradecimento ao meu novo amigo, saltei sobre o muro, dei um ‘tchaumiau’ pro loirinho sardento, e fui embora. Ali seria um bom lar para mim, mas eu não podia ficar, pois lá do outro lado da estrada havia um outro amigo esperando e dependendo de mim. Eu não ia abandoná-lo. 
  O sol me banhando sobre o muro naquela linda manhã de inverno, a barriguinha cheia...dava uma vontade louca de parar e tirar uma soneca, mas a lembrança de Rex me fazia prosseguir. 
Depois de andar por uns dez muros e outro tanto de telhados, avistei uma casa de carnes. Saltei para a rua e me dirigi para lá. No caminho ia pensando como resolver o problema. Eu precisava de um osso ou, quem sabe, um bom pedaço de linguiça, mas como ia conseguir isso? Se eu abrisse a boca, o cara talvez me desse um prato de leite, e nunca um osso! Onde já se viu gato roendo osso?! 
  Então resolvi fazer uma coisa que aprendi com o governo, e que meu antigo dono detestava, que era o tal do empréstimo compulsório. Mirei bem uma bela e suculenta fieira de linguiça pendurada, e disparei direção a ela. Da porta do açougue, pulei para o balcão, e de lá, num belo salto, modéstia à parte, abocanhei o último gomo de linguiça da penca. Cai ao chão e as linguiças cairam todas sobre mim. Num segundo, enquanto o gordo dono do açougue só teve tempo de xingar “Seu gato filho de uma...” eu já atravessava a rua arrastando atrás de mim os gomos de linguiça. O sujeito com uma vassoura - também detesto vassouras, correu atrás de mim, mas graças à sua grande barriga, parou nos primeiros vinte e cinco metros, ofegante, desistindo da perseguição.
  Já eu só fui arfar lá na beira da estrada. Ai é que bateu a tremedeira. Eu não acreditava no que acabara de fazer, mas os gomos da cheirosa linguiça eram prova do que realmente havia acontecido. Levei uns dez minutos para ter a estrada livre de carros e atravessá-la. Lá perto dos tubos, estava Rex, na mesma posição em que eu o tinha deixado horas atrás. 
- Fazia tempo que eu não almoçava assim! - Disse Rex, já mais animado, para minha alegria.   Sem muito esforço eu podia vê-lo como aqueles afetados lordes ingleses, dando um arrotinho disfarçado e dizendo: - Magnífico almoço, Jaime! 
  Bem alimentados, tiramos uma boa pestana e, mais tarde, sem nada melhor a fazer, começamos a bater papo. Foi então que Rex me falou de sua família e de seu maior sonho... 
- Sabe, amiguinho, eu, como vira-lata, sou uma obra do acaso. Minha mãe era uma Chesapeake Bay Retriever. Ela veio de uma nobre família de cães originária da América do Norte. Meus prováveis ancestrais eram cães Terra Nova, que sobreviveram a um naufrágio perto de Maryland. 
- Cáspita! O Rex nunca havia formado uma parágrafo tão grande! Eu fiquei quieto, deixando ele falar. Apesar de que nunca iria conseguir pronunciar o nome da raça da mãe dele, eu estava doidinho pra ouvir a estória... 
- Minha mãe esteve no Brasil em viagem com seus donos, e aqui conheceu meu pai, que era um vira-lata. Segundo ele me contaria mais tarde, foi amor à primeira latida. Meu pai vendo nela uma deslumbrante socialite e ela se encantando com a força, a garra e a vida vagabunda do meu pai. Desse amor nasceram eu e dois irmãos. Meus irmãozinhos morreram com poucos dias de vida e eu, infelizmente, escapei.
- Porque, infelizmente? - Quis saber eu, já que Rex, ao que parecia, tivera uma mãe amorosa e um pai charmoso, ao contrário de mim, que tive uma mãe que me abandonou e quanto a meu pai, nunca o conhecera. 
- Você já vai saber, Zadig - Respondeu Rex, e continuou: - Quando os donos da minha mãe descobriram que ela estava de caso com um vira-lata, voltaram rapidamente para a terra deles, acabando o romance. 
- Levaram você? 
- Claro que não, Zadig! Me largaram impiedosamente dentro de um cestinho perto da linha do trem. 
- E como você sobreviveu? 
- Meu pai, que acompanhava tudo de longe, me pegou e levou para viver com ele, justamente na casa desse meu dono que morreu. 
- E... 
- E, o quê? 
- Acabou a estória? 
- Você é mesmo apressado, gatinho!...Não acabou não. Meu pai, triste com a perda da amada, começou a meter-se cada vez mais em brigas pelos becos, até morrer um dia, estraçalhado por um doberman. Só que, um pouco antes de morrer, meu pai contou-me algo importante! 
- O quê? O quê? - Eu já estava roendo as unhas, de tanta curiosidade. Rex riu calmamente com seu jeitão de monge budista, e prosseguiu: 
- Meu pai, sentindo que não ia sobreviver aos ferimentos feitos pelo doberman, me chamou e disse: 
“- Meu filho, não tenho muito tempo, por isso, preste bastante atenção ao que vou falar...Sua mãe era uma cadela de raça, e você herdou muito dela. Pelo sedoso, essas manchas escuras, orelhas caidas e as medidas equilibradas...para mim você é um Chesapeake, como sua mãe. 
Rex coçou uma provável pulga, e continuou a estória: 
- Meu pai tossiu, fazendo uma careta de dor, devido aos ferimentos, e disse: - “Eu registrei você como descendente puro da linhagem dos Chesapeakes, e, é claro, inventei uma linhagem de cão Terra Nova para mim, pois é a provável origem da raça da sua mãe. 
- Quer dizer que... 
- Sim, filho. Você tem pedigree! No documento, que está em poder do nosso dono, está toda sua linhagem, dos tataravós, até sua mãe! 
- M-mas, como o senhor conseguiu isso, pai? 
- Ora, Rex...eu posso ser um vira-lata, mas não sou besta!” 
Rex passou a pata sobre os olhos, secando as lágrimas, e concluiu a incrível estória: 
- Um mês depois que meu pai morreu, eu desafiei o doberman que o havia ferido e o matei em uma luta justa, vingando meu pai...Agora, Zadig, o que eu mais queria era ver esse documento, que jamais vi até hoje, antes de morrer também. 
- Credo, Rex! Vira essa boca pra lá! 
  O papo pareceu chegar ao fim. Lambi meus bigodes, dei uma patada numa mosca impertinente e disse, decidido: - Rex, eu vou achar o tal documento para você! 
Rex sorriu complacente diante do meu ímpeto adolescente, e quis saber como eu faria tal coisa, se o pouco do mundo que eu conhecia se resumia à minha antiga casa, uma plantação de mandiocas, um ferro-velho, a beira da rodovia, uma pequena vila e a casa de um garotinho sardento. 
  Mas eu acreditava que, depois do caso das linguiças, eu poderia conquistar o mundo! E como dizia minha ex-dona, que quem tem boca vai à Roma, eu acreditava que quem mia o mundo desafia! Se havia muitos vira-latas nas ruas, havia também muitos gatos nos telhados. Não seria difícil achar a casa do dono defunto do Rex e pegar o registro de pedigree que ele tanto queria conhecer. Só que nem precisei pedir informações para achar a tal casa, pois uma idéia do Rex facilitou as coisas. 
  De posse de todas as informações dadas pelo meu amigo, voltei ao ferro-velho. De lá eu ia acompanhar o malvado irmão do falecido dono do Rex até a casa. Conforme Rex contara, seu dono era solteiro, e com sua morte, o irmão se apossara de tudo. 
  Fiquei sobre o muro até por volta das cinco horas da tarde, quando então o antipático sujeito trancou o portão, subiu no carro e já ia embora. Com muito custo e meio palmo de lingua pra fora, eu consegui alcançar o carro na corrida e pular para o pára-choque traseiro.
Pronto. Um terço da missão estava sendo concluida. Faltava agora entrar na casa, procurar o documento e voltar...Simples, não? Pensei com meus bigodes, sabendo que o pior ainda estava por vir. 
  Finalmente o cara parou o veículo, desceu e dirigiu-se para uma enorme casa. Uau! O Rex morara numa mansão! O sujeito abriu a porta da frente e, antes dele entrar, eu disparei à toda, passando por entre suas pernas e indo parar no meio de uma ampla sala. 
- Venha cá, seu gato filho de uma égua! 
  Caramba! Aquilo já estava se tornando repetitivo! O açougueiro me xingara, e agora o barbudo. Eles podiam até ter razão no que dizia respeito a minha mãe, mas quem corria perigo era eu, que deveria ser elogiado, e não xingado daquele jeito. E afinal de contas, o barbudo era um asno de boca suja, sem nenhum ‘feeling’ para por os pés numa mansão como aquela, e quanto mais viver nela! Coisas da vida... 
  Quando o barbudo bocudo correu pra me pegar, eu saltei para uma grande cortina, e subi até o alto. O cara então começou a sacudir a cortina, na tentativa de me derrubar. Tolinho! Eu jamais cairia dali, mas que já estava ficando tonto, isso estava. Mirei bem o candelabro que pendia no meio da sala, retesei os músculos e, aproveitando o impulso das sacudidas, pulei para cima do candelabro e de lá para a imensa escadaria que levava aos compartimentos superiores da casa. Se isso é um sobrado, os quartos devem ficar em cima, e documentos geralmente se guardam nos quartos, pensei, disparando degraus acima. 
  O sujeito lá embaixo deu de mão, na base do ‘depois eu te pego’, e desistiu de me perseguir. Aproveitei-me dessa trégua e começei a passar pelos quartos e a revirar as gavetas, até que no terceiro quarto achei na gaveta de um criado-mudo um envelope no qual estava escrito: REX. Deve ser isso, deduzi. Abocanhei o envelope e voltei à escada. Droga! O sujeito havia fechado a porta da sala e eu não tinha por onde fugir. 
  Corri de volta a um dos quartos, aonde eu havia visto uma janela aberta, e saltei para o parapeito. Mama mia! Exclamei, sentindo os pelos eriçarem. A altura era assombrosa até mesmo para um felino. Mas eu tinha de cair fora dali. Assim, calculei que, com um bom salto eu iria cair sobre a copa de uma árvore ao lado da casa. E depois, era só ganhar o chão e voltar para o meu amigo Rex. Esta era a teoria. 
  Fechei os olhos, respirei fundo, e atirei-me no espaço vazio, rezando para que na prática a coisa fosse igual. Senti a mesma sensação que, acredito, um pára-quedista deva sentir. O vento parecendo arrancar meus bigodes e a queda livre até as folhagens da árvore. O medo travou todos os meus movimentos e parecia mandar meu estomago lá para a ponta da cauda. Olhos arregalados e unhas saltadas, só senti alívio ao tocar a copa da árvore. Passei direto entre as folhagens, bati a cabeça num galho, mas consegui cravar as unhas em outro. Respirei profundamente, procurando recolocar o coração no seu devido lugar, e, mais calmo, escorreguei pelo tronco até o chão, e fui embora. 
  A volta até que foi relativamente fácil, não contando umas quinhentas vezes que me perdi, outro tanto que pedi de informações a alguns gatos vadios, não contando que um deles meteu-se a besta comigo e acabou levando uma boa unhada no focinho e também, não contando o punhado de vira-latas que me atacou. Subi e desci tantos muros naquela noite, que acho que jamais o faria no restante de todas as minhas sete vidas! 
  Quando finalmente cheguei ao ferro-velho, extenuado, sem forças até pra miar, deitei-me sobre um monte de pneus velhos e adormeci. Quando amanhecer eu vou até onde o Rex está....uáááá.....zzzzz! 
  Só acordei com o barulho do portão do depósito de sucatas sendo aberto. Como eu não queria um novo encontro com o barbudo malvado, posicionei firmemente o  envelope na boca e tratei de dar no pé...ou melhor...na pata! Cerca de meia hora depois eu cheguei ao local onde havia deixado o Rex. Mas ele não estava mais lá! 
  Dois gatos saboreavam o resto dos gomos de linguiça que meu amigo havia deixado.
Perguntei a eles sobre o cão e eles informaram que a carrocinha havia passado no dia anterior e o tinha levado para o canil municipal. 
- A essa hora ele já deve ter virado sabão! - Zombou um dos gatos, com um sorriso besta. Fazendo de tudo para esconder minha impaciência, disse: 
- Que pena! Se vocês soubessem o caminho, a gente poderia ir até lá, ver o maldito cachorro ir para a câmara de gás! 
- Boa idéia! - Aprovou um dos gatos. 
- Falou, garoto! - Concordou o outro. - A gente sabe o caminho. Vamos lá! 
Como gatos vadios que eram, deduzi que eles conheciam bem a cidade, e estava certo. Segurando firmemente o envelope segui-os por muros e telhados em direção ao canil da Prefeitura. 
- Ei, gatinho...o que tem nesse envelope? 
A pergunta do gato me pegou no contra-pé. Forjei uma resposta rápida, na esperança de que eles acreditassem. 
- Ahan...é uma foto de minha velha vó. Querem ver? 
Me saí melhor que a encomenda, pois eles torceram o focinho. 
- Argh! Quem quer ver foto de uma velha? 
- Se ainda fosse uma gatinha... 
  Dando risadas marotas, os dois continuaram rumo ao canil, esquecendo-se, do envelope, para sorte do Rex. Após umas duas horas, chegamos ao local onde cães e gatos abandonados eram recolhidos e...exterminados! 
  Rex havia me dito que em certos países europeus, os donos de vira-latas pagavam mais impostos. É, parece que ao nascermos sem pedigree, já somos condenados à intolerância do mundo. Para nós, animais, não havia distinção se o gato ou o cão nascesse com pedigree ou não, mas o homem, dotado de raciocínio, inteligência, coração e alma, criou a diferença.  Como o Rex disse, eles ditavam essa diferença também entre eles. Aos nascidos em berço de ouro, as flores; aos pobres e miseráveis, os espinhos somente. Essa é a tal ‘sociedade civilizada’. 
- Olha o homem da carrocinha! - Gritou um dos gatos, espantando meus pensamentos. Medrosos, eles fugiram. Do muro onde eu estava, ví que o sujeito saiu do portão do canil e veio até o veículo conhecido como ‘carrocinha’. Ele sentou-se dentro da cabine, acendeu um cigarro, e ficou ali, quieto, acho que pensando em cães e gatos. 
  Aproveitei-me disso e corri para o canil. De um salto pulei a cerca de alambrado, e fui cair no pátio. Os miados e latidos tristes me deixaram arrepiado. Será que Rex ainda estava vivo? Fui caminhando e olhando atentamente. Os olhares súplices dos animais me deixavam ainda mais angustiado. Que triste sina! Se eu não fosse um pequeno e indefeso gatinho, soltaria todos eles! 
- Procurei me concentrar na procura por Rex. Então, em dado momento ouvi a respiração cansada dele. 
- Rex! Rex! 
  Chamei baixinho para não despertar a atenção do guarda do canil. Uma preocupação improcedente, pensei em seguida, pois entre tantos latidos e miados, não seria o meu miado que iria atrair a atenção do sujeito. Então chamei mais forte. E mais forte ainda, até ouvir a resposta do Rex. 
- Zadig, é você? 
- E qual outro gato iria miar para você, cachorrão tonto? 
Aproximei-me do local onde meu amigo estava enjaulado. Seus olhos brilharam emocionados em me ver. 
- Meu pequeno Zadig! Você não abandonou o velho Rex!...Pensei que nunca mais fosse vê-lo! 
Com a pata direita ele fez um afago em minha cabeça. Como todo bichano, eu sou chegado num carinho, mas aquele não era o momento propício, pois a qualquer momento o guarda podia retornar...Além do mais, eu estava doido pra entregar o documento ao Rex. 
- Eu consegui, amigão! 
- Meu pedigree?! 
- Sim. Olha ele aqui! 
Com a pata empurrei o envelope para dentro da jaula. Rex, trêmulo, olhou para o alto, como se agradecesse a uma fada canina, e disse emocionado: 
- Obrigado, Zadig. Agora eu posso morrer em paz. Sou um cão de raça, como meu pai queria! 
- Ora, Rex...Você ainda vai viver muito para curtir seu pedigree! 
Eu falei aquilo, mas não estava sendo sincero comigo mesmo, pois sabia que ali Rex não ia durar muito. Contudo, ele entendeu meu esforço em tentar ser otimista. 
- Agradeço, meu amiguinho, mas eu já aceitei a situação. Não estou triste e nem revoltado. Afinal, já sou um velho cão e o meu sonho, que era conhecer o documento que atesta meu pedigree, você acabou de realizar. - Rex respirou cansado, e continuou: - Amanhã, vários animais serão sacrificados, e eu sei que estarei entre eles. 
  Rex olhou minhas lágrimas escorrendo e esticou a pata por entre as grades, numa tentativa de contê-las. 
- Não, você não deve chorar, Zadig. Você tem muito a viver. Ainda vai aparecer uma bela gata em sua vida, e depois, belos filhotes. Quando você estiver contando estórias para eles, lembre-se do velho Rex. 
- Eu jamais o esquecerei Rex. 
Rex engoliu em seco, tentando a custo conter o choro. 
- Agora vá, Zadig. É perigoso ficar por aqui. Eu estarei bem. 
  Afastei-me aos poucos, sentindo o coração despedaçado. Mas o que um indefeso gatinho como eu poderia fazer? Saltei novamente o alambrado e de um muro distante fiquei olhando o canil. 
- Espere! Eu já estava ficando repetitivo! Quem disse que sou indefeso? Nesses poucos dias eu vivi boas aventuras, tinha aprendido muita coisa e havia me saido muito bem. Não, eu não ia deixar meu amigo ir pro matadouro sem tentar nada para libertá-lo! Rex dizia que a esperança é a última que morre, e eu não ia deixar a minha ficar de braços cruzados! Ele também dissera que o destino é feito por nós, então, se era assim, eu ia lutar para mudar aquele destino cruel imposto a Rex e aos outros animais. 
  Enquanto eu filosofava uma reação, uma idéia foi se alojando em minha cabeça, e eu fui gostando dela. Afinal, era a única que eu tinha! 
  Saltei do muro para um telhado e começei a correr feito louco. Não havia muito tempo para colocar a idéia em prática. Fui miando para todos os lados e em todas as alturas, e logo uma dezena de gatos reunia-se comigo. Mencionei rapidamente o problema para eles, falando por último sobre minha idéia, que foi aprovada unanimente. Então pedi a eles para se espalharem e arregimentar mais companheiros. 
  Sai dali correndo novamente, até o primeiro beco que achei. Lá, entre latas de lixo e outras porcariadas, estavam oito cães vadios. De cima do muro - já que não sou besta, chamei a atenção deles. A primeira reação foram latidos e a vã tentiva de me alcançar sobre o muro.   Esperei calmamente os tontinhos se acalmarem, e começei meu discurso: 
- Quero apenas um minuto da atenção de vocês. Sei que não me conhecem, mas o que tenho a dizer, certamente vai interessá-los! 
Os imbecis vira-latas se olharam com cara de imbecis mesmo, ficaram quietos e concentraram a atenção em minhas belas palavras, sem falsa modéstia: 
- Vocês sabem da crueldade cometida contra cães e gatos no canil desta cidade. Amanhã mesmo, vários animais irão virar sabão! Deveria ter uma lei que impedisse maus tratos a animais. A todos os animais, independente da raça, cor e posição financeira. 
- Puxa, Rô...esse gatinho sabe das coisas, hein? - Disse um dos cachorros. Naquela hora, se me candidatasse a um cargo público, certamente seria eleito! Voltei à minha preleção: 
- Não sei se existe tal lei ou não. Sim ou não, não basta a lei, se ela não for amparada na justiça! O que não podemos, nós cães e gatos, desprivilegiados pela sorte, é ficar de patas cruzadas, enquanto os da nossa raça, familiares e amigos, são privados da liberdade e da vida. Já falei com vários gatos e eles estão pela cidade conclamando outros gatos a tomar consciência da situação. Agora é a vez de vocês, cães, também conscientizarem seus companheiros a lutar! 
- Porque você, sendo da raça felina, nossa inimiga natural, está preocupado com os cães? 
Perguntou um vira-lata mais esperto. 
- Vocês podem até não acreditar, mas lá naquele canil está um cão chamado Rex, que é o meu maior amigo! 
- Rex? O velho Rex lutador de rua?
Perguntaram todos eles ao mesmo tempo. 
- Sim, ele mesmo.
- Pois ele é o cão mais respeitado nas redondezas, gatinho. Pode contar com a gente! 
  A coisa saira melhor do que eu esperava. Como já acertara com os da minha raça, marquei também com os cachorros um encontro ao anoitecer em frente ao canil, e continuei durante todo o dia pelos muros da cidade, a conclamar cães e gatos para a luta. 
Ao cair da noite, centenas e centenas de olhos, brilhando como faróis no escuro, estavam frente ao canil. De sobre o alambrado dei o grito de ataque: 
- À luta, companheiros! 
  Rex sempre disse que o poder está nas mãos de um poucos, pois a maioria abaixa a cabeça e não reage, como o boi que se submete a canga, desprezando a força que tem. 
  O guarda do canil não pode fazer nada, cercado por tantos animais. Acuado a um canto, apavorado, ele acabou caindo e derrubando o lampião que tinha na mão. Aí a coisa virou um inferno! A chama do lampião quebrado atingiu a palha das jaulas e o fogo inclemente logo tomava conta do canil. Alguns cães e gatos que estavam comigo, fugiram assustados, e os animais que estavam presos, entraram em desespero. Porém, mais desesperado fiquei eu, que tinha vindo ali salvá-los e parecia que ia acabar matando-os. 
- Zadig! Zadig! 
Atordoado, aproximei-me de onde Rex estava. 
- Zadig, quando me trouxeram para cá, observei que à entrada do canil tem uma chave elétrica que comanda a abertura de todas as jaulas. Corra lá e a acione, rápido! 
  Rex não precisou repetir, pois eu em segundos já estava perto da tal chave. De um salto cravei minhas unhas nela e bastou meu pequeno peso, para desligá-la. Ouve um ‘clanc’ e eu cai ao chão, olhando aliviado todos os animais saltando da prisão para a liberdade.
  Pouco depois, a uma boa distância, nós ficamos olhando o canil ser consumido pelo fogo. Sentíamos, é claro, o gostoso sabor da vingança concretizado. 
- Uma justiça poética - Disse Rex baixinho. Em seguida o envelope com o seu pedigree caiu-lhe da boca, e Rex também foi caindo. Só que devagar, bem devagar... 
- Ei, amigão! Aqui não é hora e nem lugar para dormir! 
Brinquei, sacudindo-o, fazendo de tudo para não deixar a terrível apreensão que me assaltou, me apavorar. 
- Rex! Rex! 
  As lágrimas escorreram repentinamente pela minha cara. Um cachorro farejou Rex de cima a baixo, e disse o que eu mais temia: 
- Não adianta, gatinho...ele está morto! 
  Naquela mesma noite enterramos Rex. No buraco que lhe serviu de cova, fiz questão de colocar o envelope do pedigree sobre seu corpo. Naquela noite eu descobria o que era a morte e o quanto ela doia nos que ficavam. Enquanto os cães uivavam tristemente para a lua, em despedida ao velho lutador, eu também fiz minha homenagem a ele. Apesar da dor, eu tinha de aproveitar o momento e falar aos animais que ali estavam, pois interiormente eu sabia que Rex também faria o mesmo se estivesse em meu lugar. 
- Cães, gatos, amigos...Rex morreu, mas morreu feliz, tenho certeza. Ele, que encarnou na vida o cão de raça, pois tinha pedigree, e o cão vira-lata, também vivendo como um, foi o elo para a união da raça de vocês, cães. Todo cão, com pedigree ou não, baba diante de um belo osso. Então, não existe diferença entre cães de raça e vira-latas. Foi o homem que criou esse preconceito, mas nós animais, também somos preconceituosos, pois a inimizade entre cães e gatos comprova isso. No entanto, Rex também provou que regras podem e devem ser quebradas, e hoje eis-nos aqui, na luta pela justiça e pela liberdade! E, finalmente, Rex morreu feliz, repito, pois morreu em liberdade. E esse é o bem mais precioso, tanto para animais, quanto para humanos! 
  Acabei de falar e os animais cabisbaixos e pensativos, foram se afastando, cada qual para seu canto. A claridade no céu já avisava que estava amanhecendo. Só, junto ao local onde Rex fora enterrado, despedi-me do amigo e companheiro, com quem eu havia aprendido tantas coisas. 
- Pois é, Rex....Bom seria se essa união de hoje perdurasse entre os animais, e bom seria também se os humanos tivessem mais amor, tanto pelos animais domésticos, quanto pelos animais selvagens...Adeus, amigo. 
  Sem pressa, afastei-me também dali. O sol mostrou sua cara alegre sobre os montes, e foi espantando o frio da madrugada. Saltitando sobre a relva, procurando o máximo possível não molhar minhas patinhas no orvalho, segui em direção a uma vila que eu sabia, ficava ao lado de uma rodovia. Lá, eu também sabia, morava um garotinho loiro e sardento, me aguardando com um saboroso prato de leite. Nenhuma jaula, nenhuma coleira, nenhuma barreira. Apenas o vasto horizonte azul à minha frente. Carinho e liberdade. O que mais um animal pode precisar na vida? 

FIM 
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