Uma
história de amizade e liberdade
Inimizade natural. Amizade
circunstancial.
Por isso, amigos, amigos.
Inimigos à parte!
Está caindo
um temporal feio. Os relâmpagos riscam o céu negro, e são
seguidos pelo estrondo dos trovões que parecem fazer a terra estremecer.
Eu estou paralisado de medo mas a água encharcando meus pelos, e
o frio terrível que sinto, me fazem procurar abrigo sob as folhas
do mandiocal. Mas não é somente a chuva que me deixou apavorado.
Eu estou assim há muitas horas, pra ser exato, desde que meus donos
me deixaram neste terreno baldio. Me lembro que cheguei a fazer xixi na
hora em que eles me abandonaram aqui. Afinal, eu tenho apenas 6 meses de
idade, e nunca havia saido do aconchegante e seguro quintal da casa onde
morava. O pavor do desconhecido me paralisou, e não arredei pé
um centímetro sequer do local aonde me deixaram. Meu aguçado
sentido felino havia me avisado do temporal que estava por desabar, mas,
qual o quê ... não senti ânimo e nem coragem para procurar
um abrigo. Agora, movido pelo frio que parece me congelar os ossos, é
que resolvi me embrenhar por entre os frágeis pés de mandiocas.
Meus donos, quando me deixaram aqui, tinham a esperança que eu fosse
simpaticamente miar em outra casa, onde um garotinho se encantasse com
meus ternos olhos verdes, e ficasse comigo. Não fizeram por mal,
eu compreendo. Meus ex-donos, posso assim dizer, são pobres, e a
conversa fiada das vizinhas deles, dizendo que gato só faz porquices,
fez com que eles se livrassem de mim. Meu dono sabia que poderia mandar
fazer uma operação em mim, para que eu não fecundasse
nenhuma gata ou ainda mandar aplicar injeções em mim,para
evitar isso. Mas, além de não ter dinheiro para tal, ele
era contra interferir no ciclo natural das coisas. Para ele a castração
é uma maldade, e resolveu então me deixar aqui, para que
alguma alma boa e em boas condições financeiras, me acolhesse.
Agora estou com sono. Acho
que a emoção de ter sido abandonado afetou meus instintos.
Não me preocupo com a água que escorre lamaçenta sob
meu corpo. Sinto apenas sono, vindo da vontade de ficar imóvel,
sem pensar em mais nada. Quero apenas fechar os olhos e esquecer, não
pensar em meu destino...
A noite passou rápida.
O sol da manhã, como um presente do Céu, veio aquecer a terra,
secando o solo úmido e dando uma gostosa sensação
de calor aos meus pelos. Timidamente esgueirei-me de sob as ramas dos pés
de mandiocas e corri o olhar pelo vasto terreno à minha frente.
Pra onde ir? Um terreno e uma estreita rua que um humano cruzaria com poucas
largas passadas , para mim parecia um mundo. Um estranho e enorme mundo.
Devagar, escolhendo bem
o lugar onde punha minhas patinhas, e com o olhar e os demais sentidos
tensos, esperando um possível sinal de perigo, fui caminhando até
um alto e descascado muro. Atrás do muro deveria ter uma casa ,
claro, com crianças carinhosas e, quem sabe, um tapetinho aconchegante
aonde eu pudesse ronronar em paz, como fazia na casa dos meus ex-donos.
Enquanto os humanos sonham
com carrões, viagens, mansões com piscina e uma
gorda conta no banco, nós,
gatos, nos contentamos apenas com uma casa sossegada, uma tigela de leite
e um tapete velho. Aliás, no lugar do tapete pode ser um fogão
à lenha, pois para nós não há nada no mundo
mais gostoso do que um fogão à lenha.
Agora, o principal mesmo
é o carinho dos humanos. A casa pode ser um casebre e nem ter o
tapete ou a tigela de leite , mas tem de ter carinho. Isso é o mais
importante!
Com estes pensamentos na
cabeça, preparei-me para saltar o enorme muro. Nisso um gato é
campeão , mesmo com pouca idade como eu. Um gato pode não
entender de economia de mercado, de energia alternativa, cotação
do dólar, informática e coisas assim, mas em escalar muros,
não existem especialistas como nós.
Saltei para cima do velho
muro e fiquei decepcionado. Ali não havia nenhuma casa como a instantes
eu imaginara. Era apenas um depósito de sucatas. Desnorteado, tentando
entender como um grande sonho às vezes pode findar do outro lado
de um simples muro, deitei-me sobre as patas, cerrei os olhos e resolvi
curtir os acariciantes raios de sol, já que não tinha nada
melhor a fazer em cima daquele muro.
De repente um vozeirão
proferindo todo tipo de palavrão, me colocou de sobressalto. Olhei
para o ferro-velho e vi um grandalhão barbudo chutando um pobre
cachorro. Eu detesto cachorro, como todo gato que se preze. Minha mãe
havia me dito que cães e gatos são inimigos, pois a mãe
dela já havia dito isso, pois também ouvira minha tataravó
dizer o mesmo. E assim, caso eu tivesse meus filhotes, também deveria
dizer a eles que cães e gatos são inimigos...
Eu nunca procurara analisar
o porquê de tal inimizade. Agora, raciocinando sobre isso, não
acho em minha memória nenhuma lembrança sobre alguma maldade
que um cachorro tenha feito a mim.
Gozado , né? Será
que com os homens também acontecia isso? De repente você notar
que odeia alguém por que um outro alguém disse que aquela
pessoa era inimiga. Acho que isso é o tal preconceito do qual os
humanos falam. Acho que é por isso que soldados se matam numa guerra...Eu
nunca tinha vivido uma, mas sei como é, pois assistia a muitos filmes
de guerra pela tevê. Deixando de lado os filosóficos pensamentos,
tratei de prestar atenção à cena no ferro-velho.
-Vira-lata imprestável!
Vai, some daqui, antes que eu lhe arrebente essa cabeça pulguenta!
O sujeito, irascível,
ainda deu mais um pontapé no pobre animal, que de cabeça
baixa, ganindo dolorido, saiu pelo portão e veio se abrigar do lado
de fora do muro, bem embaixo de onde eu estava!
Olhei o cão, olhei
o sujeito, que ainda colérico, deu um chute na carcaça de
algo que parecia ter sido um automóvel, acabando por machucar o
pé. Eu achei bem-feito, e teria gritado isso lá de cima do
muro, se soubesse falar ‘humanês’. Voltei minha atenção
para o cachorro lá embaixo. O infeliz se deitara, cabeça
entre as patas, e parecia tão depressivo quanto eu, na noite anterior.
Saltei do muro procurando cair pelo menos uns três metros longe dele.
Calculadamente, em caso de um ataque, eu teria espaço e tempo para
me safar. O cão me olhou e não deu a miníma. Seus
olhos tristes e lacrimejantes demonstravam que mesmo sendo um leão
que tivesse saltado ali, a reação seria a mesma, ou seja,
nenhuma.
Ronronando nervoso, os pelos
semi-eriçados e a cauda bailando agitada, eu me aproximei cautelosamente.
Ainda nenhuma reação do cão. Apesar de instintivamente
eu ficar mais e mais ouriçado, eu me aproximei ainda mais. Agora
era aquela maldita curiosidade de gato que me impulsionava pra frente.
Porque o cão estava tão triste? Porque a falta de reação?
O que ele ia fazer agora, após ter sido escorraçado pelo
dono? Eu tinha minhas supostas respostas, mas queria saber as dele.
-Pode se aproximar, gatinho...Eu
não vou lhe fazer mal.
Quando o cão ganiu,
me pegou no contra-pé. Assustado, dei um salto para trás,
na defensiva. Mas o cão apenas fechou os olhos e ficou impassível.
De longe então, ronronei, guaguejando:
-V-você não
va-vai me atacar?... Pela regra, cães e gatos são inimigos!
- As regras, já disse
alguém, foram feitas para serem quebradas! - Respondeu ele, e
continuou:
- Se você não
me fez nenhum mal, porque eu vou ter raiva de você?
-É ...faz sentido.
- Balbuciei. E então, sem que me desse conta, estava sobre as patas
traseiras, bem ao lado do cachorro.
- Eu vi o que aconteceu
lá dentro. Seu dono é mesmo ruim, heim? - Comentei.
O cachorro continuou silencioso,
de olhos fechados. Eu já estava aflito de tanta curiosidade, mas,
para obter respostas, é necessário um diálogo e, pelo
jeito, ali só haveria monólogos .
- Ele não é
meu dono. - Respondeu meu taciturno e provável amigo, após
um longo silêncio. A vontade que me deu foi de atacar de comadre,
perguntando: Ah, é ? Se ele não é seu dono, quem é
então? E o que você fazia ali ? Conta, conta!...Mas, como
minha mãe dizia que a gente deve dançar conforme a música,
procurei deixar a conversa rolar como o cão parecia gostar, ou seja,
uma pergunta de um minuto, meia hora pra vir a resposta.
- Meu dono bateu com as
dez, e o irmão dele, dono desse ferro- velho, me trouxe pra cá,
como cão de guarda.
Quando ele respondeu, eu
já havia até me esquecido da pergunta feita. O nosso papo,
desse jeito, duraria o dia inteiro, pensei com meus bigodes. Contudo, pra
quê a pressa? Eu não tinha lugar nenhum para ir, e nem ele
tampouco. Resignado, dei uma lambida na minha patinha esquerda e me lembrei
de um par de velhos que eu vi certa vez, sentados no banco do jardim que
fica em frente à minha perdida residência . Os velhos ficaram
toda a manhã sentados ali, trocaram meia dúzia de palavras,
e depois foram embora, cada qual para seu lado.
Na época eu me perguntei
o motivo que faz com que os humanos corram atabalhoadamente durante boa
parte da vida, pra depois, velhos e cansados, sentarem num banco de jardim,
sem pressa nenhuma.
-Escuta, cachorro, o que
é ‘bater com as dez’?
-Puxa! Demorou a perguntar,
hein?
Dei um sorrisinho sádico,
sentindo prazer em mostrar ao cachorro como era chato esperar meia hora
pra dar sequência a uma conversa.
E parece que ele entendeu,
pois dali em diante nossos diálogos sofreriam intervalos de apenas
quinze minutos...
-Bater com as dez é
ir pra terra dos pés- juntos, dobrar o cabo da boa esperança,
vestir o paletó de madeira, etc, etc, entendeu?
- S-Sim!...
Eu não havia entendido
nada, mas não quis bancar o ignorante, pois parecia que eu tinha
arranjado um amigo muito culto. Ele então voltou à irritante
posição de silêncio total.
-Sabe, gatinho, eu não
sou um cão de guarda.
-Siimm? - Animei-me com
a retomada da conversação
- Não sou nenhum
doberman furioso. Sou apenas um vira-lata velho e cansado.
Fiquei na expectativa, pois
sabia que ali vinha desabafo, e talvez as respostas das minhas perguntas
feitas horas atrás.
-Ontem entrou um ladrão
no ferro-velho e parece que roubou algum traste. Com aquela chuva, e já
sem bons faro e audição, eu não percebi nada. Agora
de manhã, o irmão do meu falecido dono quis descontar o prejuizo
em mim.
-É ... eu vi tudo.
-Infelizmente isso não
acontece só comigo. Existem muitos pobres cães por aí
que
depois de ficarem velhos
e doentes, são simplesmente ignorados. Eles não dão
mais a nossa comida na hora
certa, não se preocupam com a nossa saúde, não
brincam mais e nem têm
mais
paciência com a gente.
O que alguns fazem é
arranjar um bonito e fofinho filhote, esquecendo até que a gente
existe, e que um dia foi o leal amigo deles.
- Puxa, isso é horrivel!
- Exclamei indignado, pois devido à minha pouca idade, quase nada
conhecia dos humanos.
-Isso não é
nada gatinho. Os humanos também fazem isso com os de sua própria
raça. Velho, para eles, é tão somente um estorvo.
Decididamente eu nunca ia
querer ser um cão, e muito menos um humano. Se bem que eu não
sabia o que acontecia com os gatos velhos. Eu nasci em uma família
de cinco gatinhos.Um de meus irmãos, todo preto de listras brancas,
ou branco com listras negras - eu nunca soube ao certo, foi levado embora
por uma menininha chata e ranhenta; um outro, de cor branca e cinza como
eu, foi esmagado por uma porta; e os outros dois seguiram minha desnaturada
mãe pelos telhados à fora desse mundão sem eira e
nem beira. Então, dos cinco só sobrou eu, que havia demorado
mais a desenvolver a agilidade felina e não consegui ganhar os telhados.
A casa dos meus antigos
donos foi escolhida ao acaso por minha mãe, para dar cria. O dono
da casa, como já disse, era um cara legal e deixou minha mãe
em paz, até ela ganhar a ninhada. Ajeitou com carinho uma caixa
de papelão com panos dentro, e depois que nascemos, cuidou da gente
com muito amor em nossos primeiros dias de vida.
Quando minha mãe
e meus dois irmãos restantes se mandaram e eu fiquei, o pessoal
da casa achou que eu tinha ficado por livre e espontânea vontade.
Como eram bondosos, eu concordei com a idéia e os adotei como donos.
Eles então começaram a me chamar por Zadig. Eu gostei, e
o nome ficou. O resto da estória vocês já sabem. Mas,
nesse curto período de vida não deu para saber como os gatos
envelhecem e nem tampouco como são tratados na terceira idade.
- Veja só, gatinho...
já está entardecendo! Temos de procurar um abrigo.
O velho e grande cão
se levantou com dificuldade, talvez sentindo o peso da idade, talvez ainda
sentindo as pancadas que levara de manhã.
- Se o sujeito do ferro-velho
já foi embora, poderemos dormir dentro de um automóvel velho,
e ao amanhecer iremos embora.
- Eu vou dar uma olhada.
- Dito isso, pulei de novo sobre o muro e vasculhei a área com o
olhar. Não havia nenhum vestígio do barbudo maldoso. - Tá
limpo! - Disse ao meu amigo, lá embaixo.
- Então vamos, gatinho.
Tem uma abertura no portão por onde eu poderei passar.
Segui logo atrás
do meu único e estranho amigo. Ele é um cão de cor
cinza, com pequenas pintas brancas espalhadas pelo corpo sujo. Nossa cor
se assemelhava, e parece que o destino também. Apesar da velhice
e da sujeira do abandono, meu amigo ainda conservava um porte altivo de
cão lutador.
- Como você se chama?
- Quis saber ele, após nos instalarmos sobre o banco rasgado de
um velho Opala.
- Zadig. E você?
- Rex.
Na manhã seguinte,
assim que o sol raiou, Rex e eu abandonamos o ferro-velho. Se minha mãe,
ou mesmo algum outro da minha espécie me visse, ficaria no mínimo
entre curioso e indignado. Lado a lado, lá iam um cão e um
gato, caminhando sem pressa e nem rumo.
- Vamos ficar vagando por
ai, Rex?- Eu quis saber.
- Eu vou... quanto a você,
eu não sei.
- Ora, eu não tenho
nenhum lugar aonde ir. Portanto, se você deixar, eu vou acompanhá-lo.
Rex não respondeu.
Andei com ele mais uns trinta metros, e perguntei:
- Qual é o nosso
destino?
- O que nós fizermos.
Passamos por uma cerca de
arame farpado, e nos embrenhamos por um enorme pomar. As árvores
estavam todas floridas e lindas, cada uma querendo ser mais bonita que
a outra, com cores vermelhas, amarelas e roxas. Então, ao longe,
uma árvore esbranquiçada e solitária me chamou a atenção.
- Olha que árvore
feia, Rex. Ela não está florida como as outras.
- Você não
deve achar nada feio ou bonito, apenas pela aparência, gatinho.
- Como assim?
- Normalmente as coisas
mais belas não são vistas pelos olhos do corpo.
Enquanto conversávamos,
fomos nos aproximando da árvore que a pouco eu achara feia.
- Olhe bem agora, Zadig.
- Pediu Rex.
Eu olhei e fiquei maravilhado.
A árvore também estava florida e era tão linda quanto
as outras. Suas flores branquinhas eram tão pequenininhas que não
podiam ser vistas de longe.
- Tudo bem, Rex. Eu me enganei
julgando pela aparência. Mas, o que você quis dizer sobre as
coisas belas não serem vistas pelos olhos do corpo?
Rex parou, deitou-se sobre
as folhas secas espalhadas em grandes e fofas camadas pelo chão,
como um gigantesco tapete, e explicou:
- Com os olhos do corpo,
meu amiguinho, você está vendo toda esta beleza
natural de árvores,
flores e frutos. Mas antes que estas árvores nascessem,
florescessem e frutificassem,
um lavrador preparou a terra, molhou-a com seu suor,
colocou a semente, bendisse
o sol, rezou pela chuva e pediu ao frio para não
prejudicar as mudinhas.
Esse amor do lavrador pela terra e pelas plantações; a
sua tristeza com a árvorezinha
que sucumbiu e sua alegria com a que resistiu, essas coisas só podemos
enxergar com os olhos da alma. Nunca de outra maneira.
Eu estava orgulhoso em ter
o velho e sábio Rex como amigo. Estava aprendendo muitas coisas
com ele. Passei então a falar menos, sem procurar respostas para
meras curiosidades, e absorvia assim melhor as palavras de Rex e o conteúdo
delas. Ficamos ali até novo entardecer. Um vento gelado começou
a soprar por entre as árvores.
- Vamos procurar outro abrigo,
Zadig, pois creio que vai chover e esfriar ainda mais.
'Êta cachorro da hora!',
pensei, entusiasmado com a sabedoria do meu amigo. Não é
que até de meteorologia ele entendia?! Saimos do pomar, atravessamos
um pasto e então um barulho foi aumentando de intensidade à
medida que caminhávamos.
-Isso é trovoada,
Rex?
-Não, Zadig. Espere
um pouco e você já vai saber o que é.
Caminhamos mais uma boa
meia hora, e então avistei a estrada por onde passavam velozmente
muitos veículos barulhentos. Eu já tinha visto aquilo na
tevê, mas não imaginava que ao vivo fosse tão aterrador.
O ronco dos possantes motores dos caminhões fazia doer meus sensíveis
ouvidos. Rex, que já não ouvia tão bem, não
se incomodava.
Ao lado da rodovia havia
uns grandes tubos de concreto, e foi para lá que Rex se dirigiu.
- Aquela tubulação
abandonada vai nos servir de abrigo.
Era um lugar razoavelmente
aconchegante, apesar de ser duro e frio e também do barulho dos
carros na estrada. Paulatinamente a estrada foi ficando opaca, até
sumir por completo no horizonte já escuro. Agora só se percebia
que alí havia uma estrada pelo barulho e pelos faróis dos
carros. Uma chuva fina começou a cair, esfriando ainda mais. Encostei
-me bem em meu amigo cachorro, que com seu jeitão de monge chinês
parecia não sentir o frio.
- Será que existe
algo pior que o frio, Rex?
- Existe. - Respondeu ele,
atiçando minha curiosidade.
- O quê?
- A nudez.
- E pior do que a nudez?
- A fome.
Isso me lembrou que a gente
estava o dia todo sem comer. O que eu não daria por um pires de
leite!
- Tem razão, Rex.
Acho que não existe mesmo nada pior do que a fome.
- Existe sim, meu amiguinho.
Existe o abandono, a solidão, o viver sem sentir-se amado. Isso
é tão ruim que leva alguém até a desejar a
morte como companheira!
- Brrr! Que papo mais baixo
astral! Nós nunca iremos nos sentir assim, Rex. Sempre seremos companheiros,
né?
Ele, como de costume, não
respondeu. Também não precisava. O calor do seu corpo era
uma prova de que eu não estava sozinho. Cerrei os olhos, tentando
esquecer a fome...
Os raio do sol entrando
sem pedir licença pela tubulação, me despertaram.
Nada como um dia depois do outro, a não ser que você tenha
dado um cheque pré-datado, como dizia meu antigo dono. Espreguicei-me,
espantando os últimos vestígios de sono, e começei
a brincar com as orelhas caidas do Rex, para acordá-lo .
- Ei, acorda, preguiçoso!
Rex não se mexeu.
Sua respiração estava ofegante, e a cada inspirada um estranho
assovio parecia sair dos seus pulmões. Coloquei as duas patinhas
no dorso dele e o sacudi com todas as minhas parcas forças. Rex
acordou, mas notei que ele sentia dificuldade em levantar-se.
-Olá, Zadig! Parece
que temos um belo dia pela frente!
Rex quis brincar, mas senti
que ele parecia cansado. Saimos do nosso abrigo. Meu amigo estava com as
pernas duras, caminhando tropegamente. Ele tinha perdido o porte altivo.
- Você tá sentindo
algo, amigão?
- Um pouco de dor, Zadig.
O corpo todo está dolorido.
Rex deitou-se novamente,
debilitado, e perguntou:
- Onde estamos?
- Ora, perto da rodovia!
Viemos pra cá ontem, lembra-se?
Rex olhou ao redor parecendo
desnorteado e disse:
- Estou tentando lembrar.
As coisas estão meio embaralhadas em minha cabeça...
- Isso é fome, Rex!
Espere aqui, pois vou arranjar comida para nós!
Rex não opinou. Apenas
pousou a cabeça sobre as patas , e ficou quieto, pensativo. Só
mais tarde eu iria saber que aquilo não era fome somente. Era a
inexorável e maldosa velhice, que como um castigo que antecede a
morte, vem corroer o corpo e a alma.
Sai dali saltitante por
sobre a relva, em direção à estrada. Estava decidido
a arranjar um pouco de leite e um bom osso, apesar de nem imaginar onde
conseguir isso. Na beira do asfalto fiquei aflito ao ver aqueles gigantescos
monstros de rodas passando velozmente. Alguma coisa me dizia que aquilo
era muito perigoso para mim. Então resolvi esperar o momento propício
para atravessar.
Enquanto esperava, ia me
angustiando nas preocupações. Será que eu, um pobre
gatinho abandonado pela mãe e depois, pelos donos, iria arranjar
comida? Será que o meu único amigo e companheiro iria pra
‘terra dos pés- juntos’, como seu dono? O que ia ser de nós?
Sacudi os pensamentos da cabeça, tentando colocar nela apenas uma
coisa que Rex havia me dito: não é bom saber o futuro, pois
é uma desgraça angustiar-se sem nada poder remediar. Segundo
Rex, fora um tal de Cícero que há muitos, muitos anos, dissera
isso.
Consegui finalmente atravessar
a estrada e logo adiante vi algumas casas. Não sei se era uma vila
ou uma cidade. Também não importava. O que eu, como animal
doméstico precisava, era encontrar gente, pois minha sobrevivência
e a do Rex dependia disso.
Numa rua sem asfalto, vi
uns garotos brincando com bolinhas de gude. Na minha situação
não podia esperar que alguém caisse de amores por mim. Eu
tinha de tomar a iniciativa. E foi o que fiz. Fazendo uma carinha triste,
aproximei-me de um dos garotos e comecei a miar e a roçar-me em
suas pernas.
-Ei, olha aí, Gê!
O gatinho gostou de você!
O garoto largou as bolinhas,
e eu, de olhos fechados, esperei um carinho. Porém estava redondamente
enganado. O moleque pegou-me pela cauda - odeio quando fazem isso, e jogou-me
para um lado.
- Sai pra lá, bicho
chato!
Sai dali miando tristonho,
sem olhar para trás. Então senti mãozinhas pequenas
erguendo-me do solo, e logo eu me encontrava aninhado nos braços
carinhosos de um loirinho sardento.
- Puxa, Gê!... Se
você não gosta do bichinho, também não precisa
maltratar!
- O gato é seu?
- Não.
- Então porque está
me chateando? Pega ele e leva pra você antes que eu dê um pontapé
nos dois!
- Experimenta, se for homem!
É...pelo jeito eu
acabara de me transformar no pivô de uma briga. O tal do Gê
partiu pra cima de nós, babando de raiva. O loirinho me colocou
no chão, e depois saiu de lado e esticou a perna. O Gê passou
batido, tropeçou no pé do loirinho e foi se estatelar no
chão. Levantou-se com a boca cheia de terra e saiu dali chorando,
sob as vaias dos demais garotos. Criança consegue ser maldosa à
sua maneira...Eu, de minha parte, achei foi muito bem-feito pro tal Gê.
E até vaiaria também, se soubesse a lingua deles.
Depois disso, o loirinho
me levou pra casa dele e logo colocou à minha frente um delicioso
e aguardado prato de leite. Eu cai de boca, bigodes e patas, sorvendo ansioso
aquele néctar dos deuses.
Eu não sabia porque
os humanos sempre dão leite pra gente, bastando alguns miados para
isso, mas também pouco me importava. O que realmente contava era
aquela coisa branca e gostosa, vinda de um saquinho de plástico
ou de uma caixinha, estar alí, à frente dos meus olhos alegres
e do meu estomago esfaimado.
Limpei o prato, lambi os
beiços e as patinhas, dei uma roçadinha em sinal de agradecimento
ao meu novo amigo, saltei sobre o muro, dei um ‘tchaumiau’ pro loirinho
sardento, e fui embora. Ali seria um bom lar para mim, mas eu não
podia ficar, pois lá do outro lado da estrada havia um outro amigo
esperando e dependendo de mim. Eu não ia abandoná-lo.
O sol me banhando sobre
o muro naquela linda manhã de inverno, a barriguinha cheia...dava
uma vontade louca de parar e tirar uma soneca, mas a lembrança de
Rex me fazia prosseguir.
Depois de andar por uns
dez muros e outro tanto de telhados, avistei uma casa de carnes. Saltei
para a rua e me dirigi para lá. No caminho ia pensando como resolver
o problema. Eu precisava de um osso ou, quem sabe, um bom pedaço
de linguiça, mas como ia conseguir isso? Se eu abrisse a boca, o
cara talvez me desse um prato de leite, e nunca um osso! Onde já
se viu gato roendo osso?!
Então resolvi fazer
uma coisa que aprendi com o governo, e que meu antigo dono detestava, que
era o tal do empréstimo compulsório. Mirei bem uma bela e
suculenta fieira de linguiça pendurada, e disparei direção
a ela. Da porta do açougue, pulei para o balcão, e de lá,
num belo salto, modéstia à parte, abocanhei o último
gomo de linguiça da penca. Cai ao chão e as linguiças
cairam todas sobre mim. Num segundo, enquanto o gordo dono do açougue
só teve tempo de xingar “Seu gato filho de uma...” eu já
atravessava a rua arrastando atrás de mim os gomos de linguiça.
O sujeito com uma vassoura - também detesto vassouras, correu atrás
de mim, mas graças à sua grande barriga, parou nos primeiros
vinte e cinco metros, ofegante, desistindo da perseguição.
Já eu só fui
arfar lá na beira da estrada. Ai é que bateu a tremedeira.
Eu não acreditava no que acabara de fazer, mas os gomos da cheirosa
linguiça eram prova do que realmente havia acontecido. Levei uns
dez minutos para ter a estrada livre de carros e atravessá-la. Lá
perto dos tubos, estava Rex, na mesma posição em que eu o
tinha deixado horas atrás.
- Fazia tempo que eu não
almoçava assim! - Disse Rex, já mais animado, para minha
alegria. Sem muito esforço eu podia vê-lo como aqueles afetados
lordes ingleses, dando um arrotinho disfarçado e dizendo: - Magnífico
almoço, Jaime!
Bem alimentados, tiramos
uma boa pestana e, mais tarde, sem nada melhor a fazer, começamos
a bater papo. Foi então que Rex me falou de sua família e
de seu maior sonho...
- Sabe, amiguinho, eu, como
vira-lata, sou uma obra do acaso. Minha mãe era uma Chesapeake Bay
Retriever. Ela veio de uma nobre família de cães originária
da América do Norte. Meus prováveis ancestrais eram cães
Terra Nova, que sobreviveram a um naufrágio perto de Maryland.
- Cáspita! O Rex
nunca havia formado uma parágrafo tão grande! Eu fiquei quieto,
deixando ele falar. Apesar de que nunca iria conseguir pronunciar o nome
da raça da mãe dele, eu estava doidinho pra ouvir a estória...
- Minha mãe esteve
no Brasil em viagem com seus donos, e aqui conheceu meu pai, que era um
vira-lata. Segundo ele me contaria mais tarde, foi amor à primeira
latida. Meu pai vendo nela uma deslumbrante socialite e ela se encantando
com a força, a garra e a vida vagabunda do meu pai. Desse amor nasceram
eu e dois irmãos. Meus irmãozinhos morreram com poucos dias
de vida e eu, infelizmente, escapei.
- Porque, infelizmente?
- Quis saber eu, já que Rex, ao que parecia, tivera uma mãe
amorosa e um pai charmoso, ao contrário de mim, que tive uma mãe
que me abandonou e quanto a meu pai, nunca o conhecera.
- Você já vai
saber, Zadig - Respondeu Rex, e continuou: - Quando os donos da minha mãe
descobriram que ela estava de caso com um vira-lata, voltaram rapidamente
para a terra deles, acabando o romance.
- Levaram você?
- Claro que não,
Zadig! Me largaram impiedosamente dentro de um cestinho perto da linha
do trem.
- E como você sobreviveu?
- Meu pai, que acompanhava
tudo de longe, me pegou e levou para viver com ele, justamente na casa
desse meu dono que morreu.
- E...
- E, o quê?
- Acabou a estória?
- Você é mesmo
apressado, gatinho!...Não acabou não. Meu pai, triste com
a perda da amada, começou a meter-se cada vez mais em brigas pelos
becos, até morrer um dia, estraçalhado por um doberman. Só
que, um pouco antes de morrer, meu pai contou-me algo importante!
- O quê? O quê?
- Eu já estava roendo as unhas, de tanta curiosidade. Rex riu calmamente
com seu jeitão de monge budista, e prosseguiu:
- Meu pai, sentindo que
não ia sobreviver aos ferimentos feitos pelo doberman, me chamou
e disse:
“- Meu filho, não
tenho muito tempo, por isso, preste bastante atenção ao que
vou falar...Sua mãe era uma cadela de raça, e você
herdou muito dela. Pelo sedoso, essas manchas escuras, orelhas caidas e
as medidas equilibradas...para mim você é um Chesapeake, como
sua mãe.
Rex coçou uma provável
pulga, e continuou a estória:
- Meu pai tossiu, fazendo
uma careta de dor, devido aos ferimentos, e disse: - “Eu registrei você
como descendente puro da linhagem dos Chesapeakes, e, é claro, inventei
uma linhagem de cão Terra Nova para mim, pois é a provável
origem da raça da sua mãe.
- Quer dizer que...
- Sim, filho. Você
tem pedigree! No documento, que está em poder do nosso dono, está
toda sua linhagem, dos tataravós, até sua mãe!
- M-mas, como o senhor conseguiu
isso, pai?
- Ora, Rex...eu posso ser
um vira-lata, mas não sou besta!”
Rex passou a pata sobre
os olhos, secando as lágrimas, e concluiu a incrível estória:
- Um mês depois que
meu pai morreu, eu desafiei o doberman que o havia ferido e o matei em
uma luta justa, vingando meu pai...Agora, Zadig, o que eu mais queria era
ver esse documento, que jamais vi até hoje, antes de morrer também.
- Credo, Rex! Vira essa
boca pra lá!
O papo pareceu chegar ao
fim. Lambi meus bigodes, dei uma patada numa mosca impertinente e disse,
decidido: - Rex, eu vou achar o tal documento para você!
Rex sorriu complacente diante
do meu ímpeto adolescente, e quis saber como eu faria tal coisa,
se o pouco do mundo que eu conhecia se resumia à minha antiga casa,
uma plantação de mandiocas, um ferro-velho, a beira da rodovia,
uma pequena vila e a casa de um garotinho sardento.
Mas eu acreditava que, depois
do caso das linguiças, eu poderia conquistar o mundo! E como dizia
minha ex-dona, que quem tem boca vai à Roma, eu acreditava que quem
mia o mundo desafia! Se havia muitos vira-latas nas ruas, havia também
muitos gatos nos telhados. Não seria difícil achar a casa
do dono defunto do Rex e pegar o registro de pedigree que ele tanto queria
conhecer. Só que nem precisei pedir informações para
achar a tal casa, pois uma idéia do Rex facilitou as coisas.
De posse de todas as informações
dadas pelo meu amigo, voltei ao ferro-velho. De lá eu ia acompanhar
o malvado irmão do falecido dono do Rex até a casa. Conforme
Rex contara, seu dono era solteiro, e com sua morte, o irmão se
apossara de tudo.
Fiquei sobre o muro até
por volta das cinco horas da tarde, quando então o antipático
sujeito trancou o portão, subiu no carro e já ia embora.
Com muito custo e meio palmo de lingua pra fora, eu consegui alcançar
o carro na corrida e pular para o pára-choque traseiro.
Pronto. Um terço
da missão estava sendo concluida. Faltava agora entrar na casa,
procurar o documento e voltar...Simples, não? Pensei com meus bigodes,
sabendo que o pior ainda estava por vir.
Finalmente o cara parou
o veículo, desceu e dirigiu-se para uma enorme casa. Uau! O Rex
morara numa mansão! O sujeito abriu a porta da frente e, antes dele
entrar, eu disparei à toda, passando por entre suas pernas e indo
parar no meio de uma ampla sala.
- Venha cá, seu gato
filho de uma égua!
Caramba! Aquilo já
estava se tornando repetitivo! O açougueiro me xingara, e agora
o barbudo. Eles podiam até ter razão no que dizia respeito
a minha mãe, mas quem corria perigo era eu, que deveria ser elogiado,
e não xingado daquele jeito. E afinal de contas, o barbudo era um
asno de boca suja, sem nenhum ‘feeling’ para por os pés numa mansão
como aquela, e quanto mais viver nela! Coisas da vida...
Quando o barbudo bocudo
correu pra me pegar, eu saltei para uma grande cortina, e subi até
o alto. O cara então começou a sacudir a cortina, na tentativa
de me derrubar. Tolinho! Eu jamais cairia dali, mas que já estava
ficando tonto, isso estava. Mirei bem o candelabro que pendia no meio da
sala, retesei os músculos e, aproveitando o impulso das sacudidas,
pulei para cima do candelabro e de lá para a imensa escadaria que
levava aos compartimentos superiores da casa. Se isso é um sobrado,
os quartos devem ficar em cima, e documentos geralmente se guardam nos
quartos, pensei, disparando degraus acima.
O sujeito lá embaixo
deu de mão, na base do ‘depois eu te pego’, e desistiu de me perseguir.
Aproveitei-me dessa trégua e começei a passar pelos quartos
e a revirar as gavetas, até que no terceiro quarto achei na gaveta
de um criado-mudo um envelope no qual estava escrito: REX. Deve ser isso,
deduzi. Abocanhei o envelope e voltei à escada. Droga! O sujeito
havia fechado a porta da sala e eu não tinha por onde fugir.
Corri de volta a um dos
quartos, aonde eu havia visto uma janela aberta, e saltei para o parapeito.
Mama mia! Exclamei, sentindo os pelos eriçarem. A altura era assombrosa
até mesmo para um felino. Mas eu tinha de cair fora dali. Assim,
calculei que, com um bom salto eu iria cair sobre a copa de uma árvore
ao lado da casa. E depois, era só ganhar o chão e voltar
para o meu amigo Rex. Esta era a teoria. Fechei os olhos, respirei fundo,
e atirei-me no espaço vazio, rezando para que na prática
a coisa fosse igual. Senti a mesma sensação que, acredito,
um pára-quedista deva sentir. O vento parecendo arrancar meus bigodes
e a queda livre até as folhagens da árvore. O medo travou
todos os meus movimentos e parecia mandar meu estomago lá para a
ponta da cauda. Olhos arregalados e unhas saltadas, só senti alívio
ao tocar a copa da árvore. Passei direto entre as folhagens, bati
a cabeça num galho, mas consegui cravar as unhas em outro. Respirei
profundamente, procurando recolocar o coração no seu devido
lugar, e, mais calmo, escorreguei pelo tronco até o chão,
e fui embora.
A volta até que foi
relativamente fácil, não contando umas quinhentas vezes que
me perdi, outro tanto que pedi de informações a alguns gatos
vadios, não contando que um deles meteu-se a besta comigo e acabou
levando uma boa unhada no focinho e também, não contando
o punhado de vira-latas que me atacou. Subi e desci tantos muros naquela
noite, que acho que jamais o faria no restante de todas as minhas sete
vidas!
Quando finalmente cheguei
ao ferro-velho, extenuado, sem forças até pra miar, deitei-me
sobre um monte de pneus velhos e adormeci. Quando amanhecer eu vou até
onde o Rex está....uáááá.....zzzzz!
Só acordei com o
barulho do portão do depósito de sucatas sendo aberto. Como
eu não queria um novo encontro com o barbudo malvado, posicionei
firmemente o envelope na boca e tratei de dar no pé...ou melhor...na
pata! Cerca de meia hora depois eu cheguei ao local onde havia deixado
o Rex. Mas ele não estava mais lá!
Dois gatos saboreavam o
resto dos gomos de linguiça que meu amigo havia deixado.
Perguntei a eles sobre o
cão e eles informaram que a carrocinha havia passado no dia anterior
e o tinha levado para o canil municipal.
- A essa hora ele já
deve ter virado sabão! - Zombou um dos gatos, com um sorriso besta.
Fazendo de tudo para esconder minha impaciência, disse:
- Que pena! Se vocês
soubessem o caminho, a gente poderia ir até lá, ver o maldito
cachorro ir para a câmara de gás!
- Boa idéia! - Aprovou
um dos gatos.
- Falou, garoto! - Concordou
o outro. - A gente sabe o caminho. Vamos lá!
Como gatos vadios que eram,
deduzi que eles conheciam bem a cidade, e estava certo. Segurando firmemente
o envelope segui-os por muros e telhados em direção ao canil
da Prefeitura.
- Ei, gatinho...o que tem
nesse envelope?
A pergunta do gato me pegou
no contra-pé. Forjei uma resposta rápida, na esperança
de que eles acreditassem.
- Ahan...é uma foto
de minha velha vó. Querem ver?
Me saí melhor que
a encomenda, pois eles torceram o focinho.
- Argh! Quem quer ver foto
de uma velha?
- Se ainda fosse uma gatinha...
Dando risadas marotas, os
dois continuaram rumo ao canil, esquecendo-se, do envelope, para sorte
do Rex.
Após umas duas horas,
chegamos ao local onde cães e gatos abandonados eram recolhidos
e...exterminados!
Rex havia me dito que em
certos países europeus, os donos de vira-latas pagavam mais impostos.
É, parece que ao nascermos sem pedigree, já somos condenados
à intolerância do mundo. Para nós, animais, não
havia distinção se o gato ou o cão nascesse com pedigree
ou não, mas o homem, dotado de raciocínio, inteligência,
coração e alma, criou a diferença. Como o Rex disse,
eles ditavam essa diferença também entre eles. Aos nascidos
em berço de ouro, as flores; aos pobres e miseráveis, os
espinhos somente. Essa é a tal ‘sociedade civilizada’.
- Olha o homem da carrocinha!
- Gritou um dos gatos, espantando meus pensamentos. Medrosos, eles fugiram.
Do muro onde eu estava, ví que o sujeito saiu do portão do
canil e veio até o veículo conhecido como ‘carrocinha’. Ele
sentou-se dentro da cabine, acendeu um cigarro, e ficou ali, quieto, acho
que pensando em cães e gatos.
Aproveitei-me disso e corri
para o canil. De um salto pulei a cerca de alambrado, e fui cair no pátio.
Os miados e latidos tristes me deixaram arrepiado. Será que Rex
ainda estava vivo? Fui caminhando e olhando atentamente. Os olhares súplices
dos animais me deixavam ainda mais angustiado. Que triste sina! Se eu não
fosse um pequeno e indefeso gatinho, soltaria todos eles!
- Procurei me concentrar
na procura por Rex. Então, em dado momento ouvi a respiração
cansada dele.
- Rex! Rex!
Chamei baixinho para não
despertar a atenção do guarda do canil. Uma preocupação
improcedente, pensei em seguida, pois entre tantos latidos e miados, não
seria o meu miado que iria atrair a atenção do sujeito. Então
chamei mais forte. E mais forte ainda, até ouvir a resposta do Rex.
- Zadig, é você?
- E qual outro gato iria
miar para você, cachorrão tonto?
Aproximei-me do local onde
meu amigo estava enjaulado. Seus olhos brilharam emocionados em me ver.
- Meu pequeno Zadig! Você
não abandonou o velho Rex!...Pensei que nunca mais fosse vê-lo!
Com a pata direita ele fez
um afago em minha cabeça. Como todo bichano, eu sou chegado num
carinho, mas aquele não era o momento propício, pois a qualquer
momento o guarda podia retornar...Além do mais, eu estava doido
pra entregar o documento ao Rex.
- Eu consegui, amigão!
- Meu pedigree?!
- Sim. Olha ele aqui!
Com a pata empurrei o envelope
para dentro da jaula. Rex, trêmulo, olhou para o alto, como se agradecesse
a uma fada canina, e disse emocionado:
- Obrigado, Zadig. Agora
eu posso morrer em paz. Sou um cão de raça, como meu pai
queria!
- Ora, Rex...Você
ainda vai viver muito para curtir seu pedigree!
Eu falei aquilo, mas não
estava sendo sincero comigo mesmo, pois sabia que ali Rex não ia
durar muito. Contudo, ele entendeu meu esforço em tentar ser otimista.
- Agradeço, meu amiguinho,
mas eu já aceitei a situação. Não estou triste
e nem revoltado. Afinal, já sou um velho cão e o meu sonho,
que era conhecer o documento que atesta meu pedigree, você acabou
de realizar. - Rex respirou cansado, e continuou: - Amanhã, vários
animais serão sacrificados, e eu sei que estarei entre eles.
Rex olhou minhas lágrimas
escorrendo e esticou a pata por entre as grades, numa tentativa de contê-las.
- Não, você
não deve chorar, Zadig. Você tem muito a viver. Ainda vai
aparecer uma bela gata em sua vida, e depois, belos filhotes. Quando você
estiver contando estórias para eles, lembre-se do velho Rex.
- Eu jamais o esquecerei
Rex.
Rex engoliu em seco, tentando
a custo conter o choro.
- Agora vá, Zadig.
É perigoso ficar por aqui. Eu estarei bem.
Afastei-me aos poucos, sentindo
o coração despedaçado. Mas o que um indefeso gatinho
como eu poderia fazer? Saltei novamente o alambrado e de um muro distante
fiquei olhando o canil.
- Espere! Eu já estava
ficando repetitivo! Quem disse que sou indefeso? Nesses poucos dias eu
vivi boas aventuras, tinha aprendido muita coisa e havia me saido muito
bem. Não, eu não ia deixar meu amigo ir pro matadouro sem
tentar nada para libertá-lo! Rex dizia que a esperança é
a última que morre, e eu não ia deixar a minha ficar de braços
cruzados! Ele também dissera que o destino é feito por nós,
então, se era assim,
eu ia lutar para mudar aquele destino cruel imposto a Rex e aos outros
animais.
Enquanto eu filosofava uma
reação, uma idéia foi se alojando em minha cabeça,
e eu fui gostando dela. Afinal, era a única que eu tinha!
Saltei do muro para um telhado
e começei a correr feito louco. Não havia muito tempo para
colocar a idéia em prática. Fui miando para todos os lados
e em todas as alturas, e logo uma dezena de gatos reunia-se comigo. Mencionei
rapidamente o problema para eles, falando por último sobre minha
idéia, que foi aprovada unanimente. Então pedi a eles para
se espalharem e arregimentar mais companheiros.
Sai dali correndo novamente,
até o primeiro beco que achei. Lá, entre latas de lixo e
outras porcariadas, estavam oito cães vadios. De cima do muro -
já que não sou besta, chamei a atenção deles.
A primeira reação foram latidos e a vã tentiva de
me alcançar sobre o muro. Esperei calmamente os tontinhos se acalmarem,
e começei meu discurso:
- Quero apenas um minuto
da atenção de vocês. Sei que não me conhecem,
mas o que tenho a dizer, certamente vai interessá-los!
Os imbecis vira-latas se
olharam com cara de imbecis mesmo, ficaram quietos e concentraram a atenção
em minhas belas palavras, sem falsa modéstia:
- Vocês sabem da crueldade
cometida contra cães e gatos no canil desta cidade. Amanhã
mesmo, vários animais irão virar sabão! Deveria ter
uma lei que impedisse maus tratos a animais. A todos os animais, independente
da raça, cor e posição financeira.
- Puxa, Rô...esse
gatinho sabe das coisas, hein? - Disse um dos cachorros. Naquela hora,
se me candidatasse a um cargo público, certamente seria eleito!
Voltei à minha preleção:
- Não sei se existe
tal lei ou não. Sim ou não, não basta a lei, se ela
não for amparada na justiça! O que não podemos, nós
cães e gatos, desprivilegiados pela sorte, é ficar de patas
cruzadas, enquanto os da nossa raça, familiares e amigos, são
privados da liberdade e da vida. Já falei com vários gatos
e eles estão pela cidade conclamando outros gatos a tomar consciência
da situação. Agora é a vez de vocês, cães,
também conscientizarem seus companheiros a lutar!
- Porque você, sendo
da raça felina, nossa inimiga natural, está preocupado com
os cães?
Perguntou um vira-lata mais
esperto.
- Vocês podem até
não acreditar, mas lá naquele canil está um cão
chamado Rex, que é o meu maior amigo!
- Rex? O velho Rex lutador
de rua?
Perguntaram todos eles ao
mesmo tempo.
- Sim, ele mesmo.
- Pois ele é o cão
mais respeitado nas redondezas, gatinho. Pode contar com a gente!
A coisa saira melhor do
que eu esperava. Como já acertara com os da minha raça, marquei
também com os cachorros um encontro ao anoitecer em frente ao canil,
e continuei durante todo o dia pelos muros da cidade, a conclamar cães
e gatos para a luta.
Ao cair da noite, centenas
e centenas de olhos, brilhando como faróis no escuro, estavam frente
ao canil. De sobre o alambrado dei o grito de ataque:
- À luta, companheiros!
Rex sempre disse que o poder
está nas mãos de um poucos, pois a maioria abaixa a cabeça
e não reage, como o boi que se submete a canga, desprezando a força
que tem.
O guarda do canil não
pode fazer nada, cercado por tantos animais. Acuado a um canto, apavorado,
ele acabou caindo e derrubando o lampião que tinha na mão.
Aí a coisa virou um inferno! A chama do lampião quebrado
atingiu a palha das jaulas e o fogo inclemente logo tomava conta do canil.
Alguns cães e gatos que estavam comigo, fugiram assustados, e os
animais que estavam presos, entraram em desespero. Porém, mais desesperado
fiquei eu, que tinha vindo ali salvá-los e parecia que ia acabar
matando-os.
- Zadig! Zadig!
Atordoado, aproximei-me
de onde Rex estava.
- Zadig, quando me trouxeram
para cá, observei que à entrada do canil tem uma chave elétrica
que comanda a abertura de todas as jaulas. Corra lá e a acione,
rápido!
Rex não precisou
repetir, pois eu em segundos já estava perto da tal chave. De um
salto cravei minhas unhas nela e bastou meu pequeno peso, para desligá-la.
Ouve um ‘clanc’ e eu cai ao chão, olhando aliviado todos os animais
saltando da prisão para a liberdade.
Pouco depois, a uma boa
distância, nós ficamos olhando o canil ser consumido pelo
fogo. Sentíamos, é claro, o gostoso sabor da vingança
concretizado.
- Uma justiça poética
- Disse Rex baixinho. Em seguida o envelope com o seu pedigree caiu-lhe
da boca, e Rex também foi caindo. Só que devagar, bem devagar...
- Ei, amigão! Aqui
não é hora e nem lugar para dormir!
Brinquei, sacudindo-o, fazendo
de tudo para não deixar a terrível apreensão que me
assaltou, me apavorar.
- Rex! Rex!
As lágrimas escorreram
repentinamente pela minha cara. Um cachorro farejou Rex de cima a baixo,
e disse o que eu mais temia:
- Não adianta, gatinho...ele
está morto!
Naquela mesma noite enterramos
Rex. No buraco que lhe serviu de cova, fiz questão de colocar o
envelope do pedigree sobre seu corpo. Naquela noite eu descobria o que
era a morte e o quanto ela doia nos que ficavam. Enquanto os cães
uivavam tristemente para a lua, em despedida ao velho lutador, eu também
fiz minha homenagem a ele. Apesar da dor, eu tinha de aproveitar o momento
e falar aos animais que ali estavam, pois interiormente eu sabia que Rex
também faria o mesmo se estivesse em meu lugar.
- Cães, gatos, amigos...Rex
morreu, mas morreu feliz, tenho certeza. Ele, que encarnou na vida o cão
de raça, pois tinha pedigree, e o cão vira-lata, também
vivendo como um, foi o elo para a união da raça de vocês,
cães. Todo cão, com pedigree ou não, baba diante de
um belo osso. Então, não existe diferença entre cães
de raça e vira-latas. Foi o homem que criou esse preconceito, mas
nós animais, também somos preconceituosos, pois a inimizade
entre cães e gatos comprova isso. No entanto, Rex também
provou que regras podem e devem ser quebradas, e hoje eis-nos aqui, na
luta pela justiça e pela liberdade! E, finalmente, Rex morreu feliz,
repito, pois morreu em liberdade. E esse é o bem mais precioso,
tanto para animais, quanto para humanos!
Acabei de falar e os animais
cabisbaixos e pensativos, foram se afastando, cada qual para seu canto.
A claridade no céu já avisava que estava amanhecendo. Só,
junto ao local onde Rex fora enterrado, despedi-me do amigo e companheiro,
com quem eu havia aprendido tantas coisas.
- Pois é, Rex....Bom
seria se essa união de hoje perdurasse entre os animais, e bom seria
também se os humanos tivessem mais amor, tanto pelos animais domésticos,
quanto pelos animais selvagens...Adeus, amigo.
Sem pressa, afastei-me também
dali. O sol mostrou sua cara alegre sobre os montes, e foi espantando o
frio da madrugada. Saltitando sobre a relva, procurando o máximo
possível não molhar minhas patinhas no orvalho, segui em
direção a uma vila que eu sabia, ficava ao lado de uma rodovia.
Lá, eu também sabia, morava um garotinho loiro e sardento,
me aguardando com um saboroso prato de leite. Nenhuma jaula, nenhuma coleira,
nenhuma barreira. Apenas o vasto horizonte azul à minha frente.
Carinho e liberdade. O que mais um animal pode precisar na vida?
FIM
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