Roda Viva

 


 
 
 

  Tião estava a ponto de explodir. Desempregado, ele recebeu a conta da luz em sua casa, e nesta vem um preço absurdo. Ele amassou a conta e jogou no chão, raivoso. Onde já se viu? Os caras da companhia de força e luz estavam aumentando a conta e ele não tinha dinheiro. Quando estava empregado, recebeu uma mixaria de aumento, depois de um ano ralado. E a maldita conta da luz aumentava todo mês. Se já estava ruim empregado, quanto mais agora, desempregado. 
 Tião respirou fundo, tentando se acalmar, pegou o papel amassado no chão e foi falar com a mulher. Ele queria saber porquê aquela merda de "vates" tinha aumentado tanto. 
- Não sei, Tião. A gente quase não gasta energia elétrica. Aqui não tem nenhum aparelho que tem em casa de granfino. 
 Tião já sabia a resposta. Sem falar nada, pegou o economicamente suado dinheiro para o supermercado e o revólver, colocou a grana no bolso e o "berro" na cinta, e foi até o prédio da companhia de força e luz. 
- Eu não tenho dinheiro para pagar tudo isso! Quero saber se vocês vão cortar a minha luz! 
 O atendente da companhia se mexeu preguiçosamente na cadeira e respondeu que primeiro haveria as multas por atraso, e depois sim, aí viria o corte. Tião foi até a porta, a cabeça parecendo entrar em parafuso. Ele tinha um filho pequeno e a mulher estava esperando outro. Sem emprego, ele não tinha condições nem de evitar o corte da energia elétrica. E era através dela que Tião podia proporcionar o único conforto para sua família, que consistia na velha e barulhenta geladeira. Com aquele calorzão todo, como ia dar uma água fresca para seu filhinho? E a mamadeira? Sem geladeira ela ia azedar. 
 Tião lembrou de sua infância no interior, quando não precisava de gás, pois o fogão era à lenha e nem de energia elétrica, pois estavam acostumados com a luz de lamparina. Porém, já vivendo há muito tempo na cidade grande, haviam se habituado ao aparente conforto da vida moderna. Ele poderia bem passar sem aquelas coisas todas, mas sua mulher, barriguda de três meses e o filhinho pequeno, não. 
 Se usasse lamparina, corria o risco de botar fogo na casa, que para mal dos pecados, era alugada; se fizesse um fogão à lenha, a polícia florestal iria prendê-lo por dano ao meio ambiente. Resolvido, Tião sacou o revólver, encostou o cano na cabeça do atendente e repetiu: 
- Eu não tenho dinheiro para pagar a conta da luz e, além do mais, esses aumentos são um roubo. Se você não abaixar a merda do preço, eu vou fazer uma loucura! 
 Trêmulo, o rapaz disse que não era responsável pelos aumentos e sim, seu chefe.   Tião abaixou a arma e entrou pelo escritório da empresa, procurando o tal chefe.   Assim que o achou, repetiu a ação, colocando a arma apontada para a cabeça dele. Mas o chefe, por sua vez, garantiu que também não era ele o culpado e sim, o gerente da companhia. 
 Irritado, Tião deu um pé de ouvido no sujeito e foi atrás do gerente. Tião o encontrou refestelado em uma poltrona, com um dos joelhos apoiado na reluzente escrivaninha. A arma apontou perigosa para a cabeça do gerente, mas este também disse não ter culpa pelos aumentos da energia elétrica e garantiu que a única pessoa que poderia resolver aquilo era o gerente regional. 
 Faminto, pois não comera nada desde cedo, e cada vez mais nervoso, Tião também meteu o revólver na cabeça do gerente regional, mas o sujeito disse que o grande culpado por tudo aquilo era o presidente da companhia, que poderia ser encontrado na sede da empresa, lá na capital.
 Tião saiu do prédio, recontou o dinheiro que iria usar para pagar a conta da luz, caso conseguisse um preço justo, e resolveu pegar um onibus e ir até à capital. 
 O presidente da companhia, assim que viu o negro cano do revólver apontado para ele, quase teve um troço. Suando feito um porco gordo, ele disse ao Tião que o 
culpado de tudo era o deputado que votava as leis e que portanto, havia permitido os abusivos aumentos. 
 Tião não se fez de rogado. Vendo que a grana não dava para ir até Brasília, apelou para uma carona. Em poucos minutos estava subindo à boléia de um enorme 
Scania, que por sorte estava indo para a capital brasileira. Tião conversou pouco com o motorista. Na sua cabeça fervia a resolução de resolver aquela pendenga de uma 
vez por todas. "Ou eu faço isso ou não me chamo mais Sebastião", pensava.
 Ele nem se preocupava mais em como iria voltar para casa, tal era sua raiva. "O mais certo é eu meter uma bala no maldito deputado e ir em cana", ponderou, irrascível. 
 Finalmente Tião chegou a Brasília. Perguntou a um porteiro quem era o deputado e o sujeito apontou um homem gordo, muito bem vestido, que acabava de descer de um bonito automóvel. 
 Mais do que depressa Tião foi até lá, e sem que o deputado se desse conta, o aflito homem já estava metendo a mão direita em seu engomado colarinho branco e com a mão esquerda apontava o revólver para sua cabeça. 
 Tião aproveitou a oportunidade e reclamou dos preços dos aluguéis, dos alimentos, dos remédios e da falta de escola, emprego e moradia. E principalmente reclamou 
do preço da conta da luz! 
 O deputado, após recuperar-se do susto, deu uma sonora gargalhada do alto dos seus 1,80m e 120kg de banha e disse ao Tião que o único culpado era o próprio 
Tião. 
- Por que eu?! 
- Ora, foi você quem votou em mim! 
 Tião abaixou a arma, o olhar arregalado e incrédulo olhando o chão e em poucos aparafusados minutos chegou à cruel constatação de que o deputado estava 
certo. Ele, Sebastião dos Santos Reis, cidadão brasileiro, reservista, eleitor e abestado, era o único culpado. 
 A mão que segurava a arma subiu vagarosamente em direção ao seu rosto. Aos poucos as polegadas do cano negro sumiram dentro da boca de Tião. E ele puxou o gatilho. A luz se apagou... 
 


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