O Samurai dos Ares


 


Saburo Sakai, o imbatível guerreiro da aviação de combate japonesa
(Desenho - autor desconhecido)


  Nascido no seio de uma família de guerreiros em 1916, aos 16 anos de idade Saburo Sakai já se alistava para o serviço militar na Marinha Imperial Japonesa. Mais tarde ele se inscreveria na Escola de Aviação da Marinha e em 1937, com apenas 20 anos já se formava como o melhor piloto-aluno do ano aquele que marcaria seu nome para sempre nas crônicas do Exército japonês.
   Devido ao duro treinamento recebido para combate aéreo, na eclosão da Segunda Grande Guerra, Saburo e seus colegas foram incluidos no hall dos melhores pilotos do mundo. E razão houve para isso, além do treinamento militar, é claro.
  Em meados de 1941, Saburo Sakai foi enviado para o front japonês na China, com a qual o Japão estava em guerra. Saburo teve seu primeiro contato de combate a bordo do avião Mitsubishi A6M2 Tipo 00, ou o Zero, como ficou conhecido. E já nas primeiras missões conseguia suas primeiras vitórias contra a aviação chinesa.
 
 


Sakai, no detalhe amarelo e seus 
companheiros do Corpo Aéreo de Tainan

  Quando o Japão preparou-se para integrar o Terceiro Eixo, aliando-se a Hitler e a Mussolini, a guerra com a China passou para segundo plano e Saburo recebeu ordens de voltar, indo para Tainan, Formosa, com mais 150 pilotos nipônicos para fazer frente à unidade do Exército americano nas Filipinas.
  O grupo de Saburo foi denominado Corpo Aéreo de Tainan e recebeu mais intensos treinamentos como missões de escolta, vôo em formação cerrada, navegamento em tempo ruim, interceptação e muitos outros.
  Com o ataque a Pearl Harbour em 7 de dezembro de 1941, e mais os ataques simultâneos em diversos pontos do Pacífico, a aviação japonesa causou surpresa, pânico e destruição e conseguiu que o EUA declarassem guerra ao Japão.
  Nas Filipinas estava lotada a base norte-americana de Clark, com bombardeiros B-17 que poderiam lançar facilmente um ataque ao Japão. Assim, a estratégia japonesa era atacar o quanto antes o reduto americano. O ataque se deu no dia 8 de dezembro de 1941, um dia após o massacre em Pearl Harbour.
  Saburo Sakai derrubou nesse ataque o primeiro avião norte-americano, um P-40, a ser abatido na região. Quando o Japão conquistou as ilhas filipinas, Sakai já contava em seu “score” com 13 vitórias, até ser transferido com seu grupo para Bali, nas Índias Orientais Holandesas em março de 1942.
 



Mitsubishi A6M2 Tipo 00, ou o Zero - O avião que Sakai transformou no terror dos céus


 Em Lae, a estratégia era isolar a base norte-americana de Port Moresby, invadindo-a, para então desfechar um ataque aéreo contra a Austrália. Nessa altura, Sakai já fazia parte da elite dos melhores pilotos de caça.
  Com rápidas excursões de Lae até a base norte-americana, Sakai aumentava significativamente suas vitórias em combate. De 13 vitórias (aviões adversários abatidos), o número foi subindo para 20, 30 e logo ela tinha um “score” invejável de 50 aviões derrubados e seu nome ia se tornando popular no Japão e temido nos países aliados.
  Em agosto de 42, ele foi transferido para Rabaul, passando a fazer parte do grupo que escoltava bombardeiros sobre Guadalcanal. Numa dessas missões, Saburo Sakai enfrenta seu pior inferno, o que contribuiria para alterar a vida do famoso piloto e dar ainda mais amplitude à lenda já iniciada em torno de seu nome...

Pesadelo nas alturas

  No dia 7 de agosto ainda de 1942, Sakai e seu grupo escoltavam vários bombardeiros Betty em direção a Guadalcanal. Sakai prestava atenção nas ilhas abaixo, e uma lhe chamou a atenção e ele a guardou como referência. A ilha tinha a forma de uma ferradura.
  Então, antes da conclusão da missão, foram atacados por caças norte-americanos e um combate terrível teve início no límpido e azul céu de outono. Sakai prontamente abateu seu adversário de número 59, que pilotava um avião F4F Wildcat. Pouco depois derrubava o número 60: um SBD-3 Dauntless.
  Vendo mais oito aviões acima de sua altitude, Sakai se lançou sobre eles, pensando ser Wildcats, mas viu tarde demais que eram torpedeiros TBF Avenger, com metralhadoras .50 na barriga e no dorso. Quando o samurai dos ares percebeu a encrenca, não dava mais para escapar. O poder de fogo das poderosas aeronaves concentrou-se no Zero de Sakai. O aparelho tremeu sob as rajadas inimigas e virado de nariz para baixo, mergulhou em direção ao oceano.
  Sakai estava ferido e desmaiado, mas o vento frio e cortante que passava pelo pára-brisa estraçalhado pelos tiros, o fez voltar a si. Sakai puxou o manche para recuperar a altitude, mais o sangue que escorria pelo seu rosto não o deixava ver nada. O lado esquerdo do seu corpo estava paralisado. O jovem piloto começou a chorar de raiva e aflição, e as lágrimas acabaram por limpar um pouco seu rosto e ele pode analisar sua terrível situação: não conseguia ver nitidamente os instrumentos no painel, mas assim mesmo, conseguiu impedir a queda do Zero e continuar a voar. Sentia a todo momento que iria desmaiar novamente, pois estava ferido na cabeça e perdendo muito sangue.
  Então Sakai conseguiu ter uma breve visão de uma ilha abaixo, em forma de ferradura. Agora ele já tinha melhor noção de onde estava. Há 60 milhas ao sul ficava  a base de Rabaul. 
  Conseguiu chegar até o campo de pouso e, com dificuldade, após quatro tentativas para descer, finalmente pousou seu Zero em segurança. Mas Saburo Sakai havia perdido para sempre a visão de um olho e com outros ferimentos, só voltaria a voar 2 anos depois, e mesmo assim  contra ordens médicas.

Erro fatal

  Mas apesar de tudo isso e de dois anos afastado do seu Zero, Sakai ainda mostraria sua eficiência em combate. Isso se deu em 24 de junho de 1944, quando os pilotos japoneses tiveram que defender a ilha de Iwo Jima, onde estava uma das principais bases japonesas. Nesse combate eles enfrentaram os aviões americanos F6F Hellcat, que à exceção do arranque de subida, eram em tudo o mais superiores aos Zeros. 
  Havia 80 Zeros no combate, em duas formações de 40 aviões. Logo que tiveram os Hellcats à frente, Sakai já derrubava um deles. Mas eram muitos aviões inimigos e o ás japonês sentia muito a falta do olho esquerdo, o que limitava sua área de observação e não lhe dava mais a visão estereoscópica.
  Mesmo assim, perseguido por seis aviões, Sakai, numa manobra que só ele poderia fazer, conseguiu ficar atrás deles, derrubando mais um. Mas ele já sentia o peso do combate e, sem ânimo, devido às suas limitações agora, não queria mais lutar. Num mergulho, fugiu para o norte e pouco depois, aliviado, ele achou que havia visualizado 15 Zeros à sua frente e à direita. Sakai aproximou-se, para se juntar a eles.

A última batalha

  Então, num relance, Sakai sentiu porque os médicos não queriam que ele voasse. Sua visão o enganara e, ao invés de se juntar a pilotos amigos, ele estava bem no meio de uma formação de 15 Hellcats!
  Tentou escapar a estibordo, esperando que os caças não o tivessem percebido. Mas tinham. A formação inteira dos Hellcats partiu atrás dele. Os aviões mergulharam sobre ele em grupos de 4. Sakai, mesmo em desvantagem, conseguiu abater mais um. Depois, realizando vários rolamentos com seu Zero, tentava desesperadamente escapar dos tiros inimigos. Conseguiu colocar-se atrás de um deles, disparou e errou o alvo. O grande piloto já não tinha a precisão de antes.
  Ensopado de suor, ora em fuga, ora atacando destemidamente os caças, ele mergulhou seu Zero ao nível do mar, em direção à base de Iwo Jima, ainda perseguido por 12 Hellcats. Fazendo rolamentos com o caça, para fugir ao fogo inimigo, Sakai rezava para que a artilharia anti-aérea percebesse sua situação e abrisse fogo contra os Hellcats.
  De repente então o céu encheu-se dos clarões dos tiros da artilharia nipônica. A tática do samurai das nuvens havia dado certo e o Hellcats bateram em retirada. Minutos depois Sakai pousava seu Zero em segurança.
  O grande piloto japonês, que podia ficar pendurado meia hora, se sustentando apenas com a força de um braço, que nadava 50m em menos de 30 segundos e conseguia apanhar uma mosca no ar com apenas um movimento das mãos, agora um guerreiro mutilado, teve até esse derradeiro combate, 64 vitórias confirmadas em confronto aéreo.
  Em 1963, aos 47 anos de idade, publicou, em co-autoria com Martin Caidin e Fred Saito, um livro sobre sua vida, onde são descritas as peripécias de um dos maiores samurais da aviação de combate que o Império do Sol Nascente já possuiu. 

Baseado em matéria de Felipe Armando Podolano, para a revista Commando – 1990

 

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