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A
História de Belmonte
A história de Belmonte,
tal como se encontra no livro biográfico
A vida
de uma pessoa, por menos que ela tenha vivido neste Planeta, é imensa,
complexa, e jamais caberia num livro, não importa quantas páginas
tivesse. Ainda mais sendo a vida de uma das maiores estrelas da música
sertaneja!
Quando se escreve sobre alguém,
o escritor deve se ater ao máximo de veracidade das informações,
sendo objetivo, exato e fiel com a verdade na história do
personagem. Mas uma pessoa, mesmo a mais comum, tem na história
da sua vida fatos esquecidos ou até omitidos, pois a verdade ou
a mentira na vida de uma pessoa podem envolver várias outras pessoas.
De uma ou outra forma,
pode-se omitir fatos reais, por desconhecimento, por ética
e até quando o assunto envolve pessoas influentes, o escritor poderá
optar pela verdade ou pela omissão politicamente correta.
No caso de Belmonte, não
estamos escrevendo sua biografia pura e simplesmente e, por isso, nos sentimos
à vontade para descartar fatos, nomes e datas que nada venham acrescentar
à memória do inesquecível artista.
Este trabalho não tem
outro objetivo além do de falar um pouco sobre a vida desse notável
artista, suas lutas e seus sucessos, pois para nós, todos os admiradores
de Belmonte, o mais importante é não deixar morrer a memória
desse que foi o maior artista de Barra Bonita e um dos maiores astros da
música sertaneja.
Nos desculpamos desde já
com o leitor se narrarmos fatos já conhecidos, pois sendo Belmonte
um nome nacional da música sertaneja, não há como
fugir da narrativa de alguns fatos que talvez o leitor já conheça.
Porém, achamos que isso só irá enriquecer e contribuir
mais ainda para a preservação da memória do inesquecível
Belmonte. (Os autores)
A História
de Belmonte
Por
volta das 17 horas, o sol já vai se amainando, preparando-se para
o poente, mas ainda lançando seus raios dourados sobre as folhas
dos cafezais, como se as acariciasse, dando-lhes um até amanhã.
No Vale do Tietê, onde o rio serpenteia entre as pequenas cidades
de Barra Bonita e lgaraçu do Tietê, separadas pelo rio e unidas
pela ponte Campos Salles, uma relíquia da engenharia alemã
de 1915, mais um dia está chegando ao fim.
O sol tranquilo, parecia sorrir,
levando ao poente, com suas luzes coloridas, a voz melodiosa do garoto
que há pouco cantava entre os cafezais empunhando o cabo da enxada
como se fosse um violão...
Mas quem era aquele jovem que encantava
seus companheiros da roça, embalava a paisagem verde-escarlate dos
cafezais e até parecia fazer o sol ficar mais brando, com suas músicas?
Seu nome era Paschoal Todarelli, descendente de italianos, nascido numa
casa simples de um bairro rural de Barra Bonita, chamado de Fazenda Ponte
Alta, em de 02 de novembro de 1937. Um feliz dia para o casal Antonio Todarelli
e Lucia Zanetti.
E o garoto Paschoal cresceu forte
e sadio, como toda criança criada na roça. Nadando,
pescando, chupando frutas fresquinhas, tiradas dos próprios galhos
das árvores e até cavalgando um cavalo manco, conforme contam
Osório De Luca (Osorinho) e João Alberico, seus amigos de
infância.
Alberico disse que deu muita risada
quando Paschoal apareceu montado num cavalo manco e gritando feliz para
a mãe que havia ganhado o cavalo. “Cavalos eram sua paixão,
desde pequeno, mas quando ele apareceu naquele cavalo, posando de Roy Rogers,
ninguém deixou de dar risada. O cavalo manco, não servia
pra nada, mas para ele era como se estivesse montando o Silver ou o Trigger’.
lembra Alberico, fazendo alusão aos famosos cavalos do Lone Ranger
(Zorro) e do Roy Rogers, dois mocinhos do bang-bang que eram a coqueluche
da época.
Depois das brincadeiras, a escola.
Ali mesmo na Ponte Alta, numa escola rural, o garoto Paschoal aprendia
o bê-a-bá’ com dona Elza Loreiro, professora e esposa do administrador
da fazenda naquela época.
Em 1948, morreu seu Antonio, deixando
Paschoal órfão de pai com apenas 11 anos de idade. Em 1950,
sua família mudou-se para a Fazenda Natal, em Igaraçu do
Tietê. Para dona Lucia era a luta pela sobrevivência agora,
com quatro filhos para acabar de criar: Paschoal, Dorali, Lídia
e Aparecida (Cidinha).
Mais tarde ela iria casar-se com
João Girioli e com ele teria mais três filhos: Alvaro José
(Val), Maria Aparecida e Jesus. A pequena família se transformava
numa grande família. Dona Lucia agora tinha sete filhos e ainda
cuidaria de outros três filhos do primeiro casamento do “seu” João.
E Belmonte acabou ganhando mais 6 irmãos.
Mas, passados alguns anos, a tristeza
se abateria novamente sobre a família, com as mortes de “seu” João
e também de Maria Aparecida, a meia-irmã de Paschoal e gêmea
de Val, que deixou este mundo ainda na flor da idade.
Dorali, Lídia e Cidinha se
casaram; Val se tornaria político mais tarde; e Jesus ingressaria
na Aeronáutica. E o garoto Paschoal? Bem, aí começa
a luta daquele que se tornaria Belmonte, o grande astro da música
sertaneja e que conquistaria multidões por todo o Brasil...
Osorinho e Alberico lembram das
lagoas, citadas na música de Belmonte, Saudade de Minha Terra, e
também recordam as brincadeiras de infância. Paschoal Todarelli,
que mais tarde se tornaria Belmonte, tinha até então o apelido
de Lico.
“O Lico e a gente jogava “filipe” (um
jogo igual ao de burquinhas), com os grãos de café. A gente
também jogava “ficha”, que é a mesma coisa do filipe, só
que usando a semente de uma árvore chamada ficheira, que é
igual à paineira”, explica Osorinho.
Alberico lembra também dos
caminhãozinhos feitos de um pedaço de pau e dois carreteis
vazios e da brincadeira com o arco, que era uma argola de barril que as
crianças da época conduziam empurrando-a com um gancho de
arame. Tinha também a brincadeira de escorregar morro abaixo no
pasto sentado em folha seca de coqueiro e ainda os carrinhos de roda, iguais
aos de “rolemã”, que a gente apostava corrida por entre os mangueirais”.
recorda Alberico.
Dona Lucia, que em 2000, época
em que este trabalho foi concluido, estava com 84 anos de idade, lembrava
das “façanhas” do filho, procurando fugir do cabo da enxada em busca
da glória de ser artista. Para o jovem Paschoal, essa luta em busca
da realização de um sonho foi muito importante. O dono da
roça de café perdeu um lavrador que não se importava
com aquela lavoura, já que sua lavoura era outra, e o Brasil ganhou
um dos maiores cantores sertanejos de todos os tempos.
“A lavoura do Belmonte era a música’,
confirma dona Lucia.
E não tinha mesmo jeito com
ele. Dona Lucia lembra que Lico costumava chamar a irmã, Cidinha,
e então amarrava um lenço na cabeça e fazia dupla
com ela”, conta.
Aos 16 anos de idade ele colocou
a mala nas costas e foi para São Paulo, em busca do seu sonho. Surgia
a dupla Belmiro e Caxambú, fazendo shows aqui na região e
depois, com a mudança do nome para Belmiro e Belmonte, cantando
e gravando músicas de sucesso. Depois formou dupla com Miltinho
Rodrigues, mas nas estrelas já estava escrito que o grande sucesso
viria ao lado de Amarai...
Amaraí, na lingua tupi-guarani,
segundo informado a nós, significa chuva; e Belmonte, é um
monte belo. Uma bela montanha. O nome foi dado por Geraldo Meirelles, um
dos maiores esteios da música rural e criador do programa Viola,
Minha Viola, ainda levado ao ar até hoje na Tv Cultura, por Inezita
Barroso, outro monstro do mundo sertanejo.
De acordo com o que ficou registrado
na história, Geraldo Meirelles achou simplesmente horrível
o nome Caxambu e trocou este rapidamente para Belmonte.
Que saudade
imensa, do campo e do mato,
do manso regato
de águas cristalinas...
Mesmo
acostumado à vida dura do campo, o jovem Paschoal Todarelli assustou-se
com a cidade grande. Ele chegou em São Paulo à noite, na
Estação da Luz. Nos ombros uma maletinha de roupas e o violão,
e no coração a vontade de ser grande. Os sonhos se mesclando
com o medo da cidade grande. Altos prédios. nenhum rosto conhecido,
o pesado silêncio da solidão.
Como sempre na cidade de prédios
mudos e cinzentos, a garoa fina e fria. Os pés levando o corpo assustado
e a cabeça sonhadora por ruas desconhecidas. Frio, fome, solidão...
A lembrança dos cafezais
ensolarados, das verdes campinas, da terra morna e amiga. O lutador encontra
um local para se abrigar da chuva. Era por volta de duas horas da madrugada,
e ele estava no Largo da Concórdia. Pousa a maleta e o violão,
único companheiro, entre as pernas. Abaixa a cabeça, desiludido
e assustado com a cidade grande. A luz dos postes se refletem e se confundem
nas lágrimas que rolam pelo rosto.
As pessoas passam, mas não
param. A cidade grande não tem coração. Todos estão
apressados demais ou vivendo seus próprios problemas para se importar
com o jovem que se abriga da chuva sentado nos degraus daquela loja ao
lado de uma lanchonete. As pessoas conversam, riem. O jovem interiorano
soluça, não de fome e de frio, mas de tristeza. Ele tem um
sonho, mas não sabe o caminho. Ele tem uma meta, mas os caminhos
na cidade grande são desconhecidos, bifurcados, confusos.
O mundo judia,
mas também ensina.
Estou contrariado,
mas não derrotado,
eu sou bem
guiado pelas Mãos Divinas...
Mais
tarde, já no caminho do sucesso, ele contaria ao amigo Osorinho
de onde ele tirou a certeza de que era bem guiado pelas mãos de
Deus.
Algumas moças desceram de
um carro em frente à lanchonete e uma delas, curiosa, se dirigiu
até o jovem que se encolhia soluçando sob o improvisado abrigo.
- O que aconteceu, moço?
- Nada - Responde Paschoal, na defensiva.
Afinal, homem não deixa mulher, a não ser a mãe, ver
ele chorando.
- Ora, como nada? Você está
aí, todo ensopado, tremendo de frio e chorando... - Insistiu a moça.
Paschoal ergueu a cabeça
e olhou para o rosto da moça. Ela era loira e muito bonita. Ele
não podia imaginar que ela seria a peça fundamental na abertura
dos caminhos para a concretização do seu sonho. Seu nome
era Rosinha...
- Eu vim de longe, não conheço
ninguém aqui, não sei para onde vou e estou com fome e frio!
- Desabafou por fim.
Então a moça, que
era dona de uma grande e famosa boate em São Paulo, dispensou as
amigas e condoída, levou Paschoal até um abrigo seguro e
pediu jantar para ele.
Eu já pedi o jantar para
você. Enquanto esperamos, dá para
me mostrar o que sabe fazer com esse violão?
- Pediu a moça. Paschoal não se fez de rogado. Bem aquecido,
sentindo a solidariedade humana alegrando o coração, ele
pegou o violão e cantou como a juriti ao nascer do sol que vem lhe
aquecer as penas após uma noite de chuva. Ele cantou e encantou.
E a moça logo deu um jeito para apresentá-lo como cantor.
- Olha, eu já tenho um cantor contratado
em minha boate, e não posso quebrar o contrato. Vou apresentar você
como meu segurança e, de vez em quando, eu peço ao cantor
para deixar você cantar alguma música...
Belmonte, mesmo jovem, era um tipo
alto e forte, herança da vida no campo, e não teve problemas
para fazer se passar de segurança da mulher.
E Osorinho, com os olhos brilhantes
de orgulho, como tivesse o condão de se transpor do presente para
o passado distante, fala com satisfação do sucesso do amigo:
“O Lico cantou apenas algumas músicas
e os frequentadores da boate já não queriam o outro cantor.
Só queriam ele!”
Um certo dia, no ano de 1966, Paschoal,
que já havia sido batizado por Meirelles de Belmonte e já
gravara um elepê com 14 lindas músicas em dupla com Belmiro,
foi conhecer a então chamada “roda de violeiros”, onde os artistas
do mundo sertanejo que ainda estavam palmilhando a estrada em busca do
sucesso, se reuniam. E foi ali que Belmonte conheceu Amarai.
De novo a chuva em sua vida, como
uma bênção dos Céus. Com a chuva, veio a moça
loira para ajudá-lo a enfrentar as armadilhas da cidade grande...E
agora ele conhecia aquele moço que já trazia o nome artístico
de Amarai. A chuva sobre a bela montanha...As vozes se casaram, ritmadas,
melodiosas, fortes como só a montanha e e a chuva podem ser. Nascia
a dupla Belmonte e Amarai!
O jovem da terra de lindas lagoas
de águas cristalinas, estava agora no rumo certo. Agora eram passos
seguros na trilha do sucesso.
A influência
de Miguel Aceves Mejía
Em meados da
década de 50, a moda de viola iria sofrer profundas influências
da música mexicana. Naquela época não havia uma rádio
que não tocasse o som de um mexicano de voz forte e estridente,
que vestia-se como Cisco Kid e cavalgava um cavalo branco. Seu nome era
Miguel Aceves Mejia, e seu sucesso foi tanto, que até filmes ele
chegou a estrelar.
Talvez pela musicalidade, talvez
pela maior facilidade de se entender o castelhano, o fato é que
no Brasil o sertanejo de então se modernizava, mexicanizando as
canções. Surgiu Miltinho Rodrigues, que tinha um timbre de
voz imitante ao do ídolo mexicano e surgiam Belmonte e Amarai.
Essa época foi muito importante
para o ecletismo da música cabocla. As dores-de-cotovelo, mescladas
com as lembranças do campo, começaram a rolar nos elepês
de 78 rotações. Belmonte e Amaraí assinavam então
os maiores sucessos da época, como Cavalinho de Pau, Mercedita.
Paloma Branca, Boa Noite Amor, A Fronha, Gente da Minha Terra, Morena Cheirosa,
Só Me Resta Esquecer e muitas outras, que foram influenciadas pelas
rancheiras mexicanas e que, por sua vez, iriam influenciar a música
sertaneja moderna, até hoje.
Além de duplas já
consagradas, como Pedro Bento, Zé da Estrada e o sanfoneiro Celito,
que chegaram a se vestir como Miguel Aceves Mejia, depois surgiriam,
ao final da década de 60, duplas e trios como Mato Grosso e Mathias,
Milionário e José Rico e Trio Parada Dura, que confessaram
a influência de Belmonte e Amarai.
“Naquela época, todo mundo
que sonhava gravar um disco tinha que cantar as musicas de Belmonte e Amarai.
Além de estarem no auge, eles tinham um timbre de voz diferente.
Uma maneira especial de colocar a voz...Até no violão eles
eram de arrepiar!”, diz Mathias, da dupla Mato Grosso e Mathias.
Segundo a revista Moda e Viola,
“Belmonte e Amarai foram as gargantas de ouro da década de 60, uma
dupla que chegou ao topo das paradas e influenciou toda uma geração
de duplas e cantores que viria a seguir. O segredo deles era o perfeito
entrosamento das vozes, sem contar a temática e rítmos mexicanos,
a grande sensação da época. Além de Belmonte
e Amarai, surgiram Sulino e Marrueiro, Nenete e Dorinho, Caçula
e Marinheiro e Tibagi e Miltinho. Mas foi com Belmonte e Amarai que o gênero
chegou ao auge, deixando para a posteridade todos os seus sucessos, hoje
incorporados ao cancioneiro regional brasileiro”, escreveu a revista.
Terra querida
Belmonte
começou a fazer sucesso ao lado de Amarai, e com apenas alguns elepês
gravados já era a dupla sensação do momento, destacando
seus nomes a nível nacional.
Mas Belmonte tinha o coração
em Barra Bonita, e era para sua cidade natal que ele voltava sempre, para
visitar a mãe, os irmãos e os amigos.
“Quando ele chegava, ia para a Rádio
da Barra, que ficava aonde hoje se encontra o museu municipal, e de lá
ele fazia o maior estardalhaço, cantando ao vivo e mandando recados
para a mãe e para nós”, lembra sua irmã Dorali. “Pelo
rádio ele dizia que tinha chegado, que estava faminto e que era
para eu ir preparando o frango”, conta ela.
“Já aconteceu de ele vir
à Barra Bonita no meu aniversário e à noite me acordar,
fazendo serenata para mim”, conta também dona Lucia. “Quando ele
passava em casa, deitava-se no chão da sala, como um garoto qualquer,
e pedia para eu preparar a comidinha que ele gostava, ou seja, a comida
que a mãe fazia. Ele dizia que sentia falta da minha comida”, comenta
dona Lucia, sorrindo com as lembranças.
Segundo ela, a casa da rua Marechal
Floriano, de número 1217, recebia também visita de vários
outros artistas, que na época ainda não eram tão famosos,
como Chitãozinho e Xororó, Sérgio Reis, Eduardo Araujo,
Miltinho Rodrigues, Geraldo Meirelles, Nhô Moraes e Nhá Barbina
e outros. Famosos mesmo na época, e que também visitavam
a casa da mãe de Belmonte, eram os Irmãos Perez, ou seja,
Tonico e Tinoco.
O garoto chamado Paschoal Todarelli,
apelidado de Lico, que trabalhou na lavoura, em olaria e de servente de
pedreiro, tinha virado Belmonte e conquistado a fama, mas ainda conservava
o coração simples do homem da roça.
Dentro do Belmonte ainda vivia o
garoto Lico, que antes da fama chegou a cantar com alguns seresteiros de
Barra Bonita, conhecidos como A Turma da Madrugada (Geraldo Francisco,
Chiquinho Stangherlin e Harrison Arrady).
Seu amigo Osorinho, que era um dos
diretores do Clube Vila Nova, lembra que Belmonte aparecia no clube no
final do ano e brindava os associados com suas músicas e uma seleção
de músicas natalinas. “Foi um tempo muito bonito e inesquecível”,
recorda Osorinho, com tristeza.
“Parece ainda hoje, que eu o estou
vendo chegando na porta do
clube, onde eu sempre o barrava, por brincadeira...
- Você já comprou o ingresso?
- Puxa, Osorinho, você vai me fazer
pagar?
- Claro. Ou compra o ingresso ou não
entra!
Muito brincalhão, Belmonte comprava
a entrada.
- Tá bom, eu pago a entrada, mas
não vou cantar!
- E quem disse que você ia cantar?
Pra cantar aqui, só se eu deixar!
Então a gente dava boas risadas
e eu dizia que ia dar a ele a honra de
comprar o uísque para a diretoria
do clube”, conta Osorinho. Mais tarde, segundo Osorinho, Belmonte tomava
conta da festa. A música ambiente parava e todos ficavam sentados,
apenas esperando o grande cantor brindá-los com suas músicas
encantadoras.
E os olhos do amigo se umidecem
com a lembrança do querido amigo de infância. Belmonte era
a fama, mas para Osorinho, ele ainda era o Lico, o garoto que brincava
com ele e com Alberico lá na Fazenda da Ponte Alta.
Alegria e dor
Em 27 de dezembro de 1969, com 32
anos de idade, Belmonte jurava amor eterno a Marlene Pessinato. Eles foram
morar na casa 03 da Av. Nossa Senhora da Encarnação, Jardim
Maristela, em São Paulo. “Ele era um excelente marido, atencioso
e carinhoso ao extremo. Ele cuidava de tudo em nossa casa. Dos móveis,
da decoração e até de minhas bonecas. Ele mesmo plantou
nosso jardim e cuidava com amor de um pé-de-café que tínhamos
no quintal. A cada dia ele fazia uma nova arrumação na casa,
sempre procurando me agradar”, lembra Marlene.
Cheios de amor e sonhos, eles faziam
muitos planos para o futuro. Era desejo de Belmonte montar o Magazine Belmonte,
revelando um lado comercial que a própria Marlene disse desconhecer.
Era sua intenção montar o magazine numa casa da Avenida Maristela,
2-A. Seria uma loja de calçados e diversos artigos para presentes.
Ele disse que ia vender até ovos de páscoa na loja”, recorda
Marlene.
Ao sair para o que seria seu último
show, um dia antes da fatalidade, ela disse que Belmonte saia e voltava
com seu carro, uma TL, várias vezes, subindo e descendo a rampa
em frente de sua casa. “Era como se ele estivesse adivinhando e me dando
seu último adeus através daquela brincadeira”.
E Marlene nunca mais iria ver o
amado com vida. Ele foi fazer um show em Itápolis, SP, e ela foi
para Poços de Caldas, MG, aonde eles deveriam se encontrar no dia
seguinte, numa festa de casamento. Belmonte não voltaria mais...
Chocada em perder seu grande amor
tão tragicamente, com apenas 3 anos de casamento, Marlene recolheu-se
no silêncio da sua dor. O casal não chegou a ter filhos.
Me levem para
a casa da minha mãe...
Nas
primeiras horas da fria manhã de 09 de setembro de 1972, todas as
emissoras de rádio do país davam a terrível notícia:
"Faleceu nesta madrugada,
vítima de grave acidente automobilístico, o cantor e compositor
Belmonte, da famosa dupla Belmonte e Amarai"...
Belmonte,
na matéria publicada na época pela revista Álbum Sertanejo,
fizera seu último show em ltápolis. Já era noite,
mas Belmonte, que segundo seus amigos, não gostava de pousar em
hotéis, e movido pela ansiedade de encontrar a família como
havia combinado, em Poços de Caldas, resolveu voltar, assim que
terminou o show.
Com os acordes
melodiosos de Saudade de Minha Terra, música com a qual eram encerrados
os shows, ele despediu-se do povo de Itápolis e ganhou a estrada,
ao volante da sua TL.
Mas o cansaço
e o sono derrotaram o lutador. Quando passava por Santa Cruz das Palmeiras,
ele adormeceu ao volante e seu carro chocou-se violentamente contra a lateral
de uma ponte. Eram mais ou menos seis horas da manhã...
Socorrido
ainda com vida, Belmonte foi levado ao hospital da cidade, onde os médicos,
devido à gravidade dos ferimentos, tinham resolvido transferí-lo
para o hospital melhor equipado de Ribeirão Preto, SP. Mas já
era tudo em vão. Às 9 horas e trinta minutos daquela triste
e nebulosa manhã de 09 de setembro, Belmonte dava seu último
suspiro. “Eu quero que me levem para a casa da minha mãe”, foi seu
último desejo.
No
dia 09, à noite. Osorinho cancelou o baile no Vila e colocou a bandeira
a meio pau, procurando talvez, com sua tristeza, prestar uma última
homenagem ao grande amigo.
“Todas as
pessoas que amavam Belmonte, ou mesmo que só o conheciam de nome,
choravam naquele dia, quando a triste notícia chegou a Barra Bonita”,
diz, cabisbaixo.
Na manhã
de 10 de setembro, um domingo cinzento para os corações dos
que o amavam, Belmonte foi sepultado em Barra Bonita, terra da sua
saudade. Osorinho lembra que a cidade comoveu-se. "O cemitério era
pequeno para tanta gente”. lembra ele.
Na mesma data,
era inaugurada uma obra simples e inexpressiva, com muita alegria e rojões.
Enquanto parte de Barra Bonita e o Brasil choravam a morte de Belmonte,
a Ponte da Amizade foi inaugurada, próxima ao almoxarifado municipal,
a cerca de uns trezentos metros da rua Marechal Floriano, onde ficava a
casa da mãe de Belmonte.
Não na Câmara
Municipal, nem com bandeiras sobre o caixão. O grande cantor foi
velado de maneira simples na própria casa da mãe, e dalí
é que saiu o cortejo em direção à Avenida da
Saudade. Até hoje, ao lado da ponte, à direita, uma placa
lembra a inauguração...
Lembranças
e curiosidades...
Lá
na bela Fazenda Ponte Alta, onde nasceu Belmonte, já não
existem lagoas de águas cristalinas. A escolinha é a mesma,
mas foi reformada e a igrejinha que tem lá hoje, não tinha
no tempo do pequeno Lico.
Mas as belas
e copadas árvores ainda estão lá. Com certeza alguma
delas deve ter observado, com seu silêncio majestoso, o garoto Lico
pendurado em seus galhos...
Seu Dito,
que além da labuta na lavoura de cana, à tarde cuida com
carinho da imensa horta que surgiu das terras férteis que um dia
foram berço de um grande lago, disse que chegou na Fazenda por volta
de 1950, e claro, que conhece Belmonte pelas rádios, mas não
chegou a conhecê-lo pessoalmente.
Nessa época
Lico estava com 13 anos de idade, sonhando em um dia ser cantor. Aos 18
anos ele gravou seu primeiro disco. Seus passos estavam na direção
do sucesso, e seu Dito, no radio sobre a mesa da sala, disse que ouviu
muito a voz maravilhosa do artista que tinha nascido na Fazenda Ponte Alta.
Mas mesmo
o Belmonte não conseguiu esquecer o garoto Lico. Sua irmã
Dorali lembra que quando ele comprou seu primeiro carro, uma fusquinha
verde, ele a ia visitar no Sitio São Pedro, e alí, descalço,
chamava o cunhado Manoel para ir apreciar o rio Tietê. Nas margens,
ele gostava de passear pisando sobre as pedras ou então ia com Manoel
e Dorali passear de bote.
Saudade de
Minha Terra, música que apaixonou o seu Dito e milhares e milhares
de brasileiros, surgiu porque dentro do famoso Belmonte sempre morou o
garoto Lico.
Mesmo antes
de se tornar um cantor famoso, Belmonte já cantarolava e rascunhava
algumas palavras, dizendo para a irmã Dorali que um dia ia fazer
uma música homenageando Barra Bonita...
De acordo
com seu amigo Osorinho, ele nasceu para ser artista mesmo, pois nunca estudou
música. Paschoal Todarelli, o Lico ou o garoto do violão,
virou Belmonte e fez a música, junto com Goiá, em homenagem
à sua terra natal. E ele colocou tanto seu coração
e seu espírito em Saudade de Minha Terra, que a música acabou
se tornando o Hino Nacional Sertanejo.
Dorali também
lembra que quando começou o sucesso da dupla, Belmonte trazia seus
discos e cartazes promocionais para ela e dizia:
"Não
me deixe escondido. É pra me pregar na parede", referindo-se aos
cartazes.
Belmonte ainda
compôs Desde que Te Ví, no estilo chula paulista, Sonhos Desfeitos,
uma valsa rancheira, e fez a versão de Mercedita e Tu e as Nuvens,
entre outros sucessos que compôs ou fez a versão para o português.
Seu parceiro Amaraí também compôs várias canções.
Cavalinho de Pau é uma delas.
- Lico,
para ajudar a sobrevivência da família, trabalhou em vários
serviços: carregador de sacos, servente de pedreiro (onde certa
vez quebrou os pés numa queda), na Cetenco, como garçom num
restaurante em São Paulo (onde ele encontrou Belmiro), como carteiro
e até no corte de cana. Certa feita, quando ajudava a descarregar
um caminhão, conforme conta seu cunhado Manuel, ele parou para descansar
e começou a cantarolar. Os outros “chapas” reclamaram e ele respondeu:
“Um dia vocês ainda vão ficar muito tempo sentados, para ouvirem
eu cantar"!
- Nos anos 60, Belmonte apresentou-se
no programa do Flavio Cavalcante (aquele que quebrava discos ruins). Lá
também se apresentou um rapazinho cabeludo, chamado Roberto Carlos.
Os discos dos dois não foram quebrados, é claro!
- Em 1985 em seu show de fim de ano, Roberto
Carlos homenageou vários estados do Brasil e, ao citar São
Paulo, referiu-se ao Estado como “A terra de Belmonte”...
- João Paulo e Daniel, quando passaram
por Barra Bonita a caminho de outra cidade, para fazerem um show, se apresentaram
numa emissora da cidade, ao lado de Val, meio-irmão de Belmonte,
cantando a música Saudade de Minha Terra. Foi a última vez
que João Paulo cantou essa música. Pouco depois ele também
morreria vítima de um acidente automobilístico.
- A música Saudade de Minha Terra
apaixona tanto as pessoas comuns, quanto artistas. Edson Cordeiro, com
sua raríssima voz de soprano, a interpretou certa vez no programa
Jô Onze e Meia.
- No Dia de Finados, que também
é a data de nascimento de Belmonte, seu túmulo no cemitério
de Barra Bonita recebe inúmeras visitas de fãs. É
o túmulo mais visitado! Alguns já tentaram até arrancar
a foto e a escultura da viola do túmulo. Outros, inclusive novos
artistas, vêm ao túmulo de Belmonte pagar promessas...
- Em 1975 foi lançado o disco Eterno
Adeus, relembrando sucessos de Belmonte e Amarai, pela RCA, e em 1990,
pelo mesmo selo, foi relançado Saudade de Minha Terra, ambos com
regravaçôes de alguns de seus maiores sucessos, como também
outro LP, apenas com o título Sucessos. Falamos sobre o disco Jóias
da Música Brasileira, lançado pelo selo Sabiá. Com
esse disco, Belmonte totaliza nove discos gravados por ele. O Jóias,
um com Belmiro, um com Miltinho Rodrigues e 6 com Amarai. Quanto a cinco
CDs de que tivemos notícia, eles tiveram produção
independente e traziam também regravações dos sucessos
de Belmonte e Amarai.
Homenagens
Em
1992, em São Bernardo do Campo, SP, foi lançado o projeto
20 Anos sem Belmonte. A cidade, desde o falecimento dele, lembra o cantor,
prestando-lhe homenagens. Também em Uberaba, MG, em 1991, numa grande
homenagem a Belmonte, foi realizada uma excepcional festa e uma das praças
da cidade recebeu o nome de Belmonte.
Amarai, seu
companheiro de dupla, que na época deste trabalho tinha um programa
na Rádio Ouro Verde, em São Sebastião do Paraíso,
MG, esteve em Barra Bonita em 1992 com O Viola, Minha Viola, ao lado de
Inezita Barroso, fazendo homenagem a Belmonte.
Em várias
cidades do país Belmonte ganhou praças e ruas em seu nome,
como em Osasco, SP, por exemplo, e em Sorocoba, onde até o final
deste trabalho havia o fã-clube da dupla Belmonte e Amarai, e nele
as pessoas se reuniam cantando músicas da dupla, vendo fotos e falando
sobre eles.
Em Barra Bonita,
cidade onde nasceu e está sepultado no cemitério local, ao
lado do pai e da irmã, Belmonte recebeu o nome de uma rua na Vila
Habitacional...
Em 1996, ao
completarem-se 24 anos da morte do cantor, o vereador Sérgio Granna
pediu que fosse feita uma estátua em homenagem ao mais famoso filho
da cidade. Não foi atendido. E até as rádios da cidade,
até a época desse trabalho, só tocavam músicas
da dupla quando pedido por fãs ou pela mãe do cantor.
No túmulo
simples, perdido entre tantos, a pequena escultura de uma viola, doada
por fãs de São Paulo, capital, assinala que ali repousa o
grande Belmonte. Ele foi o filho mais famoso da cidade, mas era um rapaz
simples. Assim, talvez, sua última morada na Terra represente esta
simplicidade.
No dia 16
de setembro de 1972, uma semana após, o único jornal
da cidade na ocasião, registrou a fatalidade, numa pequena nota...
No livro Barra
Bonita, 100 anos de História, de diversos autores, são dedicadas
14 linhas àquele que imortalizou a cidade através da sua
música.
No museu da
cidade, apenas um quadro com uma foto de Belmonte, tamanho 30x40cm...
Finalmente,
no final da década de 70, na administração José
Kyelce dos Santos, um projeto de lei transformava a música Saudade
de Minha Terra em hino sertanejo de Barra Bonita.
Mas Belmonte
e seu amor por sua cidade eram bem maiores e assim, anos depois, a música
foi alçada a Hino Nacional da Música Sertaneja.
A canção
do pai
O
sr. Antonio Todarelli, era um homem simples, com alma sensível.
Ele gostava de pegar o violão e arranhar umas notas de vez em quando,
como lembram suas filhas. Belmonte, é claro, herdou essa sensibilidade
e a paixão pela música através do violão. Mais
tarde, segundo pessoas que o conheceram, ele se tornaria num dos melhores
violonistas de Barra Bonita, antes mesmo de alcançar a fama como
Belmonte. Para suas irmãs, no entanto, ele continua o Lico. Lidia
lembra ainda, com carinho, de uma canção que o pai cantava
para o pequeno Lico:
“A mãe da rolinha, chorou,
chorou, o marvado do Lico pegou uma pedra e a matou. O marvado do Lico,
sem coração, depois da rolinha morta, jogou ela no chão”.
Lico não matava nenhuma rolinha.
Era apenas uma brincadeira que o pai fazia com ele”, diz Lídia.
Mas seu Antonio dificilmente poderia imaginar que mais tarde o garotinho
Lico ia se transformar no grande Belmonte e em muitas das músicas
que ele ia cantar, as aves estariam presentes, como em Terra Querida, Pombinha
Mensageira e outras, além, é claro, do sabiá e do
inhambu, na imortal Saudade de Minha Terra.

Por volta das
17 horas do dia 09 de setembro de 1972, o sol já vai se amainando,
preparando-se para o poente, mas ainda lançando seus raios dourados
sobre as folhas dos cafezais, como se as acariciando, estivesse lhes dando
um “até amanhã”.
No Vale do Tietê, onde o rio
serpenteia mansamente entre as pequenas cidades de Barra Bonita e Igaraçu
do Tietê, mais um dia está chegando ao fim.
Mas nesse dia o sol está
se pondo sem sorrir, pois já não pode levar ao poente, com
suas luzes coloridas, a voz melodiosa do rapaz que cantava entre os cafezais,
empunhando o cabo da enxada como se fosse um violão...
Belmonte, para
sempre
Assim como a
alma é eterna, assim também é a arte, pois ela é
essência da alma. O artista jamais morre, pois dele fica a lembrança
através das suas obras. O artista é como uma estrela, que
pode até mudar de lugar no infinito, mas permanece brilhando. Assim
é Belmonte. Enquanto em algum lugar houver uma lembrança
do som da sua voz, do seu rosto, ele estará entre nós.
Enquanto houver
uma saudade de casa, a vontade de voltar à terra querida, enquanto
se ouvir um sabiá cantando no jequitibá, enquanto houver
orvalho molhando a relva e o galo cantando ao amanhecer, também
haverá Belmonte, para sempre. |