Se você ama alguém ou mesmo tem amizade por alguém, deve demonstrar isso, de uma forma ou outra. Em grandes ou pequenos detalhes... Não importa. Mostre isso, uma, duas, mil vezes. Então, se ver de que de nada adiantou, que a pessoa não merece seu amor ou sua amizade, parta para outra. Afinal, como dizem popularmente, não se queima velas com defunto ruim. Mas lembre-se antes de uma coisa: ninguém é perfeito. As vezes as perfeições que você busca num amor ou numa amizade, é um modo de encobrir suas próprias imperfeições. Pense nisso. Ache seu caminho e seja feliz...se puder! 
Com carinho, Sergio Ferraz. 
 
 

O pobre e os políticos

Pruquê tanta mardade
Pruquê tanto ingano
Pruquê essa infelicidade
Nu campo e na cidade

Pruquê o homi de bem
O bem já num podi fazê
E já uns homi ruim
Nas mão tem o poder

Pruquê o pobre é umiado
Nos tar de serviço sociá
Si é du dinheiro du povo
Que si paga quem tá lá?

Pruquê trabaiá feito burro
Pra uma casa construí
Se adispois vem o governo
Querendo usufrui

É ipva, iptu e até a pqp
E quem trabaia paga, raspandu os fundo
Pra quem num trabaia cumê
E somo obrigado a votá na corja de vagabundo

A vregonha acabô neste mundo
E tudo tá di perna pru á
Eu quero que mi adiscurpi
Num quero ofendê, só falo pra disabafá

Pois num intendo de política, seu doutô
Como intendê esses tais
Qui fazem o qui dá na tigela
Faiz, disfaiz e inda querem mais

Inquanto o pobre lambe a gamela
Lá em Brasília eles enche a goela
Num intendo e num quero intendê
É o qui quero dizê pra voismicê

Pra mim, tudo isso é um horrô
Pois num entendo de política, seu doutô
O qui sei é que a Justiça
Tá nas mãos de Deus, nosso Sinhô

Opressô um dia vira carniça
Pobre um dia deixa de sê sofredô
Um dia esses urubu
Cai na mão de Belzebu

E quando eles arreclamá, o demo vai arrematá
Ocês viveram nu bem bão, agora meu garfo lhes belisca
E sabe pruquê? Vai preguntá. 
Pruquê EU entendo de política!

ERRANTE 
Eu sou pobre, podre e penitente 
eu sou mal, maldito e doente 
eu sou o coisa da coisa, dos casos de caos 
eu o sou o de joelhos, de doloridos artelhos 
que busca o perdão do sim e do não 
não sou eterno, mas sou o inferno 
de camiseta e sem terno 
eu sou Dante, Dom Quixote, errante 
eu sou o rábula, a fábula, a fala e a tralha 
eu sou o bandido, sou o ferido 
o silêncio e o censo 
eu sou eu, sem querer 
sem ser, só sendo 
não sendo e querendo... 
 

Eu quero viver!
Meus olhos perderam o brilho...
Os ossos endureceram...
Em meu caminho não há mais trilha...
Meus sonhos já morreram...
MAS EU NÃO!
Posso ver através dos olhos de uma criança
Posso voar nas asas da esperança
Se não posso dançar, vou cantar
Vou declamar, vou tudo novamente tentar
Só não vou chorar e me entregar!
Pode vir a morte, eu não posso impedir
Mas vou mudar minha sorte, enquanto ela não vir
E, se vir, vou ser uma estrela a brilhar no norte
Eu vou ser forte, teimoso e vou insistir
Só sei que jamais eu vou desistir!
Aos 75 anos, Deus mandou Abraão para Canaã
Com 80 anos de idade Moisés enfrentou o Faraó
Junto com Deus, posso ser como uma águia
Atravesso o fogo, não temo a água
E posso mudar meu amanhã!
A juventude eu vi passar e muitos amores também
A velhice aos poucos vem e meu corpo pode cansar
MAS EU NÃO! EU NÃO VOU DESISTIR!
Vou ver pela criança, vou voar na esperança
 Seja o que ser, eu não vou desistir... de viver!

Quero rever o mandacaru 
Quando vim para  São Paulo
Deixando pra trás o meu sertão
Tinha idéia de vencer, 
ter uma vida melhor então 
mas só deu pra mim chorar,
só deu para mim sofrer
Agora sonho até acordado
Querendo rever o meu sertão
Quero ver o mandacaru, ao pé dele descansar
Eu não quero aqui ficar, ficar aqui não quero não
Não tem seca não
Mas a vida é bem pior
Ninguém vai te respeitar
Você será só, 
só um João Ninguém
Não tem seca não
Mas a tristeza é maior
Quando a saudade apertar
Você será só, 
um retirante e mais ninguém

Desterrado 
Trago dentro de mim
Lembrança e saudade
De um tempo que já teve fim
Na passagem da idade
Mas mesmo assim
Quebrando do tempo o espaço
Ainda trago dentro de mim
Sentimentos que prendi no laço

Trago dentro de mim
A visão da montanha altaneira
O cheiro dos campos de alecrim
O ranger sonoro de uma porteira
A luz da lua num lago
O cantarolar do ribeirão
Dentro de mim ainda trago
Da cachoeira o som da canção

Sim, trago dentro de mim
O menino das bolinhas de gude
O brilho do sereno no capim
O aroma do eucalípto e as ondas do açude
O vento as ondas encrespava
E ali meu pai me ensinou
Que tudo que mais encantava
Era a natureza que Deus criou

Trago dentro de mim, ainda
O menino de pé no chão
A poeira da terra tão linda
Levantada pelos bois, imagem do meu sertão
Trago por dentro, enfim
Novidades e coisas antigas
A sonoridade de velhas cantigas
Que minha mãe cantava pra mim

Trago dentro de mim, também
Das florestas verde e bela poesia
O som gostoso do apito do trem
O canto de cigarras na tarde que inicia
Trago dentro de mim, só coisa boa
A suavidade das brisas de outono
O barulho dos sapos na lagoa
O acalanto no colo, o infantil e doce sono

Trago dentro de mim
Sabendo mesmo que já se foi
No riso feliz que se perdeu por fim
O alegre resmungo do carro-de-boi
Lembro a paineira da estrada
O dourado do milharal
O cheiro da terra molhada
As galinhas no quintal

Trago ainda o ar brejeiro
Debaixo da pele, o caipira
O orgulho de ser mineiro
Embora a saudade me fira
Tudo está dentro do coração
A infância nunca esquecida
Esta saudade sem compaixão
Da minha  Minas querida
 

Exctasy
Não importa se você é meu pai, minha mãe, 
minha irmã ou minha vó, tenha dó!
Eu respeito vocês, mas é preciso 
meus sentimentos respeitar
Eu tenho saco e ele pode estourar!
Eu sou adulto, não sei se são ou caduco
Quero andar o meu caminho
Quero me queimar sozinho 
Eu quero voar para bem longe
Me encontrar comigo mesmo
Me deixem sól
Não importa se você é policial, advogado
juiz, atriz ou meretriz 
Desça daí, infeliz!
Eu respeito vocês se me explicarem o fundamento
da sua justiça, da sua imundícia
Vocês não são melhores ou piores que ninguém
Quando vão ao banheiro a coisa também fede
Por falar em feder, minha cabeça
está fedendo também
Quero entender esta terra de ninguém
Onde os ternos dos deputados são lavados
pelas lágrimas dos descamisados
Onde os dólares dos traficantes são lavados
pelas lágrimas de mães suplicantes
É uma guerra suja, vale o poder da grana
Me explica, me dê uma razão
Porque a gente bebe desse fel
Me tira dessa depressão, não me deixe ficar pinel!
 

Minha Minas
Riacho de águas cristalinas
onde eu passava num carro de boi
hoje lembrei de você
meu riacho das minhas Minas
Serra dos verdes matagais
onde o carro de boi sobe gemendo
hoje lembrei de você
serra das Minas Gerais
Pastos verdes, de bois  nos currais
das porteiras que eu abria
hoje lembrei de vocês
pastos das Minas Gerais
Pelas montanhas que olhei
pelos vales que pisei
pelos rios que eu nadei
não posso esquecer que a amei
Montanhas das minhas Minas
Vales das Minas Gerais
Rios das minhas Minas
Meus amores das Minas Gerais

(Ao meu pai, que a esta terra tanto amou e pra lá não mais voltou e a todos aqueles que vivem longe de sua terra e àqueles que tiveram a felicidade de não precisar deixar seu torrão natal)
 
 

Velho Barco

Quando eras novo, bem pintado e reluzente
Navegavas por entre mares, do nascente ao poente
Grandes ondas bravias, nunca te amedrontavam
Tua quilha forte e esguia, orgulhosa, as vagas quebravam
E assim deixavas teu rastro, que as águas logo apagavam
E o tempo cruel  aos poucos, tua estrutura vergavam
Hoje à margens de um lago, estás solitário e abandonado
Tuas velas estão rasgadas, teu velho casco já esburacado
Assim, como um espectro, só o vento é teu companheiro
Não se enfunam mais tuas velas, como a espada de um guerreiro
Se pudesses pensar, creio eu, lembrarias de grandes momentos
Quando orgulhoso navegavas, enfrentando as vagas e o vento
Eu te olho com pena e com medo, 
pois teu abandono é como o meu
Sim, sou como tu, velho barco, 
pois o tempo também me corroeu
O vento frio chega sorrateiro, 
como mão gelada vem meu rosto ferir
E passa zombando entre os trapos de tuas velas
que não podem mais lhe resistir. 
Viro-te as costas, velho barco,
bem sei que nosso destino está entrelaçado,
como tu, eu também estou abandonado, 
Navegando nas lembranças de um passado naufragado

Almas Prostituidas
Daí troquei minha beleza pelo desejo deles.
Quem faz uma troca deliberada, fica forte 
e passa a explorar a fraqueza do outro.
Hoje me divirto vendo até onde vai 
a resistência espiritual humana...
 

As coisas mudam...
Desde o dia que te amei
Minha saudade  soluça
Mas de ser bobo deixei
E hoje pago pra não ver tua fuça!
 

Casa de Caboclo
Lá pras bandas daquela mata, onde o chitão vive a cantá
Construi minha casinha, pra modi podê morá
Na minha casa quando ocê chega, tem café lá no fogão
Uma panela de cambuquira, toicinho, arroz e feijão
Na minha casa ao raiá o dia, galo canta no terreiro
Vaca berra e gato mia e late o cachorro campeiro
Na minha casa, quando pego a viola, canto até o anoitecê
As porta tão sempre aberta pros amigo recebê
Apesar de tudo isso, eu vivo na solidão
E ainda sinto no peito aquela véia paixão
Pois na minha casa tomem mora a tristeza
Junto com a sodade lôca da minha cabocla Tereza

Vestígios
As árvores estão silentes, a tarde parece muda
As aves cortam os ares também em silêncio
Em busca de seus ninhos
No cemitério, entre túmulos tristes e calados
Eu observo tudo isso
No céu um jato silenciosamente corta as nuvens
A milhares de metros de altura
Deixando no espaço azulado um risco reto e branco
Um sinal de sua passagem
A trilha do avião vai aos poucos se dissipando
E acaba por sumir no céu
A tarde também some silentemente
O azul do céu vai se escurecendo cada vez mais
Então, tão mudo como o final do dia, deixo o cemitério
A cada passo adiante, os passos já dados vão se dissipando
Como o rastro do avião no céu
Assim também é a vida na terra...

Ainda sempre haverá a esperança
 Me lembro daquele prédio, quando foi construído...
Novo, lindo, cheio de esperança de sucesso comercial.
Hoje, após alguns anos, o prédio está velho, feio e descascado.
 Como aquele prédio, quantos grandes e magníficos impérios perderam seu brilho, sua grandeza e se acabaram?
Isso me fez meditar na brevidade de tudo neste mundo. Tudo passa. Beleza, juventude. Como dizem, não há bem que dure para sempre e nem mal que nunca se acabe.
 Sim, tudo passa, tudo irá passar. Mas enquanto o fio de prata ainda estiver ligado ao ser humano, uma coisa permanece: a esperança. Enquanto o bem e o mal se revezam, ora vindo um, ora outro, a esperança continua firme no coração do homem.
 Se a esperança se acaba, acaba-se também o homem...

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