Para Joaquim Nabuco (foto ao lado),
a escravidão era o sinal de Caim que o Brasil trazia na testa. Isto
é: o signo da maldição fratricida. E foi justamente
a visão dessa realidade, a tomada de consciência de
que o sistema escravista era um crime humano e social, que mobilizou
os segmentos mais inquietos da sociedade oitocentista brasileira, numa
luta em vários planos, cujo desfecho foi o fim da escravidão,
oficializado no ocaso do regime imperial, a 13 de maio de 1888. Naquele
dia, a princesa Isabel assinou o célebre decreto, pitorescamente
apelidado de Lei Áurea. Culminava ali, finalmente, toda uma ampla
e corajosa movimentação social para apagar o sinal de Caim
que o Brasil ostentava. Um sinal que, sabemos, ainda não foi de
todo apagado.
Bem - O 13 de maio ficou, para sempre,
em nossa história. Mas uma data com a sua densidade, momento fundamental
na trajetória da vida de um povo, não é apenas uma
data. É um supersigno. Como tal, acaba submetido às mais
variadas leituras, a inúmeros jogos manipuladores, a interpretações
descoincidentes. E o 13 de maio não fugiu à regra. Com o
tempo, serviu para louvar o regime imperial, para sublinhar o caráter
conciliador do homem brasileiro, etc. Enfim, foi um símbolo apropriado
pelos conservadores e mistificadores dos mais variados calibres. À
passagem desse dia, o Brasil tecia loas à princesa Isabel, ao gesto
generoso que colocara um ponto final na escravidão, ao congraçamento
de todos os brasileiros.
Mas a contestação
dessa leitura idílica e patriótica não tardou a vir.
E o 13 de maio não passou ileso pelas reviravoltas que o entendimento
da realidade brasileira experimentou ao longo do século 20. Especialmente
a partir da década de 1950, foi-se generalizando uma compreensão
mais dura e realista do processo. A abolição da escravidão
não passara de um subproduto da expansão internacional do
capitalismo, com a sua ânsia de novos mercados, que só poderiam
ser formados por homens livres, com poder de compra.
As elites brasileiras não
haviam feito uma dádiva aos pobres e alegres negros
da senzala, mas cedido à pressão asfixiante do imperialismo
inglês. Mais ainda: com o fim do escravismo, a situação
do negro piorara. Antes, ele tinha ao menos abrigo e alguma comida. Com
a abolição, fora simplesmente jogado no meio da rua, sem
preparo e sem amparo.
Nada disso é inverídico,
muito pelo contrário. Passávamos a ter uma compreensão
mais nítida e complexa da questão. Não se pode entender
a abolição deixando de lado o movimento do mundo, o aprofundamento
e o alargamento da produção e das fronteiras do capitalismo.
Mas a ênfase em certos temas – e, sobretudo, a vulgarização
da nova versão do assunto – terminou por eclipsar o movimento interno
da vida brasileira.
De outra parte, é claro que
os escravos não saíram da senzala para um mar de rosas. Foram
atirados de chofre na miséria urbana daquele Brasil do final do
século 19. Na lama mais podre das ruas. E sem qualquer treino técnico
para responder às exigências da nova vida que deveriam viver.
Mas há também um aspecto para o qual não devemos fechar
os olhos. Uma coisa é ser escravo. Outra, bem diferente, é
ser livre.
Depois do 13 de maio, pretos e mulatos
passaram a circular com um outro corpo pelas ruas das cidades brasileiras.
Além disso, como já ensinava o velho Hegel, toda a
negação se contém no espaço daquilo que nega.
A nova versão do processo, contestando a antiga, permanecia etilista.
Era incapaz de ver a abolição como uma vitória
negra.
Militância – Dito de
outro modo, a versão laudatória e a versão crítica
do 13 de maio coincidiam num ponto essencial: viam os negros escravizados
como vítimas passivas da História, jamais como agentes
sujeitos de processos sociais. No entanto, o escravo sempre foi o inimigo
número 1 da escravidão. Enquanto a nossa elite colonial mais
subversiva, em suas diversas “inconfidências”, lutava apenas para
se libertar do estatuto de colônia, o negro combatia, mais concreta
e imediatamente, o regime escravista. Combatia pela própria vida.
Combatia pelo furto, pela fuga,
pelo suicídio, pela sabotagem. Combatia nos quilombos, nos
candomblés, nas insurreições. E nessa luta foi decisiva
para a liquidação final do sistema escravista , com a fuga
em massa das fazendas, a pressão urbana e a militância de
descendentes de escravos como José do Patrocínio e
Luiz Gama e também do poeta Olavo Bilac.
José do Patrocínio
e seu amigo e companheiro
de lutas, o poeta Olavo
Bilac
Enfim, os negros foram os únicos
que lutaram do princípio ao fim. E é neste sentido que o
13 de maio foi, também, uma vitória negra. E uma vitória
espetacular. Mas é óbvio que, para isso, foi necessário
que entrassem em campo, na segunda metade do século 19, os liberais
abolicionistas, disseminando as suas idéias no conjunto da sociedade
brasileira. E é justamente aqui que se projeta a figura de Joaquim
Nabuco, atacado pela elite brasileira de então como “traidor de
sua classe”.
Nabuco tinha uma visão completa
e complexa do processo. Discursando cinco anos antes da Lei Áurea
, ele dizia que libertar os escravos era apenas a tarefa imediata do abolicionismo.
A meta maior do movimento – “a do futuro” – viria depois disso.
Luta – Era apagar todo os
efeitos do regime escravista, visando a “reconstituição completa
do país”. E a luta não foi nada fácil. Resume o historiador
Luiz Felipe de Alencastro: “Nem o mais arguto analista
conseguiria então prever os desdobramentos do conflito. Tudo poderia
ter acabado num enfrentamento generalizado entre fazendeiros, capangas,
polícia, brancos pobres e imigrantes aterrorizados, de um lado,
contra abolicionistas, negros livres e cativos desesperados, de outro.
No final desse ‘pega-pra-capar’ em escala nacional, o Exército entrava
de sola, instaurando a via brasileira para o apartheid, teorizado pelos
‘racistas científicos do pedaço.”
E Alencastro continua certo ao dizer
que, tardio ou inconsequente, o 13 de maio permanece, ainda hoje,
como “o mais estrondoso maremoto” que varreu a sociedade brasileira: basta
comparar a audácia quilométrica dos abolicionistas com os
passinhos que vamos dando, atualmente, no terreno da reforma agrária.
Por tudo isso, é impossível
reduzir o 13 de maio a um mero autógrafo da princesa Isabel. Ou,
como certas leituras mais ingênuas e sectárias hoje declaram,
a uma grande armadilha social que as elites engendraram para entregar o
negro à sua própria sorte, ou a seu próprio azar.
O 13 de maio foi muito mais que isso, infinitamente mais. O problema é
que o abolicionismo cumpriu apenas a parte inicial do seu programa, a de
curto prazo.
Basta olhar em volta ou consultar
as estatísticas disponíveis. A situação atual
das massas negromestiças brasileiras mostra que não foram
apagados todos os efeitos do regime escravista. Que permanecemos vinculados
às estruturas mentais e materiais da ordem escravocrata. E que o
Brasil ainda é, em boa medida, como disse certa vez Oswald de Andrade,
um país de escravos que teimam em ser homens livres. Na verdade,
precisamos de um novo 13 de maio para abolir esse escândalo social.
As
relações de trabalho no Brasil
(Retrospectiva
até a chegada do trabalhador europeu)

O sistema colonial foi organizado
basicamente a partir do trabalho escravo, seja indígena ou negro.
A Igreja Católica opôs-se fortemente à escravidão
indígena, mas aceitava a escravidão negra. Os cálculos
variam muito, mas se estima que, entre 1550 e 1855, tenham sido trazidos
para o Brasil 4 milhões de escravos africanos. A resistência
dos escravos ao trabalho compulsório foi constante. Fugas,
suicídios, crimes contra os patrões e a formação
de quilombos foram formas de luta contra a escravidão. Somente em
1888, às vésperas da Proclamação da República,
foi abolida a escravatura. Isso ocorreu após fugas em massa, uma
grande movimento de apoio da população branca e fortes
pressões internacionais.
A imigração de colonos
europeus, intensificada a partir de 1850, após a Lei Eusébio
de Queiroz, que aboliu o tráfico negreiro, foi essencial para aumentar
o número de trabalhadores, necessários na lavoura e nas indústrias
que nasciam. A legislação trabalhista só foi organizada
a partir da década de 1930, definindo os direitos e os deveres de
empregados e patrões, organizando a estrutura sindical e a Justiça
do Trabalho.
Durante o processo de redemocratização,
surgiram no país duas centrais sindicais, que até hoje
dividem os sindicatos por defenderem linhas políticas distintas.
Paralelamente ao sindicalismo urbano, reacendem no campo os movimentos
pela reforma agrária, com destaque para o Movimento dos Sem-Terra.
Entre 1930 e 1945, Getúlio
Vargas (foto) criou um complexo esquema de vida sindical, que facilitou
o controle do Estado sobre o operariado e os patrões e criou uma
base de apoio a seu governo junto das classes trabalhadoras.
O sindicalismo, nas décadas
de 1950 a 1960, assumiu uma posição de maior influência
política na vida nacional. Mas o golpe militar de 1964 interrompeu
essa tendência, reprimindo fortemente todos os movimentos dos trabalhadores.
Na década de 1970, o movimento
sindical adotou um perfil mais independente, mas o Estado brasileiro
não tinha, nesse momento, nenhuma intenção de se aliar
aos trabalhadores. As manifestações, que inicialmente ocorriam
por motivos econômicos, passaram a incorporar também um caráter
de contestação ao governo.
A
opção pelo trabalho escravo
O
embrião da exploração capitalista no Brasil
Para tirar o
máximo de lucro de suas colônias e contornar sua escassez
populacional, a Coroa portuguesa precisou recorrer ao trabalho escravo.
Diante da falta de mão-de-obra para a exploração econômica
de um território imenso como o Brasil, a primeira saída encontrada
pelos colonizadores foi a escravização dos indígenas.
Mas essa estrátegia teve vida curta. A partir de 1550, a mão-de-obra
escrava do indígena foi substituída pelo trabalho do negro
africano. Economicamente mais atraente, o negro escravo permitia um lucro
duplo aos portugueses, que já ganhavam com o tráfico,
que trazia essa mão-de-obra da África.
Mão-de-obra indígena
A necessidade de braços para
cortar e transportar o pau-brasil para o litoral, logo após
o descobrimento, em 1500, fez com que os portugueses impusessem aos índios
o trabalho forçado. A partir de 1550, a decisão de incrementar
o tráfico da África para o Brasil tornou a escravidão
do negros mais interessante para a Coroa portuguesa.
Luta da Igreja Católica
Houve intensos conflitos entre jesuítas,
os colonos e a Coroa por causa do cativeiro indígena. Os missionários
queriam converter os índios para a doutrina cristã. Por isso,
os reuniram em aldeias, onde eram catequizados, rompendo sua estrutura
tribal e eliminando seus rituais e seus costumes típicos. Os índios
também trabalhavam nas roças e nas oficinas das reduções.
Muitas vezes, os jesuítas conseguiram que a escravidão dos
índios fosse proibida, mas até 1758 os colonos obtiveram
a anulação dos decretos. Naquele ano, a Coroa determinou
a libertação definitiva dos indígenas.
Os infames Bandeirantes
Com o desenvolvimento das atividades
agrícolas, aumentou a procura pelo trabalho indígena em toda
a costa brasileira. Essa necessidade estimulou muitas expedições
de bandeirantes à captura de índios, principalmente na região
dos atuais Estados de São Paulo e do Paraná.
Trabalho indígena na região
amazônica
Na região do Maranhão
não se encontravam escravos negros até o final do século
XVII.
Os colonos portugueses, que ali aportavam
em busca de enriquecimento, escravizavam o indígena. A forte oposição
dos jesuítas acabou em confrontos entre colonos e padres, e os maranhenses
expulsaram os jesuítas da região em 1661.
Escravidão africana
No século XV, os portugueses
também conquistaram a costa africana. Com o apoio de alguns chefes
tribais, deram início à captura de homens e mulheres para
o trabalho escravo. Esse comércio era feito na forma de escambo
– pessoas em troca de armas, pólvora, tecidos, espelhos, aguardente
e fumo. A escravidão negra também foi adotada na colonização
de outros países, entre eles os da região do Caribe e os
Estados Unidos.
Por que trazer homens e mulheres
da África?
A boa experiência com o trabalho
africano na produção de açúcar em São
Tomé e na Ilha da Madeira, outras possessões portuguesas,
fez com que os senhores de engenho do Brasil pressionassem pela vinda de
escravos negros para suas fazendas. As longas viagens, a mistura
das tribos, as distâncias dentro do próprio território
e o temor dos constantes maus-tratos contribuíram para subjugar
os negros ao trabalho forçado.
Condições de aprisionamento
e viagens
A captura de negros no interior da
África era feita pelos chamados pombeiros, que voltavam de cada
investida com centenas de escravos. No litoral, os prisioneiros eram separados
em grupos indistintos e embarcados em diversos navios negreiros, também
chamados de “tumbeiros”, com destinos diferentes. A viagem de Angola a
Pernambuco durava no mínimo 35 dias.
Os negros vinham acorrentados em porões
superlotados, úmidos e com pouca ventilação. Pelo
menos 40% deles morriam durante o trajeto. As condições eram
tão desumanas que, em 1684, Portugal baixou uma instrução
criando condições mínimas para essas travessias. A
lei determinava uma certa quantidade de água para cada pessoa e
três
refeições diárias.
Mercado de escravos
Ao desembarcarem no Brasil, os negros
eram reunidos em grandes galpões. Era preciso melhorar sua aparência
física, antes de serem vendidos: recebiam alimentação
especial para recuperar o peso perdido durante a viagem. Para ficarem
mais vistosos, seus corpos eram besuntados com óleo de palma e suas
gengivas e dentes eram esfregados com raízes cítricas. Tinham
as cabeças raspadas e eram marcados com um ferro a brasa no ombro,
na coxa ou no peito.
Havia leilões públicos
de lotes de escravos e seus preços variavam conforme a demanda ou
a caracterização do grupo – homens e mulheres fortes valiam
mais do que crianças ou idosos. As vendas também eram feitas
diretamente ao fazendeiro, por encomenda e com preço previamente
fixado.
Igreja Católica:
nada contra a escravidão de negros
Contrária à escravização
dos índios, a Igreja Católica nada fazia contra a escravidão
negra. Ao contrário, mantinha seus próprios escravos. Nicolau
V, Papa de 1447 a 1455, chegou a assinar uma ordem dando aos portugueses
a exclusividade da captura de escravos negros da África. Essa posição
repetiu-se em 1456 e em 1481, com os Papas Calixto III e Sixto IV.
Estratégias de “amansamento”
Enquanto esperavam pelo leilão
nos galpões, muitas vezes os negros, ainda não domesticados,
eram obrigados a presenciar um açoitamento no pelourinho para se
intimidar. Os castigos físicos eram comuns nas propriedades, mas
só aplicados contra os negros que não se submetiam ao trabalho
forçado.
Condições de vida
e trabalho
O escravo do engenho de açúcar
tinha um ritmo de trabalho pesado. Do corte de cana à moenda e aos
tachos, o senhor controlava cada passo de seus homens. A vida dos escravos
domésticos era um pouco menos árdua. Alguns escravos especializavam-se
como carpinteiros, pedreiros ou pintores de parede, e podiam ser alugados
por seus donos para serviços em outras propriedades. Algumas escravas
contribuíam para a riqueza de seu dono saindo às ruas com
um tabuleiro de doces ou com rendas para vender. Muitas vezes, podiam ficar
com parte do dinheiro que economizavam para comprar sua alforria.
Resistência e quilombos
Os negros africanos não aceitaram
passivamente a escravidão. Por isso, os senhores se preocupavam
em resgatar os fugitivos, castigar os rebeldes e manter funcionários
livres para conter os escravos. Havia muitas formas de rebelião
individual: fugas, suicídio, uso de magia negra ou envenenamento
do senhor. Em casos mais radicais, um escravo enraivecido podia até
matar o feitor ou o seu proprietário. Os quilombos começaram
a proliferar no século XVII. Neles, os negros cuidavam de suas próprias
lavouras e até comercializavam produtos nas cidades mais próximas.
O tamanho dessas comunidades variava, indo de algumas centenas de homens
e mulheres até cerca de 30 mil pessoas.
Quilombo dos Palmares
Localizado no sul da Capitania de
Pernambuco, hoje Estado de Alagoas, o Quilombo dos Palmares foi o mais
famoso entre os redutos de negros fugidos. Surgiu no final do século
XVI, após uma revolta de escravos em um engenho no sul de Pernambuco.
Foi destruído em 1694.
Decadência do sistema escravagista
As pressões inglesas para
acabar com o tráfico negreiro a partir do fim do século XVIII
se intensificaram ano a ano. Os ingleses começaram a se importar
com o conceito de igualdade após a Revolução Industrial
(cerca de 1750). Isso porque, para ampliar o mercado consumidor
de seus produtos manufaturados, era necessário multiplicar também
o número de trabalhadores assalariados.
Antecedentes da abolição:
Em 1826, a Inglaterra conseguiu do
Brasil um tratado que, três anos após a sua ratificação,
declararia ilegal o tráfico negreiro. Esse esforço, porém,
não vingou e a lei não foi cumprida.
Em 1846, o Parlamento inglês
aprovou o chamado Bill Aberdeen, que legitimou o ataque a navios negreiros
como se fossem embarcações piratas.
Em 1850, o então ministro
da Justiça, Eusébio de Queiroz, apresenta ao Parlamento um
projeto de lei para acabar com o tráfico negreiro. O projeto converteu-se
em lei em setembro do mesmo ano.
As revoltas e fugas foram se multiplicando,
tornando a repressão cada vez mais difícil.
A partir de 1870, os escravos começaram
a receber ajuda da população urbana, incluindo brancos abolicionistas.
Após 1874, a população escrava do Brasil diminuiu
consideravelmente. A média geral desse declínio nos dez anos
seguintes foi de 19,5%.
A
transição para o trabalho livre
Chegada do imigrante
europeu
A imigração
oficial começa no início do século XIX, com a chegada
de suíços e alemães, que se dirigiram às serras
dos atuais Estados do Rio de Janeiro, do Espírito Santo e do Rio
Grande do Sul. Essas regiões lembravam sua terra natal. Fundadas
antes de 1850, essas colônias serviram de modelo para muitas outras
que se baseavam em pequenas propriedades.
Quem colhe o café?
As dificuldades econômicas
e políticas na Itália, na segunda metade do século
XIX, facilitaram as imigrações para o Brasil. A elite agrária
brasileira, consciente dos novos rumos que surgiram após a
extinção do tráfico negreiro, em 1850, fez aprovar
no mesmo ano a Lei de Terras. O acesso às propriedades não
se daria mais por doação do Estado, como acontecera com as
antigas sesmarias, mas somente pela compra. A legalização
da posse das terras e o seu registro passaram a ser obrigatórios
e complicados.
O sistema de parceria
Os primeiros colonos europeus que
chegaram ao País para trabalhar nas fazendas de café tinham
contratos de parceria. Nesse sistema, os colonos cuidavam dos cafezais
e dividiam lucros ou prejuízos com o dono da propriedade. Viviam
em casas muitos simples, recebiam um pequeno terreno para plantações
de subsistência e criação de animais. A disciplina
era muito rígida – as correspondências eram censuradas e os
trabalhadores, proibidos de sair da fazenda, geralmente faziam compras
no armazém da fazenda, endividando-se sempre. Essa situação
gerou revoltas, como a que ocorreu em 1856 na Fazenda Ibicaba, na região
de Limeira, no Oeste Paulista.
Os imigrantes chegam em massa
Em 1871, o governo provincial de
São Paulo retomou os esforços para aumentar a imigração.
Em 1886, foi criada a Sociedade Promotora da Imigração e,
em 1888, inaugurou-se a Hospedaria de Imigrantes, no Brás, com lugar
para 4 mil pessoas. Além de expandirem a agricultura, os imigrantes
aumentaram a população das grandes cidades, atuando como
comerciantes e artesãos e formando a base dos trabalhadores da indústria
que nascia.
Um país de muitas faces
Os estrangeiros mais numerosos no
Brasil foram os italianos. Dos cerca de 1 milhão que chegaram ao
Brasil, a maior parte ficou em São Paulo, trabalhando nas lavouras
ou nas indústrias, chegando a formar o maior contingente operário.
No campo, a organização de cooperativas agrícolas
fortaleceu bastante a produção da pequena propriedade. Os
alemães também se destacam nas pequenas propriedades do Sul
do país.
Nova vida cultural
O grande número de estrangeiros
de diferentes nacionalidades resultou em uma cultura cosmopolita. Cada
grupo que aqui se estabelecia fazia questão de manter as suas tradições
e os seus costumes. Com o tempo, muitas peculiaridades européias
foram se mesclando à realidade mais descontraída do brasileiro.
Formação do operariado
Na segunda metade do século
XIX, funcionários da construção civil, portuários,
ferroviários, gráficos e empregados da iluminação
tornaram-se o grupo assalariado mais numeroso do Brasil. Os setores
de serviço e comércio mantiveram-se na liderança até
perto de 1920. A indústria cresceu lentamente, o que manteve reduzido
o número de empregados no setor.
A luta por melhores condições
As exigências ao operário
não tinham limites: a jornada de trabalho passava de 12 horas diárias;
a convocação noturna valia para todos; crianças eram
empregadas sem critérios e com salários menores. A proporção
de imigrantes nas fábricas era muito alta e a influência das
idéias socialistas e anarco-sindicalistas trazidas da Europa contribuíam
para a organização de movimentos em defesa de salários
mais altos e melhores condições de trabalho.
Primeiras manifestações
Apesar de em pequena escala, greves
pipocaram pelo país desde 1889, conseguindo alguns resultados localizados.
Em 1912, surgem em todo o país movimentos de protesto contra a alta
do custo de vida e os baixos salários. No ano seguinte, um comício
no Largo São Francisco, em São Paulo, reuniu 10 mil
pessoas.
A greve de 1917
A crise operária culminou
com uma greve que parou São Paulo e se alastrou pelo país,
em 1917. Cerca de 70 mil trabalhadores cruzaram os braços em todo
o país. O governo reprimiu todas as iniciativas e, até 1922,
fechou 50 organizações operárias, prendeu 657
trabalhadores em greves, deportou 31 líderes e expulsou 128 ativistas
do território nacional.
Nada
há de novo sob o sol; tudo o
que aconteceu voltará a acontecer...
Rei Salomão - Eclesiastes - Bíblia
Sagrada
Assim, concluindo essa página,
onde trabalhamos reunindo antigo e variado material de revistas e enciclopédias
da excepcional Editora Abril, a editora que mais contribuiu para a cultura
no País até hoje, além da Editora Brasil América
(EBAL), lembramos ao leitor de que já há algum tempo esse
domínio capitalista está voltando aos poucos, talvez sem
que muitos se apercebam. Por exemplo, dado ao problema do desemprego, hoje
o patronato dita as regras a seu bel prazer, com a conivência do
Governo - lembrando que o atual presidente da República era, até
a época que criou o PT, com o pico do sindicalismo no Brasil, um
operário. Hoje não se pagam mais horas extras, mas elas ainda
são exigidas a troco de um "banco de horas". As férias vencidas
têm até um ano para serem pagas pela empresa, os sindicatos
pipocam por cada esquina, mas pouco fazem pelos sindicalizados e o trabalhador
é obrigado a aceitar o que lhe oferecem.
Com a entrada do negro no mercado
de trabalho (embora que poucos conseguem um bom trabalho), o ímpio
sistema capitalista está, aos poucos, se voltando novamente para
os índios e muitos miseráveis nordestinos, onde é
explorado o trabalho de crianças e, quanto ao índio, por
terem lhe tomado, não só as terras, mas a própria
razão de viver, ele é novamente subjugado pelo branco e,
pela sobrevivência, trabalha sem as mínimas condições
e recebendo menores salários do que os brancos. A Terra gira e a
maldade, a ganância e a consequente falta de amor ao próximo,
acompanham seus giros... |