Non creo em brujas; pero que las hay, las hay!
Até onde pode ir a imaginação humana?

 
 

  A incrível frase em espanhol que dá título a esta matéria, e que eu nem imagino quem a criou, é a abertura mais apropriada para se falar do folclore brasileiro. O folclore, como todos sabem, é o aportuguesamento da palavra inglêsa “folk-lore”, e significa Povo e Conhecimento  (ou costumes de um povo). 
 O povo brasileiro, pela mistura de raças, é rico em crendices, todas incorporadas ao nosso folclore.  E não pensem que folclore é coisa de criança, da época em que nossas mães nos assustavam com o tal do Bicho Papão.
  A gente cresce e, obviamente, deve pensar que papões, bruxas e duendes maus ficaram na infância, junto com o Noel e o coelhinho de Páscoa... Ledo engano. Adultos dizem não acreditar em assombrações ou fantasmas, nem em discos voadores, mas lá dentro, sem dar com a língua nos dentes, o sujeito fica com um pé na frente e outro atrás, como a frase acima.
  Mas a frase é até divertida e pode ser levada na brincadeira, mas aí vem o tal do Shakespeare e diz que “há mais mistérios entre o Céu e a Terra que a nossa vã filosofia possa imaginar”...E isso, mesmo sem sermos filósofos, nos leva a perguntar: será? Talvez...Quem sabe?
  Quando se fala em folclore, e levando a palavra ao pé da letra, a gente pode achar que é coisa de índio ou de caboclo. Mas o que me levou a escrever este artigo, é que antes – e além do folclore, existe a crendice, as superstições. O dicionário coloca as crendices e superstições na área do folclore (e é claro que são), como coisas tolas e absurdas. Será?
  Enfocando primeiro nosso folclore, talvez a lenda  mais popular seja a do Saci Pererê,  que tem só uma perna, um boné vermelho, fuma cachimbo e costuma dar nós nas crinas dos cavalos, para se divertir. Outro negrinho famoso é o Negrinho do Pastoreio. Segundo uma lenda do Rio Grande do Sul, por ter perdido um cavalo do seu patrão, ele foi amarrado pelo cruel homem sobre um formigueiro e ali deixado até morrer com as picadas das formigas. Quando chamado, ele ajuda os vaqueiros a encontrar reses perdidas. A lenda até virou canção e inclusive foi gravada por Belmonte, da dupla Belmonte e Amarai, em solo no elepê Jóias da Música Brasileira.
 Já a mulher que namora padres,  segundo nosso rico folclore, nas noites de lua-cheia, vira  A Mula-sem-cabeça (desenho ao lado, na interpretação da artista plástica Julia Arantes, que também é a autora do desenho abaixo, do Caipora). E dizem que o animal é assustador e até solta fogo pelas ventas. Daí eu me pergunto: como solta fogo pelas ventas, se não tem cabeça? Teria que se fazer um estudo antropológico sobre a lenda, para saber.

  Do lado dos índios, que têm em sua cultura diversas lendas, uma bem conhecida nossa é a da linda mulher que aparecia cantando no rio e atraia os inocentes índios com seu canto e sua beleza, matando-os assim que entravam na água. Seu nome é Iara.  Na região nordeste do Brasil, surgiu a lenda do peixe que se transformava em um belo homem nas noites enluaradas e engravidava as moças das aldeias ribeirinhas. O esperto personagem da lenda é conhecida como o Boto Cor-de-rosa.  Nossos índios e os sertanejos, claro,  foram os que mais contribuiram para enriquecer o folclore brasileiro. Do sertão surgiu a lenda de um ente fantástico que vivia na floresta e que podia assumir várias formas. Uma delas é a de um homem enorme e nú, montado num porco do mato. Para agradá-lo era preciso oferecer fumo de corda. Ele é chamado de Caipora.
Outro ente da floresta, que segundo os índios, é protetor dos animais da selva, é o Curupira, que tem os pés virados para trás, e com isso engana os caçadores, dando-lhes falsas pistas. 
 O Lobisomem, apesar de pertencer ao folclore de outros povos, também faz parte do nosso. Segundo o imaginário popular brasileiro, o casal que tiver sete filhos, sendo todos do sexo masculino, o último certamente virará lobisomem em noite de lua cheia. E ainda de acordo com a lenda, se o casal, ao invés de  filhos, tiver sete filhas, a última se transformará numa bruxa.
  Para o povo que até meados do século passado vivia às margens do Rio Tietê, conhecidos como “barranqueiros”, o pio da coruja (ou rasga-mortalha, como era chamada) significava desgraça na certa. Já na região de Mineiros do Tietê, perto de Jaú, interior do Estado de São Paulo, existe a lenda centenária de um homem assustador e perigoso que vive num local chamado de Mata da Pedra Branca. Ele é conhecido como  O Unhudo, e já rendeu várias reportagens, até na televisão.
 Outra lenda regional, vinculada ao Rio Tietê também, é a de um ser demoníaco, de pele escura, olhos vermelhos e dentes serrilhados e grandes garras, que atacava os canoeiros, virando a embarcação e os matando no fundo do rio. Ele é o temido  Caboclinho D’ Água.
 Em Minas Gerais existe a crendice que, se um homem deitar-se em noite de lua cheia no local onde um cavalo estivera deitado à pouco, também pode virar um  pavoroso  Lobisomem.
 Mas se as pessoas pensam que lendas são apenas coisas de antigamente, criadas pela imaginação inocente de sertanejos e índios, engana-se, pois recentemente o imaginário popular criou uma lenda sobre um animal terrível, que andou atacando vários sítios pelo interior de São Paulo, e também virou notícia na mídia. Não se sabe quem colocou-lhe o estranho nome de Chupa-Cabras, mas ele atacava mais era os galinheiros dos sítios.
  Mas não pense que isso é coisa de países de 3o Mundo não. Nos EUA, por exemplo, existe a lenda do Big-foot (Pé grande); na Escócia tem sujeito que jura de pés juntos que já viu o monstro de Loch Ness e, além disso, na década de 70, se bem me recordo, a mídia explorou a mais não poder a lenda do Abominável Homem da Neve.
  Bem, nessa altura, se você leu até aqui, deve estar se perguntando:  aonde esse cretino desse editor do GNT quer chegar? Já sei de tudo isso e hoje, quando filmes como O Massacre da Serra Elétrica, Sexta-Feira 13 e Jogos Mortais, entre outros, deliciam crianças e jovens, quem vai acreditar em Sacis, mulas e lobisomens?
 Mas é justamente aí que eu quero chegar. Crianças, jovens e adultos assistem a esses filmes horríveis, onde parece que ao fim até o diretor é morto, e não têm medo. Mas não têm medo ali, entre um punhado de gente. Agora pegue qualquer um desses e mande ele passar sozinho, ali pela meia-noite, perto de um cemitério, por exemplo. O sujeito vai se assustar até com uma folha arrastada pelo vento!

 Então, é nossa imaginação e mais o medo que todos trazem entranhado dentro de si, é que fazem o sucesso de tais filmes. Hoje até fazem filmes com vampiros e lobisomens como heróis. Mas o Drácula de Stoker, personificado pelo ator Cristofer Lee (foto ao lado), arrepiou gerações. Os homens não queriam jamais encontrá-lo e as mocinhas morriam de medo de levar uma dentada fatal no pescoço.
  Se assim não é, porque muitos ainda hoje juram que viram ou andaram num OVNI e existem até institutos de estudo da Ufologia? Varginha, em Minas Gerais, transformou seu Etezinho em atração turística, e não vem isso do imaginário popular? Se não há provas reais da existência de extra-terrestres, porque a maioria fica olhando para o céu na esperança de ver um “prato” voador?
  Então, não importa se Brasil, Peru, Europa, Japão ou EUA, e não importa em que época, a imaginação do homem, aliada ao medo do desconhecido, do inexplicável, sempre será propícia aos sacis, bruxas, fadas, Ets, vampiros e lobisomens. Não esquecendo que, se hoje o homem pode acreditar em Ets, na Idade Média a própria igreja católica acreditava em bruxas...e mandava para a fogueira a coitada da mulher que tivesse o azar de, por exemplo, ter um gato preto em casa.
  Você pode até achar esta matéria imbecil, assim também como quem crê em entes do mal, e chamar de malucos os caras que acreditam em discos-voadores, mas saiba que na Bíblia, no livro do profeta Ezequiel, ele vê  quatro grandes rodas, cheias de olhos ao redor e que pairavam no ar. E as rodas eram brilhantes como o berilo (uma pedra preciosa), e as quatro tinham a mesma aparência e sua estrutura era como se estivessem uma dentro da outra... (Bíblia Sagrada - Ezequiel: capítulo 1, versículo 15). E também nas próprias Escrituras Sagradas, aparece o nome “fantasmas”!
  Assim, pelo sim, pelo não, vou optar pela frase do início deste artigo:  “Não creio em bruxas; porém, que elas existem, elas existem!”

Fontes: Livros Barrancas do Tietê e Das Barrancas aos Paralelepípedos, de Ademar Roberto Silva. 
Desenhos de Maria Julia - Fotos divulgação.


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