|
I
Um dos homens mais
ricos e poderosos do estado de São Paulo, ou segundo deduções
de alguns economistas, do País, ao completar setenta anos, resolveu
convidar algumas pessoas para comemorar seu aniversário. Até
então suas festas eram esplendorosas, com a participação
de toda a nata da sociedade, da cidade, do estado, do país e até
de outros países, tal era a exuberância de sua fama e riqueza.
Porém, desta
feita, o poderoso empresário iria convidar apenas quinze pessoas
para a festa de seu aniversário. Os convites, impressos na melhor
gráfica do estado, todos em letras douradas e tendo fios de
ouro como ornamentos, foram entregues um por um aos quinze
convidados especiais.
Assim, foram convidados
dom Giuzeppe, bispo da região, responsável por dezenas de
paróquias; o pastor Clemildo, de uma denominação religiosa
local; Roberto, gerente da agência do banco local; o vereador
Salgado, da Câmara Municipal; o fazendeiro - e também
prefeito da cidade de Fariséia, Fernando Silva; Igor Santalucia,
proeminente cientista do estado; o soldado Fagundes, do destacamento militar
da cidade; Alcebíades, deputado estadual; Luiz, presidente de um
clube filantrópico; a bem informada Margarida, colunista social
do jornal da cidade; João Paulo, dono de uma poderosa emissora de
tevê; o advogado Roberval; a beata Clarice, uma senhora religiosa,
de grande influência na comunidade; José, funcionário
de uma das várias empresas do poderoso homem; e, por fim, o Benedito,
um cidadão sem profissão definida.
Sem que nenhum convidado
ainda soubesse do outro, todos se sentiram honrados em ser convidados para
a festa de aniversário daquele homem. Eles já sabiam que
na mansão daquele empresário já havia pisado artistas,
embaixadores, chefes de estado, enfim, as maiores personalidades deste
e de outros paises. Portanto, a honra era infinda. Apenas Benedito não
havia entendido a razão do convite. Todas as outras pessoas se julgavam
merecedoras daquela honraria, mas Benedito, homem comum, embora muito conhecido
na cidade, pois era uma pessoa simpática, dada com todos e, principalmente,
fanático por futebol e pescaria, não entendeu porque fora
lembrado por tal homem tão poderoso. Ele nunca havia pisado ou sequer
passado perto da mansão daquele homem e tampouco se julgava
à altura nem para cortar a grama dos jardins da propriedade daquele
milionário. Era realmente estranho tal convite. Dando de ombros,
procurando não cansar o cérebro com suposições,
ele resolveu aceitar. De uma forma ou outra, era uma "boca-livre" e que
boca, imaginava Benedito. Quem estava acostumado com churrasquinhos de
final de semana jamais poderia desperdiçar uma chance daquela.
II
E finalmente chegou
o grande dia, na opinião dos quinze convidados. Era uma sexta-feira
e, de acordo com as brilhantes letras do luxuoso convite, era aguardada
a presença de todos na mansão às dez horas da noite.
Todos eles, claro, colocaram suas melhores roupas. José, o funcionário,
gastou o último centavo do seu salário na compra de um "smoking"
e Benedito, com sua lábia, fez com que uma das lojas da cidade lhe
vendesse a roupa para pagar em prestações à perder
de vista.
Às dez horas
em ponto, os carros, a maioria guiados por motoristas particulares ou funcionários
públicos, começaram a despejar seus valiosos passageiros
à entrada da mansão. José e Benedito, embora tivessem
carros, sentiram que estes eram um pouco velhos para ser vistos nas redondezas
da riquíssima mansão, e também resolveram ter seus
próprios motoristas particulares. Foram de taxi.
A mansão,
que ocupava infindáveis alqueires, ficava fora da cidade. Circundando
toda a propriedade, altos e arrogantes muros e, dentro dos muros, por entre
os imensos jardins, guardas armados passeavam com seus ameaçadores
"dobermans" protegendo toda aquela ostentação de poder e
riqueza.
Verificados pelo
chefe da guarda todos os convites, e identificados seus portadores, os
quinze convidados foram introduzidos na imensa sala da mansão e
as portas foram fechadas após eles. Novamente somente Benedito raciocinou
sobre aquilo. Os demais convidados estavam demais envolvidos com o brilho
da ocasião - e pelo seu próprio brilho. Benedito achou estranho
ter apenas aquele punhado de pessoas presentes à festa de aniversário
do tal poderoso homem, e mais ainda constar no convite que acompanhantes,
mesmo maridos ou esposas, eram proibidos. Ele era separado e, pelo que
sabia, outros dois convidados, Margarida e o vereador Salgado, dono de
uma rede de supermercados, também o eram. Os religiosos eram solteiros,
a beata e o dono da emissora eram viúvos e o prefeito e o
deputado, eram casados, como também o soldado e o funcionário
José. Do filantropo Luiz, do gerente do banco, do advogado Roberval
e de Igor Santalúcia, ele nada sabia. Mas assim que um mordomo impassível,
trajando roupas impecáveis que pareciam jamais ser portadoras de
uma insignificante dobra, aproximou-se com as bebidas, Benedito esqueceu-se
de suas pequenas ponderações.
Como sempre acontece,
o grupo rapidamente se desfez em subgrupos. Os dois religiosos começaram
a falar sobre religião; os políticos e mais o dono da emissora
de tevê, se agruparam do seu lado, falando sobre política;
o gerente do banco procurou tecer comentários com Igor sobre os
últimos avanços da ciência; mas o cientista estava
deslocado e não deu atenção a Roberto, que acabou
indo se juntar ao grupo onde estava o prefeito. O presidente do clube filantrópico,
o advogado, a colunista social e dona Clarice, que não tirava os
olhos encantados de sobre o bispo, se juntaram de um lado, falando amenidades;
e por fim, em outro canto, se juntaram o soldado Fagundes, o funcionário
José e Benedito, falando sobre mulher, futebol e pescaria.
Assim, todos devidamente
locados, à exceção do cientista, bebericavam e zunzuavam,
observados silenciosamente pelos imensos candelabros de cristal que pendiam
luminosos do teto da sala da mansão, pelas luxuosas cortinas carmins
que cobriam as imensas janelas do salão e pelos quadros de Vincent
Van Gogh e Francis Bacon, que ornavam as brancas paredes. No centro da
sala, numa grande mesa cercada por quinze cadeiras, no melhor estilo
clássico inglês, a prataria emitia os reflexos da abastança.
Cerca de vinte e
cinco minutos depois, o taciturno mordomo, apenas monossilibando um por
favor, acompanhado de um gesto direcional, convidou-os para tomarem lugar
à mesa. Depois que todos já estavam sentados à mesa
e um silêncio meio desconfortante foi se interpondo entre as palavras
dos assuntos que já pareciam se esgotar, o som da quinta sinfonia
de Beethoven foi tomando conta do ambiente. No começo, quase inaudível
e depois foi crescendo, mas sempre mantendo um volume aceitável.
Alguns gostaram da sonoridade da música; outros, não. José
e Benedito gostavam mais de um som de pagode e Margarida, que jamais
confirmaria isso em público, pois posava de intelectual assinando
a coluna social do jornal, gostava mesmo era da música das duplas
sertanejas.
A música do
gênio alemão foi executada três vezes, initerruptamente,
levando alguns dos quinze convidados a ficarem alienados ainda mais do
sentido de tudo aquilo e outros a se irritar, pela repetição
já monótona. Apenas Margarida, querendo mostrar seus dotes
intelectuais, começou a explicar para Roberval que o músico
procurou, através daquela composição, retratar a chegada
da morte na crueldade e insanidade da guerra. Roberval, que estava mais
preocupado com uma ação judicial para a segunda-feira seguinte,
pouca atenção deu à jornalista.
A música então
parou repentinamente, mergulhando o salão num pesado silêncio.
Os convidados para a festa se entreolharam, sem nada entender. Agora todos
eles, tal como Benedito no início, estranharam o clima denso que
estava sendo criado, em nada parecido com uma alegre e descontraida festa
de aniversário. Então potentes caixas de som emitiram a saudação
do anfitrião. Não se via a aparelhagem de som e tampouco
o dono da mansão. Apenas se ouviu sua voz calma, pausada e forte,
apesar dos seus setenta anos de idade. Igor ponderou consigo mesmo
que a voz era um tanto rouca e parecia um pouco cansada, mas sendo de um
velho de setenta anos, estava dentro da normalidade.
- Boa noite, senhoras
e senhores. Agradeço imensamente terem aceitado meu convite para
esta festa, se é que podemos chamar assim esta reunião de
um grupo tão especial.
Margarida deu um
sorrisinho vaidoso e o prefeito piscou para o vereador. Benedito olhava
para a enorme porta de mogno, por onde vira o mordomo passar antes,
na esperança de vê-lo entrando com a comida. Afinal já
eram quase onze horas da noite e seu estômago dava mordidas no vazio,
sentindo que àquela hora, até um pão com mortadela
seria bem-vindo.
- Como meus convidados
podem notar, quis comemorar meus setenta anos de uma maneira especial.
Não mais com as grandes festas que costumava fazer, convidando centenas
de pessoas. Desta vez resolvi convidar apenas pessoas que, de uma maneira
ou outra, representassem todo nosso universo humano. Assim, decidi que
dezesseis pessoas, incluindo a mim mesmo, representariam todas as demais,
desde pessoas da nossa comunidade, até pessoas de outras cidades,
estados e países. Enfim, uma representação miniaturizada
deste nosso sofrido Planeta. Aqui nós temos dois religiosos e ainda
a senhora Clarice, que bem representam a área da religião;
temos o representante do nosso capitalismo, e outros, das ciências
e da política; temos os comunicadores, o jurídico e
o policial, o filantropo e, é claro, meu bom José,
funcionário de uma das minhas empresas; e por fim, aqui também
está o senhor Benedito, figura muito conhecida em nossa cidade e
que representa o homem comum.
José, de olhos
semicerrados e sorriso no rosto, estufou o peito e ajeitou-se orgulhoso
na cadeira. Afinal, tivera a honra de ter seu nome citado pelo homem
mais rico e poderoso de todo o estado e que, felizmente, era seu patrão.
José só o conhecia por fotos, sem jamais ter tido a oportunidade
de vê-lo pessoalmente. E agora, quanta felicidade. Ali estava, sentado
à mesa daquele poderoso empresário, sentindo ainda ressoar
nos ouvidos seu nome citado por ele. "Meu bom José..."
Benedito, irritado
com a fome, de nada gostou de ser classificado como homem comum. Gostaria
de ter gritado quando viria a comida, mas, para não dar vexame,
preferiu alisar nervosamente o bigode e se calar.
III
Após uma pequena
pausa, a voz do anfitrião retumbou novamente no salão de
festas da mansão.
- Hoje completo setenta
anos de idade. Setenta anos...com tal idade você já viu e
viveu tudo nesta vida. Nasci de uma família pobre, trabalhei e estudei
muito e há muitos, muitos anos, comecei meu império. Primeiro
foi uma pequena indústria, que depois virou uma multinacional...na
sequência investi numa empresa de transportes e depois imóveis
e assim por diante. Creio que parte dessa história todos vocês
já conhecem.
Os convidados anuiram
com a cabeça, num respeitoso silêncio que só era quebrado
pelos roncos famintos do estômago de Benedito. O milionário
continuou:
- Minha luta foi enorme,
tanto para crescer, como para manter o que havia conquistado. Subornei
autoridades corruptas, destrui concorrentes, ajudei políticos a
chegarem ao poder, pois minhas empresas precisavam de lobistas lá
em Brasília...enfim, fiz tudo que era ruim, sob a ótica dos
padrões morais e religiosos. Dizem que é preciso ir ao inferno
para ver Deus...Pois eu fui ao inferno e somente encontrei almas penadas,
como a minha mesmo. Descobri que o homem é realmente o lobo do próprio
homem e que na Terra se fazem leis, mas não se pratica a justiça.
Como escreveu um humorista certa vez, a justiça dos homens é
cega, surda e manca.
O milionário
fez nova pausa e quase que o advogado Roberval o interpelou, pois acreditava
piamente no adesivo colocado em seu carro e de seus colegas de profissão,
cuja frase dizia que Sem advogado não se faz justiça. Porém,
como era o único jurídico no local, resolveu engolir o que
para ele era um insulto, e atentou para a retomada do monólogo do
anfitrião. Quando o sujeito saisse do seu esconderijo e viesse para
a mesa, Roberval iria provar a ele que a justiça dos homens, baseada
em códigos constitucionais, era perfeita.
- Eu conclui que nunca havia
ido ao inferno, pois eu era meu próprio inferno e, segundo Sartre,
também o inferno dos outros. Assim, quando percebi que eu era meu
próprio demônio, já era tarde demais. Estava na época
com 67 anos de idade e era corroído por um câncer que, segundo
meus médicos, me permitiria viver mais ou menos uns três anos.
Todos os 15 convidados
se entreolharam abismados. Pelo que puderam entender, o milionário
não os convidara para uma festa de aniversário, e sim para
uma festa de despedida.
- Se vocês já
fizeram uma soma mental, ao comemorar hoje meu septuagésimo aniversário,
estou festejando minha própria morte. Apesar de todos os males que
causei, jamais fui castigado pela ignóbil justiça humana,
pois meu dinheiro sempre comprou homens que, por menos que paguei por eles,
sempre tiveram um preço muito alto. Mas eu fui julgado aqui na Terra
e condenado pela única, verdadeira e incorruptível Justiça:
a de Deus. Meu castigo não foi a dor do câncer e nem a ciência
da morte, e sim a consciência das minhas ambições e
consequentes maldades. E nem que eu fosse mil vezes mais rico do que sou,
não poderia fugir à Justiça divina e nem poderia subornar
a morte, que é a única justiça real no mundo dos homens
e tampouco me livrar do açoite da consciência do mal.
IV
Àquela
altura todos pareciam ter até parado de respirar, tão absortos
estavam com o monólogo do milionário. Até Benedito
esqueceu-se do estômago, prestando a máxima atenção
às palavras do homem. O bispo e o pastor, por sua vez, se entreolharam
rapidamente, com um semi-sorriso de aprovação. A eles parecia
que alí estava uma alma arrependida, confessando a todos os seus
pecados. Pela satisfação no rosto dos dois religiosos, parecia
que só esperavam o milionário decidir qual das religiões
ele iria abraçar doravante, pouco antes da morte atroz. Se bem que
ele era tão rico, que mesmo não se decidindo por uma ou outra,
daria uma boa fatia para cada uma...Eles cruzaram as mãos sobre
as barrigas (imensa a do bispo e esquelética a do pastor), e suspiraram
complacentes ante as pecaminosas confissões do milionário.
- Criei o inferno, vivi
nele e, infelizmente, só na proximidade da grande justiceira é
que encontrei Deus. Ou melhor dizendo, Ele quis me encontrar, creio eu.
Agora quero me absolver
dos meus pecados perante os homens, pois no tribunal divino não
sei se o serei. Já que de nada me adiantou minha fortuna, pois eu
não a usei para o bem e sim, na ambição de aumentá-la,
somente causei o mal, quero ainda em vida corrigir isso. Eu não
quero nenhum dos presentes que vocês me trouxeram, porém,
quero dar toda minha fortuna de presente a vocês!
Se até
aquele momento os 15 convidados pareciam não respirar, ao ouvir
aquilo eles pareciam que iam sufocar. Ninguém dava mostras que acreditava
nas últimas palavras do milionário. Todos os convidados olharam
os presentes que haviam trazido e de repente parecia a eles que tinham
trazido cada um uma simples gulousema para dar ao aniversariante que agora
lhes oferecia de presente uma doceria completa, com os mais saborosos doces.
Os que ainda seguravam o presente, colocaram o pacote discretamente no
chão. Sem nenhuma palavra, boquiabertos, olhavam na direção
de onde vinha o som da voz do anfitrião.
- Eu nasci aqui em Fariséia
e gostaria de deixar para a cidade toda a minha fortuna. Não quero
que ela fique nas mãos dos urubus do governo.
Ouvindo estas palavras,
o prefeito Silva quase babou, antevendo o que poderia fazer com toda a
fortuna do homem mais rico do seu Estado. Mas logo ele engoliu a própria
baba, ao ouvir a continuidade das palavras do milionário.
- Mas não existe
uma maneira legal de se deixar uma fortuna para uma cidade...e eu, como
sabem, não tenho descendentes. Desse modo, quero propor algo a vocês...aliás,
foi para isso mesmo que os convidei. Se vocês aceitarem minha proposta,
um de vocês, apenas um, irá herdar todos os meus bens.
Todos se mexeram na
cadeira, aflitos para saberem o que o milionário pretendia. Caramba,
pensou Benedito. Um deles iria faturar toda a grana do velho, só
bastando aceitar sua proposta. Então porque o maldito milionário
não dizia logo o que era e acabava com aquela angústia? E
todos praticamente pensavam igual a Benedito. A ansiedade parecia saltar
dos seus olhos e grudar na parede, de onde, presumiam, vinha a voz do milionário.
Este, parando de falar, parecia que absorvia toda a expectativa dos convidados
e saboreava cada segundo da ansiedade deles. Finalmente resolveu continuar.
V
- Pensei que algum de vocês
fosse me perguntar qual é minha proposta, mas já que não
o fizeram, vou explicar: nesta noite eu confessei todos os meus pecados
a vocês. Agora quero saber dos pecados de vocês!
Um frio estomacal generalizado
percorreu a barriga de todos os convidados. Eles estavam esperando muita
coisa, e a principal, claro, era meter a mão na fortuna daquele
homem. Mas nem imaginavam uma coisa assim. Agora todos estavam ainda mais
boquiabertos. Ninguém conseguiu murmurar uma única sílaba.
Ele continuou:
- Não quero ninguém
se ajoelhando e confessando hipocritamente os pecados que lhe forem convenientes
confessar. Eu não sou Deus para perdoar ninguém. O que eu
quero é formar um pequeno tribunal com vocês, ao qual poderemos
chamar de O Julgamento do Dia Final. Eu farei as acusações,
o advogado Roberval fará a defesa de vocês, e Deus será
o Juiz.
Roberval, irado,
talvez se esquecendo da possibilidade de herdar a fortuna do seu anfitrião,
ou acreditando que tudo aquilo era uma brincadeira sem graça, acabou
quebrando o monólogo.
- Desculpe, senhor, mas
creio que já é hora de acabar com esta comédia. Viemos
até aqui a seu convite, para a festa de seu aniversário,
sem imaginar que o senhor queria apenas brincar com nós. O que o
senhor está propondo é ridículo e eu me recuso a continuar
sendo feito de bobo!
- Porque você acha
ridículo, caro advogado?
- Porque com a lei não
se brinca. O que o senhor está propondo é um desrespeito
às leis constituidas deste país. E creio que já somos
um pouco crescidos para brincar de tribunal.
- A lei, ora a lei...para
que lei, se não há justiça? Além do mais, eu
não brinco, caro advogado. Vamos formar um tribunal aí nesta
sala e, repito, eu vou acusá-los e você vai defendê-los.
Deus será o Juiz de todos nós. Ah, sim, apesar de vocês,
causídicos, acharem tolo aquele que defende a sí próprio,
em seu caso você terá que assumir essa tolice, pois não
há outro advogado para defendê-lo.
- E eu serei acusado de
quê, caro senhor? - Quis saber Roberval, já com o rosto congestionado
de raiva.
- No momento exato você
saberá.
Roberval pensou um pouco,
talvez avaliando o grau de loucura do milionário, e em seguida observou:
- Digamos que eu aceite
esta brincadeira estúpida, cadê os jurados e testemunhas pertinentes
a cada caso?
- Vocês quinze serão
os réus, os jurados e as testemunhas.
Roberval desabotou o paletó,
soltou o nó da gravata que parecia fazer seu rosto ficar mais inchado
e vermelho ainda, e disse:
- O senhor é um louco!
Eu vou embora!
- Se eu fosse o senhor não
faria isso. Primeiro, todas as portas de acesso a essa sala estão
trancadas; segundo, lá fora existem mais de dez cães bravios
à solta, que o dilacerariam em poucos minutos; e terceiro, meus
guardas têm ordens de atirar em qualquer pessoa que tente sair daqui,
sem minha autorização.
VI
Todos os convidados
se levantaram horrorizados, alguns derrubando suas próprias cadeiras.
Assustados, eles falavam entre sí, sem ninguém entender ninguém.
O tumulto se generalizou, até que Alcebíades, fazendo uso
da sua posição parlamentar, gritou:
- Calma, amigos...calma!
- Mas como calma? - Inqueriu
a colunista Margarida - Esse homem está louco!
Alcebíades nem a
ouviu. Com olhar entre assustado e indignado, ele procurava pelas paredes
localizar de onde vinha a voz do milionário.
- O senhor está louco,
realmente! Por acaso não sabe que isso configura crime de sequestro?
- Ora, parabéns,
nobre deputado! - ironizou a voz - Para sua informação,
estou pouco me importando se isso é um crime ou não. Agora,
por favor, o senhor já é a terceira pessoa que me chama de
louco aí nessa sala...poderiam, por gentileza, usar outro adjetivo?
- Brincou.
- Mas o senhor disse que
ia dar sua fortuna a um de nós! - Lembrou o gordo bispo, suando
por todos os poros, apesar do ar condicionado. Pelo jeito ele pouco estava
se importando com as ponderações de Roberval e Alcebíades.
- E vou, senhor bispo...
E vou. Peço apenas que os senhores serenem os ânimos e voltem
a sentar, para eu poder falar sobre minha oferta. Vocês acham que
um homem de setenta anos, morrendo de câncer, teria alguma vontade
de brincar? Eu disse que vou doar todos meus bens a um de vocês,
e é isso que pretendo fazer, após nosso pequeno julgamento
de Nuremberg. Aquele que for julgado inocente – ou menos pecador nesta
noite, receberá todo meu dinheiro, jóias, carros, mansões,
indústrias, ações e tudo o mais que eu tenha. Ao encerrarmos
nosso simbólico julgamento, já que ele não terá
caráter oficial, como o advogado Roberval sabe, cada um de vocês
será liberado e poderá voltar ao seu lar em paz...se conseguir.
Ao ouvirem tais palavras,
os convidados ficaram mais calmos. Afinal, pensaram eles, se o sujeito
queria brincar um pouco, porque não brincar com ele? Nada de mal
poderia ser provado contra eles. Todos os quinze eram cidadãos íntegros,
trabalhadores e cumpridores da lei. Então, o que temer? E, por fim,
se o velho estivesse falando a verdade, como parecia estar, um deles tinha
a chance de sair dalí como um novo milionário. A oferta era
tentadora demais para ser olvidada. Todos se curvaram sobre a mesa e confabularam
num tom de voz quase inaudível com Roberval. Pouco depois este se
levantou e disse em tom irônico:
- Muito bem. Eu e os demais
convidados aceitamos a brincadeira.
- Fico feliz com isso e
com o coração menos pesaroso por vocês aceitarem tudo
como uma brincadeira. Que assim seja.
VII
O milionário
não disse nada por cerca de uns cinco minutos, enquanto observava,
através do circuito interno de tevê que mandara instalar para
a ocasião, que o grupo voltava a se acotovelar sobre a mesa, parecendo
trocar idéias entre sí. Então o milionário
interveio:
- Senhores e senhoras, já
passam das onze horas da noite e creio que devam estar famintos. O jantar
será servido neste momento e à meia-noite, em ponto, iniciaremos
o julgamento dos seus pecados!
Os convidados se entreolharam,
novamente sentindo um frio percorrer suas espinhas, mas como já
estavam mais calmos, lembraram-se da fome que assolava seus pobres estômagos.
- Comamos e bebamos, pois
amanhã um de nós estará milionário! - Brindou
o prefeito, fazendo um trocadilho, logo que o jantar foi servido.
Mas apesar da expressão
leviana, o jantar não foi alegre como se presume, fosse um jantar
grego. Todos estavam quietos, cabisbaixos e, claro, entremeando o cérebro
com dois pensamentos: de quais pecados poderiam ser acusados, que
era preocupante, mas que logo se diluia em cândida certeza de inocência,
vislumbrando o Nirvana proporcionado pela fortuna que cada um tinha a certeza
de ganhar.
- Pecado...não lembro
de nenhum, a não ser as maldades da infância, mas que não
chegam a ser pecados - Ponderou em pensamento João Paulo, o dono
da emissora de televisão. Em seus pensamentos já antevia-se
ainda mais rico, quem sabe comprando uma rede de tevê americana e
expandido seus negócios de telecomunicações por todo
o Planeta.
O pastor Clemildo
pensou que não mais teria de ficar coletando as poucas ofertas
dos fiéis de sua pequena igreja em Fariséia. Com a fortuna
que por certo iria ganhar, de acordo com seus pensamentos, iria construir
templos formidáveis pelas grandes cidades, que arrecadariam muito
mais ofertas, que dariam para construir templos em outros países
e que arrecadariam cada vez mais e mais.
O bispo, por sua vez,
ansiava uma oportunidade de sair da região e ir tomar conta de paróquias
de regiões maiores e mais abastadas, dirigindo a diocese de uma
grande cidade. Mas agora, herdando tal fortuna, não mais ansiaria
uma grande cidade, e sim o Vaticano! Porque não, pensava. De posse
dos bens do milionário, poderia comprar uma bela mansão em
Miami, colocar algum nos bancos e ainda sobraria dinheiro bastante, deduzia,
para garantir sua roupa de cardeal em Roma e, quem sabe, mais tarde, chegar
a papa?
Margarida, de olhos
semi-cerrados (e sem se descuidar do regime), saboreava o doce da sobremesa
e a certeza de já no dia seguinte ser a madame Margarida. Nunca
mais precisaria escrever colunas sociais rasgando seda para aquelas cocotas
pobres da socialite fariseiense.
Ela é quem
doravante iria aparecer nas colunas sociais, e não nas do pobre
jornal da cidade, mas nas colunas sociais do Rio de Janeiro, Paris e Mônaco.
A beata Clarice, que
era viúva, já se via em uma bela mansão, com piscina,
mordomo e outras mordomias, em pleno centro de Roma. Não mais ia
rodear padrecos do interior, já que, milionária, poderia
estar perto do papa!
Roberval, entre uma
garfada e outra, listava num pedaço de papel os nomes dos demais
convidados, acreditando piamente que seria muito fácil defendê-los,
mesmo num tribunal de verdade, já que conhecia quase todos, com
excessão do funcionário José e de Benedito, e os sabia
pessoas íntegras, pilares da sociedade fariseiense.
Porém, mesmo
julgando que derrotaria facilmente o velho milionário que queria
brincar de promotor público, sabia que provando a completa inocência
de um dos convidados, estaria também se auto-derrotando, pois ele
não iria ficar com a fortuna e sim a pessoa considerada mais inocente
(ou menos culpada), de acordo com os loucos parâmetros que com certeza
seriam adotados pelo velho maluco.
- Maluco e filhadaputa!
- Continuou a pensar Roberval, mordendo agora, não a comida do garfo,
mas a ponta do lápis. - Se eu ficar, o bicho come; se eu correr,
o bicho pega...desgraçado! Como é que posso me sair bem dessa?
Bom, eu posso fingir acaloradas defesas para eles e, para mim, eu faria
realmente um defesa verdadeira.
Pensando ser essa
a melhor saída, já que, é claro, Roberval também
queria meter a mão legalmente na fortuna do velho, ele se quedou
a pensar no que poderia fazer com tanto dinheiro. Primeiro, jogaria o diploma
fora, pois não iria precisar mais dele, como também não
precisaria mais se aporrinhar defendendo ninguém em um tribunal,
aguentando chateações de juizes mau-humorados, cheios de
sí, metidos a deuses. Segundo, é lógico, compraria
um belo iate e iria para uma ilha paradisíaca, de onde, cercado
por lindas garotas, comandaria todo seu império econômico.
Roberto também
pensava que, com aquela fortuna, poderia ter seu próprio banco
e não ser mais um gerentezinho de uma agência local, à
serviço dos poderosos banqueiros. Ele também se tornaria
um poderoso banqueiro e, com seu conhecimento, multiplicaria aquela fortuna!
O vereador Salgado nem se deu ao luxo de pensar muito. Ele já se
viu como prefeito, de imediato, e depois governador e presidente da República.
Aliás, o prefeito também pensava isso. Só que, como
já era prefeito, já galgou mentalmente os postos de governador
e presidente, não só do Brasil, mas quem sabe até
de outro país? O deputado Alcebíades já se viu em
pensamento recebendo a faixa presidencial e também pensou na sequência
em ser presidente de um outro país. Quem sabe os EUA? O dinheiro
era a mola mestra do mundo e ele agora seria um dos donos desta mola. O
deputado se deliciou imaginando-se brincando com as teclas do telefone
vermelho da Casa Branca. Por instantes chegou a pensar em sexo oral, mas
logo tirou o pensamento da cabeça. Como presidente dos Estados Unidos
da América, ele ia se dedicar a conquistar outros países.
Jamais perder tempo com sexo. Se bem, pensou suspirando, sexo não
era nada mal, principalmente para alguém como ele, que já
há muito não tinha uma noite de amor com a esposa...
VIII
-Não, nem pensar!
- Descartou os pensamentos - A presidência dos EUA está bom.
Luiz, o do clube filantropo,
sentia a cabeça dando voltas e mais voltas, sem conseguir atinar
com o que poderia fazer com a fortuna do velho. Seu sonho era morar na
Europa, de preferência na Espanha, já que lá
era a terra dos seus pais. Lá ele seria dom Luiz e nunca mais iria
precisar se desgastar vendendo rifas de pizzas para arrecadar fundos para
seu clube.
O cientista Igor mentalizava
as possibilidades de desenvolver grandes pesquisas com um inimaginável
e moderno laboratório. Poderia contratar como auxiliares, os melhores
cientistas do Planeta e, claro, todos os avanços científicos
conseguidos em seu superlaboratório, seriam creditados a ele. Com
uma fortuna dessas poderia superar, quem sabe, a própria fama de
Einstein.
Para o soldado Fagundes,
José e Benedito, por mais que tentassem contabilizar os benefícios
de ficarem milionários de um dia para o outro, não conseguiam,
pois pouco entendiam de economia. Então restava pensar em coisas
mais imediatas. Fagundes logo vislumbrou-se numa fazenda, sem a farda,
claro, e cuidando de gordos porcos, saudáveis galinhas e algumas
belas cabeças de gado; José pensou logo em tornar-se seu
próprio patrão, montando uma grande e próspera construtora
de prédios de apartamentos, já que achava o ramo imobiliário
um dos melhores. E Benedito, bem o Benedito pensou muitas coisas. Entre
elas, montar um clube de futebol e um clube de pescadores em Fariséia.
Ia pagar todas suas contas no comércio, comprar um belo carro zero
quilômetro e um barco, ou talvez uma lancha ou um iate, o que iria
possibilitá-lo pescar em alto-mar, onde iria fisgar aqueles enormes
peixes das fotos de revistas de pescaria. O resto do dinheiro ele ia guardar
e pronto.
- Ah, sim! - Abrindo de
novo os pensamentos milionários, Benedito lembrou que ia também
ajudar um pouco sua ex-mulher.
De repente, as doze
badaladas da meia-noite começaram a soar no grande relógio
de parede, que refletia o brilho de filetes dourados como atestado do seu
valor monetário. Os convidados levaram um susto ao terem centenas
de felizes e milionários pensamentos espantados pelo som inesperado
e repentino.
- Senhores, senhoras, espero
que o cardápio tenha lhes sido agradável. - Disse a voz do
milionário, invadindo subitamente o salão. - Agora, se todos
já estão prontos, passaremos ao nosso simulado tribunal de
Nuremberg ou, do Juízo Final, como quiserem.
- O senhor vai ler as acusações
que pesam sobre cada um de nós, meritíssimo, ou quer que
cada um confesse seus "crimes"? - Perguntou o advogado, com sarcasmo.
- Eu prefiro que cada um
fale dos seus piores pecados, ou melhor, do que eles considerem seus piores
pecados, caro advogado de defesa.
- Pois então eu vou
entrar na brincadeira primeiro. - Adiantou-se Roberval. Com os braços
abertos, andou ao redor da mesa, encarando com um sorriso enigmático
aqueles que seriam jurados, testemunhas e réus ao mesmo tempo.
- Vou confessar meus crimes e espero que vocês, o juri, se apiedem
de mim! - Completou, como se estivesse se divertindo com tudo aquilo.
- Pois bem, sr. Roberval.
Quando quiser. - Autorizou a voz.
IX
- Bem, meu caro anfitrião,
meu pecado, ao que me lembro, foi um dia ter deixado de defender uma pobre
viúva. Ela não tinha dinheiro nem para pagar a consulta e
eu, ainda no começo de carreira, sem que naquele tempo existisse
ainda a justiça gratuita, onde a pessoa não tem que pagar
ao advogado designado pela promotoria, pois o Estado é quem o faz...
- Eu sei disso, meu caro
Roberval. - Interrompeu o velho. - Evite os pormenores, senão ficaremos
aqui uma semana, até ouvir todos.
Roberval olhou para o piso,
desviando seu olhar de ira, e completou:
- Pois foi esse meu pecado.
Mesmo ela dizendo que depois me pagaria, me recusei a defendê-la,
e me arrependo até hoje por isso. - Concluiu, fingindo um arrependimento
que jamais havia sentido.
- Só isso, advogado?
- Que eu me lembre, é
só - Respondeu, sorrindo com ironia para as demais pessoas à
mesa.
- Pois muito bem. Então
vamos aos jurados. Vocês absolvem ou condenam Roberval por ele ter
negado ajuda à citada mulher?
Todos se entreolharam
rapidamente e depois se quedaram em pensamentos. Se absolvessem o advogado,
poderiam eles mesmos ser condenados mais à frente; se o condenassem,
ficariam sem defesa, ainda que todos julgassem-se "santos" e, portanto,
sem necessidade de um advogado.
Enquanto Roberval, de pé
no meio da sala aguardava o veredito do "juri", eles sussuravam entre sí
a melhor saída.
- Isso é como um
jogo de xadrez, disse Luiz, do clube da cidade. - Temos é mais que
ir eliminando os "soldados". A torre é o velho e o rei ou a rainha,
será quem ficar com a fortuna dele.
- O que você quer
dizer com isso? - Quis saber João Paulo, o empresário da
mídia. Luiz, com um olhar entre maldoso e debochado, já que,
por promover ações beneficentes através do seu clube,
se achava um perfeito cristão, respondeu sem titubear:
- Isso quer dizer que é
cada um por sí aqui, e o melhor dará o xeque-mate!
X
Houve um breve zunzum,
com alguns discordando de Luiz e outros de acordo e, como a ganância
sempre falou mais alto no coração dos homens, resolveram
lutar cada um por si.
- Caros jurados, vocês
também estão atrasando este "tribunal"... – Disse em tom
brincalhão o milionário - Poderiam ser um pouco mais rápidos
em suas considerações?
Todos se viraram para o
local de onde parecia vir a voz, e responderam:
- Já temos o veredito
pronto, senhor! - Adiantou-se o prefeito.
- Ah, é? E não
temos, entre os 14 jurados nenhuma testemunha contra ou a favor do sr.
Roberval?
- Não. - Respondeu
novamente o prefeito, secamente, e sentenciou:
- Eu e meus colegas consideramos
o advogado Roberval culpado por crime de omissão!
- O quê?!? - Berrou
o advogado, que mesmo com toda sua malícia jurídica, jamais
esperaria uma sentença assim, e pior: unânime. Ele disse meia
dúzia de palavrões, xingando todos na sala, e foi sentar-se
à mesa, rubro como um tomate maduro, tal a sua cólera.
- Mas vocês nem deram
direito de defesa ao sr. Roberval! - Ponderou o milionário.
- E nem precisava. - Explicou
Luiz - Pela sua ganância, ele foi maldoso e omisso em relação
à viúva.
O milionário soltou
uma sonora gargalhada e depois, já sério, disse:
- Para não estendermos
muito nosso julgamento, proponho aos senhores e senhoras, que me permitam
ir indicando o próximo réu, sucessivamente.
- Faça o que o senhor
achar melhor! - Anuiu o prefeito. Afinal, como a batalha seria entre eles
mesmos, tanto faz quem seria o primeiro a ser "julgado" ou o último...
- Então continuamos
com o senhor, agora...Qual foi seu maior pecado, sr. prefeito?
- Nada que me arrependa,
sou sincero em dizer, mas certa vez, quando apoiei um deputado numa eleição,
ví, pelas urnas, que num dos bairros da cidade, ele não havia
obtido nenhum voto e, de vingança, cortei a água para aquele
bairro, por uns dias. Não acho que isso foi um pecado e, por isso
mesmo, não vejo razão para arrependimento.
- Muito bem - Disse o milionário
e, dirigindo-se aos outros: - o nosso júri vai condenar ou absolver
o nosso vingativo prefeito?
Desta vez os "jurados" não
perderam tempo. Roberval, por raiva e os outros 13, já de caso pensado,
levantaram-se e a beata, desta feita, foi quem representou o júri,
dizendo o veredito:
- Nós achamos o senhor
prefeito culpado! Culpado pela injustiça cometida contra um bairro
inteiro, apenas por causa do deputado que ele defendia!
Fernando, o prefeito-fazendeiro,
não se irritou, como o fizera Roberval. Apenas abaixou a cabeça
e voltou ao seu lugar. Então a voz do milionário irrompeu,
irritada:
- Ora, ora, vocês
parecem fazer pouco da minha inteligência ou sanidade mental! Vocês
todos vão praticamente se declarar culpados, confessando um ou mais
pecados que lhes forem convenientes, e assim vão arrastar este julgamento,
até eu decidir quem é o menos pecador e lhe conceder minha
fortuna ou, ainda quem sabe, vocês todos não se unam para
decidir o "inocente" final, que depois repartirá minha fortuna entre
todos...Eu já esperava isso. Portanto, se tal idéia lhes
passou pela cabeça, para que não suceda que, como disse Roberval,
isso aqui vire uma simples brincadeira, passo eu agora a acusá-los.
E que cada um se defenda, se o puder. Não haverá mais advogado
e nem mais júri, já que vocês decidiram agir cada um
por sí, assim o será.
- Maldito velho, pensou
Luiz, pois a ele parecia que o homem havia lido seus pensamentos ou ouvido
seus sussurros à mesa.
- Como disse, - Continuou
o milionário - vocês aqui representam a nossa Humanidade,
se é que podemos nos chamar assim. E, como seres humanos, eu sabia
que a maioria iria buscar uma saída, mesmo que não honrosa.
Mas aqui, repito, não há saída, e entre os homens,
a honra hoje é uma coisa tão rara como um diamante cor-de
rosa.
O velho parou por instantes,
talvez para tomar fôlego, e recomeçou:
- Assim, agora eu vou levá-los
ao inferno, expondo o que cada um tem de mais horrível, ou seja,
o seu pior pecado. Quem escapar do inferno, herdará minha fortuna,
só que, para isso, eu sei que vocês, que se julgam tão
honrados, vão se transformar em verdadeiros demônios, cada
um se mostrando um anjo de luz, enquanto em seu coração será
o adversário do outro. Vocês vão querer galgar a saída
do Hades, mas verão que as portas do inferno são intransponíveis.
Lá, só se entra; jamais se sai, a não ser pela misericórdia
de Deus!
Mais uma pausa e novo recomeço:
-Como eu já confessei
diante de vocês meus pecados, me achando indígno de Deus,
todos vocês irão deixar esta casa carregando visivelmente
seus pecados às costas. Somente um, entre os quinze, além
dos seus pecados, levará também minha fortuna. Isso eu decidirei.
Quanto ao perdão dos seus pecados, será entre vocês
e Deus.
XI
Desarmadas as possíveis
idéias de enganar o milionário, os quinze convidados, permaneceram
em silêncio. Mas, mesmo assustados, eles estavam dispostos, cada
um em seu íntimo, a sair dali, carregando seus pecados, mas também
a fortuna do velhote.
Cada um deles se julgava
menos pecador que o outro. E o milionário sabia disso, pois após
ter se dado conta do seu miserável estado físico e espiritual,
passara a estudar os homens, para saber até onde a sede de fortuna,
fama e sucesso podia levar cada pessoa. Ele havia sido levado ao inferno
e tinha voltado, como dissera, e agora buscava Deus, e sabia que nem mesmo
toda a fortuna do mundo seria suficiente para adquirir uma forma de achá-Lo.
Somente se pode encontrar Deus se Deus Se deixar achar, descobrira ele.
Ele aprendera isso,
mas julgava que muito tarde, pois estava velho e doente para seguir os
passos de Jesus. Assim, o que ele podia fazer, a não ser mostrar
aos homens, representados por aquelas quinze almas aflitas (e ambiciosas)
na imensa sala de sua mansão, que todos são pecadores, indígnos
da misericódia de Deus e do sacrifício de Seu Filho? Quem
sabe assim, expostos à sua própria miséria humana,
eles não poderiam se corrigir e encontrar o verdadeiro Caminho?
XII
- O senhor não acha
que já está levando longe demais esse seu divertimento? Nem
a sua doença e nem tampouco sua fortuna, podem dar-lhe o direito
de nos humilhar, obrigando-nos a praticamente nos tornarmos verdadeiros
selvagens, só pela promessa de herdar seus bens. Além disso,
quem nos garante que o senhor cumprirá sua palavra, dando a fortuna
a quem o senhor julgar o menos culpado de nós?
- Interpelou dom Giuzeppe,
o bispo daquela região, da qual Fariséia fazia parte.
- Muito bem, bispo! Pensei
que o senhor não fosse abrir sua boca! - Ironizou o milionário.
- O senhor tem razão no quesito da garantia de que minha fortuna
irá para um de vocês. E eu já cuidei disso. À
esquerda da sala, tem um telefone diretamente ligado ao escritório
na capital da empresa Maximilian Advogados, a qual, creio todos devem saber,
é uma das mais idôneas, com escritórios aqui no Brasil
e nos EUA. Eles já têm em mãos a papelada transferindo
minha fortuna para uma pessoa, só faltando eu lhes passar o nome.
Quem duvidar, pode ligar para eles agora mesmo, pois eu mandei que eles
esperassem o nome em questão, ainda antes de terminar esta noite...-
O milionário fez uma pausa, esperando que alguém fosse ligar,
mas, como ninguém se manifestou, ele continuou: - Bem, se isso os
convenceu da minha sinceridade, volto ao dom Giuzeppe, para concluir minha
resposta a ele...O senhor, caro bispo, disse que eu os estou obrigando
a se tornarem selvagens, por causa da fortuna...Ora, devo lembrar ao senhor
e aos outros minhas palavras quando os senhores e senhoras aqui chegaram:
eu disse que ninguém poderia sair, e só. Não lembro
de ter feito nada para obrigá-los a participar do pseudo-tribunal
que organizei. Eu apenas fiz a promessa de um prêmio, ou seja, minha
fortuna àquele que provasse ser o menos pecador de vocês,
e a ganância de vocês é que os obrigou a participar.
Todos se entreolharam
novamente, atônitos desta vez. O milionário tinha razão!
Até José, o empregado dele, e Benedito, que era o menos preocupado
com tudo aquilo, entenderam o que o homem dissera. Ele os ameaçou,
para que ninguém deixasse a sala da mansão e, ao mesmo tempo,
lhes colocou à frente a promessa de um deles se tornar milionário
naquela noite. Em troca, ele queria que cada um confessasse seus pecados
ou seu pior pecado, segundo o entendimento de cada um, mas realmente ele
não havia, em nenhum momento, dito que eles eram obrigados a participar.
- Esse puto desse velho
é mais esperto do que imaginei... - Pensou Roberval, não
deixando de se sentir imbecil por tudo o que havia dito e feito no início
e, ao mesmo tempo, até sentindo uma ponta de admiração
pelo velho. Que excelente advogado ele daria, continuou sua linha de raciocínio,
sacudindo a cabeça em seguida como a espantar os pensamentos de
admiração. O velho era um sacana, isso sim! Desviou a atenção
de todos do principal, que era somente se recusar a participar do "julgamento"...Mas,
não era isso que um bom advogado faria? Então todos os bons
advogados são sacanas?
Sentindo que sua linha
de raciocínio estava se esticando demais, Roberval sacudiu novamente
a cabeça, agora para por um fim aos pensamentos e decidiu ficar
quieto e estudar o velho. Uma hora ou outra ele poderia "derrapar" e aí
ele, o grande advogado Roberval, o apanharia. O homem agora, ferido em
seu maior ego, que era o orgulho, somente compartilhado por ele mesmo,
de ser o melhor advogado da cidade e de toda a região, chegou a
se esquecer da fortuna do velho por momentos, com o firme propósito
de por a limpo quem era o advogado alí, ele ou o velhote? E qual
dos dois seria o melhor?
A voz do velho interrompeu
seus elevados pensamentos causídicos:
- Meus amigos, agora que,
creio, está tudo explicado, já que nenhum de vocês
nada retrucou, vamos iniciar o verdadeiro julgamento, pois já passa
da uma hora da manhã e eu não quero correr o risco de nenhum
dos meus réus dormir sentado... - Apesar de ter feito o que se poderia
considerar uma brincadeira, nem o milionário riu e tampouco seus
convidados - Pois bem, vou novamente começar a pedir a cada um,
chamando-o pelo nome, para que se levante e diga seu maior pecado e, ao
fim, eu darei o veredito, não do maior pecador, mas do menor, e
que levará o grande prêmio da noite. E, já que começamos
pelo sr. Roberval, como ele mesmo o quis, e houve esta grande interrupção,
com vocês resolvendo que iriam julgar todos culpados, sem direito
de defesa, como deu para entender, vamos reiniciar tudo, e daremos nova
chance ao sr. Roberval, e com direito de defesa, se ele achar necessário...
XIII
Roberval agora, mais
ponderado, procurando fazer o jogo do velho, para ver se o pegava em sua
própria armadilha, como ele os havia pego, levantou-se, ajeitando
o paletó e posicionou-se novamente no meio da sala.
- Sr. Roberval, o
sr. confessou diante de todos que seu maior pecado foi não ter atendido
a uma pobre viúva, pois essa não podia pagar seus honorários,
correto?
- Correto.
-Poderia ser, sr. Roberval,
mas seria um pecado até que perdoável, dado à sua
ambição de começo de carreira. Isso se passou há
cerca de 10 anos, e eu tenho provas de que o seu pecado foi bem maior do
que o senhor imagina.
-Provas? Mas como? – Assustou-se
o advogado. – Como o senhor sabe que foi há 10 anos o ocorrido e
que raio de provas são essas de que está falando?
-Quando eu soube da minha
doença, já prognosticada incurável, comecei a planejar
tudo o que está acontecendo hoje. Assim, como sei que um dos pecados
mais frequentes do homem é a mentira, cuidei de reunir provas para
as acusações, para mostrar-lhes seus verdadeiros pecados,
já que sabia que nenhum de vocês iria contar a verdade, nua
e crua. Não é assim que procedem num julgamento?
Roberval, buscando
em seu agitado cérebro lembrança de algo grave que havia
cometido, não respondeu ao milionário. E este continuou,
deixando todos na sala, com exceção do soldado, do funcionário
José e de Benedito, completamente perplexos e assustados. Cada um
se perguntava que maldita prova o velhote poderia ter conseguido contra
ele, e como...A resposta, para deixá-los ainda mais apavorados,
veio em seguida:
-Dessa maneira, não
acreditando no ser humano, que traz em si a essência da mentira,
contratei, não simples detetives particulares, mas ex-agentes federais,
homens de grande experiência em investigações, já
aposentados, mas nem por isso menos profissionais. E quem duvidar das acusações,
poderei mostrar as provas através do telão que está
se abrindo neste momento na parede, às costas de vocês.
Todos se voltaram
à uma para olhar. Um grande painel na parede se abria mecanicamente
e um telão aparecia. A tela enorme, silenciosa e fria, pareceu a
todos um ameaça acusatória, causando ânsias e dores
de estômago na maioria. Aos convidados, de olhos esbugalhados, parecia
que fantasmas de pecados cometidos às ocultas, desde a infância,
poderiam de repente aparecer no telão, para vergonha de cada um
deles. Até Benedito, que tivera um “caso” com a égua do sítio
onde nascera e morara bom tempo, ficou apavorado desta vez.
A voz do velho milionário
arrancou-os das lembranças mais secretas, trazendo-os à nua
realidade do salão, que agora parecia a todos maior, frio e cinzento,
como uma masmorra da Inquisição.
-Senhor Roberval, posso
provar – mas creio que o senhor abrirá mão das provas, confessando
ou aceitando a acusação, que seu maior pecado não
foi o de não ter atendido à viúva. Ela estava com
sua casa hipotecada pelo banco do senhor Roberto e, com a perda recente
do marido e ainda com um filho pequeno e doente, não havia como
ela pagar a hipoteca. O que ela foi procurar com o senhor foi uma maneira
para que a defendesse junto ao banco, procurando parcelar as dívidas
até ela começar a receber a pensão do marido. Porém,
o vereador Salgado cobiçava a casa dela, pois era um ponto ideal
para ele ali construir um supermercado. Então ele ofereceu dinheiro
ao senhor Roberto, o gerente do banco e este, por sua vez, disse que lhe
daria uma boa soma, desde que não assumisse a causa da viúva.
Além do dinheiro do vereador, ao próprio banco interessava
retomar a casa da senhora, pois seria mais lucrativo.
-Estão certos os
fatos que narrei ou preciso mostrar as provas?
-Não...não
precisa...sussurrou o até pouco antes presunçoso Roberval.
O milionário continou:
-Meus agentes fizeram um
levantamento geral, desde quando o senhor negou seus serviços à
viúva, que não quis nada de graça, como o senhor concordou,
mas apenas pediu um prazo para também pagá-lo. Isso, não
fosse a patifaria de vocês contra uma pobre e desamparada mulher,
seria de rir só de olhar o adesivo que o senhor tem a petulância
de ter em seu carro, onde diz que, sem advogado não se faz justiça!
O milionário
parou um pouco, como se estivesse pensando nas próximas palavras,
mas seu propósito era de deixar um vazio, um pesado vazio entre
os boquiabertos convidados, para dar a estocada final, como numa esgrima
espiritual:
-A citada senhora, senhor
Roberval, senhor Roberto e sua excelência, vereador Salgado, a citada
senhora, com a perda da casa, mudou-se para uma cidade próxima daqui,
onde ficou em grande penúria e acabou perdendo seu filho, já
que não tinha dinheiro e nenhum hospital ou médico quiseram
cuidar do garoto de graça. E eu tenho testemunhas dos fatos narrados
por ela, antes do seu suicídio!
Roberval quase caiu
sentado com a notícia; Salgado e o gerente do banco não conseguiam
fazer as pernas pararem de tremer, mesmo estando sentados e, quanto aos
demais, pareciam querer afundar em suas cadeiras, entre perplexos e indignados
com os fatos narrados.
O milionário, sem
perda de tempo, foi taxativo:
-Por tudo isso, senhores
Roberval, Roberto e Salgado, eu os acuso perante os presentes, de vis criminosos.
Este é o pecado de vocês e a sentença é que
vocês levarão pelo resto de suas indígnas vidas o sangue
desta senhora e de seu filho sobre suas cabeças.
Neste momento, tirando
um pouco os presentes de sua perplexidade, um homem de grande estatura
e forte constituição física, trazendo uma arma pendurada
rente à coxa direita, entrou no salão.
O velhote então ordenou:
-Acompanhe os senhores Roberval,
Salgado e Roberto até à rua. Eles já podem ir. – E
dirigindo-se aos três homens que saiam cabisbaixos:
-Eu provei o terrível
pecado de vocês e a sentença que proferi, não é
minha, mas será sempre de suas próprias consciências,
se as tiverem. Mas o Grande Juiz é quem os poderá condenar
definitivamente ou absolver. Que Ele tenha piedade de suas almas!
-Os três deixaram
a sala e a mansão, acompanhados do corpulento segurança e
os doze restantes, se tivessem o poder, certamente se evaporariam, tal
era o medo que já se apossara de todos. Nem era bem medo, era terror
mesmo em ter seus pecados - já que a essa altura, todos aceitaram
intimamente que os tinham aos montes -, revelados publicamente.
XIV
Após
um silêncio constrangedor de todos à rebuscar a memória
pelos seus pecados, o milionário recomeçou:
-Senhores e senhoras, creio
que já podemos dar continuidade ao nosso pequeno julgamento...Gostaria
agora que a senhora Clarice nos contasse algum grande pecado seu.
-A beata empertigou-se ao
levantar, e dirigiu-se ao meio da sala, surpreendendo a todos com sua presumida
segurança.
-Se eu tenho algum pecado,
é o de ter faltado um dia à missa e menti depois ao padre,
dizendo que estava doente – Clarice abaixou os olhos e colocou os braços
para trás, mostrando-se meio envergonhada por confessar-se assim,
justo ela que era a mulher mais respeitada da paróquia de Fariséia.
E depois concluiu, erguendo um pouco a voz, como justificativa do seu erro:
- Sabe, ia passar o último capítulo da novela que eu vinha
acompanhando, e eu não queria perder...
Os onze demais convidados
poderiam rir daquela confissão tão infantil, mas ainda estavam
assustados demais para demonstrações de humor. Mas o velho
milionário, pela segunda vez naquela noite, soltou uma sonora gargalhada.
-Antes fosse isso, dona
Clarice...antes fosse. Mas só para refrescar sua memória,
havia em Fariséia um mendigo, pelo qual a senhora nutria verdadeiro
ódio. A senhora, tão pura, detestava ver o mendigo justamente
nas escadarias da igreja, a pedir esmola. Então a senhora, que é
amante do soldado Fagundes, mandou que esse prendesse o mendigo e lhe aplicasse
uma surra e, no dia seguinte, deveria expulsá-lo da cidade...
-Ela mandou, mas eu não
fiz isso! – Gritou o soldado Fagundes, erguendo-se colérico.
-Cala a boca, seu covarde!
– Gritou a beata, que do jeito gentil de cristã já não
tinha mais nada. De rosto avermelhado, ela fitou o soldado com ira. – Ele
não tem nenhuma prova disso. – E virando-se para o local onde parecia
vir a voz do milionário, disse, de dedo em riste: - O senhor está
levantando falso testemunho...está inventando coisas a meu respeito.
Isso também é pecado!
-Certamente que é,
minha cara senhora mas, como já disse, eu os cometi todos. Porém,
mesmo assim, não é um testemunho ou melhor adequando a palavra,
não é uma falsa acusação. Temos fotos e filmes
de vários encontros seus com o soldado Fagundes, meus agentes descobriram
várias pessoas que gravaram, sem saber, depoimento falando sobre
a senhora e o ódio que não escondia do mendigo e, na cadeia
pública, um dos presos, que fingia dormir, assistiu ao castigo imposto
pelo soldado Fagundes ao homem. Além disso, temos o registro do
Pronto-socorro para onde Fagundes levou o pobre mendigo, alegando que o
havia encontrado naquele estado e que julgava que ele tivesse sido atropelado.
Como ninguém
àquela altura nem respirasse, somente se ouvindo os gemidos lacrimosos
da beata, o milionário resolveu também concluir logo o julgamento:
-Como vê, sr. Fagundes,
o senhor excedeu na surra e acabou matando o indigente e, como disse, temos
todas as provas sobre você e a senhora Clarice. Portanto, condeno
ambos a viver daqui para diante sob a acusação de assassinos,
também, já que dona Clarice, por tê-lo mandado surrar
o homem, e depois, sabendo da morte do mesmo, calou-se a respeito, pois
indiretamente fora a mentora do crime.
Clarice, numa crise
de nervos, caiu desmaiada. Ninguém se preocupou em ir socorrê-la.
Nem mesmo o soldado. E, como da primeira vez, novamente o homem corpulento,
que certamente era chamado por rádio-comunicador pelo milionário,
adentrou à sala. A ordem, como antes, era para que ele acompanhasse
a beata e o soldado até a calçada, do lado de fora do terreno
da mansão, e lá os deixasse.
A mulher voltou à
si quando o brutamontes a puxou do chão violentamente e, chorando
e capengando, ela deixou o salão junto com Fagundes.
-Muito bem, continuemos
então. Gostaria, já que o senhor prefeito confessou seu “pecadinho”
de vingança contra os habitantes de um bairro da cidade, que o senhor
nos explicasse isso melhor.
XV
Fernando Silva, levantando-se,
ajeitou a gravata ao redor do gordo pescoço e foi para o meio da
sala. Com certeza, ia pensando, ele iria se safar, pois o velho parecia
ter engolido a história da vingança eleitoral.
-Bem, meu senhor e distintos
companheiros – Começou, como se fosse fazer um discurso político,
dirigindo-se ao invisível milionário e aos nove restantes
convidados. – Realmente eu cometi aquele desatino e cortei a água
do bairro, só para me vingar daqueles que não haviam votado
em meu candidato. É só isso, e reconheço meu pecado.
– Concluiu, abaixando a cabeça, como se arrependido.
-Então é somente
isso, senhor prefeito? Pelos relatórios em minhas mãos, enviados
pelos meus agentes, primeiro, não foi uma vingançazinha,
como o senhor quer fazer parecer, pois o senhor, abusando do seu poder,
poder este que o próprio povo de Fariséia lhe conferiu, cortou
o abastecimento de água de um dos bairros da cidade, por um mês,
e antes das eleições! E nem ao menos caminhões-pipa
para amenizar o problema criado pelo senhor, foram socorrer aquela gente.
Agora sim, o prefeito sentiu
realmente a vergonha atingí-lo do alto da cabeça já
meio calva, às pontas dos reluzentes sapatos. O milionário
continuou, ante o silêncio quase tétrico que havia se apossado
de todos ali.
-Não preciso dizer
aqui que a água é um presente sagrado e vital, que Deus coloca
gratuitamente para todo o ser humano sobre a face da Terra, mas que vocês,
políticos e empresas de energia elétrica se apoderaram desse
presente para ganhar dinheiro com ele, sujeitando o povo nas cidades a
pagar por algo que Deus nada cobrou. Este, ao meu ver, já é
um grande pecado, já que vocês segam aonde não plantaram.
Mas, como são os políticos e as empresas de energia elétrica
que fazem isso, posso considerar como um pecado coletivo, e que, por isso,
não entrará em julgamento aqui.
Mas eu pergunto ao senhor
e a todos os demais presentes: vocês já se imaginaram vivendo
30 dias sem uma gota de água, nem para beber e nem para tomar banho
ou outras necessidades?
-Ninguém respondeu,
tão absortos estavam no desenrolar dos fatos ali escancarados pelo
milionário.
Ele continuou, perdendo
o tom de voz suave, embora irônico, e impondo um tom de voz mais
áspero, talvez pela sua indignação com a maldade do
homem.
-É algo que nem se
pode imaginar, mas esse homem aí, que deveria ser o mais honrado
da cidade, devido ao seu cargo, fez isso! E o fez premeditadamente. E a
troco de quê, já que o deputado que o senhor defendeu na época,
foi eleito? E teve, segundo consulta nossa ao Tribunal Eleitoral, uma enorme
votação em Fariséia. Mas eu vou dizer, embora o senhor
já saiba, mas alguns convidados, não, a troco de quê
você fez tal injustiça. A troco do maldito dinheiro, senhor
prefeito, dinheiro esse lhe oferecido pelo deputado Alcebíades,
que além do dinheiro, prometeu várias benfeitorias para sua
fazenda, e com esse amaldiçoado dinheiro, o deputado também
comprou o silêncio do senhor João Paulo, da emissora de tevê
local, para que ele não os delatasse!
O senhor conseguiu seu dinheiro,
teve sua fazenda recebendo várias melhorias e o senhor João
Paulo, além do dinheiro, ganhou mais uma concessão do governo,
através do deputado Alcebíades, para aumentar seu império
da mídia.
Mas eu não os condeno
por isso e tampouco pelo corte de água, que, segundo o senhor, foi
uma vingança. Não. Não foi uma vingança e sim
um plano diabólico concebido pelo senhor e pelo deputado, com a
anuência do silêncio do senhor João Paulo, que tinha
o sagrado dever de denunciá-los. Então eu os condeno porque
vocês fizeram o corte de água para o usarem depois como ameaça
a todos os eleitores da cidade, dizendo-lhes, indiretamente, que o mesmo
iria acontecer por toda a cidade, se o deputado não fosse eleito.
Eu condeno vocês três pelos pecados da maldade, da ambição
e, principalmente, da falta de misericórdia para com o povo!
Pela terceira vez
o segurança entrou na sala e, sem mostrar nenhuma emoção,
tão frio como um bloco de gelo, praticamente empurrou o prefeito,
o deputado e o dono da emissora para fora do salão. Os três
seguiam o mesmo caminho dos outros cinco.
-Eu creio que os próprios
habitantes da cidade, a partir de agora, darão aos três a
devida sentença.
Alcebíades,
voltando-se repentinamente, disse que aquilo não ia ficar assim,
que ia querer ver as provas e que tinha imunidade parlamentar.
-As provas, caro deputado,
já estão nas mãos do presidente da Assembléia
Legislativa, do presidente do Tribunal Eleitoral e espalhadas por toda
a imprensa séria desse Estado, apesar de ser pouco hoje as que denunciam
os fatos...Mas, felizmente, ainda existem. E, quanto à sua imunidade,
ela poderá servir diante da lei dos homens, mas de nada lhe adiantará
diante da Justiça de Deus!
Com um safanão,
o segurança praticamente jogou o deputado pela porta. Esta se fechou
e o silêncio sepulcral voltou ao salão. O milionário
também havia se quedado quieto e nenhum dos sete convidados restantes
ousavam sequer olhar um para o outro, tal era o fantasma do medo de seus
pecados que os assombrava cada vez mais.
-Caros convidados restantes...
– Ecoou repetinamente a voz do milionário. – Já são
quase três horas da madrugada e vocês, creio eu, devem estar
com fome. Meu mordomo irá lhes servir um café, e depois continuaremos.
Mal ele havia acabado
de falar, o taciturno mordomo irrompeu na sala, empurrando um carrinho
cheio de tantas e apetitosas delícias, que Benedito, esquecendo-se
dos medos anteriores, quedou-se a pensar que, se o velho chamava aquilo
de café, como não seria algo que ele chamasse de banquete?
Salgados e doces,
frutas e sucos de todos os tipos imagináveis e inimagináveis,
foram silenciosamente dispostos sobre a mesa, pelo eficiente empregado.
Alguns dos sete convidados que restaram, mesmo ainda com o cérebro
dando voltas em busca de pecados inconfessáveis, e portanto, sem
muito apetite, sentiram que este voltava com a visão do abastado
coffee brake.
XVI
Cerca de uns quinze
minutos depois, a voz (agora assustadora) do milionário, se
fez ouvir novamente:
-Caros convidados, se já
estão devidamente alimentados, creio que podemos recomeçar
nosso julgamento de pecados cometidos e esquecidos ou, quem sabe, simplesmente
escondidos.
O mordomo passou retirando
pratos, talheres, copos e restos de comida de sobre a mesa, mas os convidados
nem o perceberam, já que a tensão voltara. Apesar de energizados
pelo alimento, o espírito de cada um estava tão cansado como
se tivesse acabado de cruzar o Saara.
- Gostaria de falar agora,
em sequência, com o senhor Igor e após, com dom Giuzeppe
e o pastor Clemildo.
Igor não se
assustou tanto, pois já esperava que a qualquer momento o milionário
falasse seu nome, mas o bispo – e também o pastor Clemildo,
acreditavam piamente que não seriam chamados e que seriam os últimos
dos convidados e, claro, um dos dois esperava ansiosamente ser o ganhador
da fortuna do milionário. Porém, deduziram, se eram chamados
antes de Luiz, José, Margarida e Benedito, certamente o milionário
deveria ter alguma acusação grave contra eles e os mesmos
também seriam enxotados para a rua, como seus antecessores. Tal
pensamento chegou a causar desconforto gástrico no gordo religioso
e tremedeiras no magricela pastor.
-Senhor Igor, o senhor,
anos atrás, realizou várias pesquisas na região do
Amazonas, através do custeio da Secretaria de Ciências e Pesquisas...certo?
-Sim, senhor.
-O senhor se lembra se nesse
trabalho, ou mesmo em outro, dentro da sua área, tenha praticado
algum pecado, por mínimo que seja?
-Não senhor. – O
cientista, do alto de sua cultura e sabedoria armazenadas ao longo de anos
de estudos, mantinha uma postura ereta, nem desafiadora e nem de humildade.
Em sua mente, prodigiosa em relação aos homens comuns, ele
se julgava acima daquela “palhaçada”, e talvez, dado à sua
contribuição às ciências, fosse verdadeiramente
o único dígno de herdar a fortuna do seu interlocutor. Mas
estava enganado...
-Tenho em mãos um
relatório mostrando que o senhor, no trabalho no Amazonas, procurava
criar, através da vasta flora da região, uma espécie
de polivacina, que combateria centenas de doenças viróticas.
Está de acordo?
-Completamente, e o relatório
que o senhor tem aí, não é novidade, pois foi o mesmo
que eu enviei, após concluir as pesquisas, para a Secretária
de Ciências.
-É...eu o sei. E
o senhor conseguiu criar a tal vacina de múltiplas funções?
-Infelizmente, não.
O governo cortou a verba e eu tive que desistir.
-Ah, mas isso foi um pecado!
– Ironizou o milionário.
O cientista não ligou
para a ironia, apenas respondendo formalmente:
-Do ponto de vista científico,
creio que poderíamos citar o fato como um pecado, sim.
-E do ponto de vista divino,
senhor Igor?
-Divino? Pelo que eu saiba,
não existe tal ponto de vista!
O milionário sabia
que Igor era ateu, e somente a citação da palavra “divina”,
fez o homenzinho se encolerizar.
-Pois existe, e eu, pelo
que aprendi, sei que é justamente por tal ponto de vista que o senhor
está aqui agora. Não fui eu quem o trouxe, e sim, Deus.
-Deus não existe,
meu caro senhor, e eu aqui estou em razão do seu convite, e não
de uma ordem desse Deus que o senhor citou!
-Eu não vou discutir
com o senhor questões tão grandes, que sua pobre mente não
pode e jamais poderá alcançar, então, vamos diretamente
aos fatos: o senhor mandou um relatório ao governo, e nisso foi
sincero, só que, talvez pelas grandes teorias que transitam por
seu cérebro, o senhor esqueceu-se de outro relatório, o qual,
como o senhor já pode deduzir, veio parar em minhas mãos
através dos meus agentes...e, creio eu, com a ajuda de Deus, em
quem o senhor não acredita.
O cientista sentiu um leve
tremor, dividido agora entre a ira e o medo, mas nada disse. O milionário
continuou:
-Realmente o governo cortou
sua verba, mas não pela sua demora em criar a tal vacina, e sim
porque foi descoberto, mas não provado, que o senhor vendeu valiosas
informações a laboratórios estrangeiros e também
pela denúncia, não comprovada, de que o senhor estava usando
pobres índios de uma tribo da região, como cobaias, para
suas experiências.
-Não nego as acusações,
mas, como o senhor mesmo acaba de dizer, nada foi comprovado! – Retrucou
Igor, agora com um meio sorriso maldoso em seus finos lábios.
-Correto, senhor Igor. Mas
eu comprovei que você engordou sua conta em bancos no Exterior e,
já que sua experiência com a vacina não estava dando
certo mesmo, o senhor pouco se importou com o corte de verbas. O senhor
simplesmente abandonou as pesquisas, deixou para trás os mosquitos
da selva e veio viver uma vida regalada, talvez esperando cair alguma grande
idéia em seu colo, para iniciar outra pesquisa. Enquanto isso, para
encobertar seu insucesso como cientista, o senhor usa a desculpa do corte
de verba.
O cientista também
nada respondeu desta vez. Irado ao extremo, ele se perguntava que pecado
havia em ter largado um experimento que não ia dar certo mesmo e
ter saido daquele inferno verde, quente, úmido e cheio de mosquitos,
para o conforto da cidade?
-Mas o senhor não
deixou para trás somente os mosquitos, caro cientista. Você
voltou para a cidade e pouco se incomodou se os índios usados como
cobaias por você, a troco de miseráveis presentes, poderiam
ter alguma reação em seus organismos, sob o efeito das drogas
aplicadas neles. – A voz do milionário, até agora calma,
ganhou a altura da ira incontida, e atravessou a parede quase que num grito
de raiva:
-Não eu, miserável,
mas Deus, esse Deus no qual você não acredita, já o
condenou. Não pela sua traição à Pátria,
não pelas suas mentiras, não por você ser um ateu arrogante
e idiota, mas pela sua crueldade, pela sua completa insensibilidade para
seres humanos como você. Sei que nunca deve ter se preocupado com
isso, mas da centena de inocentes silvícolas usados por você
em sua insanidade, vinte morreram envenenados pelas suas drogas e outro
tanto ficou para sempre incapacitado física e mentalmente.
Por isso, nosso tribunal humano, aqui nesta sala, o condena por genocídio.
Quanto à sentença de Deus, certamente ela virá depois,
neste ou noutro mundo, mas certamente virá!
XVII
Novamente o segurança
e novamente mais baixa no já reduzido número de convidados.
O milionário parou
um pouco, talvez descansando e recuperando suas já poucas energias
para continuar, mas daí a uns poucos minutos, retomou o julgamento,
desta vez dirigindo-se ao bispo.
Sua voz já havia
retornado ao tom calmo, e foi assim que ele dirigiu-se ao religioso...
-Dom Giuzeppe, a madrugada
já irrompeu e eu ainda tenho cinco convidados restantes. Portanto,
vamos diretamente aos fatos, já que o senhor, deduzo, não
usará de mentiras e nem irá querer contestar minhas palavras
a seguir, já que os fatos são verdadeiros e de conhecimento
de quase todo mundo.
-O bispo ficou calado, em
pé no meio da sala, mãos às costas. O homem continuou:
-Sua igreja foi causadora
de vários genocídios, desde o poder a ela outorgado
por Constantino, até à época das Cruzadas e da terrível
e diabólica Inquisição. E depois ainda, não
sendo a responsável direta, mas se omitindo diante da crueldade
cometida pela Espanha e outros países e depois por Hitler, contra
os judeus. Esses, como disse, são fatos conhecidos pela Humanidade
e reconhecidos, antes da sua morte, pelo próprio papa João
Paulo II.
Então, para
não perdermos tempo, devo lhe dizer que tenho comigo vários
relatórios de casos de pedofilia cometidos pelos padres nesta região,
onde o senhor é o chefe espiritual. O senhor não pode negar,
pois temos testemunhos das crianças e de seus pais, da maldade cometida
pelos homens que deveriam ser exemplo de moral e santidade. E seu grande
pecado, bispo, foi se curvar ante os ditames de sua diocese e, mesmo sabendo
da verdade dos fatos, acobertou os criminosos, deixando alguns casos cairem
no esquecimento e, quanto aos mais graves, fazendo a transferência
dos criminosos para outras paróquias, onde o senhor sabe, eles voltarão
a praticar seus sórdidos atos. Eu o condeno, bispo, pelo pecado
de fazer uso do Santo Nome de Deus. Nos Mandamentos está escrito:
não tomarás Meu Santo Nome em vão e o Filho de Deus
disse para amarmos nosso próximo como a nós mesmos. Alguns
de seus subordinados são pedófilos e pederastas e mais pecadores
diante de Deus do que aqueles a quem pregam a Santa Palavra, e o senhor
é pior do que eles, pois mostra-se como o sacerdote Eli, sem forças
e coragem para fazer justiça. Esses homens vão certamente
responder pelos seus atos diante do Altíssimo, mas eles, antes disso,
precisavam de ajuda médica e espiritual. E o senhor, nem os pune
e nem os ajuda, deixando-os afundar ainda mais na lama do pecado, e o pior,
fazendo um mal a inocentes que dificilmente será apagado de suas
tenras memórias. Passar bem, senhor bispo, se o puder...
Um novo segurança,
menos truculento que o outro, adentrou ao salão, retirando o cabisbaixo
religioso para fora da mansão, deixando um tenso e trêmulo
Clemildo à espera da espada acusadora que o milionário iria
colocar sobre seu pescoço. Mas, pensou, eu sou evangélico
e, com certeza não terei acusações tão pesadas
quanto às que cairam sobre o bispo. E tal pensamento o tranquilizou
um pouco, até ouvir seu nome ser chamado pelo milionário...
XVIII
-Por favor, pastor Clemildo
e senhora Margarida, queiram levantar-se.
Os dois, olhando receosos
um para o outro, se postaram no meio da sala, como os demais acusados já
o haviam feito.
-Caro pastor, o senhor conhece
os 10 Mandamentos?
-Claro – Respondeu o homem,
engolindo em seco, ansioso em saber o que iria cair sobre ele.
-É bem interessante
como os cristãos se relacionam com os 10 Mandamentos, o senhor não
concorda?
-Não estou entendendo...
-Ora, o primeiro mandamento
é que se ame a Deus sobre todas as coisas e que somente a Ele se
adore e preste culto.
O segundo, sequência
do primeiro, é que não se faça imagens de nada para
as adorar ou prestar culto. Posso dizer, após estudar o ser humano
– e a mim mesmo, claro, que uma mínima parcela da Humanidade obedece
a esses dois mandamentos. O terceiro mandamento é para não
se tomar em vão o Nome de Deus. Também noventa e nove por
cento dos seres humanos não o obedece. Agora, vamos pular o quarto
mandamento e vamos para o quinto, que é honrar pai e mãe.
Infelizmente são poucos os que o fazem...Vamos agora pular o sétimo,
pois voltaremos a falar dele e vamos para o sexto, não matarás
e o oitavo, não furtarás ou roubarás...O senhor sabe
que quanto a esses dois mandamentos, apesar de termos ladrões e
assassinos aos montes, muitos os obedecem, não por temor ou amor
a Deus, mas por medo da cadeia, já que furto, roubo ou assassinato
estão inseridos como crimes no Código Penal.
Aonde o velho pretendia
chegar com todo esse lenga-lenga sobre mandamentos, perguntou-se Clemildo.
Ora, ele conhecia os 10 Mandamentos de cor e salteado e não precisava
que um pecador recém-arrependido os repetisse a ele, justo a ele,
pastor já há anos, com uma congregação de mais
de 200 membros fervorosos. Mas, malgrado seus pensamentos, o milionário
continuou:
-O nono, não dirás
falso testemunho e o décimo, não cobiçarás,
creio eu que são os menos obedecidos ainda. Concorda, pastor?
-Concordo, mas, devo explicar
ao senhor, que certamente não conhece bem a Bíblia ainda,
que após a vinda de Jesus, as leis mosáicas e tudo o mais
do que chamamos Velho Testamento, foram abolidas.
-Está aí algo
que eu não entendo, realmente. Então é por isso que
a maioria das religiões não guarda o sábado, e sim,
o domingo? Acho que é por isso então que o quarto mandamento,
que manda santificar o sábado, e o qual eu havia pulado, para entrar
nesta questão, não é obedecido?
-Perfeitamente. Guardar
o sábado, até hoje, é coisa para o judaismo. A igreja
primitiva adotou o calendário gregoriano e, consequentemente, com
a mudança de datas, o dia certo para se guardar para o Senhor, é
o domingo.
-Compreendo... Mas o domingo,
como o senhor deve saber, era um dia dedicado ao deus sol, pelas religiões
politeístas. Então, apesar disso, os cristãos preferem
guardar o dia do deus sol e, ainda por cima, seguir uma data imposta por
homens, desobedecendo a Palavra de Deus?
-Olha, meu senhor, isso
é muito complicado de ser explicado, ainda mais para uma pessoa
não religiosa como o senhor, que não conhece bem a Bíblia,
como já disse.
-Vou concordar com o senhor
por enquanto, mas, mesmo que fosse certo os cristãos santificarem
o domingo, e não o sábado, o que vocês fazem no domingo,
além de irem à igreja, fazer um culto ou uma missa de uma
hora mais ou menos e depois voltarem para casa? Pelo que pude constatar,
ninguém guarda um dia para Deus, realmente. O sábado judaico,
como o senhor disse, é guardado do pôr-do-sol da sexta-feira
até o pôr-do-sol do próprio sábado, e nesse
período, eles não fazem nada, não trabalham, não
fazem comida, não vão para a praia e nem ficam tomando cerveja
num churrasquinho animado, contando piadas imorais...
O pastor, já
um pouco petulante, sentindo o medo de uma acusação grave
afastar-se dele, já que, ao que parecia, o homem só queria
discutir coisas da Bíblia, sentia-se cada vez mais seguro e já
respondia ao velho milionário como um adulto responde a uma criança,
sem considerar muito suas colocações. Margarida sim, esta
ainda estava tensa ao extremo, pois além de não entender
nada que os dois estavam falando, estava aflita para saber qual seria a
acusação sobre ela.
Clemildo, sorrindo, retrucou:
-Como já expliquei
ao senhor, são coisas do Velho Testamento e que já não
teem valia após o sacrifício remidor do Nosso Senhor Jesus
Cristo!
-Bem, meu caro pastor, como
eu também disse a todos nessa sala, eu não procurei Deus,
mas Ele me encontrou e deu a mim a chance de me redimir das minhas maldades,
antes que meus pés toquem a última estrada trilhada pelos
homens neste mundo. Então, a partir disso, eu procurei ler a Bíblia
e lutei com todas as minhas forças restantes, para entender o que
Deus nela fala, desde o Gênesis até o Apocalípse. Assim,
para encerrarmos esta parte e darmos sequência ao nosso tribunal
faz-de-conta, queria colocar algumas perguntas para o senhor: se o Velho
Testamento não tem mais importância após o advento
de Jesus, porque tem religião que considera o sangue sagrado, não
aceitando a transfusão dele, mesmo que isso implique em morte? Pelo
que lí, o sangue é considerado sagrado no Velho Testamento.
A segunda pergunta é porque o Filho de Deus disse que havia vindo
para cumprir as Escrituras, e não para mudá-las? E a terceira
e última pergunta é: se o Velho Testamento perdeu sua valia
para os cristãos, mesmo que o próprio Jesus tenha baseado
todo seu ensinamento nele, porque o Mestre, quando interrogado por um jovem
rico sobre o que deveria fazer para alcançar a vida eterna, respondeu,
primeiro, que o jovem deveria seguir os 10 Mandamentos, e somente depois
o Senhor disse para o jovem distribuir sua fortuna entre os pobres, e seguí-Lo?
Clemildo desta feita não
achou nenhuma resposta momentânea e, entre irado e meio perdido,
respondeu:
-O senhor me desculpe, mas
eu precisaria de um tempo a mais para poder responder tudo isso ao senhor.
-Pois não, pastor.
O senhor terá todo o tempo do mundo! – Ironizou – Porém,
enquanto esse tempo passa, lembro-me que deixei para trás o sétimo
Mandamento. O senhor também se lembra?
-Sim...é o que manda
que não adulteremos.
-Isso! E o senhor,
como é um homem inteligente, versado nas Escrituras e temente a
Deus, como aparenta ser em Fariséia e em sua congregação,
deve saber que existem várias formas de adultério. Mesmo
numa tradução de um livro, se o tradutor mudar uma letra
sequer, ele estará adulterando a obra...- O milionário fez
uma pequena pausa, igual a tantas que já havia feito, e depois continuou,
com voz já perceptivelmente cansada:
-Mas o adultério,
creio, de que fala o Mandamento, é referente ao relacionamento promíscuo
entre um homem e uma mulher. E Jesus, para dar mais peso ainda ao Mandamento
do Pai, disse que se um homem olhasse com cobiça para uma mulher,
já estaria adulterando, certo?
-Certo. – Concordou o pastor,
voltando ao início de sua insegurança, pois parece que o
homem conduzia toda a conversa, a qual ele, Clemildo, por instantes pensara
conduzir, para um desfecho final e que, pelo que ele já havia assistido
naquele local, nada bom para os “acusados”.
-Então, se assim
é, porque todas as igrejas ditas cristãs condenam o adultério,
proibido por Deus nos 10 Mandamentos, mas ao mesmo tempo deixam de
seguir o quarto Mandamento, só para citar um exemplo? Se um executivo
dita 10 normas para uma empresa, as 10 normas devem ser seguidas ao pé
da letra pelos funcionários. E porque vocês deixam de seguir
os 10 Mandamentos ditados pelo Soberano do Universo, o Todo Poderoso? Isso
não os torna hipócritas e os coloca ao lado dos mesmos fariseus
que crucificaram Jesus?
-O pastor Clemildo desta
vez nada respondeu. O milionário continuou, parecendo agora estar
com um pouco mais de vigor.
-O senhor mesmo, pastor
Clemildo, é um fariseu!
-O quê?! Como se atreve?
– Clemildo gritou, furioso com a acusação. Mas a resposta
do milionário o fez engolir em seco.
-O senhor se esqueceu
que eu tenho provas, pastor. Tudo que estou falando aqui, é fundamentado
em provas, verdadeiras e reais...O senhor, ou a sua dita igreja, nada fizeram
até hoje em benefício de ninguém, apesar da grande
soma de dinheiro arrecadada entre seus membros. Eu tenho os documentos
de suas contas em bancos e também de vários imóveis
pertencentes aos senhor, já que não estão em nome
da igreja. Também tenho provas de que o senhor é casado,
de que abandonou há cerca de 12 anos sua esposa e filhos em Recife,
aonde o senhor morava e já há alguns anos o senhor mantém
um caso amoroso com a senhora Margarida, aqui presente.
Clemildo empalideceu tanto,
que os outros três convidados pensaram que ele iria desmaiar. Já
Margarida, de grande colunista social, mulher que vivia entre a mais alta
classe social de Fariséia, sentiu-se como um grão de feijão
pequeno e estragado, ali no meio do imenso salão da mansão.
- E quanto à senhora,
dona Margarida – continuou o milionário -, é condenada por
sua maldade, orgulho e hipocrisia, pois a senhora era casada com um bom
homem, só que simples e sem as grandes ambições da
senhora. A senhora praticou o chamado assédio moral com seu próprio
marido, levando-o a um estado tão lastimável, que mais ou
menos um ano depois que a senhora o abandonou, ele, desgostoso, morreu.
Como ele já não morava em Fariséia, a senhora calou-se
sobre seu falecimento e continuou em busca do brilho da sociedade hipócrita,
que mais se preocupa em ter do que ser, permeando uma vivência fútil
e, consequentemente, inútil.
Desta mansão
vocês somente serão expulsos e, lá fora, estão
condenados a viver com sua própria consciência. O castigo
virá, menos dia, mais dia, se não pelos homens, através
da Palavra de Deus, que é eterna e não muda, seja no Velho
ou no Novo Testamento. Concorda, pastor?
A ironia da pergunta
final, deu o tempo certo para o segurança entrar e sair rapidamente
com o casal.
XIX
Após um silêncio
assustador para os três últimos convidados, que se degladiavam
cada um com seus próprios pensamentos em ser o próximo a
sofrer uma acusação horrível ou em ser o felizardo
a herdar a fortuna do milionário, a voz do velho irrompeu na sala.
-Ah, como estou cansado!
A voz já um
pouco rouca e fraca, mostrava realmente o desgaste do velho milionário.
Era a primeira vez que ele se expressava de maneira tão informal,
mas que no entanto demonstrava que ele, apesar da fortuna, era um ser humano
como os três que estavam na sala. José e Benedito chegaram
a sentir uma ponta de pena dele. Mas Benedito, logo trocou os pensamentos
misericordiosos por tais como: foi ele quem armou toda essa palhaçada...então,
que agora aguente!
Mais uma pausa de
descanso e mais uma vez o temido chamado. Desta feita ele chamou Luiz,
o presidente do clube filantrópico e José, funcionário
de uma das centenas de empresas dele.
Luiz tremeu nas bases,
sentindo as pernas moles, mas José, sem que em todo o desenrolar
do julgamento, tivesse achado algum pecado terrível sobre sua cabeça,
não se perturbou muito, a não ser pelo fato de que, se ele
e Luiz iam ser “julgados” agora, restava apenas o Benedito ali, o que,
estava claro, conforme o já explicado antes da longa noite, que
ele, o Benedito era o menos pecador de todos e, consequentemente, iria
herdar toda a fortuna do velho!
Benedito, que de bobo
não tinha nada, já estava quase arrancando o bigode do rosto,
de tanto esfregar a mão nele enquanto contabilizava a situação
justamente como José havia feito. Chegando à conclusão
lógica, ele desceu a mão do bigode para a boca, para esconder
o riso que teimava em aflorar e ainda a vontade de gritar: - Ganhei! Sou
o menos pecador! Estou rico! Estou milionário! Estou...estou...
– Com os retumbantes pensamentos dando voltas em seu cérebro, Benedito
a custo se conteve de dar os gritos, de saltar sobre a mesa e sair dançando.
Enquanto parecia que ia explodir por dentro, de custosa contida euforia,
por fora ele procurou ficar o mais sério possível, para acompanhar
o desenrolar dos fatos.
-Senhor Luiz, há
quanto tempo! Como está o clube, após o incêndio? Acho
que há uns oito anos, se não me falha a memória...
-Olá, senhor Nezlinger...foi
precisamente há sete anos esse acontecimento lastimável.
José sabia o nome
do milionário, claro, embora sempre tivesse dificuldade em pronunciá-lo.
Já Benedito, que nem mesmo saberia escrever tal nome, achou interessante,
pois era a primeira vez que o nome do velho era citado naquela noite.
-É verdade...sete
anos...e, se bem me lembro, nessa época eu havia feito uma boa doação
ao seu clube, certo, senhor Luiz?
-Certíssimo, senhor.
Um pouco antes do incêndio, o senhor havia doado R$300 mil reais
ao clube.
-E a troco disso, eu pedi
que o senhor direcionasse aquela quantia para a compra de agasalhos e remédios
para as crianças e velhos desamparados, como também para
alimento delas. O senhor se lembra?
-Claro. E o que o senhor
pediu, foi feito.
-Muito bem. Pena que o incêndio
daquela noite, há sete anos, como o senhor recorda, destruiu boa
parte do clube e praticamente toda a sala do escritório e arquivos.
-É, foi uma pena,
mas, graças a Deus, o povo de Fariséia se uniu e ajudou a
restaurar o clube, que voltou a funcionar normalmente, como o senhor sabe.
-Sim, sei, como também
sei de toda a contabilidade do clube, antes e depois do incêndio...
Luiz, se tivesse um
espelho à frente, veria que em segundos, após a observação
do milionário, mudou de cor e semblante umas três vezes,
ao menos. Primeiro, o branco e a cara de espanto, passando depois para
um semi-amarelado de dúvida para chegar ao roxo do desespero aliado
à raiva de saber, naquele crucial momento, que o milionário
sabia mais do que ele, Luiz, poderia imaginar. Afinal, na época,
lhe pareceu o golpe perfeito ter provocado ele mesmo um curto-circuito
nas instalações da sede do clube à noite, tomando
o cuidado de que os livros de contabilidade, principalmente eles,
fossem queimados! Como o maldito velho descobrira isso?, perguntou-se.
-Então, senhor Luiz,
como o senhor disse à pouco, o senhor aplicou parte da verba que
doei, realmente para ajudar os infelizes. Mas essa parte foi apenas de
R$20 mil reais, justamente o que o senhor lançou no livro da contabilidade
do clube, enfiando em seu próprio bolso, deduzo eu, os R$280 mil
restantes...E, com o livro-caixa queimado, sabendo que nenhuma investigação
seria feita, dado à sua presumida idoneidade moral, o senhor achou
que jamais ninguém descobriria seu covarde roubo. Mas o senhor não
roubou de mim, senhor Luiz, e sim dos velhinhos e principalmente de crianças
pobres, as quais, o senhor desconhece, teem um temível Protetor.
Luiz agora, com sua
idealizada honra fragmentada em cacos invisíveis espalhados pelo
piso do salão, parecia se colorir do viscoso e nojento esverdeado
dos vermes.
E o senhor Nezlinger
continuou:
-Talvez sim, talvez não,
você se pergunte como eu descobri isso, e aqui entra meu amigo José,
aí ao seu lado. Ele era tesoureiro do clube na ocasião e,
não sei porque cargas d’água, mas o credito à sua
honestidade e eficiência, ele tinha a mania de fazer cópias
de todos os lançamentos feitos no livro-caixa. E tais cópias,
claro, ele as guardava em sua casa.
José, levado
de susto ao ouvir seu nome citado repentinamente, ouviu perplexo o homem
falar da mania que somente ele, José, sua esposa e mais uma pessoa,
sabiam. Mas, diante de tudo que já havia ocorrido naquela noite,
José não duvidava de mais nada, mesmo se o milionário
falasse agora que existiam discos-voadores.
-Graças a Deus, que
deu ao meu bom José o caráter para honrar o nome, que é
o mesmo do grande José do Egito, homem de Deus, e que toda a vida
agiu dignamente. E agora até mesmo meu amigo José deve estar
se perguntando como sei disso também...
O milionário
fez uma pausa, enquanto olhava de seu lugar, um até então
orgulhoso Luiz parecer se desmontar como um robô enferrujado. Mas
não se pode ter misericórdia de pessoas vis, corruptas e
maldosas. E assim, o velho continuou, não escondendo sua admiração
pelo funcionário José.
-Desse procedimento de José,
de fazer cópias de documentos contábeis do clube e os guardar
consigo, só sua esposa sabia e uma pessoa em quem José confia
e que, por esses mistérios que só Deus sabe, é seu
chefe em uma das minhas empresas.
Esse meu executivo
sabia da minha doação de R$300 mil reais e havia comentado
sobre ela com José, justamente após o incêndio. José,
que jamais havia visto o lançamento de tal quantia, pegou as cópias
para conferir e numa delas, onde deveria constar a verdadeira soma, estavam
lançados apenas R$20 mil reais...Foi quando o chefe de José
pediu a cópia a ele e a trouxe até mim.
O milionário
deu uma boa risada. Não uma gargalhada, mas uma risada feliz, comentando:
-Deus age de maneira maravilhosa!
XX
Enquanto Luiz era
retirado pelo segurança, um embasbacado José permaneceu no
meio da sala, enquanto Benedito, sem entender menos ainda, parecia ter
uma pulga atrás da orelha, se perguntando porque José entrara
no julgamento do homem, já que, ao que vira e ouvira a pouco, José
estava mais para herói do que para pecador. E se José não
era um vil pecador, o que seria dele, Benedito? Se não fosse condenado
teria que dividir a fortuna com o José? Ele pegou o copo d’água
e o sorveu de vez, enquanto mentalmente confuso, xingava todos os palavrões
que havia aprendido em seus miseráveis 45 anos de vida.
-Meu bom José – Voltou
o milionário – a que religião você pertence?
-Eu....
-Bom, isso não importa
– interrompeu o velho – Não importa ao homem seguir essa ou aquela
religião, e sim, obedecer a Deus, como Jesus diz: “Ama a Deus sobre
todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Estes são dos
dois maiores Mandamentos”. Estas palavras benditas estão na Bíblia,
José. Não sei se você já a leu alguma vez, mas
aconselho que o faça, sempre. Eu aprendi muito, lendo a Bíblia.
José estava
tão feliz com o tratamento carinhoso que seu poderoso patrão
estava lhe dando, como também rememorava rapidamente que, graças
a ele, foi desmascarada a falcatrua do presidente do clube, que se quedava
embevecido, prestando a máxima atenção às palavras
do milionário, e até tinha se esquecido porque estava ali.
-Então, José,
pelo concebido por mim, conforme você assistiu nesta noite, seria
você a pessoa escolhida para herdar todos os meus bens. E isso
muito me contentaria. Mas, antes de chegar ao ponto em questão,
quero lhe dizer algo: a riqueza, meu caro José, na maioria
das vezes, não corrompe o homem fisicamente, mas o corrompe espiritualmente,
corrompe sua própria alma, como fez comigo. E eu não quero
que você perca sua honra e sua dignidade. Por isso, conforme de antemão
eu já havia decidido, vou passar para o seu nome uma das minhas
construtoras de imóveis. Como você sonhava, e chegou a falar
com seu amigo, a quem entregou a cópia do livro-caixa, vou realizar
seu sonho. A partir de agora você não trabalha mais para mim,
e sim, para você mesmo. Você é agora um empresário
e eu espero e desejo, sinceramente, que você aplique sua honra e
dignidade na direção da empresa que agora lhe pertence.
José, até
meio tonto de felicidade, parecia não acreditar em tudo que estava
ouvindo. Mas era real. Ele não estava sonhando...
-A honra e a lealdade não
teem preço, meu caro José, e peço que você olhe
seus funcionários a partir desse prisma. Descarte-se logo dos que
não querem colaborar para o crescimento da empresa, e nem para o
deles próprio, mas mantenha sempre junto a si os leais e que querem
crescer junto com você. Tais homens são imprescindíveis.
Outra coisa que peço a você, é sobre algo que também
aprendi na Bíblia: foi iniciado por Abraão e depois sacramentado
por seu neto, Jacó, e vem de Deus tal coisa: a Deus pertence tudo,
e a Ele sempre se deve dar primeiro, não porque o Senhor precise
de algo, mas por honra e temor ao Todo Poderoso. Ao final do mês,
quando fizer a contabilidade da empresa, primeiro você deve separar
dez por cento do faturamento, os quais você deverá distribuir
entre igrejas, hospitais, asilos, orfanatos ou em qualquer outro local,
onde se pratique a caridade e haja necessitados. Fazendo isso, Deus abençoará
sua empresa e você só terá vitórias em seu caminho.
Você compreendeu, José?
-Sim, senhor.
-Muito bem.
O segurança
entrou no salão, mas ao invés de carregar José para
fora, como havia sido feito com os outros, ficou aguardando as ordens do
milionário, que foram rápidas e precisas:
-Acompanhe o senhor José
e mande um carro levá-lo até sua residência!
Quanta diferença
agora. Dos 14 convidados, apenas José saia dali feliz, de cabeça
erguida, com honra. Com o sorriso da paz, ele deixou o salão como
se estivesse andando sobre nuvens, bem diferente dos outros, que dali sairam
se arrastando como serpentes peçonhentas...
XXI
Faltava ele. Sim, faltava
Benedito, o último e, consequentemente, o grande e felizardo herdeiro
da fortuna do velho. Benedito sentia o peito explodir, se intercalando
em seu espírito vontade de rir, de chorar, de gritar. Ele estava
rico! E, sem conseguir mais se conter, ele levantou-se e ensaiou uns passos
de valsa no salão, arrancando a terceira gargalhada do milionário.
-Feliz, senhor Benedito?
-E como não? E como
não? Eu sou o último e, se o senhor não estava brincando,
sou eu o herdeiro da sua fortuna! Foi o que o senhor prometeu!
-E é verdade, senhor
Benedito. O senhor é meu herdeiro, assim como prometi.
Benedito, nesta hora,
passou da valsa para o samba, tendo até vontade de dar cambalhotas
pelo salão. O velho, de onde estava, se divertia. Deu o tempo que
achou necessário para toda aquela evasão eufórica
do homem, e então interpelou:
-Então, senhor Benedito,
vamos ao seu julgamento e, após, vamos tratar de assuntos pertinentes
à herança.
Benedito, recompondo-se,
perguntou, surpreso:
-Ué, mas se eu ganhei,
porque tenho que passar pelo julgamento?
-Porque todos passaram,
e seria injusto o senhor não o fazer também, concorda?
Benedito deu de ombros,
em sinal de concordância. Afinal, se a fortuna já era dele,
um julgamentozinho em nada iria mudar as coisas, mesmo que o milionário
dissesse que ele fosse o culpado pela guerra do Vietnam.
-O que o senhor achou de
tudo? – Perguntou o milionário, de supetão.
-Ah! Fora o Zé, o
resto se fudeu, se me perdoa a palavra...
-Ora, uma expressão
boçal dessa não fica bem na boca de um agora milionário.
Para confessar ao senhor,
eu tenho mais é pena deles. O que fiz foi somente mostrar a eles
que aqui, na Terra, não tem ninguém perfeito ou justo. O
que eu fiz foi fazê-los ter uma tomada de consciência e ficarem
mais humildes, pois o orgulho a nada leva, a não ser destruir a
própria pessoa. Esse pessoal que o senhor viu, senhor Benedito,
com exceção do José, são apenas pobres almas
perdidas na sua maldade e na ilusão de prazeres mundanos.
O velho deu uma profunda
e sentida respirada, e continuou:
-E quanto ao senhor, lá
bem no âmago da sua consciência, não há nada
que o acuse?
Mas que velho mais
chato! E ainda fica usando essas palavras difíceis que eu não
conheço. Saco! - Praguejou Benedito, em pensamento – Mas com a grana
do coroa agora, posso falar errado à vontade, posso arrotar em banquete,
posso meter o dedo dentro do nariz num teatro, que ninguém vai me
encher o saco. Afinal, quem tem dinheiro, é respeitado. Posso até
andar de cuecas pela rua, que vão apenas me chamar de milionário
exótico...Ah, mas se um pobre faz isso, coitado, é preso
na mesma hora por atentado ao pudor.
Como dinheiro é
bom! Você pode fazer o que quiser e andar do jeito que quiser, que
todos aplaudem. A bem da verdade, o coroa tem razão, esse povinho
é bem hipócrita mesmo! Aparência, para eles é
tudo. Não importa o que a gente tem por dentro, e sim estar bem
vestido. Isso é que importa, para esses fariseus. E, se você
tem dinheiro, ai sim, o dinheiro é o mais importante. Ai você
pode falar como quiser, andar como quiser e fazer o que der na telha. E
é o que eu vou fazer agora, e garanto que a partir da hora que tiver
abonado, ninguém vai me chamar mais de Dito...Vai ser, senhor Benedito!
Enquanto Benedito
filosofava em sua simplicidade, o velho, por sua vez (e para desgosto do
homem), também começou.
-Nós não sabemos
de onde viemos e nem para onde vamos, senhor Benedito, mas descobri também,
que nem ao menos sabemos por que estamos aqui.
O velho queria mesmo
filosofar, ao que parece, e Benedito, mesmo cansado, com fome e com sono,
resolveu escutar, pois afinal ele ainda não havia transferido a
fortuna para ele, e ele não seria bobo de correr o risco de irritar
o velho. Ele poderia mudar de idéia e aí era ele quem ia
se fu...quem ia se sair mal, corrigiu o pensamento.
-Mas, estudando a Bíblia
e o ser humano, - Continuou o velho - descobri em seguida que realmente
não faz sentido nossa vida sobra a face da Terra, a não ser
por um propósito: adorar a Deus, que fez todo o Universo e a nós
também, e o que o Senhor pede, é apenas que O obedeçamos,
louvemos e adoremos, como o Grande Pai que Ele é, e que amemos nosso
semelhante. Nada mais. O resto seria desfrutar das belezas que ele colocou
na Terra, como os rios, mares, montanhas, florestas e tudo o mais. Mas
o homem, movido pela ambição, deixa o Criador de lado e trilha
seu próprio caminho de agonia. Ele quer tudo para si e corre em
busca de poder, sem mesmo atinar aonde vai chegar e, principalmente, que
ele veio sem nada para este mundo e vai deixá-lo apenas com a roupa
do corpo.
Então parou
com suas divagações e, olhando Benedito, disse:
-Bem, creio que o senhor
não está entendendo muito do que estou falando...vamos então
ao seu julgamento. O senhor já encontrou ou lembrou-se de alguma
coisa grave que cometeu?
Como Benedito sabia
que da égua do sítio era impossível o homem saber,
respondeu, seguro.
-Não.
-Então vou ajudá-lo
a lembrar-se...o senhor casou-se jovem e pouco depois se separou. Já
fazem 25 anos que o senhor está separado, não é mesmo?
-Acho que sim. Nunca fiz
as contas.
-Mas eu fiz para o senhor.
O senhor casou-se, mas não quis ter filhos. Sete anos depois de
separado, o senhor voltou para sua esposa e ela então teve um filho
do senhor, o qual está hoje com 18 anos de idade...pelo menos isso
o senhor deve saber
-Sei, sei – Respondeu Benedito,
um pouco irritado.
-Assim que a criança
nasceu, o senhor separou-se novamente, desta vez, em definitivo, e vive,
de lá para cá, fazendo alguns trabalhos aqui e acolá
e o dinheiro que ganha, o senhor gasta tudo em roupas, jogos e bebedeiras
com mulheres fúteis, sendo frequentador usual de salões de
dança e, quando não está trabalhando, dançando,
bebendo ou dormindo, o senhor dedica-se ao seu esporte predileto, que é
a pescaria. É isso?
-É! – De novo uma
resposta mal-humorada, já que o velho parecia ter o condão
de fazer as pessoas lembrarem justamente do que elas queriam esquecer.
-Que vida inútil,
não senhor Benedito?
-Eu não acho.
-Pois eu acho, e tem mais:
nesses 25 anos de separação, mesmo com o nascimento do seu
filho, o senhor jamais ajudou sua ex-mulher e nem mesmo pagou-lhe a devida
pensão. Ela, uma mulher dígna e lutadora, sobreviveu às
suas próprias custas e criou e educou até agora o filho sozinha!
E em nenhuma ocasião, segundo nosso levantamento entre testemunhas
que os conhece e também no Fórum, essa mulher jamais o acusou
por não pagar a pensão, que lhe era de direito.
Nenhum
som saiu agora da boca de Benedito. O que o homem dissera era para envergonhar
qualquer um, mas não a ele. Para ele, o importante era viver livre
e feliz, sem preocupações e sem compromissos com mulher e
filhos...Isso era coisa de gente besta.
-E o senhor ainda se acha
feliz!...
-Cacete! – Pensou o aparentemente
novo rico - Parecia que o velho lia seus pensamentos!
-Me acho, sim!...
-E agora, milionário,
mais ainda! – Completou o velho.
Benedito abriu um
largo sorriso.
-Mas é claro, sô!
-O velho deu mais uma de
suas profundas respiradas, e resolveu dar fim ao diálogo que o estava
irritando.
-Está certo, senhor
Benedito. Apesar de eu o considerar um canalha, perto dos outros que foram
praticamente expulsos daqui, o senhor é o menos pecador. E eu acho
que canalhice não deva ser pecado, mas, se for, o castigo deverá
ser bem menor para o senhor do que para os outros.
Assim, já que empenhei
minha palavra, malgrado sua falta de caráter e de ser uma pessoa
inútil à sociedade, assim mesmo devo confessar que
o admiro, pois pelo menos o senhor é o que é...Não
é hipócrita como a maioria. Então, só me resta
declará-lo como herdeiro da minha fortuna!
Bingo! Era isso que
Benedito queria ouvir já há muito. Esfregou as mãos,
ansioso, e um sorriso espelhou-se sob seu bigode bem cuidado. Mas, assim
que o velho continuou, o sorriso foi aos poucos desaparecendo...
-Da minha fortuna, que é
imensa, e que agora passa para o senhor, por direito, vou tentar amenizar
um pouco os pecados dos que aqui estiveram...Assim, com uma pequena parte
dela, já comprei todo o terreno aonde estava a casa da viúva
e agora era um supermercado, o qual já mandei demolir. Ali
será erigido um monumento à viúva e ao seu pequeno
filho, para que toda vez que alguém olhar para ele, se lembre da
sórdida ação do vereador, do advogado e do gerente
do banco. Quero preservar viva a memória daquela infeliz e, com
isso, vou preservar também a vergonha desses três homens.
Quanto à tribo de
índios, diabolicamente usada pelo cientista, já mandei uma
equipe médica para lá, com todos os recursos e construi um
mini-hospital para o atendimento deles. Enquanto viverem, eles serão
tratados como seres humanos que são.
-E sou eu quem tenho que
pagar isso?! – Perguntou Benedito, já aflito na contabilidade da
sua fortuna.
-Não. Antes de acertar
o prêmio que receberia o menos pecador, já havia cuidado de
tudo isso. E meus escritórios de advocacia é que irão
administrar tais trabalhos. Não precisa se preocupar... – Explicou
o velho, colocando uma pitada de ironia nas últimas palavras.
-Outra ação,
que creio, mesmo o senhor deverá concordar da sua necessidade e
importância, é que já vamos começar a construção
de um hospital psiquiátrico infantil, que dará toda assistência
gratuita, física e espiritual, às crianças vítimas
de abusos sexuais, além também de cuidar das com doenças
comuns.
E, por fim, também
já foi comprado o terreno onde será construída uma
casa-abrigo para os indigentes, com acompanhamento médico e social.
Eles serão recolhidos das ruas e receberão alimentação,
roupas, remédios, tratamento e trabalho. Profissionais irão
ensiná-los a fazer algum trabalho, para que depois, ao deixar o
abrigo, eles possam sobreviver dignamente...Não é uma boa
coisa? – Concluiu o milionário, já num tom mais alegre.
-Boa uma merda! – Xingou
Benedito novamente em pensamento – Se o velho continuasse fazendo tanta
coisa pros outros, ia acabar “dilapidando” a fortuna que agora lhe pertencia.
O velho, observando a carranca
do homem, e talvez se divertindo com tudo aquilo, disse:
-É só isso,
senhor Benedito. Um carro irá levá-lo agora à sua
casa.
XXII
-Ei! Ei! E a grana? Como
e quando receberei a herança? – Perguntou, quase num grito de angústia.
-Ora, ora...me desculpe,
senhor Benedito! Nessa idade normalmente algumas coisas nos fogem da lembrança...Eu
estava realmente esquecendo de falar sobre isso.
-Eita velho sacana! – Foi
o pensamento de Benedito, achando que o milionário estivesse querendo
“passar a perna” nele.
-No contrato que mandei
meus advogados fazerem, para os quais agora, como disse anteriormente,
vou passar seu nome, tem uma cláusula que também será
preenchida agora, a qual dita a maneira pela qual a fortuna será
transferida.
Benedito só
faltava bater a cabeça na parede, tal era a ansiedade e irritação
a que o velho o estava levando com toda aquele palavrório jurídico.
-Como o senhor foi o ganhador
e, francamente, eu já esperava por isso, a cláusula está
sendo preenchida, nesse momento, citando que, para sua ex-mulher, será
concedida, a partir de agora, uma renda vitalícia de R$10 mil reais
por mês e, para seu filho, agora completando 18 anos, estudo completo
numa Universidade dos EUA, com tudo pago e uma pequena renda para suas
necessidades mensais. Será comprado um apartamento para ele, onde
ele morará até se formar. Ao concluir os estudos, será
montada uma empresa para ele, com toda a assistência dos meus escritórios.
Benedito desta vez
não pensou. Soltou um palavrão mesmo, pois pelo que via,
em sua aflita contabilidade mental, daí a pouco iria sobrar para
ele apenas umas fábricas, uns terrenos e alguns míseros milhões
de dólares. Aos poucos o maldito velho estava diminuindo sua fortuna...
O milionário,
além de ouvir o palavrão, pareceu novamente adivinhar os
pensamentos do homem, que naquele instante parecia ir às raias do
desespero, ao ver indo seu “dinheirinho” para os outros e, até agora,
para ele, nada!
-Não precisa se desesperar,
senhor Benedito. Como disse, minha fortuna é muito grande. Para
o senhor ainda ficam vários imóveis aqui no Brasil, em Nova
York e Paris; cinco indústrias que têm um rendimento anual
líquido de milhões de dólares; esta mansão,
orçada em mais de R$1 milhão de reais, além de obras
de arte, ouro e muitas outras coisas, das quais não me lembro, mas
o senhor irá receber a relação de tudo isso.
Benedito quase teve
um desmaio ao ouvir tudo aquilo. Mesmo com o dinheiro “jogado” fora pelo
velho em assistência social e as mordomias para sua ex-mulher e seu
filho, ainda sobrava tanto dinheiro, que mesmo vivendo três vidas
ele conseguiria dar fim. Novo sorriso sob o bigode já com alguns
fios brancos. Agora as coisas estavam se encaixando e ele estava menos
nervoso. Então o velho voltou a falar.
-Tudo certo, senhor Benedito?
-Ca-Claro! – Gaguejou, de
olhos brilhantes, mas que logo se ofuscariam ao ouvir o milionário...
-Falta agora a sua sentença...
-Sentença? Mas por
quê vou ser castigado? Eu já fui julgado, sou o vencedor e
herdeiro da sua fortuna, como o senhor mesmo prometeu. Que raio de castigo
é esse? – Berrou Benedito, voltando a se irar.
-Questão de justiça,
meu caro, como já lhe disse. Todos aqui, à exceção
do José, foram julgados...e você também o foi. Depois,
de uma maneira ou outra, todos tiveram uma sentença, ou castigo,
como o senhor quiser, de acordo com suas ações. Então,
agora, concluindo esta terrível noite, devo dar uma sentença
sobre seus pecados, embora que mínimos.
-Tá bão! Tá
bão... – Concordou Benedito, procurando se acalmar – E qual é
minha sentença?
-Como eu disse, no documento
de transferência da minha herança ao ganhador, ficou uma cláusula
em aberto, para ser posteriormente preenchida pelos meus advogados. Assim,
para não me tornar repetitivo, e dando fim ao nosso julgamento,
sua sentença é que o senhor terá que aguardar 25 anos
para ter direito a fazer qualquer uso da sua herança. E mais: também
será estipulado que, se o senhor se aproximar de sua ex-mulher,
qualquer que seja sua intenção, ou ainda vier pedir algum
dinheiro a seu filho, a herança será transferida para entidades
assistenciais em todo o País, e o senhor não verá
um tostão sequer dela!
-Ma-mas isso não
é justo... – Conseguiu retrucar o homem, pálido como um lençol
branco.
-Pode ser injusto, senhor
Benedito, mas somente estou repetindo a injustiça que o senhor cometeu
com sua ex-mulher e seu filho. Foram 25 anos de abandono, e assim, e aqui
entra a justiça, o senhor esperará os mesmos 25 anos para
herdar a fortuna.
-Mas o senhor prometeu...-
Tentou dialogar Benedito, com voz débil.
-Prometi doar minha fortuna
ao menos pecador, e é o que estou fazendo ainda hoje, somente não
disse como faria tal doação. Portanto, senhor Benedito, assunto
encerrado!
Benedito deu alguns
passos, cabisbaixo, com a alma tão afligida como se estivesse no
inferno. De soslaio, ele percebeu que o segurança entrava no salão,
para levá-lo. Então ele parou, voltou-se para o lado da parede
de onde vinha a voz do milionário e tentou uma última cartada:
-Pelo que entendi e pelos
meus cálculos, só vou ter direito à sua herança
quando estiver com 70 anos de idade!...E como vou viver até lá?
-Talvez o senhor viva até
os 70 anos, talvez não. Eu consegui. Quanto ao senhor, Deus é
quem sabe. Referente à sua sobrevivência, se chegar
até a citada idade, o problema é todo do senhor. Passar bem,
senhor Benedito.
O segurança
foi acompanhando o arrasado homem até à porta, quando a voz
do milionário soou pela última vez para o último convidado:
-Aprenda uma coisa, senhor
Benedito: como disse Bertold Brechet, o mundo é um esgoto, e todos
nós fedemos! E, nesta noite, isso ficou bem claro aqui.
Sergio Ferraz
FIM
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
|

ESPECIAIS
GRANDES
MATÉRIAS
MUNDO
SERTANEJO
NOSSOS
HERÓIS
OS
REVOLUCIONÁRIOS
ARTIGOS
E CRÔNICAS
CLIPES
E MÚSICAS
CONTOS
HOME
PAGE
|