Terror
e morte
na
URSS de Stálin
Os expurgos políticos
dirigidos por Stálin na União Soviética, na década
de 1930 (a partir de 1934), e continuados, em escala menor, até
a morte do seu mentor (1953), permanecem uma incógnita histórica.
Estudos de vários tipos e tendências apareceram sobre o tema,
porém vitimadas, em sua maioria sem saber a causa da punição.
A análise sociológica define algumas motivações
desse sacrifício humano, mas estaca nos limites da racionalidade
a desvendar.
Hoje tem-se a idéia
aproximada da dimensão do acontecimento, apesar da inacessibilidade
dos arquivos da polícia secreta russa – sucessivamente chamada
Cheka, GPU, NKVD e KGB. Declarações de líderes, memórias
de sobreviventes, comentários oficiosos e documentos oficiais são
as melhores fontes. Deve-se cotejá-las, para fins de equilíbrio
com relatos de comunistas hostis à liderança de Moscou, dando-se
destaque aos trotsquistas e aos iugoslavos. As estimativas variam, naturalmente;
apenas o Estado soviético poderia estabilizá-las, o que se
recusa a fazer, não indo além das vagas referências
de Kruschev a “muitos milhares de vítimas”, no chamado Informe Secreto
ao XX Congresso do Partido, em 1956. Depois de 1962, o Governo da URSS
vetou discussões do assunto, e uma discreta campanha de reabilitação
do nome de Stálin e do seu tempo teve curso. Essa campanha continua
em vigor.
No mais baixo índice
de cálculo, todavia, as mortes e prisões desafiam a nossa
imaginação e sensibilidade. É-nos impossível
percebê-las como coisa viva, no alcance da experiência individual,
pois possuem a magnetude das catástrofes da natureza, ou daquelas
pragas que Deus criava contra os inimigos dos hebreus. E, permeando
o horror e o sofrimentos indizíveis de um povo, ainda ecoa a pergunta
do ex-Comissário Executivo do Povo Lakov Livhtis, em 30 de janeiro
de 1937, antes de ser executado: “Zachto”? Por quê?
Nem Hitler se compara a
Stálin na qualidade da fúria assassina e persecutória.
Na qualidade, supera-o. Hitler matava e prendia inimigos do nazismo. Os
próprios judeus, no caso, desempenharam o papel dos capitalistas
no comunismo. Nenhuma ideologia, idealista ou materialista, ganha impulso
sem demônios – todo São Jorge precisa de um dragão
para afirmar-se. Hitler mandou fuzilar alguns adeptos, como o Capitão
Rohm e o resto da liderança das tropas de choque nazistas, em 1934,
mas eles eram um obstáculo comprovado à união de governo
civil e exército, indispensável ao sucesso da política
externa do ditador. No mais, Hitler foi de uma indulgência a toda
prova diante da corrupção, dos vícios e das gafes
de seus asseclas.
Já Stálin
ordenou de pronto o fuzilamento do comandante do front noroeste da URSS,
General Rygachov, porque partes de sua Força Aérea foram
destroçadas no solo, nas primeiras horas da invasão nazista,
em 22 de junho de 1941. Note-se que a pasmaceira militar do país,
cujas armas não estavam sequer de prontidão, era da responsabilidade
de Stálin, que recebera avisos da iminente ofensiva de Hitler, via
Stafford Cripps, embaixador inglês em Moscou, e Richard Sorge, o
principal agente da NKVD no estrangeiro, sediado em Tóquio. Nem
por isso (ou talvez, por isso), Stálin deixou de condenar à
morte, além de Rygachov, o General Pavlovo (comandante do front
oeste), seu chefe do Estado-Maior, Klimovsky, e Korobkov, comandante do
IV Exército, jogando sobre eles a culpa das pesadas derrotas e perdas
nos primeiros meses de luta.
É possível
contra-argumentar que esses infelizes oficiais não pertenciam ao
circulo íntimo de Stálin ao contrário de Goering em
relação a Hitler. Certo, mas Stálin também
fez liquidar companheiros, amigos e parentes. Preferiu perder um filho
prisioneiro dos alemães, a trocá-lo por um nazista importante.
Essa atitude é aceitável para alguns, como demonstração
de heroísmo (à custa da vida do próximo), desumano
embora, ou, na melhor das hipóteses, sobre humano, Stálin,
porém, pôs na cadeia a mulher de Molotov, seu mais chegado
colaborador. Mandou matar o irmão de sua mulher, Nadezhda
Alliluyeva, a quem levara ao suicídio, em 1932. Dos 1966 delegados
ao “Congresso dos Vitoriosos” (o XVII Congresso do Partido, em janeiro
de 1934), 1108 foram fuzilados nos anos seguintes.
Começam as matanças - Stálin é igualado a Gengis
Khan
Dos 139 membros e
candidatos ao Comitê Central, 98 morreram da mesma forma (quase todos
em 1937-38). Nenhum dos dirigentes da Revolução de 1917 sobreviveu
aos expurgos, exceto Stálin e os que faleceram antes de 1934. E
até hoje permanecem difamados na URSS.
Sergei Kirov controlava
a organização partidária em Leningrado que pertencia
ao Comitê Central e o Politburo, ao Excutivo soviético, em
suma. Entrara para o PC com dezoito anos de idade, em 1904, na cidade de
Tomsk (Rússia). Fora preso e deportado quatro vezes sob o czarismo.
Na Revolução de Fevereiro, chefiava o núcleo bolchevique
em Vladikavkaz, no Cáucaso, onde fez seu treinamento como militante
clandestino. Era um stalinista ortodoxo por convicção, recusando-se
a cair na subserviência peculiar a muitos seguidores de Stálin.
Ao contrário do chefe, georgiano, nascera na Rússia e tinha
talento oatório. Gozava de popularidade junto aos operários
de Leningrado, esforçando-se em conseguir-lhes melhores condições
de vida, razão pela qual Kaganovich, outro stalinista de proa, chamou-o,
certa vez, de “demagogo barato”. Sua morte seria o estopim dos expurgos.
Kirov ajudou Stálin
a combater a “esquerda” e a “direita” dentro do Partido. Tais distinções
no comunismo, não tem o mesmo sentido que o sistema liberal ou em
quaisquer regimes onde exista o capitalismo. Todas as facções
são comunistas. Divergem quando a meios e táticas. A “esquerda”,
sob o comando de Trotsky (mais tarde unido a Zinoviev e adeptos), pretendia
realizar aceleradamente a coletivização agrária e
a industrialização da URSS, assim como favorecer revoluções
em outros países, até a vitória internacional do bolchevismo.
A “direita”, cujo mentor era Bukharin, propunha um ritmo menos intenso,
alegando a falta de condições propícias para o sucesso
das teses dos oponentes.
Trotsky, Zinoviev e Bukharin,
principalmente o primeiro, foram peças decisivas no levante comunista
de 1917. Trotsky organizou a tomada do poder e, durante a guerra civil
subseqüente, dirigiu o Exército Vermelho. Zinoviev era o discípulo
número 1 de Lênin, e Bukharin, um dos principais teóricos
marxistas do Partido. Perto deles, cujo renome se estendera a todo o mundo.
Stálin parecia um burocrata apagado, embora sempre ocupasse, sob
Lênin, postos de destaque no Governo, pertencendo também aos
órgãos decisórios.
Stálin jogou habilmente
um grupo contra o outro, na disputa da sucessão, depois da morte
de Lênin (janeiro de 1924). Definiu-se, naquele período, pela
tese do “socialismo num só país”, idéia que, por sinal,
extraiu de Bukharin. Em outras palavras, deu prioridade absoluta ao desenvolvimento
interno soviético, relegando tudo mais a plano secundário.
Travou-se feroz polêmica entre as diversas facções.
A princípio, todo se aliaram contra Trotsky, em quem, irônicamente,
imaginavam ambições ditadoriais. Quando conseguiram deportá-lo
(1929). Zinoviev, Bukharin e outro líder, Kamenev, já não
tinham ilusões quando aos objetivos de Stálin, embora lhes
fosse possível prever a extensão dos futuros expurgos. Burkharin
referia-se a Stálin como um novo Gengis Khan. Estavam todos na oposição.
Mas era tarde demais.
Stálin ocupava
o cargo de secretário-geral do Partido, considerado desinteressante
pelos seus colegas mais intelectuailizados. Na prática, isso significava
que tinha o poder de nomear e demitir funcionários do Governo. Demonstrando
infinita paciência, preencheu os postos-chave com gente sua. Dada
a hipercentralização do sistema, todas as decisões
começavam e terminavam na mesa de vida.
Lênin já antevira o que Stálin seria...mas era tarde
demais
Lênin, nos últimos
meses de vida, teve a presciência do que ocorreria e tentou remover
Stálin desse lugar, chegando a pedir aos demais líderes que
o demitissem, no seu testamento. Não lhe obedeceram, pois Trotsky
lhes parecia, naquele momento, o homem perigoso, enquanto Stálin
posava de conciliador, passava por um simples burocrata, acima ou menor,
abaixo das facções ideológicas. Lênin paralítico,
sem poder falar, cortara por escrito relações com Stálin,
quando este lhe insultou a mulher, Krupskaya. Deve haver documentos
ainda inéditos, narrando o resto da luta do chefe moribundo
contra o seu sucessor. Algum dia, os arquivos do Kremlin se abrirão,
e a história será completada, talvez de maneira dramática.
Aqui, vale ressaltar a cegueira dos companheiros de Lênin ante Stálin,
espantosa quando consideramos que eram revolucionários experimentados
em toda espécie de jogo político.
Em 1º de dezembro de
1934, a oposição ao stalinismo estava batida na URSS. Depois
de expulsar Trotsky. Stálin apossara-se das propostas do rival e,
em 1928-1929, lançou o tumultuoso e violento processo de modernização
do país, coletivizando a agricultura e convertendo os mujiques em
operários. A brutalidade com que agiu não tinha limites.
Em três anos, 25 milhões de camponeses foram arrancados de
seus lares e transportados, em vagões de gado, para os locais onde
as indústrias eram erigidas. Lá, construíram suas
choças e trabalhavam sob regime policial. A polícia dissolvia
a bala qualquer resistência. Fuzilou aldeias inteiras. Na coletivização
aconteceu a mesma coisa. Muitos camponeses, em desespero, destruíam
colheitas e consumiam toda a carne disponível, entregando-se a verdadeiras
orgias de comida. Isaac Deutscher, baseando-se em estatísticas oficiais,
calcula que o desfalque no rebanho do país só foi suprido
depois da II Guerra, na década de 1950 (os nazistas, naturalmente,
deram sua contribuição ao deficit). Cinco e meio milhões
de pessoas pereceram sob os maus tratos da GPU no campo. Curiosamente,
Stálin aumentou esse número para Churchill, num jantar no
Kremlin, estipulando em 10,5 milhões os culaques (camponeses proprietários)
subjugados.
A “direita” de Bukharin
desfez-se ante o impacto da nova política. As demais facções
seguiram-lhe o exemplo. Em verdade, não lhes restava alternativa.
Stálin comprometera todos os comunistas no movimento de modernização.
Era submeter-se a ele, ou recorrer ao povo, hostil ao regime em virtude
da escassez, produto inevitável do atraso da URSS, e dos métodos
bárbaros empregados para estabelecer a prosperidade. Stálin
jamais cogitou dar aos antagonistas o direito de escolha, mas, se
permitisse divrgências de opiniões encontraria uma resignada
receptividade à sua liderança.
Livrando-se dos "incômodos"...
Tamanho foi o trauma popular
nesse período, que ele próprio pareceu vacilar, uma vez.
Deutscher conta que Stálin chegou a demitir-se numa reunião
com seu grupo. Houve um silêncio encabulado dos interlocutores, o
qual ameaçava tornar-se perigoso até Molotov pedir a palavra,
confimando submissão de todos ao chefe.
Em 1934, portanto, no já
referido “Congresso dos Vitoriosos”, os antigos oposicionistas nada mais
tinham a declarar, exceto o seu abjeto capitulacionismo. Excederam-se uns
aos outros em afirmações de lealdade ao secretário-geral.
Este discursou, dando-se por satisfeito quanto à inexistência
de desviacionismos ideológicos. Devia saber que, no íntimo,
homens como Zinoviev, Bukharin, Kamenev, Radek, Pyatakov e Tomsky prosseguiam
anti-stalinistas, mas era uma questão de lógica reconhecer-lhes
a incapacidade de derrubá-lo. Só Trotsky, no exílio,
inaudível para as massas soviéticas podia contestá-lo
e, assim mesmo, inocuamente, pela pena. Pois tudo dera certo: os primeiros
resultados econômicos da coletivização e da industrialização
haviam superado todas as previsões. O apelido “Vitoriosos” dado
ao congresso partidário tinha sentido duplo: rotulava o triunfo
de Stálin na política sucessória e no soerguimento
da URSS.
Como explicar, portanto,
a amplitude dos subseqüentes expurgos? Em 1º de dezembro
de 1934, Sergei Kirov estava no seu escritório no Instituto Smolny,
em Leningrado, às 4 horas da tarde. O prédio fora uma escola
de moças aristocráticas. Lá, Lênin planejara
a tomada do Palácio de Inverno (hoje, o museu Ermitage) que desencadeou
a Revolução. Era a sede local do Partido.
Naquela hora, o jovem Leonid
Nikolayev entrou no edifício. Mostra um passe, em ordem, ao guarda
do portão externo. No interior do Instituto, porém, não
havia policiamento. Às 4h30, Kirov saiu de onde estava para o escritório
de seu secretário, Mikhail Chudov. Nikolayev esperava-o no corredor.
Aproximou-se dele e abriu fogo, pelas costas, com um revólver Nagan.
Em seguida, desmaiou perto do assassinado.
Funcionários do Partido,
ao som dos tiros, emergiram de várias portas. Ficaram pasmos ante
a ausência de policiais. Nem o principal guarda-costas de Kirov,
Borisov, foi encontrado.
Stálin interrogou
pessoalmente Nikolayev. Desconhece-se o diálogo, na íntegra:
algumas passagens : “Eu não atirei nele. Atirei no Partido”.
Stálin disse-lhe que podia considerar-se morto. Resposta:
“E daí? Muitos me acompanharão. No futuro, meu nome será
igualado a Zheliabo e Balmashev (terroristas famosos do passado russo).”
Kruschev, no Informe ao
XX Congresso, acusa Stálin indiretamente (com sutilezas elefantinas)
pelo crime. A questão é controversa. Nikolayev soa sincero
em seu desgosto ante os rumos do Partido. Não teve julgamento público.
Morreu em silêncio. Estranhíssimo acidente ocorreu com Borisov,
o guarda-costas de Kirov. Teria falecido num desastre de automóvel
ao ser trazido à presença de Stálin. Seus acompanhantes,
agentes da NKVD, escaparam todos ilesos. Mais tarde foram todos fuzilados.
A falta de policiamento
no interior do Instituto Smolny dá substância à acusação
de Kruschev. Desenvolvendo-a, veríamos em Kirov um liberal dentro
do stalinismo. Expressaria a opinião da maioria dos colegas ao pedir
ao líder um relaxamento dos rigores políticos do regime,
vencidas as primeiras e terríveis batalhas da coletivização
e industrialização. Em face dessa corrente majoritária
entre seus seguidores mais fiéis. Stálin precisava de um
fato novo, suficientemente calamitoso, para apertar as cravelhas ditadoriais.
Nikolayev veio a calhar. Existiram muitos jovens comunistas desiludidos,
como ele. E trabalhara sob Zinoviev, quando este dirigia o Partido, em
Leningrado, antes de Kirov. Assim, Stálin afastaria um incômodo
liberal do caminho, implicando ainda um oposicionista eminente. Daí
por diante, as incriminações cresceriam à maneira
das bolas de neve morro abaixo.
Na insana trilha de Stálin, até a viúva de Lênin
é ameaçada
Há nesse raciocínio
de Stálin, se verdadeiro, uma contradição patente.
Nenhum comunista, no íntimo, acreditaria que Zinoviev fosse terrorista,
pelo simples motivo de que todas as facções do Partido abominavam
o terrorismo, considerando-o um remédio superficial e ineficaz contra
qualquer sistema político. Os marxistas russos, a partir do fundador
do movimento, Plekhanov, e até Lênin, inclusive, gastaram
muito tempo persuadindo seus seguidores a repudiar a tradição
terrorista comum aos velhos radicalismos nacionais. Como crer que Zinoviev,
ou Trotsky, do exterior, houvessem revertido a esse infantilismo superado?
Talvez consciente disso, Stálin passou a inventar ligações
dos oposicionistas como o Micado, o Intelligence Service, Hitler e o diabo.
Pois só se houvessem abandonado o comunismo aceitariam o terrorismo.
Em poucos meses começaram
as deportações maciças para a Sibéria. De Leningrado
apenas, 40 mil pessoas foram presas sem explicação. Stálin
precisava persuadir a nação da culpa de tanta gente na morte
de um só homem. Surgiram dificuldades. Vários agentes da
NKVD, desinformados das decisões superiores, descobriram o diário
de Nikolayev, onde este assumia sozinho a responsabilidade do crime. O
Pravda, de imediato (27 de dezembro de 1934), declarou falsificada essa
prova. E era indispensável expandir os objetivos do assassino, a
fim de compatibilizá-los com o número de suspeitos. Assim,
segundo o Governo, Kirov seria apenas a primeira vítima, precedendo
Stálin, Kaganovich e Molotov. De inicío os investigadores
apontaram a presença de russos brancos, aliada à facção
de Zinoviev e Kamenev. A mistura revelou-se absurda demais, e os brancos
retornaram ao esquecimento, depois de um rápido massacre. Trotsky,
do exterior, substituiu-os. Daí para a frente, protagonizaria todos
os processos, como uma espécie de demônio por elipse. Milhões
de pessoas veriam seus nomes associados ao dele, envolvidas em sabotagem
industrial, militar e política, participando de acordos secretos
com o Eixo, o Micado, etc.. sem que jamais um farrapo de prova fosse apresentado
contra elas.
No momento, outros bolcheviques
ilustres ocupavam o centro do palco. Na versão oficial, o crime
era obra do “Centro de Leningrado” (fictício), sob a direção
de um certo Kotolynov e seis outros (mais tarde, o quadro social foi subitamente
aumentado para catorze). Orientando-os, lá estavam Zinoviev, Kamenev,
Evdofimov, ex-membro do Secretariado do Partido, Zalutsky, o qual, em companhia
de Molotov e Shlyapnikov, compusera o primeiro Comitê de Bolchevique
na Revolução de Fevereiro, Kublin e Sefarov, ex-membros e
candidatos do Comitê Central. Essa caça grossa é que
interessava a Stálin.
Vinte e quatro réus
ao todo sofreram julgamento. Os grandes nomes, exceto Sefarov, recusaram-se
a passar por cúmplices ao assassínio, Zinoviev, quando muito,
admitiu que, “objetivamente”, suas posições de oposicionista
pudessem ter inspirado Nikolayev. No futuro próximo, aprenderiam
a dobrar-se à direção cênica de Stálin,
o qual ainda estava desenvolvendo a técnica de extrair confissões
espúrias dos oponentes.
As sentenças não
foram pesadas, Zinoviev pegou dez anos; Kamenev, cinco. Os demais oscilaram
entre esses extremos. As penas eram irrelevantes. Ninguém nunca
mais foi solto. Todos morreram nos expurgos de 1936 ou de 1937-38.
Os seis meses seguintes
marcam um interregno, pacífico na aparência, para a oposição,
mas aproveitado por Stálin para consolidar seu poder e a mecânica
persecutória dos anos seguintes.
Os liberais persistiram
em demovê-lo de maiores rigores. Destacaram-se nosse infrutífero
trabalho Valerian Kuibyshev, chefe da Comissão Estatal de Planejamento
(Gosplan), Abel Yenukidze, secretário do Executivo do Comitê
Central – dois stalinistasde boa cêpa -, o escritor Máximo
Gorki e Krupskaya, mulher de Lênin. Kuibyshev e Gorki, no devido
tempo, foram envenenados por ordem de Stálin, Krupskaya sobreviveu,
ameaçada, se abrisse a boca, de perder até o título
de viúva de Lênin, o qual seria dado à velha bolchevique
Elena Stasova. “Sim”; disse-lhe Stálin, “o Partido pode fazer tudo”.
Por via das dúvidas, a NKVD vigiava constantemente Krupskaya.
A diabólica NKVD
É impossível
provar o envenamento de kuibyshev e Gorki. Ambos estavam doentes e faleceram
em tratamento médico, antes do expurgo. Uma coincidência fortuita,
talvez, mas em 1937-38 Stálin acusou Yagoda, chefe da NKVD em 1936,
de havê-los envenenado. Diversos médicos terminaram diante
do pelotão de fuzilamento, em conseqüência disso. Se
o dedo de Stálin movera tudo mais, por que não o afastamento
de Gorki e Kuibyshev do seu caminho?
Yagoda arquitetara o assassínio
de Kirov. Dois agentes da NKVD, Medved e Zaporozhets, acabaram na cadeia,
acusados de negligência naquele episódio. Para surpresa geral,
num caso de vida e morte, receberam penas de três e dois anos, respectivamente.
Tiveram tratamento de visitantes na prisão. Em 1937-38, Medved e
Zaporozhets acompanhariam o chefe ao túmulo, sendo fuzilados e garantindo
de vez o seu silêncio.
Bukharin, enquanto Stálin
preparava o novo julgamento, redigia a nova constituição
soviética, a mais libertária possível. O artigo 127
proibia prisões arbitrárias; o 128 tornava o lar e a correspondência
invioláveis; o teórico marxista prometia liberdade de palavra,
de imprensa, de reunião e de demonstrações. Alguns
decretos administrativos de Stálin, logo postos em práticas,
ofereciam um sinistro contraste ao palavrório bem intencionado de
Bukharin. Exemplos: quem andasse com faca sem permissão policial
pegaria cinco anos de cadeia. Era condenado à pena de morte o fugitivo
da URSS. No caso de militares, as famílias que soubessem do exílio
ilegal candidatavam-se a dez anos de prisão; as que não soubessem,
a cinco anos de exílio. O último foi desenvolvido durante
a II Guerra, quando o Estado punia parentes dos soldados soviéticos
que se deixassem aprisionar pelos nazistas.
Nada supera, porém,
o decreto de 7 de abril de 1935, estendendo todas as penas, inclusive a
de morte, aos cidadãos de doze anos de idade (revogado em 1958).
Durante os ensaios da NKVD
para o show de traição, Stálin substituiu os falecidos
Kuibyshev e Kirov, no Politburo, por Mikoyan e Chubar, em quem confiava
mais. Outras estrelas no ascenso: o jovem Kruschev, trazido da província,
que assumiu o posto de primeiro-secretário da organização
partidária em Moscou; e, principalmente, Yezhov, ingressando no
Secretariado, no lugar de Yenukidze, e que, dentro de meses, tomaria o
lugar de Yagoda, levando a sangria do povo soviético ao ápice.
O plano era simples. Agentes
da NKVD, como Olberg e Dreitzer, ao lado de personalidades suscetíveis
de chantagem, a exemplo do dramaturgo Richard Pickel, diziam-se encarregado
por Trotsky de unirem-se a Zinoviev, Kamenev, Bakayev e outros, a fim de
assassinarem a liderança de Partido. À lista de conspiradores
foram acrescentados alguns trotsquistas, que há muito haviam capitulado
diante de Stálin, entre os quais I.N Smirnov, Mirachkovsky, Ter-Vaganian
e Muralov. Todos tinham passado revolucionário impecável.
Smirnov, o que se portou melhor no julgamento, começara a vida como
operário. Fora três vezes preso e deportado para o Ártico
pelo czar. Lutara nas revoluções de 1905 e 1917. Na guerra
civil, comandou o V Exército, que bateu, definitivamente, as tropas
de Kolchak, o general-chefe dos brancos. Esse homem, agora, seria punido
na qualidade de inimigo do comunismo.
Smirnov - A dignidade de um mártir
A clássica imagem,
“atmosfera de pesadelo”, não descreve o andamento do processo. Freud,
afinal, descobriu uma lógica em nossos sonhos, inexistente aqui.
Os réus confessaram tudo, exceto Smirnov, que admitiu cumplicidade
conspiratória, eximindo-se, porém, de envolvimento em atos
terroristas, para fúria de Vishinsky, o promotor (mais tarde ministro
das Relações Exteriores). As ironias veladas de Smirnov,
eram verdade, demonstrariam ao observador atento a falsidade dos outros.
Chegou a perguntar a Vishinsky, rindo:
- Querem um líder?
Estou indisponível!
Holtzman, um trotsquista
menor, disse ter estado na Dinamarca, em 1932, encontrando-se com Trotsky
e seu filho, Sedov, no Hotel Bristol, de Copenhague, a fim de recolher
instruções. Trotsky telegrafou ao tribunal e à imprensa
no Ocidente, demandando o nome falso aos registros da alfândega dinamarquesa.
Nenhuma resposta. O Partido Social Democrata da Dinamarca distribuiu nota
oficial aos jornais, informando-os de que o Hotel Bristol fora demolido
em 1917. Sedov pode provar, via atestados, que prestava exames na Technische
Hochschule de Berlim, na data da reunião inventada.
Essa, a “evidência”.
Restavam as confissões. Hoje sabemos a verdade. Stálin prometera
poupar a vida dos acusados se colaborassem na farsa. Em companhia de Kaganovich
e Yezhov, afirmando representarem os três uma comissão do
Politburo, garantiu pessoalmente a Zinoviev essa clemência. Todos
foram executados 24 horas depois do veredicto. Zinoviev, a berros, reclamando
contra a falta de palavra de Stálin. Kamenev teve o corpo chutado
pelo agente da NKVD que lhe aplicou o tradicional tiro na nuca. Só
Smirnov manteve tranqüila dignidade, dizendo:
- Merecemos isso, pela nossa
conduta desprezível.
Talvez houvessem resistido
mais, se não temessem por sua famílias, Kamenev e Mirachkovsky,
no apelo final, pediram aos filhos obediência a Stálin. A
mulher de Smirnov, Safonova, depois acusando o marido de terrorismo – o
que ele desmentiu até o fim. O sacrifício foi em vão.
Nenhum dos parentes e amigos das principais vítimas dos expurgos
sobreviveu para contar a história. Stálin era um assassino
meticuloso – e abrangente.
Outros fatores pesaram na
decisão dos velhos bolcheviques de se enlamearem em público.
Sofreram tortura nos cárceres, esquentados ou esfriados para incomodá-los.
Os interrogatórios duravam 48 horas sem interrupção,
num sistema de rodízio. Familiares dos presos eram trazidos às
celas e mostravam-lhes ordens de executá-los também. A pressão
jamais se abatia até que se rendessem.
Tratava-se de gente alquebrada
e prematuramente envelhecida; antigos revolucionários, com os nervos
aos frangalhos. “Mortos em férias”, assim Lênin os defenderia.
Passaram a vida, a partir da adolescência, sob a perseguição
e as deportações do czarismo. Depois, as lutas revolucionárias
de 1905 e 1917, seguidas da Guerra Civil. Padeciam de sentimento de culpa
ante a destruição de outros companheiros dissidentes, os
mencheviques e social-revolucionários (de orientação
mais moderada), por exemplo, e assistiram pesarosos aos primórdios
brutais de coletivização da agricultura e industrialização
da URSS, quando Stálin caía sobre eles, agora personificando
a mística e a disciplina partidária, não tinham onde
esconder-se e nem o desejavam.
O último discurso de Bukharin
Nada mais existia para
os velhos bolcheviques além do Partido. Era-lhes inimaginável
permanecer fora dele. Submetiam-se às maiores humilhações,
a fim de permanecerem entre os militares. Preferiam, em muito casos,
a morte à expulsão.
Tais considerações
parecem exageradas e são incompreensíveis aos não-comunistas.
Lembremo-nos, entretanto, da atitude de Trotsky, em 1926, ao divulgarem
o testamento de Lênin no exterior. Ele estava no acesso da batalha
contra Stálin. O documento, autêntico, pedia a remoção
de Stálin do secretariado geral. Em nome da disciplina partidária,
Trotsky negou-lhe publicamente a veracidade.
Em última análise,
os velhos bolcheviques dobraram-se ao Partido, em nome da fidelidade ao
seu passado. Koba (apelido de Stálin) é vontade do Partido”,
disse Zinoviev a Kamenev, ao convencê-lo a capitular. O sentimento
de solidão e desamparo do militante expulso foi expresso, incomparavelmente,
por Bukharin, discursando no tribunal que o condenou à morte:
- Durante três meses,
recusei-me a abrir a boca. Depois, comecei a testemunhar. Por quê?
Porque na prisão revi todo o meu passado. Pois quando nos perguntamos:
“Se você vai morrer, morrerá em nome de quê?”, uma vacuidade
absolutamente negra subitamente aparece diante dos nossos olhos, com clareza
surpreendente. Nada havia por que morrer, se morremos sem arrepender-nos...
E quando nos perguntamos: “Muito bem, suponhamos que você não
morra: suponhamos que por algum milagre você permaneça vivo:
para quê, por quê? Isolado de todo mundo, um inimigo do povo,
numa posição inumana, completamente isolado de tudo que constitui
a essência da vida”.
Stálin sabia com
quem estava lidando.
No processo de Zinoviev
e Kamenev apareceram, incriminados pelos réus, os líderes
da “direita”, Bukharin à frente. Um deles, Tomsky, o ministro do
Trabalho do país, suicidou-se de imediato, sem esperar investigação
posterior. Stalinistas do nível de Karel Postyshev, segundo-secretário
da Ucrânia e candidato ao Politburo, procuravam, nos bastidores,
deter o expurgo. Seriam fuzilados oportunamente, mas, no momento, criavam
dificuldades a Stálin, pois não exibiam a menor conexão
oposicionista. Postyshev , na Ucrânia, expulsava do Partido os delatores
e falsos denunciantes, subvertendo o espírito da campanha da NKVD.
Tanto fizeram os stalinistas
liberais, que impediram, temporiariamente, a condenação de
Bukharin, Rykov e Uglanov. O elenco do processo seguinte desapontou: Radek,
jornalista brilhante mas sem caráter, Pyatakov, eminente planejador
industrial, e Serebryakov, ex-secretário do Politburo, eram os protagonistas.
Nesse ínterim, Yagoda caiu em desfavor. Yezhov o substituiu. Yagoda
parece ter acreditado na promessa de Stálin a Zinoviev, de poupar-lhe
a vida. No mais, acusavam-no pelo depoimento irreverente de Smirnov. Em
breve seria descrito como ladrão, envenenador (de Gorki e Kuibyshev)
e ex-espião do czar. Yezhov mandou matar 3 mil oficiais da NKVD,
presumivelmente criaturas de Yagoda.
Radek foi o delator principal
da nova leva de inimigos do povo. Fez um acordo com Stálin, na cadeia.
Em troca de vida, daria detalhes satisfatórios sobre o “centro trotsquista
anti-soviético”, a última ficção conspiratória
da NKVD. Mais uma vez, Trotsky, sozinho, desfez a “evidência” apresentada.
Radek disse ter voado do Aeroporto Tempelhof, em Berlim, na manhã
de 12 de setembro de 1935, chegando a Oslo às 15 horas, indo à
casa de Trotsky, onde este lhe informara haver fechado acordo com Rudolf
Hess, líder nazista, para a cessão da Ucrânia a Hitler,
sem falar da entrega de terras no Extremo Leste ao Micado.
Trotsky novamente pediu
ao tribunal o número do passaporte e o nome usado por Radek. Nada
feito. Em 25 de janeiro de 1936, o jornal norueguês Aftenposten publicou
a informação de que nenhuma aeronave civil tinha pousado
no Aeroporto Kjeller, em Oslo, durante todo o mês de janeiro, acrescentaram
que nenhum avião chegara àquele campo entre setembro de 1935
e maio de 1936, dado o congelamento insuperável das pistas. Vale
notar que, a despeito desse contra-senso e de outros, constantes dos diversos
julgamentos, um sem-número de juristas e intelectuais no Ocidente
continuaram a dar crédito a empulhação stalinista
até a denúncia de Kruschev, em 1956.
35 mil oficiais,
supostos inimigos de Stálin, eliminados com provas falsas
Radek escapou, pegando dez
anos de cadeia, em companhia de outra figura menor, Sokolnikov. Pyatakov
e Serebryakov foram executados, o primeiro para fúria de Sergo Ordzhonikidze,
stalinista eminente e amigo íntimo de Stálin. Ordzhonikidze
faleceu em circunstâncias misteriosas, depois de alternações
com Stálin. Ignora-se se foi suícidio, enfarte, ou assassínio.
A segunda razão valeu, oficialmente. Um dos médicos que hesitou
em assassinar o atestado de óbito, kaminsky, foi entretanto, fuzilado.
Quando Vishinsky interrogava
Radek, este inocentou o marechal Tukhachevsky de quaisquer atividades subversivas.
Um experimentado oficial da NKVD, ao ler depoimento, disse à sua
mulher que Tukhachevsky estava perdido.
- Mas, como – ela lhe perguntou
-, pois se Radek o eximiu de culpa ?
- E desde quando – respondeu
o policial – Tukhachevsky precisa de referências de Radek ?
Em 11 de janeiro de 1937,
o Governo acusou de traição o alto comando do exército,
anunciando, no dia seguinte, o julgamento e a execução dos
responsáveis. Ei-los: marechal Tukhachevsky, comissário do
Povo para a Defesa; Yakir, comandante do Distrito Militar de Kiev; Uborevich,
comandante do Distrito Militar da Bielo-Rússia; Eidman, chefe da
Organização da Defesa Civil (Osoaviakhim); General-de-Exército
Kork, diretor da Academia Militar; Putna, general adido em Londres; Feldman,
diretor da Administração do Exército Vermelho; e Primakov,
comandante do Distrito Militar de Leningrado. Yan Garmik, diretor da Administração
Política do Exército Vermelho, cujo suícidio fora
anunciado em 1º de junho de 1935, foi também implicado.
Dos cinco marechais três
eram traidores; dos oito almirantes, os oito... De 663 generais (de exército,
divisão e brigada, ou seus equivalentes soviéticos), 417
caíram. Os onze vice-comissários da Defesa morreram, acompanhando,
na unanimidade, os almirantes; 75 dos oitenta membros do Supremo Militar
da URSS, idem. Cerca de metade do corpo de oficiais, uns 35 mil, tombou
diante dos pelotões de fuzilamento ou terminou nos campos de trabalhos
forçados. Na frase de Kruschev, o expurgo começou em nível
de companhia e batalhão.
Naturalmente, as culpas
iam do trotsquismo à aliança com Hitler. Os julgamentos ocorreram
a portas fechadas. Descobriu-se, entretanto, que Stálin dispunha
de uma documentação, apreendida pela NKVD da SD (o serviço
secreto nazista sob comando de Heudrich), comprometendo os generais,
principalmente seu líder, Tukhachevsky. Era forjada, mas, de qualquer
forma , superior, em credibilidade, aos depoimentos de Holtzman a Radek.
Por que Stálin não a usou? Os analistas discordam a esse
respeito. Talvez a explicação mais simples e lógica
seja a melhor. Se divulgado, na ocasião, o número de supostos
conspiradores militares, até os mais crédulos se perguntariam
por que tanta gente, tão bem armada, não conseguira tomar
o poder. Nem por isso Stálin prescindiu de acusações
grotescas: Yakir e Feldman, ambos judeus, morreram como espiões
nazistas.
Em apenas um ano, 3 milhões de pessoas fuziladas
Stálin tinha
raiva pessoal de vários generais, de Shmidt, por exemplo, que pertencera
à oposição e o insultara, pessoalmente, em 1927; ou
do próprio Tukhachevsky, de quem recebera críticas ásperas
na campanha do Exército Vermelho contra a Polônia, em 1920.
Há também especulações de que Stálin,
ao cogitar em um pacto nazi-soviético, já em 1937, precisaria
antes de fazer uma limpeza no comando militar, colocando nos postos-chave
gente nova, que lhe obedecesse incondicionalmente. Nada se sabe, ao certo.
Sabe-se, isto sim, que o
prejuízo da URSS foi cobrado logo nos primeiros meses da II Guerra,
quando, carentes de seus melhores oficiais, as Forças Armadas demonstraram
ruinosa inexperiência diante do alto profissionalismo nazista. Tanto
assim que Stálin libertou vários dos “traidores” sobreviventes,
reincorporando-os às suas unidades. Merecem citação
Meretskov, Rokossovsky e Gorbatov, posteriormente reabilitados, depois
de bravura provada em combate.
A foice e o martelo da NKVD
também caíram sobre os funcionários civis do Partido.
Os militares, bem entendido, não eram uma casta à parte,
mas, sim, em sua maioria, comunistas fiéis, que, aos vinte anos
de idade, à maneira de Tukhachevsky, já comandavam exército
contra as forças do czar. O filho de Yakir, Pyotr, é hoje
um dos rebeldes ao neo-stalinismo, aparecendo na imprensa, ao distribuir
panfletos libertários junto aos delegados dos PCs mundiais, reunidos
em Moscou, durante junho passado. Passou dezessete anos em campos de concentração.
Na área civil, porém,
a presença letal de Stálin se fez sentir como nunca. Em 1937-38,
3 milhões de pessoas foram fuziladas, entre as quais 800 mil membros
do Partido, apontados em 383 listas de Yezhov. Oito milhões, no
mesmo período, estiveram nos campos de trabalhos forçados.
Nas eleições
partidárias internas, em 1937, Boria Ponomarev (em 1968, secretáio
do Comitê Central da URSS) deu a nota, num artigo no Pravda, intitulado
“Democracia Partidária Interna e Disciplina Bolchevique”, o qual
em resumo, definia qualquer atitude contrária a Stálin como
traição. Zhdanov, que se tornaria o menor da cultura na URSS,
no pós-guerra de 1945, reduzindo-a ao ridículo universal,
comandava os expurgos em Leningrado: Beria agia na Transcaucásia;
Kaganovich, em Ivanovo, Kuban, Solensk, etc.; Malenkov, na Bielo-Rússia,
Armênia, e assim por diante; Shkiryatov, no Cáucaso norte.
Não raro, entravam em rodízio, estendendo sua ação
das províncias às Repúblicas Soviéticas. A
palavra de ordem era Razgromil, o esmagamento.
Varriam, pro forma,
os quadros partidários da face da terra. Quem não denunciasse
alguém, automaticamente virava suspeito, ou seja, condenado. Os
delatores e informantes multiplicavam-se e suas vítimas eventuais,
para sobreviver, viam-se na contingência de imitá-los. Ai
daqueles que intercediam por alguém. Uma mulher de nome Lazurkina
defendeu Kodalsky, prefeito de Leningrado. Pegou dezessete anos de cadeia.
Não se fala de corda em casa de carrasco...
Em Leningrado, Zhdanov
esmerou-se em eliminar os remanescentes amigos de Kirov, visando a apagar
a idéia de toda lembrança e possíveis provas que contrastassem
com a versão oficial do assassínio. Isso criou problemas
de visibilidade. Leningrado tem as chamadas noites brancas, no verão,
que Pushkin chamava “crepúsculo transparente e brilho sem lua”.
Em suma, parece dia claro à noite. Os carros da NKVD, freando bruscamente
na madrugada diante dos prédios de apartamentos, não escapavam
à atenção geral.
Muito ativo no Distrito
Vyborg de Leningrado, denunciando oposicionistas em todas as esquinas,
estava o jovem Alexei Kossiguin, hoje primeiro-ministro da URSS. Mais tarde,
substituiu Kodatsky na diretoria executiva do Comitê da Cidade,
premiado pela sua devoção ao Partido. Stálin previu-lhe
uma brilhante carreira. Se ainda há quem se espante da relutância
dos atuais líderes soviéticos em remexerem o passado, aí
está, sucintamente, a explicação. Também não
se fala de corda em casa de carrasco.
Dos 154 delegados de Leningrado
ao XVII Congresso, o dos “Vitoriosos”, só dois reelegeram-se no
XVIII Congresso, assim mesmo na qualidade de representantes honorários.
O ódio provinciano de Stálin ao centro da sofisticação
russa, á cidade de Pedro, o Grande, e de Lênin, fora aplacado.
E as pistas e testemunhas do assassino de Kirov desapareceram por completo.
Stálin perdera inteiramente
as estribeiras. Não admitia a menor dúvida da validade
de suas ordens. Punia gente como Lomov, que em companhia de Lênin
e Trotsky, fora um dos raros revolucionários a acreditar na tomada
do poder, em junho de 1917. A NKVD agarrou Nazaretyan, na rua, em plena
luz do dia, quando este era aguardado numa reunião do Comitê
Central. Até o subserviente Krylenko, que propusera, em 1932, politizar
o xadrez, caiu em desgraça. O já preferido Kaminsky, comissário
de Saúde, ousou criticar Beira e foi preso na hora. Antipov, Kossior,
Eikre, Rudzutak e vários outros stalinistas fidelíssimos
encontraram a morte, talvez porque olhassem de maneira inconfortável
para o secretário-geral. Kruschev, porém, devia ter
o fácies complacente desejado por Stálin. Dirigiu o sanguinolento
expurgo na Ucrânia e suas denúncias mataram Filatov e Ukhanov,
bolcheviques impecáveis.
Hoje, assassino; amanhã, assassinado.
A política de Stálin para seus comandados
Yezhov, que já ganhara
uma cidade com seu nome, reunia a equipe de diretores do processo contra
a “direita” do Partido. Dispunha de Kabovsky, que “brilhara” em Leningrado,
Frinovsky, comandante das tropas de fronteiras da NKVD e Slutsky, do Departamento
Externo. Os quatro, Yezhov inclusive, seriam fuzilados no ano seguinte,
mas, no momento, davam as cartas.
O elenco de vítimas
superava de muito o anterior. Lá estavam três membros
do velho Politburo de Lênin, Bukharin, Krestinsky e Rykov, além
de Rosengolts, Ivanov, Chernov, Grinko e Zelensky, que ocuparam postos
de importância no Governo, seguidos de diversas figuras menores.
Agora acusavam-nos de espionagem, sabotagem, provocação de
um ataque militar à URSS, tentativa de desmembramento do país
e restauração do capitalismo. Tudo isso sob as ordens do
duo Trotsky e Hitler.
Repetiu-se a velha história
das confissões e da ausência de provas, mas o entrecho apresentou
falhas graves, Bukharin e Rykov negaram até o fim participação
pessoal nos crimes em pauta, aceitando apenas a responsabilidade abstrata
pela ação de terroristas, Krestinsky chegou a repudiar todas
as acusações, recuando mais tarde, mas não antes que
o efeito de suas negativas se fizesse sentir. O depoimento de Bukharin
e Rykov esteve marcado de ambigüidades que deixavam Stálin
mal. A farsa era transparente, o que apressou, certamente, a queda de Yezhov.
Entre os réus, dois
carrascos da NKVD, Yagoda e Avranov. O primeiro deu trabalho. Quando Vishinsky
quis inculpá-lo em espionagem, respondeu:
- Se eu tivesse sido espião,
dúzias de países se veriam forçados a desmantelar
seus serviços de inteligência.
A mania do Estado Soviético
de acusar ex-chefes da NKVD de estarem a soldo de potências estrangeiras
persistiu até nossos dias, apesar do absurdo óbvio, apontado
na fala de Yagoda. Na liquidação de Beria, sucessor de Yezhov,
em 1953, a imprensa oficial descreveu-o como agente inglês.
A morte do
sanguinário Trotsky no México
As sentenças
de morte vieram, inevitavelmente. Mas Stálin já começara
a perceber que o terror perpétuo paralisaria o país e, doravante,
faria cessar os julgamentos públicos. Liquidaram-se os últimos
quadros suspeitos nos porões da NKVD. Entre eles, todos os embaixadores
da URSS no Exterior, menos um. E a polícia secreta estendeu sua
ação ao Exterior.
Na Guerra Civil Espanhola,
quando o Governo republicano caiu sob domínio soviético,
anarquistas e trotsquistas foram maciçamente assassinados por agentes
da NKVD, que os perseguiram até nos campos de refugiados na França,
terminado o conflito. Stálin divertiu-se na Espanha, enviando para
lá, encarregado de condenar trotsquistas, o ex-trotsquista Antonov-Ovseenko,
que chefiara a tomada do Palácio de Inverno do czar, em outubro
de 1917. Posteriormente liquidou-o. Em 1940, Ramon Mercader, agente da
NKVD, rachou a cabeça de Trotsky no México. Essa morte foi
o ponto final nas operações em grande escala contra os inimigos
verdadeiros e imaginários de Stálin. Há indícios
de que ele pretendia recomeçá-las, a partir de 1950, mas
não teve tempo, unindo-se, enfim, aos 20 milhões de pessoas
cuja existência devastara em nome dos mais "belos ideais da humanidade".
Matéria
baseada na História do Século XX
Ed.
Abril e em reportagem da revista Realidade, de 1969
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