Expedição
Langsdorff
Um
Tesouro inestimável
Compilado da revista
Problemas Brasileiros

Ela é
reconhecida internacionalmente como uma das mais importantes expedições
científicas do século 19. Mesmo assim, 180 anos após
sua realização (1822-1829), a aventura científica
do barão de Langsdorff (desenho ao lado) permanece grandemente desconhecida
no próprio território cujos recursos e riquezas naturais
ajudou a revelar. Nada mais justo, portanto, reavaliar a importância
histórica dessa verdadeira epopéia. Segundo seu maior especialista,
o professor Boris Komissarov, da Universidade de São Petersburgo,
que há 30 anos a estuda, o material coletado pela expedição
Langsdorff é hoje “o último acervo clássico sobre
o Brasil ainda não incorporado à ciência e à
cultura”.
Dizimada pela malária e por
acidentes vários em plena selva – dos 39 homens que a integraram
somente 12 sobreviveram -, prejudicada por numerosos desentendimentos entre
alguns de seus membros e marcada pelo trágico afogamento de seu
melhor pintor, o jovem Adrien Taunay, a expedição organizada
pelo barão Georg Heinrich von Langsdorff terminou envolvida irremediavelmente
em controvérsia e mistério. O fato culminante foi a loucura
irreversível que atingiu o próprio Langsdorff, em maio de
1828, após ter contraído a malária – e provocou o
final da expedição em 1829, um ano e meio antes do prazo
previsto para seu término. Do ambiente itinerário original
traçado ela pudera cumprir somente metade – assim mesmo um trajeto
notável, pois abrangia um percurso, fluvial e terrestre, de 17 mil
quilômetros, a partir do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas
Gerais, Mato Grosso e Amazônia.
Outras expedições
da época, menores e menos ambiciosas – como as de Johann Baptist
Von Spix e Karl Friedrich Philipp Von Martius, Auguste de Saint-Hilare,
ou a de Maximiliano Alexandre, príncipe de Wied Neuvied - , não
contaram com tanta adversidade, tiveram logo divulgação adequada
entre o público europeu e viram seus acervos científicos
incorporados imediatamente a importantes instituições. A
Langsdorff, desbaratada pelas trágicas circunstâncias, não
teve a mesma sorte e sofreu ainda dois grandes reveses: seu volumoso arquivo,
com mais de 800 documentos importantíssimos – inclusive os minuciosos
diários escritos pelo barão - , fora enviado à Rússia,
país patrocinador da expedição, mas durante nada menos
do que um século foi dado como completamente extraviado. Constava
de centenas de caixas que continham diários, anotações
de viagem, desenhos, aquarelas, mapas, espécies minerais, animais
e vegetais, vocabulários indígenas, material etnográfico
e correspondência diversa, que permaneceram numa sala fechada, ainda
em suas embalagens originais. Somente foi descoberto por acaso em 1930,
por ocasião de uma reforma efetuada no antiquíssimo prédio
da Academia de Ciências de São Petersburgo (nessa época,
Leningrado). Mas algumas peças preciosas desse arquivo nunca puderam
ser recuperadas como os diários do astrônomo Rubtsov, membro
da expedição.
Além disso, as extraordinárias
coleções mineralógicas, avulsas, que Langsdorff foi
remetendo com regularidade germânica à Rússia de 1813
– ano em que chegou ao Brasil na qualidade de cônsul-geral da Rússia
– a 1827 (“muitos caixas”, costumava dizer em seu português peculiar),
foram dispersadas entre várias instituições e sofreram
alguns reveses e desgastes. Os piores foram os causados pela inundação
que atingiu Leningrado em 1924 e pelas conseqüências do bloqueio
da cidade na 2º Guerra Mundial.
Apesar disso, tão grande
é a importância desse acervo que mesmo durante o século
19 a expedição foi tida em grande conta – na Europa – por
cientistas, estudiosos e instituições oficiais. Do final
do século 19 até hoje mais de 400 obras, em dez idiomas,
foram publicadas sobre ela, em todo mundo. Em 1914 uma nova expedição
russa à América do Sul foi organizada por membros do Instituto
Biológico Pietr Lesgaft, e com ela veio o cientista e lingüista
Guenrikh Manizer. Na Biblioteca Nacional e nos museus no Rio de Janeiro
ele estudou a fundo os pormenores da grande viagem. De volta à Rússia
aprofundou suas pesquisas e conseguiu complementar em 1917 a primeira biografia
de Langsdorff. Mas contraiu tifo e morreu seis meses depois, o que fez
com que seu livro permanecesse inédito na Rússia até
1948, e no Brasil até 1967.
A lenda negra de Langsdorff
No Brasil, enquanto
isso, um “lenda negra” ia-se formando, injustamente, sobre a figura de
Langsdorff e sua expedição. Responsável por essa visão
o historiador que, entre nós, dela se ocupou – o visconde Alfredo
d´Escragnolle Taunay, que em 1875 publicou e comentou, na “Revista
do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro”, uma das
variantes do diário de campo escrito pelo pintor Hércules
Florence entre 1825 e 1829. Como sobrinho do pintor Adrien Taunay, o visconde
não podia deixar de expressar o ressentimento da família
contra o que julgava ser uma irresponsabilidade do chefe da expedição,
no referente à sua trágica morte. Procurou incriminá-lo,
buscando no texto (objetivo e imparcial) de Florence argumentos para
provar que mesmo antes de ter sido atingido pela málaria Langsdorff
apresentava sinais de desequilíbrio mental.
Essa visão, aliada à
ignorância do amplo material que nessa época já se
divulgava na Europa, contaminou os poucos que se ocuparam no Brasil da
expedição, como Cândido de Mello Leitão e Rubens
Borba de Morais. Este último, ainda em 1968, referia-se a ela como
“malfadada” e dizia que “as coleções enviadas a São
Petersburgo foram reconhecidas como de pouco valor do ponto de vista científico”.
Até hoje, é muito
escasso o material disponível para pesquisa, no Brasil. Nem uma
só linha sobre o assunto pôde ser achada pela Internet. E
o verbete “Langsdorff” na Enciclopédia Delta-Larousse dá
a expedição como “nunca realizada”.
Na verdade, o conjunto de documentos
e coleções guardados até hoje na Rússia e em
outros lugares da Europa contém dados preciosos sobre a história
socio-econômica, a etnografia, a estatística, a geografia
física e econômica, a toponímia, muitos ramos da zoologia
e botânica, a meteorologia e a mineralogia do Brasil do século
19. Representa uma verdadeira radiografia do período e mostra, como
diz Komissarov, que “o globalismo ecológico de Langsdorff é
o traço substancial de sua visão de mundo”.
A busca do tesouro perdido
Entretanto,
após a redescoberta do arquivo na União Soviética,
também no Brasil, a partir de 1940, algumas pessoas começaram
a se interessar pelo assunto e pela riqueza do acervo guardado no exterior.
Com as circunstâncias da guerra fria e o habitual fechamento de informações
por parte da União Soviética, resultaram infrutíferas
todas as tentativas de obter notícias sobre o material lá
existente - sem resposta ficou, entre outras, uma carta do historiador
de arte Gilberto Ferrez, encaminhada por Jorge Amado à Academia
de Ciências da URSS.
Informado do assunto pelo diretor
do Patrimônio Histórico, Rodrigo Melo Franco de Andrade, o
diretor do Museu de Arte Sacra da Bahia, dom Clemente da Silva Nigra, monge
beneditino, começou a pesquisar e escrever sobre a expedição.
Em 1966 publicou pela Universidade da Yale (EUA) o livro O Barão
George Henriquede de Langsdorff, 1774-1852 – O Grande Cientista Esquecido
no Brasil, obra que no Brasil só contou com uma edição
mimeografada, apresentada num Colóquio Teuto-Brasileiro no Recife,
em 1968.
Dom Clemente visitou por duas vezes
os arquivos da Academia de Ciências de Leningrado, em 1963 e 1965.
Da última vez integrou uma missão cultural do Brasil, chefiada
pelo jornalista Assis Chateaubriand, a quem conseguira interessar pela
causa de Langsdorff. Chateaubriand fez publicar, na década de 60,
extensas reportagens sobre o assunto na revista “O Cruzeiro”.
A selva trágica
Redigidos em alemão gótico,
os manuscritos dos diários de Langsdorff somente foram encontrados
na década de 1930, em Leningrado, e permaneceram inéditos
até 1998. Contêm descrições pormenorizadas das
riquezas naturais, das belíssimas paisagens, da vida dos povos indígenas,
mas registraram também a grande miséria do país, as
doenças, os perigos da selva. Um pressentimento de tragédia
parece envolvê-lo, desde seu início, como se pode ver nos
trechos abaixo.
“Começamos hoje um caminho novo,
ainda não trilhado por ninguém. Temos diante dos olhos um
véu escuro. Deixamos o mundo civilizado para viver entre índios,
onças, tapires e macacos” (22/06/1826, dia da partida de Porto Feliz
para Cuiabá).
“Nossas provisões minguam a olhos
vistos. Precisamos apressar nossa marcha. Temos ainda de atravessar muitos
lugares perigosos do rio. Se Deus quiser, hoje continuaremos nossa viagem.
As provisões diminuem mas ainda temos pólvora e chumbo”
(20/05/1828).
Essas foram as últimas palavras
escritas por Langsdorff. Um novo acesso de febre apagaria para sempre seu
grande espírito.
Muito embora dali por diante o intercâmbio
entre pesquisadores e cientistas soviéticos e brasileiros houvesse
se estabelecido, somente após o advento da Perestroika e a abertura
para o mundo dela resultante foi que os esforços do governo de Brasília
se viram recompensados. Em 1985, por ocasião da visita do ministro
das Relações Exteriores, Olavo Setúbal, à URSS,
foi organizada uma exposição com o material recolhido pela
expedição Langsdorff. Dois anos mais tarde um acordo cultural
entre os dois países permitiu que o material dessa mostra fosse
emprestado ao governo brasileiro, para exposições em Brasília,
Cuiabá, São Paulo e Rio de Janeiro.
Quatro simpósios internacionais
foram realizados, sobre a expedição Langsdorff: em 1974 em
Leningrado; em 1988 na Universidade de Hamburgo; e em 1992 no Museu Imperial
de Petrópolis. A Associação Internacional de Estudos
Langsdorff (Aiel), fundada em Brasília em 1990, objetiva publicar
o acervo inédito de Langsdorff e vem tentando desenvolver o chamado
projeto Langsdorff de Volta – uma missão científica que refaria
o trajeto da expedição original, comparando os dados colhidos
hoje com os existente há quase dois séculos. Algumas iniciativas
têm tido sucesso, como o lançamento dos livros Expedição
Langsdorff (Alumbramento) e Diários de Langsdorff (Cia. Aluminis).
Cidadão do mundo
O barão
Georg Heinrich von Langsdorff, nascido no principado de Mainz, Alemanha,
em 1774, pertencia a uma família ilustre, com origem no século
13. Seu pai era vice-chanceler do grão-ducado de Baden. Formado
em medicina na Universidade de Göttingen, o jovem Langsdorff estabeleceu-se
de 1797 a 1802 em Lisboa. Exercendo a medicina e trabalhando com entomologia
e ictiologia, aprendeu ali o português com perfeição
e mudou seu nome para Jorge Henrique de Langsdorff.
A partir de 1803, como dominava
também perfeitamente o idioma russo, começou a participar,
sob o nome de Grigory Ivanovitch Langsdorff de viagens e excursões
científicas ao redor do mundo, organizadas pelo governo imperial
da Rússia. Aos 29 anos já era sócio correspondente
da Academia de Ciências de Petersburgo. Participou, como naturalista,
da primeira viagem de circunavegação realizada pelos navios
russos Nadezhda e Neva. Em dezembro de 1803 essa excursão ancorava
no Brasil, na ilha de Santa Catarina, onde Langsdorff teria seu primeiro
contato com o país que tanto interesse despertava nele e que amaria
apaixonadamente. Esse local foi escolhido para uma estada de seis semanas
por estar distante do olho desconfiado da administração portuguesa.
Até o inicío do século
19, Portugal praticava uma política de fechamento à exploração,
pois não interessava colocar à disposição de
outros países informações sobre os recursos naturais
e mineralógicos – principalmente o ouro – do Brasil. Cumpre lembrar
que, no século 18, de todo o ouro extraído no mundo, 85%
provinha do Brasil.
Fascinado por se encontrar diante
de “algum mundo novo”, Langsdorff realizou, nessas poucas semanas, várias
excursões pelo território, coletou espécimes no campo
da ictiologia, da herpetologia e da entomologia, e conseguiu organizar
um herbário de mil espécies. Como era do seu feito, em cada
região visitada estabelecia um contato com os habitantes,
estudava seus problemas, anotava tudo o que despertava seu interesse e
quando preciso cuidava, como médico, da população
local. Sempre foi, segundo seu primeiro biógrafo, Manizer, “homem
de admirável honestidade e interesse”, que respondia atento às
necessidades da sociedade em que vivia e trabalhava”. Em Nossa Senhora
do Desterro (hoje Floriánopolis) ficou muítissimo impressionado
e revoltado com o mercado de escravos que ali se desenvolvia.
De 1804 a 1807 Langsdorff viajou
pelo resto do mundo, conhecendo as ilhas Marquesas, o Japão, o Alasca
e a Califórnia. Foi também pioneiro em percorrer de trenó
as regiões mais afastadas da Sibéria – na península
de Kamtchatka horrorizou-se com as condições da população
local e fez chegar às mãos das autoridades russas um relátorio
e um plano de reforma administrativa da região. De 1804 a 1812 publicou
um série de trabalhos científicos e o livro Notas sobre uma
Viagem ao redor do Mundo, de 1803 a 1807, em dois volumes, primeiro em
alemão e depois em inglês. Essa obra tornou-o famoso na Europa.
Estabelecido em São Petersburgo
em 1809 como membro da Academia de Ciências, começou a organizar
sua futura viagem ao Brasil. Em 1813 desembarcava no Rio de Janeiro, na
qualidade de primeiro cônsul-geral da Rússia. Nos anos seguintes
conseguiu desempenhar simultaneamente, com grande eficiência e empenho,
as funções de diplomata russo, cientista europeu e fazendeiro
brasileiro. Adquiriu em 1816 a Fazenda da Mandioca, nas proximidades de
Porto Estrela (hoje município de Magé, RJ) e fez dela tanto
um centro de produção agrícola como núcleo
cultural e científico, graças à organização
de um jardim botânico, um museu de história natural e uma
biblioteca.
A Fazenda Mandioca hospedou grande
número de cientistas e viajantes ilustres de passagem. Sua fama
tornou-se internacional – os cientistas maravilhavam-se com as coleções
nela existentes, e o botânico Giuseppe Raddi, ao descobrir uma nova
espécie de planta, denominou-a mandiocana. Uma revista noticiou,
em Moscou, a formação de “um núcleo de população
original chamado Mandioca, fundado no Brasil pelo cônsul-geral da
Rússia”. A fazenda chegou a ser visitada pelos próprios imperadores
do Brasil, Dom Pedro e dona Leopoldina.
Foram numerosas as viagens isoladas
que Langsdorff empreendeu de 1813 a 1822 pelo interior do Brasil, aproveitando
sempre para coletar materiais e reunir informações de várias
espécies sobre a natureza e a população do país.
Desde março de 1814 começou a enviar regulamente para São
Petersburgo coleções entomológicas e ornotólogicas.
Manteve durante este tempo intercâmbio científico com todos
os viajantes que passsavam pelo país. Muitas vezes subvencionou
pesquisas com recursos próprios. Durante umas férias em 1816,
realizou com o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire uma
viagem a Minas Gerais, para estudar a exploração de minérios.
Saint-Hilaire surprendia-se com a energia física e moral daquele
alemão alto e magro, que já contava 42 anos, mas cujo ritmo
vigoroso o botânico, embora mais moço, mal conseguia acompanhar.
Era de temperamento forte, extremamente exigente, como chefe. Trabalhava
sem descanso, indiferente a todas as dificuldades e esperava isso das demais
pessoas.
Um grande sonho
De todas as
expedições científicas ao novo mundo nenhuma foi tão
cuidadosamente preparada como a empreendida por Langsdorff. Em junho de
1821, quando estava em férias em São Petersburgo, ele apresentou
a Karl Nesselrode, vice-chanceler do império, o plano de uma grande
expedição científica pelo interior do Brasil, que
teria como objetivos “descobertas científicas, pesquisas geográficas,
estatísticas e outras, estudo dos produtos pouco conhecidos no comércio,
material sobre todos os reinos da natureza que eu possa coletar e que possa
concorrer para o enriquecimento das atuais coleções do império”.
Dois dias depois era recebido pelo czar Alexandre I, que garantiu seu patrocínio
pessoal à iniciativa, com plena liberdade de roteiro e prazo não
definido.
Langsdorff demorou-se na Europa,
escolhendo especialistas em vários ramos da ciência e comprando
equipamentos. Voltou ao Brasil em navio fretado, trazendo sua família,
o zoólogo Ménétriès e o artista Johann Moritz
Rugendas, e também cerca de duas dezenas de famílias de colonos
alemães, destinadas a fazenda da Mandioca. Mais tarde, já
no Brasil outros especialistas se juntariam a expedição –
como o astrônomo Rubetsov, o botânico Ludwig Riebel e o jovem
naturalista Christian Hasse, além dos artistas Taunay e Florence.
A 5 de março de 1822 aportava
no Rio de Janeiro, mas as circunstâncias de instabilidade política
do país, o acúmulo de funções desempenhadas
no setor diplomático, a escassez verificada das verbas foram fatores
que retardaram durante dois anos a expedição. Teve grante
interesse por ela, e apoiou-a no possível, José Bonifácio
de Andrada e Silva, que, além do político, era cientista.
A primeira etapa da expedição
– viagem a Minas Gerais – realizou-se em 1824, levou cerca de um ano e
percorreu mil quilômetros, recolhendo precioso material de interesse
científico e fazendo um levantamento cartográfico, econômico
e etnográfico das regiões atravessadas. Além disso,
tanto Langsdorff como Riedel retardaram muitas vezes o percurso da expedição
porque freqüentemente eram solicitados, e até mesmo “assediados”
a prestar serviços médicos às populações
doentes.
Em agosto de 1825 a expedição
partiu do Rio de Janeiro para Santos. Percorreu várias partes da
província de São Paulo durante o restante daquele ano
e somente partiu do Porto Feliz (pelo rio Tietê) para Mato Grosso
do Sul em 22 de junho de 1826.
No dia 26 de março de 1829,
após os grandes reveses que provocaram seu término, os sobreviventes
da expedição Langsdorff entravam na barra do Rio de Janeiro
a bordo do navio Dom Pedro I, trazendo consigo seu chefe, irremedialvemente
atingido em suas faculdades mentais. Embarcado com a família
para a Europa em 1830, o barão de Langsdorff morreria em Freiburg,
Alemanha, 22 anos mais tarde – em 1852, sem ter recuperado suas faculdades
mentais.
E, no entanto, amava tanto o Brasil
que planejava viver aqui até o fim de seus dias. Dizia em 1827,
em uma carta: “No Rio de Janeiro eu gostaria de encontrar, nos anos que
me restam, uma ocupação permanente para deixar esta vida
de cigano e viver e morrer em paz”.
Além de um filho natural,
Karl Georg, nascido em 1809 na Alemanha, o barão teve duas filhas,
nascidas no Brasil, de seu primeiro casamento com Friderike Schubert, e
seis filhos de seu casamento com Wilhelmine, quatro dos quais nascidos
no Brasil. São numerosos seus descendentes atuais, em quinta geração,
na Alemanha, na França e no Brasil – seu filho Heinrich Ernst (nascido
em 1823) fixou residência aqui, depois da volta da família
para a Alemanha. As atrizes Luma e Isis de Oliveira descendem desse ramo
da família Langsdorff.
Artistas e aventureiros
Pintores, naturalistas,
geógrafos, astrônomos e vários outros cientistas foram
convidados por Langsdorff para sua expedição. Alguns vieram
da Europa especialmente e outros foram contratados no Brasil. Cada um legou
obras de valor incalculável e uma história de vida marcada
por coragem, resignação e tragédia, como o desenhista
Adrien Taunay, que se afogou ao tentar atravessar o rio Guaporé.
A revolta de Rugendas
Quando foi contratado
por Langsdorff, em 1821, o artista alemão Johann Moritz Rugendas
tinha apenas 19 anos. Pertencia a uma família tradicional de pintores,
de nobre linhagem. Ainda não terminara seus estudos, mas, influenciado
pelo relato de viagens dos naturalistas Spix e Martius e dos pintores austríacos
Thomas Ender e Buchberger, mostrava-se extremamente ansioso para conhecer
o Novo Mundo. Mas o longo tempo de espera que teve de suportar na Fazenda
da Mandioca antes do ínicio da expedição foi demasiado
para seu temperamento.
Poucos meses após a chegada
ao Brasil, tentou romper seu contrato. Sem pedir permissão ou dar
qualquer explicação, viajou da fazenda para a cidade do Rio
de Janeiro, onde procurou trabalho. Não conseguindo nada, teve de
voltar para o serviço com Langsdorff, mas dali por diante a tensão
entre os dois só aumentaria, contagiando outros membros da expedição.
Diz Langsdorff: “...Apoquentou-me de todas as maneiras. Procurava criar
motivos para se ver livre da expedição...Ele desenhava com
aplicação, tendo feito muitos esboços e composições.
Mas se eu me aproximava dele enquanto estava trabalhando, fechava o álbum
com força e abria numa outra folha limpa, para que eu não
visse o que estava desenhando”. Abusando da liberdade de que gozava na
casa da fazenda, Rugendas – segundo Langsdorff – teria chegado até
mesmo a violar sua correspondência, procurando nela fundamentos para
os boatos que lançou sobre uma suposta improbilidade do cônsul
na manipulação dos fundos da expedição.
Essa situação manteve-se
até o final do ano de 1824. Achando-se então a expedição,
já em pleno curso, acampada numa fazenda de Minas Gerais, uma discussão
entre os dois tornou-se tão grave, acarretando insultos grosseiros,
que o cônsul imediatamente tomou a resolução de demitir
o desenhista – ordenado que, conforme o contrato que assinara, Rugendas
entregasse à expedição todos os desenhos feitos até
então. Mas o pintor se recusou a cumprir seu contrato. Em relatório
feito ao vice-chanceler russo, Karl Nesselrode, Langsdorff diria, em carta
de 18 de dezembro de 1824: “ Ele entregou-me algumas cópias e esboços
feitos a lápis, sem grande importância e praticamente inacabados.
Conservou consigo os trabalhos bons e originais”.
Em maio de 1825, fugindo ao controle
do consulado russo, Rugendas embarcava de volta para a Europa, levando
500 de seus melhores desenhos, e no mesmo ano promovia sua primeira mostra
em Paris. Todas as tentativas feitas pelo governo russo para reaver o material
foram inúteis. Em 1827, com o apoio do cientista Alexandre von Humboldt,
foi iniciada a publicação das gravuras que se tornariam célebres,
baseadas nos desenhos. A edição completa de Voyage Pitoresque
dans le Brésil, com cem gravuras originais, foi completada em 1835
e divulgou o Brasil na Europa.
Entre 1825 e 1831 Rugendas viveu
na França, na Alemanha e na Itália. Vinte anos mais tarde
voltou ao Brasil, onde se demorou mais quatro anos, percorrendo-o e registrando
suas paisagens e costumes. Fez também extensas viagens ao Haiti,
México, Chile, Peru, Bolívia, Argentina e Uruguai – uma grandiosa
epopéia, refletida em cerca de 3,5 mil obras. Recebeu por esse motivo
o título de “pintor das Américas”, do grande geográfico
Domingos Sarmiento. Apesar desse reconhecimento, o pintor sempre passou
por dificuldades materiais. Sua situação só melhorou
após o monarca da Baviera, Ludwig I, ter comprado a maior parte
de seus trabalhos. Rugendas faleceu em Württemberg, Alemanha, em 1858.
A tragédia de Taunay
Rugendas e Taunay
Alguns meses após a partida
de Rugendas, Langsdorff contratava como desenhista da expedição
o jovem pintor francês Adrien Aimé Taunay, filho do pintor
Nicolas Antoine Taunay, que viera se estabelecer com a família no
Brasil em 1816, integrando a Missão Artística Francesa.
Adrien Taunay já tivera tempo,
aos 23 anos, de demonstrar tanto seu talento como seu espírito aventureiro
e destemido. De 1818 a 1820 participara como desenhista da expedição
de Louis de Frecynet ao Pacífico – Austrália, Timor, Ilhas
Carolinas, Marianas, Havaí e arquipélago de Samoa. Perto
das Ilhas Falkland o navio dessa expedição, L´Uraine,
naufragou, e o jovem escapou por pouco da morte.
O relacionamento entra Taunay e
Langsdorff não foi muito fácil também, pelos mesmos
motivos que haviam causado o rompimento entre Rugendas e o cônsul.
Da parte deste, autoritarismo e talvez exigências demasiadas; da
parte do jovem, a mesma impaciência com os percalços que faziam
retardar a marcha da expedição, com os longos períodos
despendidos em lugares como Cuiabá e na povoação dos
índios apiacás. O temperamento de Adrien, com tendência
à depressão, era classificada pelo cônsul como “indolente”
– o oposto do seu, muito agitado.
Em 1827, quando a expedição
já se encontrava em Mato Grosso, Langsdorff resolveu dividi-la em
dois grupos. Um deles, que chefiava, se embrenharia na selva por caminhos
pouco conhecidos, decidido a descobrir as nascentes do rio Paraguai, enquanto
o outro – composto do botânico Riedel e de Taunay – atingiria o Amazonas
descendo os rios Guaporé, Madeira e Mamoré. O ponto de encontro
dos dois grupos seria o Forte de São José, na barra do rio
Negro (hoje Manaus). Dali, todos deveriam entrar por território
espanhol até chegar ao rio Orenoco.
No dia 21 de novembro de 1827 o
botânico e o pintor deixaram Cuiabá, com destino à
região do Diamantino. Em carta dirigida a Riedel, Langsdorff dava-lhe
instruções pormenorizadas sobre o roteiro e o procedimento
que devia adotar. E escrevia, em relação a Taunay, que estaria
subordinado à autoridade de Riedel, acrescentando: “Tente conseguir
que ele seja de boa vontade aplicado, e desse modo possa organizar a vida
dele. Talvez consiga isso melhor do que eu, porquanto mais adiante ele
terá menos distração do que aqui. Se ele não
o ajudar em nada, eu o autorizo a despedi-lo".
É interessante notar que
a “distração” que censurava no jovem Adrien incluía
um trabalho notável realizado por este, durante a estada em Cuiabá
– como tinha também interesse por música, Adrien conseguira
pesquisar e transcrever 84 preciosas peças musicais de ninguém
menos do que o famoso mestre padre José Maurício, cujas partituras
haviam ido parar em tão remotas plagas. E enquanto censurava essas
“outras atividades” a que se entregavam seus subordinados, ele próprio,
Langsdorff, era por sua vez criticado acerbamente por aqueles, pelo tempo
que perdia.
Nessa carta Langsdorff aconselhava
também Riedel a manter-se afastado da Vila Bela de Mato Grosso (hoje
Vila Bela da Santíssima Trindade), pela incidência de febres.
Aconselhava-o a um longo período de espera em Vila Borba, antes
de se encaminhar à barra do rio Negro. Mas, não se sabe por
quê, Riedel ignorou o conselho de Langsdorff. E assim, no dia 18
de dezembro de 1827, ele e Taunay chegaram a Vila Bela. No dia 30 de dezembro
resolveram fazer uma pequena viagem até o Casalvasco, na fronteira
da Bolívia, aonde chegaram em 3 de janeiro de 1828. Na volta a Vila
Bela, o impetuoso Adrien disparou à frente de Riedel, em meio a
uma violenta tempestade que se aproximava. Ao chegar ao rio Guaporé,
de águas caudalosas e agitadas, em meio a forte chuva e raios resolveu
atravessá-lo a nado, impaciente com o barqueiro que não
vinha. Adrien nadava muito bem e confiou demasiado em suas forças.
Sob o olhar consternado dos que estavam no local, que não conseguiram
fazer nada para socorrê-lo, desapareceu para sempre nas águas
– tinha 25 anos.
Escreveu Langsdorff em seu diário:
“Essa notícia foi para mim muito dolorosa, mesmo tendo muitas e
fundamentadas razões para estar descontente com o comportamento
do falecido. Taunay possuía um dom natural variado. Foi um artista
verdadeiramente genial, em todo o sentido da palavra. Imaginação
aguçada, inclinação para a música, a mecânica,
a pintura, além de ter sido infinitamente imprudente e arrojado...
Se estava inspirado, em uma hora produzia mais que qualquer outra pessoa
em meio dia”.
Hoje, como ontem
Num charmoso
estúdio da Vila Madalena, em São Paulo, aberto ao público
e com o ar de festa, a jovem artista Adriana Florence (foto) vem dando
continuidade ao trabalho de “redescoberta” do Brasil que seu tataravô,
o pintor, inventor e escritor Hércules Florence, realizou há
quase 180 anos, integrando a notável expedição Langsdorff.
Em 1992, Adriana teve a oportunidade
de participar de um trabalho da maior importância, o documentário
“No Caminho da Expedição Langsdorff ” (75 minutos), uma co-produção
da Grifa Cinematográfica e dos canais Discovery e France 3 – que
o Discovery lançou no dia 17 de setembro para cerca de 200 países.
“Foi uma experiência extraordinária,
única”, diz Adriana. “Pude visitar lugares que tinham sido pintados
ou desenhados por meu tataravô Hércules.
O inventor da fotografia
Desenhos de Florence
e sua foto
Com o espírito meticuloso
que tinha, Hércules Florence registrava em seu diário, numa
relação maior de descobertas e pesquisas: “Neste ano de 1832,
no dia 15 de agosto, estando a passear na minha varanda, vem-me a idéia
que talves se possam fixar as imagens na câmara escura, por meio
de um corpo que mude de cor pela ação da luz. Esta idéia
é minha porque o menor indício nunca tocou antes o meu espírito.
Vou ter com o senhor Joaquim Corrêa de Mello, boticário de
mau gosto, homem instruído, que me diz existir o nitrato de
prata”.
Construindo uma câmera escura
com uma caixa de papelão, uma paleta de pintor e uma lente, Florence
colocou dentro dela um papel embebido em nitrato de prata e durante quatro
horas deixou-o exposto à ação da luz que provinha
de uma janela através da qual viam-se os tijolos e o teto da casa
em frente e parte do céu. Acabou por obter, meio sem entender, a
primeira imagem negativa-positiva da história da fotografia. Registrava
em seu diário que o boticário, senhor Mello, ajudara-o a
batizar o invento, formando a palavra photographia (do grego photos = luz,
e graphia = desenho, escrita).
Compreende-se, portanto, sua amargura
e frustação quando em 1839 – cerca de sete anos mais tarde
– estando na farmácia do doutor Engler, em Itu, ouviu que o “Jornal
do Comércio” do Rio de Janeiro anunciava que um pintor francês,
Daguerre, descobrira em Paris um processo de fixar imagens por meio da
incidência da luz sobre uma placa de metal. Já em 1834 Hércules
Florence desabafara em seu diário, amargurado: “Eu inventei a fotografia
; fixei as imagens na câmara escura; inventei a poligrafia...
Minhas descobertas estão comigo, sepultados no olvido; meu talento,
minhas vigílias, meus sacrifícios, são estéreis
para os outros... Se eu estivesse em Paris, lá encontraria, talvez,
pessoas que me escutassem, mas aqui não vejo ninguém a quem
possa comunicar minhas idéias. Os que me poderiam ouvir só
pensam nas suas especulações e na política”.
A objetividade de Florence
Nascido em Nice
em 1804 de uma família de médicos militares, Antonie Hercule
Romuald Florence veio para o Brasil aos 20 anos, onde abrasileirou seu
pronome principal para “Hércules”. Em vista do acontecido com Rugendas,
Langsdorff , após ter contratado Taunay, resolveu acrescentar à
expedição uma segundo desenhista, e colocou um anúncio
no jornal para esse fim. Florence apresentou-se e foi logo contratado.
Somava às suas aptidões artísticas um espírito
prático e inventivo que lhe permitiu desempenhar tarefas de grande
apoio para a expedição, nos quatro anos que com ela viajou.
Após a morte trágica de Taunay assumiu o papel de desenhista
oficial – executou um grande número de desenhos e quadros sobre
motivos da flora e da fauna, índios e outras populações
da região percorrida, e ainda paisagens. Catalogou também
a extensa obra deixada por Taunay e Rugendas.
Além disso, deve-se a Florence
o registro minucioso, através de seu diário de campo (1825-1829),
de todos os trabalhos e peripécias da expedição. Deixou
cerca de 2 mil páginas escritas, uma parte das quais ainda inédita,
em manuscrito conservado pela sua trineta teresa Cristina Florence (foto
acima), moradora em Campinas (SP). Esses textos incluem também o
livro L´ami des Arts livré à lui-mêne, amplamente
ilustrado, em que relaciona as suas numerosas invenções e
registra episódios da vida cotidiana na sua fazenda. Outros trabalhos
seus, principalmente desenhos e quadros, encontram-se na coleção
de sua bisneta Leila Florence Moraes, no Rio Grande do Sul.
Após o término da
expedição, Florence resolveu estabelecer-se definitivamente
na então Vila de São Carlos, hoje Campinas (SP), casou-se
duas vezes e teve 16 filhos. Tornou-se agricultor de fazendas e dedicou-se,
além da pintura e da poesia, às suas invenções,
tendo passado à história como um pioneiro da descoberta da
fotográfia e da poligrafia (método semelhante à mimeografia
atual). A invenção desse sistema de impressão possibilitou
o aparecimento do primeiro jornal na região, “A Aurora Campineira”.
Foi pioneiro também ao escrever um tratado de zoofonia (as vozes
dos animais). Faleceu em Campinas em 1879, aos 75 anos, considerado um
cidadão insigne. |