Vicente Celestino
MORAES SARMENTO ENTREVISTA VICENTE CELESTINO
Em 23 de agosto de 1964, Vicente Celestino, A Voz Orgulho do Brasil, acompanhado de sua mulher Gilda de Abreu,  e com a presença de Orlando Silva, O Cantor das Multidões, é recebido por Moraes Sarmento em seu famoso programa na Rádio Bandeirantes, para uma entrevista histórica.
O radialista Moraes Sarmento nasceu em Campinas, SP, em 14 de dezembro de 1922, e faleceu em 1998, aos 76 anos de idade. Além do teor histórico da entrevista, o que chama a atenção é que ao final, Sarmento brinca que entrevistaria Celestino no ano 2000. Este responde que nem Sarmento viveria até lá. E faltaram apenas dois anos para o radialista derrubar a tese profética de Celestino... 

 
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e Vicente Celestino, num show de interpretação,
cantando Sertanejo Enamorado

 

 
 

 Antônio Vicente Filipe Celestino, cantor, compositor e ator, nasceu no Rio de Janeiro (RJ), em 12 de setembro de1894, e faleceu em São Paulo, em 23 de agosto de1968, aos 74 anos de idade, portanto, apenas 4 anos após a entrevista acima, com Moraes Sarmento. 
 Filho de um casal de imigrantes italianos, da região da Calábria, chegados ao Brasil dois anos antes de seu nascimento, teve dez irmãos, sendo quatro também artistas: João, comediante; Pedro Celestino, tenor; Radamés, barítono; e Antônio, baixo.   Já Vicente Celestino começou a cantar aos oito anos, num grupo chamado Pastorinhas da Ladeira do Viana e, ainda aluno de escola primária pública, iniciou-se no ofício de sapateiro com o pai, e depois, ao concluir o curso primário, entrou para o Liceu de Artes e Ofícios, para aprender desenho industrial. 
 Em 1903 participou do coro infantil da ópera Carmen (Bizet, 1838-1875), no Teatro Lírico e, notado pelo tenor italiano Enrico Caruso, recebeu convite para ir estudar canto na Itália, mas seu pai recusou-lhe autorização. 
 Assim, talvez com uma grande carreira lírica truncada, Celestino foi trabalhar numa fábrica de guarda chuvas, em 1905 e, no ano seguinte, trabalhou de servente de pedreiro. Em 1910, voltou à sapataria do pai. 
 Cantou solo em público, pela primeira vez, na peça Vida de artista, encenada em 1912 pelo Grupo dos Cartolas, formado por amigos do bairro da Saúde. Depois, começou a cantar em festas, serenatas e casas de chope, abandonando o emprego em 1913 para dedicar-se somente à música. Numa dessas casas de chope, foi ouvido por Alvarenga Fonseca, que o levou para a Companhia Nacional de Revistas, do Teatro São José, onde era diretor. 
 No dia 10 de julho de 1914, estreou na revista Chuá-Chuá, de Eustórgio Wanderley e J. Ribas, participando do coro e solando a valsa Flor do mal (Santos Coelho e Domingos Correia), com calorosos aplausos. Dois anos mais tarde, integrando a Companhia Leopoldo Fróis, foi cantar em São Paulo, sendo promovido a ator-cantor, apresentando-se depois em Pernambuco, Bahia e no Rio Grande do Sul. 
 Em 1915, gravou seu primeiro disco, Flor do mal e Os que sofrem (Alfredo Gama e Armando Oliveira) na Casa Edison (mais tarde Odeon), no Rio de Janeiro. Deixou o Teatro São José em 1917, para se dedicar ao estudo do canto, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Em 1919, voltou aos palcos, como ator de várias peças, começando em março, no papel principal em Amor de bandido (Oduvaldo Viana e Adalberto de Carvalho), encenada pela Companhia de Pascoal Segreto, no Teatro São Pedro (hoje João Caetano). 
 Seu maior sucesso nessa temporada foi a opereta Juriti, de Viriato Correia, com música de Chiquinha Gonzaga, apresentada no mesmo teatro. Em 1920, ao lado da atriz e cantora Laís Areda, organizou sua própria companhia de operetas, estreando com Loucuras de amor (Adalberto de Carvalho), no Teatro Americano. No ano seguinte trabalhou nas óperas Tosca, de Giacomo Puccini (1858-1924) e Aida, de Giuseppe Verdi (1813-1901), no Teatro Lírico, e em Carmen, no Teatro São Pedro. 
 Muito dinâmico, apesar dos seus apenas 29 anos de idade, fundou nova companhia com a cantora Carmen Dora, em 1923, para excursionar pelo Brasil; nos anos seguintes continuou a percorrer o país de norte a sul.
 Mas sua popularidade veio mesmo através dos discos, cantando músicas populares e não óperas, como ele mesmo afirma na entrevista com Sarmento. Em 1917 gravou seu segundo disco, Urubu Subiu, marcha carnavalesca em duo com Bahiano; em 1918 gravou o Hino Nacional Brasileiro (Francisco Manuel da Silva e Osório Duque Estrada); e, em 1924, O cigano, de Marcelo Tupinambá e João do Sul. 
 Na Odeon, já no processo elétrico, de abril de 1928 a outubro de 1930 lançou 19 discos com 35 músicas, alcançando sucesso com Santa (Freire Júnior), em 1928, e o tango-canção Nênias (Cândido das Neves, apelidado de Índio), 1929, entre outras. Em 1932 passou para a Columbia, gravando no primeiro disco o grande sucesso Noite Cheia de Estrelas, de Cândido das Neves, que deu novo impulso à sua carreira discográfica. No ano seguinte, casou se com a cantora e atriz Gilda de Abreu.
 
 


Vicente e Gilda de Abreu - Foto: Static.Flickr.Com

 No mesmo ano Vicente Celestino trabalhou em dupla com a esposa no Teatro Recreio do Rio de Janeiro, na opereta "A canção brasileira", de Luís Iglésias, Miguel Santos e Henrique Vogeler.
 Em 1935 começou a gravar na RCA Victor, obtendo dois êxitos já no primeiro disco: as músicas Ouvindo-te, de sua autoria, em duo com Gilda, e Rasguei o Teu Retrato (Índio). A partir desse ano, começou a se projetar tambem como compositor de grandes sucessos como, por exemplo, O Ébrio, 1936, Coração Materno, 1937, Patativa, 1937, Sangue e Areia (com Mário Rossi), 1941, Porta aberta, 1946. 
 Como não podia deixar de ser, dada à sua veia lírica, Vicente transformou as canções O Ébrio e Coração Materno em operetas, encenando-as entre 1941 e 46. Nesse mesmo ano, sua esposa Gilda levou os roteiros das peças para as telas do cinema, sendo que o Ébrio elevou de vez Celestino aos "píncaros da glória", como ele diz na letra da canção. E grande parte do povo acreditava que aquela era realmente a história do cantor, tal a força da canção e da interpretação de Celestino.
 Em agosto de 1968, o cantor que ficou conhecido com A Voz Orgulho do Brasil, estava se preparando para gravar um programa de televisão em que seria homenageado pelos componentes do Movimento Tropicalista (Gil-Caetano), quando sentiu-se mal no quarto do hotel Normandie, em São Paulo.
 Às 22h30, calava para sempre a voz do grande artista. No total, em todas as gravadoras, desde a fase mecânica, Vicente Celestino deixou um histórico legado de 137 discos em 78 rpm com 265 músicas, mais dez compactos e 31 LPs, vários destes com relançamentos. 

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