
Antônio
Vicente Filipe Celestino, cantor, compositor e ator, nasceu no Rio de Janeiro
(RJ), em 12 de setembro de1894, e faleceu em São Paulo, em 23 de
agosto de1968, aos 74 anos de idade, portanto, apenas 4 anos após
a entrevista acima, com Moraes Sarmento.
Filho de um casal de imigrantes
italianos, da região da Calábria, chegados ao Brasil dois
anos antes de seu nascimento, teve dez irmãos, sendo quatro também
artistas: João, comediante; Pedro Celestino, tenor; Radamés,
barítono; e Antônio, baixo. Já Vicente
Celestino começou a cantar aos oito anos, num grupo chamado Pastorinhas
da Ladeira do Viana e, ainda aluno de escola primária pública,
iniciou-se no ofício de sapateiro com o pai, e depois, ao concluir
o curso primário, entrou para o Liceu de Artes e Ofícios,
para aprender desenho industrial.
Em 1903 participou do coro infantil
da ópera Carmen (Bizet, 1838-1875), no Teatro Lírico e, notado
pelo tenor italiano Enrico Caruso, recebeu convite para ir estudar canto
na Itália, mas seu pai recusou-lhe autorização.
Assim, talvez com uma grande carreira
lírica truncada, Celestino foi trabalhar numa fábrica de
guarda chuvas, em 1905 e, no ano seguinte, trabalhou de servente de pedreiro.
Em 1910, voltou à sapataria do pai.
Cantou solo em público, pela
primeira vez, na peça Vida de artista, encenada em 1912 pelo Grupo
dos Cartolas, formado por amigos do bairro da Saúde. Depois, começou
a cantar em festas, serenatas e casas de chope, abandonando o emprego em
1913 para dedicar-se somente à música. Numa dessas casas
de chope, foi ouvido por Alvarenga Fonseca, que o levou para a Companhia
Nacional de Revistas, do Teatro São José, onde era diretor.
No dia 10 de julho de 1914, estreou
na revista Chuá-Chuá, de Eustórgio Wanderley e J.
Ribas, participando do coro e solando a valsa Flor do mal (Santos Coelho
e Domingos Correia), com calorosos aplausos. Dois anos mais tarde, integrando
a Companhia Leopoldo Fróis, foi cantar em São Paulo, sendo
promovido a ator-cantor, apresentando-se depois em Pernambuco, Bahia e
no Rio Grande do Sul.
Em 1915, gravou seu primeiro disco,
Flor do mal e Os que sofrem (Alfredo Gama e Armando Oliveira) na Casa Edison
(mais tarde Odeon), no Rio de Janeiro. Deixou o Teatro São José
em 1917, para se dedicar ao estudo do canto, no Teatro Municipal do Rio
de Janeiro. Em 1919, voltou aos palcos, como ator de várias peças,
começando em março, no papel principal em Amor de bandido
(Oduvaldo Viana e Adalberto de Carvalho), encenada pela Companhia de Pascoal
Segreto, no Teatro São Pedro (hoje João Caetano).
Seu maior sucesso nessa temporada
foi a opereta Juriti, de Viriato Correia, com música de Chiquinha
Gonzaga, apresentada no mesmo teatro. Em 1920, ao lado da atriz e cantora
Laís Areda, organizou sua própria companhia de operetas,
estreando com Loucuras de amor (Adalberto de Carvalho), no Teatro Americano.
No ano seguinte trabalhou nas óperas Tosca, de Giacomo Puccini (1858-1924)
e Aida, de Giuseppe Verdi (1813-1901), no Teatro Lírico, e em Carmen,
no Teatro São Pedro.
Muito dinâmico, apesar dos
seus apenas 29 anos de idade, fundou nova companhia com a cantora Carmen
Dora, em 1923, para excursionar pelo Brasil; nos anos seguintes continuou
a percorrer o país de norte a sul.
Mas sua popularidade veio mesmo
através dos discos, cantando músicas populares e não
óperas, como ele mesmo afirma na entrevista com Sarmento. Em 1917
gravou seu segundo disco, Urubu Subiu, marcha carnavalesca em duo com Bahiano;
em 1918 gravou o Hino Nacional Brasileiro (Francisco Manuel da Silva e
Osório Duque Estrada); e, em 1924, O cigano, de Marcelo Tupinambá
e João do Sul.
Na Odeon, já no processo
elétrico, de abril de 1928 a outubro de 1930 lançou 19 discos
com 35 músicas, alcançando sucesso com Santa (Freire Júnior),
em 1928, e o tango-canção Nênias (Cândido das
Neves, apelidado de Índio), 1929, entre outras. Em 1932 passou para
a Columbia, gravando no primeiro disco o grande sucesso Noite Cheia de
Estrelas, de Cândido das Neves, que deu novo impulso à sua
carreira discográfica. No ano seguinte, casou se com a cantora e
atriz Gilda de Abreu.

Vicente e Gilda de Abreu
- Foto: Static.Flickr.Com
No mesmo ano
Vicente Celestino trabalhou em dupla com a esposa no Teatro Recreio do
Rio de Janeiro, na opereta "A canção brasileira", de Luís
Iglésias, Miguel Santos e Henrique Vogeler.
Em 1935 começou a gravar
na RCA Victor, obtendo dois êxitos já no primeiro disco: as
músicas Ouvindo-te, de sua autoria, em duo com Gilda, e Rasguei
o Teu Retrato (Índio). A partir desse ano, começou a se projetar
tambem como compositor de grandes sucessos como, por exemplo, O Ébrio,
1936, Coração Materno, 1937, Patativa, 1937, Sangue e Areia
(com Mário Rossi), 1941, Porta aberta, 1946.
Como não podia deixar de
ser, dada à sua veia lírica, Vicente transformou as canções
O Ébrio e Coração Materno em operetas, encenando-as
entre 1941 e 46. Nesse mesmo ano, sua esposa Gilda levou os roteiros das
peças para as telas do cinema, sendo que o Ébrio elevou de
vez Celestino aos "píncaros da glória", como ele diz na letra
da canção. E grande parte do povo acreditava que aquela era
realmente a história do cantor, tal a força da canção
e da interpretação de Celestino.
Em agosto de 1968, o cantor que
ficou conhecido com A Voz Orgulho do Brasil, estava se preparando para
gravar um programa de televisão em que seria homenageado pelos componentes
do Movimento Tropicalista (Gil-Caetano), quando sentiu-se mal no quarto
do hotel Normandie, em São Paulo.
Às 22h30, calava para sempre
a voz do grande artista. No total, em todas as gravadoras, desde a fase
mecânica, Vicente Celestino deixou um histórico legado de
137 discos em 78 rpm com 265 músicas, mais dez compactos e 31 LPs,
vários destes com relançamentos. |