O Rei das
Selvas
O matador fica romântico
Aos dois ou três anos de idade,
o leão - Panthera leo - chega à plenitude de sua força.
No vigor da juventude, é agressivo, ágil, feroz. Dedica-se
com afinco e crueldade aos prazeres da caça. Mas eis que um dia
é chamado pelo amor. Torna-se, então, melancólico.
Rebanhos de antílopes ou zebras, suas vítimas favoritas,
cruzam-lhe o caminho e ele não se perturba. Podem até mesmo
conviver algum tempo em sua companhia, em boa paz. Tudo o que lhe interessa,
então, é encontrar a leoa de seus sonhos. Procura-a em toda
parte, nos bosques, nas savanas, nas estepes, até que finalmente
a encontra. Passeia à sua frente, exibe-lhe a bela juba recém-crescida,
seu orgulho.
Um leão não
jura fidelidade
até a morte como
os
humanos, mas a pratica
|
Uma vez acasalado, nenhuma outra
leoa já o atrai - permanece fiel até o fim da vida. Mesmo
que a esposa morra ou seja capturada, o leão não procura
outra. Assim também a leoa, viúva ou separada, fica solitária
até morrer. É raro outro animal ser capaz de tamanha fidelidade.
O leopardo é mais temível
e feroz que o leão, mas basta olhar (bem de longe, de preferência,
para os dois), para ver que o leão, com sua enorme juba e sua imponente
figura, é real e acertadamente o Rei das Selvas.
Os leões vivem hoje na região
ao sul do Saara, na África, e a noroeste da índia, na Ásia.
Foi o que lhe restou de um vasto domínio, que compreendia a África,
a Ásia Menor, o Sudoeste da Ásia e a Europa, desde a Espanha
até a Bulgária.
Hierarquia familiar
A leoa, corajosa e decidida, é
quem governa a família. É um belo animal, de corpo esbelto,
movimentos ágeis, músculos fortes. Seu pelo é curto,
marrom, rosado ou bege uniforme. O passo é lento e seguro; o olhar,
altivo e penetrante. Com sua força é capaz de quebrar a coluna
vertebral de uma zebra ou destroncar, de uma zarpada (patada de leão),
o pescoço de uma girafa. Tem, pois, todas as qualidades necessárias
para ensinar aos filhotes a arte da caça.
Aos oito meses de idade, os leões
já acompanham a mãe na caçada, mas ficam só
olhando, sem participar. Observam todos os seus movimentos, na captura
e esquartejamento da vítima. Após algum tempo, são
submetidos a um teste de aprendizado: fica a cargo do leãozinho
matar uma também jovem zebra. Assim, pouco a pouco vai dominando
a técnica de caçar.
Quando a mãe leoa vê
que os filhotes já bastam a si mesmos, para proverem o próprio
sustento e defenderem-se, deixa-os e vai preparar-se para criar nova ninhada.
A hora da caça
A vítima, indefesa
ante a violência do ataque, cai por terra com a coluna vertebral
quebrada
Os leões caçadores,
geralmente três irmãos, em grupo, escolhem a vítima
e depois repartem entre si a caça, de comum acordo. Nenhum outro
predador pode introduzir-se nessa área. Se um se aproxima, advertem-no
com rugidos de ataque. E se, ainda depois disso, o intruso retorna, mesmo
passado algum tempo, é recebido a zarpadas, sem aviso prévio.
A caça dos ferozes e famintos
leões consiste em grandes animais, sobretudo zebras e antílopes
e até búfalos. O método da caçada é
aproximar-se sorrateiramente da vítima e ficar à espreita
e, num salto explosivo, cair sobre uma zebra. A vítima, indefesa
ante a violência do ataque, cai por terra com a coluna vertebral
quebrada.
O brusco ataque do leão
consiste em agarrar a cabeça da vítima com as patas dianteiras
e quebrar-lhe o pescoço. Mas, se a vítima pressente o ataque
e se põe em fuga, é quase certo que se salve. O leão,
veloz em curtas distâncias, cansa-se facilmente e não é
capaz de acompanhar uma corrida mais longa. Suas armas mais poderosas são
as garras e os longos dentes caninos.
A presa abatida é levada
para baixo de uma árvore e devorada a começar das vísceras.
Muitas vezes é toda a família que se alimenta com uma só
presa. Os restos são devorados, depois, por animais necrófagos,
como a hiena, o chacal e o abutre, que não caçam e se alimentam
de animais ou qualquer substância em processo de decomposição.
No começo
da vida
Ao chegar o momento de dar à
luz seus filhotes, geralmente dois ou três, a leoa procura, de preferência,
um matagal espesso. O leãozinho recém-nascido tem a aparência
de um gato adulto. O pelo é macio, de belo castanho-dourado, como
o dos pais, e salpicado de pequenas manchas escuras. Nas primeiras semanas,
tudo o que faz é mamar e dormir. No segundo mês, começa
a caminhar rapidamente e a emitir sons semelhantes a miados. Aos seis meses,
abandona o leite materno.
Durante esse tempo, o pai é
excluído do convívio familiar e fica de sentinela nas proximidades
do lar. Enquanto a mãe sozinha se encarrega da criação
dos filhotes, o pai cuida para que ninguém importune sua família.
Às vezes se congregam no
mesmo local várias famílias leoninas. As mães então
costumam revezar-se nos cuidados aos pequenos. Cada uma tem seu turno de
olhar os rebentos, enquanto as outras descansam ou providenciam as refeições.
Somente como um pequeno adendo,
vale lembrar que em tempos passados, os humanos tinham esses hábitos
de fraternidade. Quando um mulher dava à luz, suas vizinhas cercavam-na
de todos os cuidados, uma ajudando a cuidar do bebê, outra lavando
as roupas da casa, outra fazendo comida ou limpeza, tudo para poupar o
chamado "resguardo" da amiga.
Hoje, infelizmente isso se perdeu
na poeira do passado. Como disse alguém muito apropriadamente, hoje
o homem conhece a lua, mas desconhece o vizinho...Creio que, se quiséssemos,
poderíamos aprender muito com os animais...até a prática
da fraternidade.
Fama injusta
Acusa-se o leão de converter-se
em perigoso caçador de homens, quando envelhece, por volta dos trinta
anos. Justifica-se a acusação dizendo que, nessa idade, seus
dentes cariados e rombudos, suas garras desgastadas e seus músculos
endurecidos já não lhe possibilitam abater animais velozes
e grandes. Não é bem verdade.
Quando velho, segregado dos territórios
de caça dos mais jovens, o leão alimenta-se de roedores,
répteis, escorpiões, gafanhotos, animais pequenos, débeis
ou enfermos. Quando a fome é muita, acerca-se das aldeias e come
uma cabra, um cachorro ou uma galinha. Alguma vez, a fome poderá
levá-lo a devorar uma criança ou uma mulher.
A não ser quando ferido
ou importunado, o leão não oferece perigo para o homem. Como
a maioria dos felinos, é bastante curioso. Muitas vezes, chega perto
de um acampamento, inspeciona-o e volta calmamente, sem causar dano algum.
Qualquer objeto estranho para ele o amedronta e afugenta: uma bandeira
num mastro, uma roupa num varal, um espantalho, um receptor de rádio.
Surpreendido bruscamente, chega até a abandonar a presa que esteja
devorando, para pôr-se em fuga.
Nas reservas florestais onde os
leões vivem confinados, turistas passam bem perto deles, observam-nos
e os fotografam. Os grandes felinos apenas olham, indiferentes. Mas, por
favor, você que está lendo esta matéria, não
queira verificar se isso é verdade ou não. Um animal selvagem
sempre será isso: selvagem. Portanto, não é bom dar
mole pro azar...
As jovens feras
Os leões jovens, sim, são
ferozes e atacam o homem sem nenhuma provocação da parte
deste. Dir-se-ia que estão acometidos de uma crise de agressividade.
Mas são rapidamente capturados e exterminados por caçadores.
Mesmo os que escapam ao extermínio, logo deixam de atacar e adquirem
hábitos mais calmos, pois quando termina a adolescência, chega
a hora de buscar companheira e fundar família. E daí começar
tudo de novo. Como diz a canção do desenho Rei Leão,
é o ciclo da vida...

Fontes
das pesquisas: Os Bichos - Ed. Abril - 1970 e Novo Conhecer
Fratteli
Fabbri Editori - Itália e Ed. Abril - Brasil - 1977
|