...As primeiras pepitas de ouro começaram
a despontar entre os seixos das bateias no início da década
de 1690. O núcleo que deu origem à cidade foi fundado em
junho de 1698. A elevação à categoria de vila ocorreu,
por carta régia de Dom joão V, em 8 de julho de 1711. Comemoramos,
portanto, o terceiro centenário da "Vila" que, em 1712, foi reconhecida
e chamada de "Rica".
É do famoso mineralogista
francês Claude-Henri Gorceix, fundador da Escola de Minas, a célebre
frase: "Minas é um peito de ferro onde pulsa um coração
de ouro". O ouro foi sendo desentranhado "e se tornando pó, folha,
barra, prestígio, poder, engenho", como escreveu Cecília
Meireles. E foi o ouro deste território em que a natureza se excedeu
em dádivas, se bem que na condição de colônia,
que oxigenou por décadas o pulmão da voraz metrópole.
O espírito das Minas Gerais,
das quais praticamente pouco se sabia até o fim da primeira metade
do século XVI, começou a tomar corpo em Vila Rica (de Nossa
Senhora do Pilar de Ouro Preto). Como todos os espíritos, também
ele padeceu tormentos e contradições, às vezes de
difícil superação, mas também de indizíveis
alegrias.
...Tão conservadora, tão
apegada às origens, e no entanto a mais aberta para o
que de melhor e mais necessário
requeria o Brasil. De fato, a liberdade foi uma ideia que nasceu em Minas.
Ali foram lançadas as imorredouras
sementes do anticonformismo, da conjura contra a opressão, da inconfidência
contra a tirania, do brado contra a derrama, do talento artístico
e político contra a natureza granítica e a empedernida escravidão.
De lá ecoou, enfim, pelas
montanhas de Minas e do Brasil, o capitoso grito de lucidez do alferes
Tiradentes e seus companheiros, que fizeram crescer no coração
dos brasileiros a chama da libertação.
Na Vila Rica, há duzentos
anos, o curso da banalidade histórica foi revertido, foi lá
que os nossos mártires exorcizaram o fetiche do destino, contrariando
a sanha dos algozes, exatamente quando a todos ela parecia tão insaciável
quanto irreversível.
Vila Rica foi e continuará
sendo o símbolo do parto da civilização dos trópicos,
içada — mesmo com dor, traição, banimento, esquartejamento
— aos píncaros da luminosa experiência da solidariedade e
da paz.
Se o passado testemunhou épocas
de ambições causadas pela imaturidade política, ou
entreveros oriundos da falta de diálogo, chegando a indispor regiões
e povos tão entranhadamente brasileiros como São Paulo e
Minas, não sejamos mais assombrados pelos emboabas; e já
que desde há muito somos todos constituintes, o correto é
olhar vigilantes para a frente e somar forças na construção
de um Brasil de prosperidade para todos.
Ainda hoje, através de seus
estudantes, artistas, intelectuais, vive em Vila Rica-Ouro Preto uma gente
consciente que conserva o viço de ser guardiães do dinamismo
da memória de uma nação livre.
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Domingos Zamagna
é jornalista e
professor
de Filosofia |
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